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02/11/2011 - 20:59 | Enviado por: marceloambrosio
Recebi essa notícia de um leitor da coluna (obrigado Ariel) e com ela retorno depois de um breve período. Um jato da All Nippon Airways entrou em um mergulho acentuado - a imagem computadorizada reproduz praticamente um parafuso no ar - depois que o co-piloto, ao tentar chamar ao cockpit o comandante que fora ao banheiro, equivocou-se e trocou os comandos da aeronave, perdendo o joystick e os pedais. Como resultado, quatro comissárias sofreram ferimentos leves. A companhia ficou também em evidência por ter omitido o incidente durante vários dias. A direção da ANA, em uma entrevista coletiva, desculpou-se tanto pelo incidente quanto pela demora em revelar as suas verdadeiras causas. Observando um acontecimento como esse, em uma atividade tão automatizada quanto é hoje a aviação na cabine de comando, a gente sempre reflete sobre o percentual que muitas empresas não admitem: não há nada 100% seguro. A margem se mantém próxima do máximo pela combinação de atenção constante e treinamento rigoroso.
04/10/2011 - 17:41 | Enviado por: marceloambrosio
Mais de dez anos depois de cometer um crime bárbaro, o ex-comissário de bordo da Kuwait Airlines, Youssef Wahid, de 42 anos, foi condenado à 24 anos de prisão pelo assassinato da ex-colega comissária e cantora Fatima Kama. Canadense de origem marroquina, Kama havia trocado a vida nos aviões pelo investimento na carreira artística: mudara-se para Londres para cantar em festas da colônia árabe. Quando foi assassinada a facadas por Wahid, Fatima havia sacado do banco US$ 80 mil e acabara de ganhar de presente do então namorado, um saudita, um relógio de US$ 40 mil.
A polícia britânica acredita que o motivo do crime foi mesmo o dinheiro. Mas Wahid - irmão do dono do apartamento alugado pela cantora, e que dividia o espaço com ela por imposição do senhorio - antes de mata-la a estuprou. O assassino, após cometer o crime, colocou o corpo em uma mala de viagem, jogou no porta-malas do carro e levou para o aeroporto de Heatrow. Teria conseguido enganar a polícia se um passageiro não o tivesse visto e, estranhando o comportamento, o denunciasse. O assassino, no entanto, escapou de ser detido e conseguiu voar para o Líbano, onde sua família e amigos viviam. Embora identificado claramente nas imagens, acabou se beneficiando da ausência de um tratado de extradição e mesmo do interesse libanês em envia-lo a Londres.
Como todos os criminosos cedo ou tarde cometem um deslize, Wahid decidiu passar uns tempos no Bahrein e lá foi rastreado pela Interpol. Embora também não tivesse acordo de extradição, o emirado não fez qualquer objeção a entregar o assassino à custódia da polícia britânica. No tribunal, os promotores se impressionaram com a frieza de Wahid, que não revelou qualquer traço de emoção. Sua veia criminosa havia sido revelada quando trabalhava como comissário de bordo: ele fora preso por ter roubado seguidamente dinheiro de passageiros que viajavam na primeira classe da companhia aérea.
26/09/2011 - 23:24 | Enviado por: marceloambrosio
Leisha Halley, atriz do seriado L-Word - em cartaz na tevê a cabo americana, foi convidada a desembarcar do voo no qual seguia de Baltimore para Saint Louis, no sábado. Halley, que é assumidamente lésbica e interpreta uma cantora lésbica nesse seriado sobre lésbicas, foi desembarcada porque, de acordo com os outros passageiros, estava se comportando de forma 'inconveniente". Isso porque, lá pelas tantas, ela e a namorada - integrante da banda de rock Uh Huh Her - resolveram curtir uma à outra e o clima esquentou. A companhia aérea Southwest confirmou o incidente e disse que a tripulação agiu corretamente, pedindo o desembarque não pela escolha sexual, mas pelo comportamento. Halley se disse indignada e criticou a empresa por condenar alguém por ter demonstrado sua afeição por outra pessoa. Comportamento inconveniente é uma definição na qual cabem dois Jumbos, vai da tolerância de cada um. quem sabe qual é o limite em ambos os lados? A companhia aérea pode ter sido preconceituosa, e Halley escandalosa demais, vai saber...
20/09/2011 - 17:51 | Enviado por: marceloambrosio
Quando este blog começou a ser publicado, em abril de 2007, uma das suas vocações era o de funcionar não só como espaço de informação e reflexão, mas de auxiliar quem viaja com serviços úteis. Quem acessava a primeira versão do SLOT podia, além de ler sobre aviões, se inteirar sobre horários de partida e chegada através do link da Infraero, comprar passagens online para literalmente todas as companhias de aviação comercial atuantes no país - para voos domésticos ou internacionais, e, em uma providência prática para quem está acostumado às etapas entre países, imprimir modelos de fichas de imigração para preencher em casa e levar a bordo.
O cansaço do voo costuma pregar peças até nos viajantes mais experientes e muitas vezes, um descuido com a língua na qual o formulário é impresso acaba obrigando a pessoa a procurar um comissário e pedir mais um formulário para preencher. Felizmente, nas duas últimas vezes em que fiz uma viagem transcontinental, os papéis foram distribuídos logo depois do embarque, então pude preenche-los com calma antes mesmo do push back e guarda-lo pronto dentro do livro que sempre carrego - este o objeto mais útil depois do ipod para quem quer manter a privacidade.
Mudanças de visual e a uniformização dos blogs do jornal acabaram por retirar do SLOT a funcionalidade da compra de passagens, mas as outras foram mantidas. Esse post é para informar justamente que, depois de um bom tempo com o link desativado - embora constasse na capa do blog - as páginas com as fichas voltaram a ficar disponíveis para serem impressas e pré-preparadas (depois você só copia os dados). Espero que sejam bem úteis.
14/09/2011 - 11:49 | Enviado por: marceloambrosio
Cheguei a comentar aqui anteriormente que uma das heranças malditas do 11 de Setembro na aviação foi o gene da arrogância, despertado pelo famigerado Patriot Act nas tripulações de cabine. Ao associarem qualquer comportamento estranho ou distúrbio a bordo a uma questão de segurança nacional, as autoridades abriram a Caixa de Pandora, liberando comissários e comissárias despreparados ou donos de distúrbios sérios de personalidade, a estabelecerem, por eles mesmos, julgamentos a respeito de potenciais suspeitos de atos terroristas. Vale lembrar que essa paranoia, citada aqui antes também pelos escritos da comissária e blogueira Heather Pole, é uma doença crônica: ou seja, pode ser combatida, mas não será mais eliminada.
Fiquei acompanhando o décimo aniversário dos atentados vendo um documentário no History Channel que continha cenas inéditas das tragédias em NY e Washington, e esperando para ver o que acontecia nos aeroportos. Sabia que a qualquer momento, algum tripulante - também pressionado pela responsabilidade de ser o primeiro fator de impedimento de um atentado - criasse um fato lamentável. Hoje recebi de um leitor fiel (tks Ariel) uma informação a respeito da americana Shoshana Hebshi, de 35 anos, moradora de Toledo, Ohio, de ascendência "meio árabe, meio judia", mãe de gêmeos de seis anos.
Passageira de um voo da Frontier Airlines - uma companhia citada em vários casos similares - Shoshana foi retirada do voo onde viajava de Denver para Detroit, algemada, isolada em uma sala, teve de se despir para ser revistada, passou por quatro horas de um intenso interrogatório por parte do FBI. Seu crime, se é que se pode dizer isso, foi o de parecer alguém oriunda do Oriente Médio. As autoridades de segurança de Detroit disseram que o procedimento foi acionado depois que a tripulação reportou o comportamento suspeito de dois homens que viajavam na mesma fileira que Soshana, a 12ª, - a quem ela sequer conhecia. Ambos teriam ido repetidas vezes ao banheiro e lá demorado bastante. O avião foi escoltado por caças até pousar.
A passageira "perigosa" só percebeu que havia algo errado quando notou que o jato estacionou cercado por viaturas policiais. Dentro da cabine, agentes do FBI fortemente armados se dirigiram a ela e aos dois homens, ambos possívelmente da Índia, e deram voz de prisão. Passado o episódio, o FBI reconheceu que os três não se conheciam, que mesmo os dois homens não eram conhecidos. Os agentes apuraram que um deles sentiu-se mal e foi ao banheiro. O companheiro de fileira de Shoshana, sentado provavelmente no meio, resolveu aproveitar a oportunidade e também foi ao lavatório. O FBI apurou que eles não estiveram no compartimento ao mesmo tempo. A agência argumenta que não toma a decisão da operação, apenas age quando acionada pelas autoridades locais, no caso a polícia do condado de Wayne, onde fica o aeroporto de Detroit.
À humilhação descrita por Soshana, a polícia local respondeu dizendo que todos foram tratados com "dignidade e respeito". Esse, aliás, é o problema do Patriot Act: um conceito de dignidade e respeito com fronteiras tão elásticas quanto a necessidade de purgar a humilhação imposta pelos comandos da Al Qaeda liderados por Mohammed Atta. A subjetividade tornou-se a mãe de todas as ignomínias cometidas contra inocentes prejulgados por profissionais perturbados. Como a própria Shoshana define, com absoluta exatidão: "as leis são hipersensíveis. Mesmo sendo um inocente, você não tem direitos".
E como fica a tripulação, ou melhor, o comissário (a) que provocou esse rebuliço todo? Não fica. A Frontier preferiu acobertar o comportamento indevido e paranoico, negando-se a prestar qualquer esclarecimento em torno dos padrões de treinamento de suas equipes. Pior é que, por conta da legislação antiterror, Shoshana sequer pode processa-la. Fica a lição então: se for voar em uma empresa dos EUA no 11 de Setembro ou dias que antecederam à data, pinte o cabelo de louro, bote uma camisa de um time de basquete, masque chicletes e, principalmente, não vá ao banheiro a bordo.
Apenas como reflexão: o maior atentado terrorista em território americano, antes do 11 de Setembro, foi cometido por um supremacista branco, louro, de olhos azuis, nascido e criado em Oklahoma.
06/09/2011 - 15:20 | Enviado por: marceloambrosio
Costumo acompanhar o que o pessoal de bordo escreve na internet, é uma maneira de saber como pensam os que vivem profissionalmente a 35 mil pés fora das cabines de controle. Uma comissária americana, dona de um blog, escreveu um artigo para a CNN hoje no qual fala o que mudou na mentalidade dos seus colegas de trabalho desde o dia em que quatro tripulações completas viraram reféns e depois cordeiros de sacrifício em nome da Jihad patrocinada por Osama Bin Laden.
Heather Pole tem uma visão, para mim, até nova em relação ao assunto. Para começar, não fala da sua atividade com uma atitude policialesca, como vários outros comissários americanos - e tive oportunidade de presenciar isso na prática - passaram a ostentar. Isso porque uma das reações aos atentados nos EUA foi dinamitar o conceito de justiça ao estender o papel de xerife de bordo aos comissários dentro do famigerado Patriot Act.
Por essa regulamentação, qualquer distúrbio a bordo poderia ser interpretado pela tripulação, munida de autoridade policial, como atentado à segurança de vôo, consequentemente uma ameaça à segurança nacional. Isso valia aos incautos passageiros, a maioria bêbados ou intoxicados pela combinação de remédios para dormir com álcool e a altitude, três meses em isolamento em uma cadeia de Bangkor, no Maine - boa parte dos casos era jogada lá por ser um local muito isolado - e um julgamento severo e kafkiano.
Contei aqui da passageira, presa e sentenciada, que teve os dois filhos pequenos entregues para adoção depois de discutir com a comissária que a advertiu por ter dado uma palmada em um deles. Ela ficou presa em uma cadeia da costa oeste, enquanto os dois meninos, depois de enviados para uma casa correcional em Honolulu, Havaí, foram dados pela Justiça a outra família. Tudo isso ocorreu porque as crianças tomaram uma dura da mãe ao derrubarem o copo de bebida que ela tinha. A comissária interferiu e ouviu um "não se meta". Poderosa, liquidou a ameaça à hierarquia de bordo e a família de uma vez.
Heather Pole fala que, desde os ataques, passou a se concentrar nas decolagens em algo que poderia usar para evitar que terroristas a subjugassem. Garrafas de vinho pequenas quebradas, café quente atirado na cara, assentos usados como escudo, tudo isso fazia parte do plano B contra a Al Qaeda - um medo, aliás, justificável se considerarmos que o comando liderado por Mohamed Atta há dez anos tomou quatro aviões com o uso de singelas facas Olfa. Deu certo porque parte do treino dos terroristas, em bases no Afeganistão, consistia em degolar ovelhas usando o mesmo acessório.
A comissária relata a ocasião em que notou um passageiro que ia e vinha algumas vezes ao banheiro com um saco do McDonald´s nas mãos. Ela reportou a suspeita e, no pouso, o sujeito foi preso. Não se sabe se ia fazer algo ou não, mas havia comprado apenas a passagem de ida, em dinheiro, e havia se matriculado em um curso de pilotagem na Flórida - tal qual Atta e seus comandados fizeram. Pole destaca isso como uma espécie de perda de inocência e conta ainda que, no treinamento, em vez de aprenderem como servir bem, os comissários agora recebem lições de caratê. Suspeita razoável é a palavra-chave.
Se formos observar esse mesmo efeito fora dos EUA, a distensão foi maior nesses dez anos. Há cuidado com a segurança, mas ela é menos paranóica e obsessiva do que a que enfrentamos em deslocamentos para os EUA. Recentemente, ao seguir para Miami, tive o passaporte checado cinco vezes antes do embarque: antes do check in, no próprio check in, na Polícia Federal, no acesso ao finger e dentro do finger, antes do avião - nesse caso por pessoal de segurança independente tanto da companhia quanto do aeroporto. Em junho, ao seguir para Londres, foram só três checagens e olhe lá. Não é desleixo, apenas precaução na medida.
Os atentados atingiram fundo a aviação americana, embora dados recentes da Iata apontem mais um ano de crescimento, em torno de 7%, desse mercado. A comissária afirma, no entanto, que a rentabilidade melhorou às custas de uma piora nas condições de trabalho, com mais sobrecarga e menos descanso. Para os passageiros, o serviço piorou.