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A Rua do Cano

Na maioria dos países banhados pelo mar, sempre houve a tendência a uma concentração populacional em cidades litorâneas, desde os primórdios da civilização. A facilidade nas trocas comerciais pelo acesso direto aos oceanos incentivou o nascimento e desenvolvimento de vários centros urbanos, especialmente no novo mundo, onde as cidades costeiras foram as sementes da penetração européia no continente, que ocorreria nos séculos seguintes.

Como um dos primeiros pontos da colonização portuguesa, o Rio de Janeiro recapitula em sua história o processo de expansão do litoral para o interior, ocorrido em todo Brasil. Após as primeiras décadas, com habitações se situando quase exclusivamente no Morro do Castelo, teve início a ocupação de uma faixa de terra à beira-mar entre o Castelo e São Bento, aproximadamente onde é hoje a rua Primeiro de Março. Desta linha, alguns caminhos se dirigiram para o interior, sendo hoje em dia ruas notórias, como São José, Ouvidor, Rosário e Alfândega. Uma das vias mais conhecidas, contudo, percorreu o caminho inverso, do interior para o litoral. É a singular história da Sete de Setembro, antiga rua do Cano.

7 de Setembro, ex-Cano
7 de Setembro em 1908, após as reformas de Passos

Nos início do século XVII, toda área interna a partir do litoral era constituída por terrenos pantanosos. No Largo da Carioca havia uma lagoa, e daí até o morro de São Bento uma sucessão de charcos devidos à pouca elevação do terreno, que não permitia seu escoamento rumo o mar. Assim, em 1641, é construída uma vala para drenar a lagoa de Santo Antônio (Largo da Carioca), indo até a Prainha (Praça Mauá). O trajeto desse escoadouro daria origem às ruas do Acre e Uruguaiana, esta chamada anteriormente de Vala. Nessa época também foi aberto um dreno auxiliar a partir da vala principal até o mar, na área da Praça 15. Em 1711 já existia uma rua acompanhando este conduto, há tempos conhecida como rua do Cano. Poderia se pensar que o nome foi devido à tubulação que levava água para o chafariz da Praça 15, mas esta obra é bem posterior, de 1750. Segundo o historiador Vieira Fazenda, o cano era na verdade a antiga vala, que, durante a segunda metade do século XVIII, recebeu um revestimento de pedra e cal. Seria coberta, a partir de 1790, pelo Conde de Resende. O mesmo governante mandou prender em 1794 um conhecido morador do local, o poeta Manuel da Silva Alvarenga, considerado suspeito na caça às bruxas após a Inconfidência.

A rua, contudo, ainda não alcançava a Praça 15, terminando nas terras do convento do Carmo. Só em 1857 finalmente ganharia seu último segmento, formando o trajeto atual. No início do século XX foi alargada entre a rua Uruguaiana e a Praça 15, na gestão de Pereira Passos, e, em 1913, da Praça Tiradentes à Uruguaiana.

A velha rua do Cano recebeu em 1856 o nome de 7 de Setembro, já sendo então, como é hoje em dia, uma das principais artérias comerciais do centro do Rio. Sua peculiar trajetória é representativa das inúmeras transformações acontecidas na cidade em seus mais de quatro séculos de história.

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A Escola Politécnica

Personagem conhecido por sua boa vontade, o governador Gomes Freire acreditou ter finalmente resolvido uma questão que se arrastava há tempos, iniciada quando os clérigos da Sé abandonaram a Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, e se instalaram sucessivamente em várias igrejas, em intrusiva peregrinação, passando pelas de São José, Candelária, Santa Cruz dos Militares e Rosário. Sua estadia não era desejada nem por eles e muito menos pelos ocupantes originais dos templos. Assim, em 1739, são lançados os alicerces da nova Sé, futura sede do bispado, no Largo de São Francisco. Contudo, nem Gomes Freire nem ninguém jamais veria a sonhada igreja.

Paralisadas as obras logo a seguir, viraram estas motivo de chacota na boca do povo, que quando desejava se referir a algo que não acaba nunca, dizia "isto é velho como as obras da Sé...". Assim foi até a chegada da família real portuguesa, em 1808. O templo em devir enfim encontra seu destino em duas novas construções: parte do material foi utilizado no Teatro São João (futuro São Pedro, atual João Caetano), e as fundações aproveitadas na construção de um novo prédio, que abrigou a Academia Real Militar a partir de 1812.

Escola Politécnica
A Escola Politécnica em seu apogeu, no início do século XX

No programa da nova Academia constavam todas disciplinas relativas ao conhecimento teórico e prático de engenharia militar, mas também o que se considera hoje pertinente ao campo da engenharia civil, como construção de estradas, pontes, canais e portos, além de arquitetura. As duas linhas do curso visavam objetivos distintos, o que com o tempo gerou certo atrito, com defensores de ambos os lados advogando uma separação, que melhor serviria ao interesse geral.

A Academia, chamada de Escola Militar a partir de 1839, passou por várias reformas nas décadas seguintes, e a desvinculação das especialidades começou a se materializar em 1859, quando foi inaugurada a sede da Praia Vermelha, transferindo-se para lá a Escola Militar. O prédio do Largo de São Francisco virou a Escola Central, na qual seriam ministradas disciplinas comuns às duas abordagens. Em 1874, o processo de separação finalmente se completava. Surgia a Escola Politécnica.

A instituição tornou-se o principal centro de formação de profissionais em engenharia no Brasil, estando seus cursos nivelados em termos de qualidade com os melhores encontrados na Europa. A excelência da Politécnica favoreceu o aparecimento de vários talentos da engenharia nacional, como André Rebouças e Paulo de Frontin, que estiveram à frente de importantes obras realizadas a partir do final do século XIX. Em 1937, por pressão do governo do Estado Novo, passa a se chamar Escola Nacional de Engenharia. Permaneceu no mesmo prédio até 1966, transferindo-se então para o Fundão, novo campus da UFRJ.

A antiga escola, originalmente um templo inacabado, é ocupada hoje pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, que dá continuidade a uma tradição local de duzentos dedicados ao saber e ensino na cidade do Rio de Janeiro.

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A Fábrica de Gás

A evolução dos grandes centros urbanos em muito se assemelha à história geológica do planeta, onde um lento processo de transformação da paisagem é intercalado por mudanças súbitas de grande porte, alterando de modo imprevisto o ambiente anterior. Assim, o desenvolvimento normal das cidades é por vezes abalado por intervenções de larga escala, podendo afetar a vida dos habitantes tanto de modo negativo quanto positivo, e de forma duradoura. Uma das novidades mais benéficas introduzidas no Rio de Janeiro ocorreu no século XIX, quando a iluminação a gás nas ruas criou uma nova relação dos habitantes com o espaço público.

Necessária e desejada por muito tempo, a construção de um sistema de iluminação de tal porte era uma tarefa totalmente fora do alcance financeiro e técnico da maioria dos empreendedores, fossem brasileiros ou estrangeiros. Isso até 1851, quando Irineu Evangelista de Souza, futuro Barão de Mauá, vencendo a concorrência aberta pelo governo imperial para implantar o serviço, inicia a colocação dos encanamentos e lampiões nas ruas, assim como a construção da fábrica de gás. O local escolhido situava-se na rua do Aterrado, posteriormente Senador Eusébio (lado direito da Av. Pres. Vargas depois da Praça Onze), ocupando o quarteirão entre as ruas Carmo Neto e Comandante Mauriti, tendo aos fundos a desaparecida rua General Pedra.

Fábrica de Gás
A fábrica de gás de Mauá, um marco no progresso carioca

Neste sítio, fora as instalações necessárias para a produção, armazenamento e distribuição do gás, no prédio da fábrica havia laboratórios e oficinas, além da administração e outros escritórios. A empresa introduziu um nível de relacionamento moderno e sem precedentes com seus empregados, provendo moradia no local para alguns deles, além de biblioteca, botica, tanques para banho e jardim. Isto em um país em que a escravidão era considerada a grande força motriz da economia, e o trabalho visto como algo degradante pelas elites, que dele queriam distância. Os funcionários da fábrica realizavam, além disso, treinamento regular contra incêndios. Como precaução adicional, foram construídos reservatórios de água para a extinção do fogo, tarefa impossível contando-se únicamente com o volume de líquido fornecido pelos chafarizes públicos.

A Companhia de Iluminação a Gás de Mauá foi vendida aos ingleses em 1865, passando a se chamar "Rio de Janeiro Gas Company, Limited", e 20 anos depois transferida a empresários belgas, que formaram em 1886 a "Societé Anonyme du Gaz", responsável pelos serviços até 1969, quando o Estado da Guanabara criou a CEG, privatizada em 1997.

Uma parte do prédio continua a existir no mesmo local, como testemunho do grande acontecimento quando, em 25 de março de 1854, a luz mágica dos primeiros postes iluminou o centro da cidade, causando profundo impacto na população, que não entendia como pôde viver tanto tempo sem esta melhoria. A antiga fábrica nos lembra o homem de visão e ação que foi o Barão de Mauá, cujas iniciativas vêm beneficiando a população carioca há mais de 150 anos.

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O Velho Senado

Quando tornou-se vice-rei do Brasil em 1806, Dom Marcos Noronha, o Conde dos Arcos, desfrutava de grande apreço junto ao povo da Bahia, sob competente administração há anos. O carinho dos baianos chegou a ponto de, através de doações públicas, construírem uma moradia digna para seu ex-governador no Rio de Janeiro, para onde se mudaria. A casa, obra de artífices baianos especialmente enviados, foi erigida no Campo de Santana, esquina com rua do Areal, antigo Caminho de Capueruçu, hoje rua Moncorvo Filho. Nascia o Palácio do Conde dos Arcos.

Palácio do Conde dos Arcos
O Palácio do Conde dos Arcos, um presente do povo baiano

Seu vice-reinado pouco duraria, pois, dois anos depois, chegava no Rio a côrte portuguesa, fugindo de Napoleão. Os excelentes serviços prestados pelo conde, contudo, garantiriam posição de destaque no novo contexto político, com a elevação da antiga cidade colonial a capital do reino. Permaneceu no governo da coroa até 1822, quando D. Pedro I o dispensou, retornando a Portugal.

Após a Independência, o palácio foi adquirido em 1824 para sediar o Senado do Império, que realizou sua primeira sessão dois anos depois, em maio de 1826. A antiga residência tornou-se palco da vida política brasileira, onde ocorreram alguns dos acontecimentos mais importantes, como a eleição da Regência Provisória, em 1831, o juramento solene de Pedro II, em 1840, ao ser declarada sua maioridade, o juramento da Princesa Isabel em 1860 como herdeira ao trono e a votação da Lei Áurea, que aboliu a escravatura, em 1888.

Senado em 1900
Parada em frente ao antigo Senado, no início do sec. XX

O prédio, adequado como moradia, sofria com o grande movimento decorrente de sua nova função, e uma manutenção precária levou ao desabamento parcial do teto e telhado em 1829 e 1831, decidindo-se neste último ano fechar o edifício para reformas. Foi reaberto em 1835, mas por pouco tempo. No ano seguinte, 1836, novas obras, para reparar danos causados por cupins, retornando os parlamentares ao local só em 1840.

Apesar das limitações, o senado continuou funcionando no antigo palacete, mesmo após a proclamação da república, em 1889. Em 1919, nova reforma e ampliação, que lhe deu uma sobrevida até 31 de dezembro de 1924, quando o órgão foi transferido para o Palácio Monroe, na Cinelândia. Lá ficou até 1960, quando mudou-se para Brasília, recentemente inaugurada.

A casa do Conde dos Arcos, por cem anos lar do senado no Império e República, passou desde então a abrigar a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, permanecendo até o presente. É um dos prédios de maior relevância da Praça da República, logradouro com um dos mais expressivos conjuntos arquitetônicos da época do Império a perdurar até os dias de hoje. Seria oportuno e culturalmente válido estender a recente restauração feita no prédio do Arquivo Nacional a outros imóveis de importância no local, muitos em lamentável estado de abandono. Sua proteção e valorização são as únicas garantias para a permanência futura de uma parte da cidade que testemunhou acontecimentos históricos marcantes, ao longo de mais de dois séculos de história.

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A Rua do Aqueduto

O Morro de Santa Teresa, que forma um dos bairros mais tradicionais do Rio, foi inicialmente conhecido como do Desterro, seguindo o nome de sua primeira construção, a antiga ermida de N.Sª do Desterro, de 1629. Após a criação e dedicação do convento para freiras reclusas de acordo com a regra de Santa Teresa, no século XVIII, é que tanto o morro quanto sua ladeira mudariam seu nome para o atual.

Nesta época já existia no local a obra que iria determinar os contornos do futuro bairro: o aqueduto da Carioca, levando ao centro da cidade o líquido vital, desde a serra do Corcovado. Obra iniciada em 1672, sofreu vários atrasos e problemas, por conta da má qualidade do material e de vandalismo, mas mesmo assim conseguiu chegar até o Largo da Carioca em 1723 através dos primeiros arcos, que iam de Santa Teresa até o morro de Santo Antônio passando pelo morro das Mangueiras. O abastecimento, ameaçado pelas constantes falhas, levou o governador Gomes Freire em 1744 a fazer uma revisão total no sistema, incluindo a feitura dos atuais arcos, de maior solidez.

Rua do Aqueduto
Bonde passando ao lado do aqueduto, na Santa Teresa de 1900

O aqueduto, uma construção de alvenaria, tinha altura em torno de dois metros e leito interno de pedra, por onde corria a água. Iniciando no Silvestre, o fluxo captado era nele introduzido e descia por 7 quilômetros até os arcos. Até meados do século XIX cumpriu sua função, mas o crescimento da população forçou a busca por novos mananciais, pois o velho aqueduto já não dava conta. No verão de 1889, a escassez resultou no aproveitamento das águas do Rio d'Ouro, na Baixada, através de obra feita em seis dias por Paulo de Frontin.

Os arcos de Gomes Freire, parte do sistema colonial, ganhariam uma segunda vida em 1896, quando, em 1º de setembro, os bondes elétricos da Companhia Ferro-Carril Carioca começaram a utilizá-los como nova passagem, indo até o Largo da Carioca. No ano seguinte, todo bairro era servido pela empresa. O eixo principal de transporte seguia o aqueduto, e tornou-se a grande artéria que daria vida a boa parte da região, cujo desenvolvimento anterior limitava-se à área de Paula Mattos.

Pouco a pouco, o antigo caminho, dispondo agora de uma ligação eficaz com o Centro, era ocupado, pontilhando de casas a Rua do Aqueduto. Um dos mais conhecidos moradores foi o Almirante Alexandrino de Alencar, ministro da Marinha em vários governos, como de Afonso Pena e Hermes da Fonseca. Em homenagem, o trecho da Rua do Aqueduto do Silvestre até o Curvelo recebeu seu nome, em 1917. Daí até os arcos passou a se chamar Joaquim Murtinho, médico homeopata e ministro da Fazenda no governo Campos Sales, com residência no trecho inicial da rua, falecido em 1911.

Os vestígios do aqueduto iam paulatinamente desaparecendo, na medida em que surgiam novas residências e que sua principal via se ampliava, mas o bairro de Santa Teresa sempre traria como marca indelével em sua forma e disposição o caminho percorrido pelas águas das montanhas até o centro, por séculos verdadeira linha da vida da cidade.

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A Escola da Praia Vermelha

Dentre os vários aspectos que envolvem o nascimento e evolução da cidade do Rio de Janeiro, um dos menos conhecidos talvez seja aquele da história de suas fortificações, em sua maioria despojadas da função defensiva pela evolução tecnológica, mas tendo no passado desempenhado importante papel. Algumas destas veneráveis estruturas sobreviveram na forma original, um certo número desapareceu e outras se transformaram ao longo do tempo, à medida que a área ao seu redor se urbanizava. A Praia Vermelha foi um desses locais em que a presença militar precedeu a ocupação, e até determinou sua configuração.

Antiga Escola Militar
A Escola Militar antes das reformas da Exposição de 1908

A necessidade de postos de defesa avançados justificava-se pelo receio de uma invasão que, desembarcando longe do núcleo urbano, ameaçasse sua segurança atacando pelos flancos. Assim, em 1698, construiu-se uma modesta fortificação nessa praia, considerada ponto vulnerável, o que foi constatado durante a invasão francesa de 1710, pois o francês Duclerc tentou iniciar sua ofensiva por ali, e, sendo repelido, deslocou as naves até Guaratiba, seguindo por terra até o centro da cidade. Os justificados temores levaram o vice-rei Conde da Cunha a construir uma verdadeira fortaleza em 1767, fechando a passagem entre os morros da Urca e Babilônia, e, alguns anos depois, o Marquês do Lavradio ampliaria o complexo, transformando em quartel o pequeno forte do século XVII.

Tendo a necessidade por cursos de formação e aperfeiçoamento de pessoal militar se acentuado a partir da chegada da côrte portuguesa em 1808, D. João VI institui a Academia Real Militar, inicialmente sediada na Casa do Trem (Museu Histórico Nacional), de onde se transferiu para a inacabada catedral no Largo de São Francisco (hoje o IFICS da UFRJ), transformada em 1839 na Escola Militar, de onde finalmente se deslocaria para a fortaleza da Praia Vermelha em 1859, devidamente adaptada para a nova finalidade.

O prédio passaria por nova mudança durante a realização da Exposição Nacional, em 1908, quando se metamorfoseou no Pavilhão das Indústrias, com alterações estéticas em sua fachada, acompanhando o estilo dos demais prédios erguidos especialmente para o certame. Após o famoso evento, sediou a Escola de Estado Maior do Exército, e, em seguida , tornou-se sede do 3º Regimento de Infantaria.

Em 27 de novembro de 1935 foi deflagrada uma rebelião militar de esquerda, e o 3º R.I., por se encontrar na vanguarda do movimento inspirado pela Aliança Nacional Libertadora, foi duramente atingido pela repressão das forças governistas, comandadas pelo general Dutra. O prédio foi seguidamente bombardeado, e, após a contenção da revolta, decidiu-se pela demolição, dado seu estado precário.

A antiga Escola Militar foi sucedida por outras instalações na Praia Vermelha, dentre elas o Instituto Militar de Engenharia, página mais recente em uma história iniciada há mais de trezentos anos, quando alguns poucos e corajosos soldados defenderam a cidade das espadas e bacamartes dos corsários.

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Avenida Atlântica

A história do bairro de Copacabana está ligada, como se sabe, à precoce implantação da infraestrutura de serviços necessários, anterior à plena ocupação do local, com destaque para os meios de transporte. Em 1892 era inaugurado o serviço de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico pelo Túnel Velho, construído para tal, fazendo com que a vasta e desolada extensão se incorporasse ao resto da cidade.

À beira-mar, contudo, sua mais famosa rua ainda não fora construída. A Avenida Atlântica, tida como parte indissociável de Copacabana, talvez só existisse na mente de algum incorporador, sonhando com obras e investimentos futuros. Havia apenas a faixa onde a terra se encontra com a areia, fustigada pelas ondas de um mar desinteressante, pois quase ninguém pensava nele entrar. Muitas das primeiras casas tinham os fundos voltados para a praia e entrada pela Av. Copacabana.

Atlântica em 1936
Avenida Atlântica em 1936, já famosa no mundo inteiro

Tudo mudaria em 1906, quando surge a avenida, integrando-se ao recente acesso pelo Túnel Novo, inaugurado no ano anterior. Iniciativa do prefeito Pereira Passos, que, através de várias obras na orla, como a Av. Beira Mar e a urbanização da Praia de Botafogo, criou um novo caminho onde podiam ser contempladas algumas das mais belas paisagens da cidade. A nova avenida definiu a aparência e a tônica do bairro, daí em diante constituindo-se como seu centro de gravidade.

Mas nem tudo foi fácil, pois o mar castigava a pequena via, que, com apenas seis metros de largura, e quase sem nenhuma proteção, sucumbia periódicamente ao castigo das ondas. A ressaca de janeiro de 1919 foi mais violenta, e, tendo a destruição chegado quase até as casas, fez-se necessária uma completa reconstrução, concluída nesse mesmo ano, com pista duplicada e iluminação central, que formava o famoso colar de pérolas de luzes à noite.

Em 1923 surgia seu prédio mais famoso, o Hotel Copacabana Palace, que não só se transformou em ícone do bairro como também estimulou a febre por novas obras, instituindo o prédio de apartamentos como construção preferencial, em substituição às casas pioneiras. Um ano antes da inauguração do hotel, a mesma avenida foi palco de um acontecimento que marcaria sua história de modo diverso, quando militares do Forte Copacabana, revoltados com a prisão do Marechal Hermes da Fonseca, saíram em marcha para encontrar as forças governistas. Dentre os participantes destacam-se os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, que desempenhariam importante papel no movimento político conhecido como tenentismo.

O tempo só aumentou a fama da Atlântica, e foram necessárias algumas operações de maior ou menor monta para adaptá-la às novas demandas. O alargamento e duplicação das pistas se impôs em função da prioridade concedida ao automóvel como meio de transporte. Na década de 70, foi a vez do interceptor oceânico, além do calçadão, este último dando uma nova amplitude ao local e renovando a marca visual desta avenida, linha de frente em um dos cenários mais belos e conhecidos do mundo.

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A Praça José de Alencar

Durante sua curta estadia como governador do Rio de Janeiro, de 1575 a 1577, Antonio Salema procurou estabelecer uma melhor comunicação com novas áreas agrícolas, como em Botafogo, visando resolver o problema do abastecimento do núcleo colonial e assegurar o desenvolvimento local como modo de evitar ou combater invasões estrangeiras. Pleiteou e obteve junto à coroa portuguesa os recursos necessários à construção de um engenho de cana, às margens da lagoa de Sacopenapã, futura Rodrigo de Freitas, para qual a acessibilidade também era fundamental.

O engenho nunca funcionou, e das obras de Salema, apenas uma sobreviveria, a ponte sobre o rio Carioca, que acabou levando seu nome. Durante séculos, o rio que deu nome à terra formava uma barreira delimitando o Catete do Flamengo, e esta ponte era fundamental no planejamento das novas vias. Construída onde é atualmente a praça José de Alencar, que foi conhecida como Largo do Catete ou da Ponte do Catete, nela se cobrou o primeiro pedágio urbano, de 40 réis por animal ou carro, aplicado até 1866, por quase trezentos anos.

Praça José de Alencar em 1906
José de Alencar em sua bela praça no Rio de Janeiro de 1906

Os primeiros ocupantes se dedicaram à horticultura, além de existirem várias olarias, as quais utilizavam as águas do rio próximo. Do século XVIII em diante surgiram várias chácaras de grande área, sendo que, após 1808, com a vinda da côrte portuguesa, toda região do Catete foi rápidamente ocupada, tornando-se bairro de eleição para moradia dos mais abastados, o que continuou durante várias décadas.

Mas o prédio de maior destaque nesta praça foi o Hotel dos Estrangeiros, que originalmente deveria ser o palacete da chácara do conselheiro Cláudio da Costa, cujas obras foram suspensas em 1831. Com ampliações e modificações necessárias ao seu funcionamento, este luxuoso hotel estabeleceu um novo patamar em termos de qualidade, em um século onde o "know-how" da hospedagem ainda se desenvolvia. A notoriedade do estabelecimento, contudo, ficaria ligada a um acontecimento trágico, o assassinato do senador Pinheiro Machado no saguão hotel em 1915, apunhalado pelas costas pelo padeiro Francisco Manso de Paiva. O desaparecimento do político causou a decadência do partido republicano, do qual era presidente.

O velho largo do Catete mudaria seu nome em definitivo para José de Alencar no ano de 1897, quando foi inaugurada a bela estátua de Rodolfo Bernardelli, que lá se encontra até hoje, em posição diferente. A maior modificação feita nesta praça foi a canalização do rio Carioca, durante a gestão de Pereira Passos na prefeitura, entre 1903 e 1906, e as obras do metrô nos anos 70 iriam fazer desaparecer grande parte dos imóveis, ficando como ponto de referência apenas a Igreja Metodista, construída no século XIX.

A colocação da estátua de Alencar onde era antiga ponte do Salema, junto ao rio Carioca, é bastante simbólica, e uma justa homenagem àquele que, através de várias obras, imortalizou personagens, costumes e acontecimentos históricos desta cidade de São Sebastião.

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A Rua Nova do Conde

Ao chegar ao Rio no século XVI com os primeiros colonizadores, os jesuítas empregaram seu talento e conhecimentos não só na assistência espiritual, mas também e eficazmente no plano material, ao construir templos e seu colégio no Morro do Castelo. Além disso, possuíam fazendas, onde se dedicavam ao cultivo da cana e outras culturas, sendo que uma das maiores abrangia parte da zona norte, indo do Engenho Velho, onde está a Igreja de S. Francisco Xavier, até perto da Baixada Fluminense. Este núcleo agrícola foi o germe da ocupação posterior, gerando a necessidade de comunicação por terra com a cidade, na região central.

As condições do terreno limitavam o acesso, em sua maior parte constituído por pântanos e brejos. Os dois primeiros caminhos, do século XVII, contornavam os obstáculos, sendo que um deles, aberto acima dos charcos, foi chamado de Caminho para o Engenho dos Padres (Rua do Riachuelo), e o outro, um prolongamento da atual Rua da Alfândega, passava por trechos menos alagados. Este último era o Caminho de Capueruçu, nome indígena da Lagoa da Sentinela, situada perto do encontro das atuais ruas do Riachuelo, Frei Caneca e Santana, onde as antigas veredas se uniam, seguindo rumo norte. Por duzentos anos foram as únicas vias existentes.

Rua Frei Caneca
Frei Caneca, antiga Rua Nova do Conde no início do século XX

Em 1765, o vice-rei Conde da Cunha abre nova rua, um prolongamento da Rua do Piolho (Carioca) até a Lagoa da Sentinela. Chamada inicialmente de Rua Nova do Conde da Cunha, seria desdobrada em duas no século XIX, ficando o trecho entre a Praça Tiradentes e o Campo de Santana conhecido como rua Visconde do Rio Branco a partir de 1871. Do Campo até a então drenada Lagoa da Sentinela, mudaria seu nome para Frei Caneca em 1890, em homenagem a um dos líderes da revolta da Confederação do Equador, morto no Recife em 1825. Recém-aberta e ocupada com novas casas, foi presenteada em 1786 com o Chafariz do Lagarto, obra do genial Mestre Valentim, ainda existente. Em 1809, sob D. João VI, inaugurava-se mais um chafariz nesta rua, o do Catumbi, que também chegou até nós, apesar de depredado. Dois monumentos de grande destaque, merecedores de um tratamento mais digno que o atual abandono.

Valorizada no século XIX, sediou a Biblioteca Municipal, de 1874, além de alguns palacetes, como o do Barão de Bela Vista e do Duque de Saxe, marido da princesa D. Leopoldina, mas ficaria mais conhecida pela nova cadeia, perto do Estácio, construída em 1835 e embrião do atual presídio. No século seguinte a rua passaria a ter um caráter mais comercial, tornando-se ponto de referência no comércio de madeiras, como é até hoje em dia.

Mas seu prédio de maior fama é sem dúvida aquele da Gafieira Elite, nascida em 1930 como Dancing Elite Club, situada na esquina do Campo de Santana em uma casa que originalmente foi residência do Duque de Caxias. Esta verdadeira instituição do Rio de Janeiro e de sua música popular está na porta de entrada da antiga rua, assinalando um patrimônio histórico de valor, felizmente preservado em grande parte.

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A Rua dos Teatros

A vida noturna carioca, assim como em outras metrópoles modernas, se encontra dispersa por várias localidades, conseqüência do processo de crescimento e expansão experimentado pelas cidades. Contudo, em épocas passadas, muitas das casas de espetáculo tendiam a se concentrar em uma região, em função da clientela ou tradição, na esperança de garantir sua bilheteria. A partir do século XIX, e por um largo período, a área com maior número de teatros foi a Praça Tiradentes, o antigo Rossio, acompanhando o pioneiro Teatro São Pedro, de 1813.

Durante o nascimento e urbanização da conhecida praça, que era uma grande área entre terrenos alagados e chácaras, é aberta em 1801 uma nova rua, em terras da primitiva sesmaria que no século XVIII pertencia ao guarda-mor Pedro Dias Pais Leme. Ligando a Rua do Senado (iniciada em 1789) à Praça Tiradentes, a Rua do Espírito Santo se tornaria um dos endereços mais conhecidos na vida artística do Rio de Janeiro, nas décadas seguintes e até o século XX.

Rua do Espírito Santo
Rua Pedro I, lar de Chiquinha Gonzaga e de teatros de outrora

Em 1877, inaugurava-se o Teatro Varietés, chamado no ano seguinte de Teatro Variedades, depois Brasilian Garden e por fim, em 1880, Teatro Recreio Dramático, abreviado para Teatro Recreio. Localizava-se no final da rua, em um trecho sem saída, com os fundos dando para a encosta do morro de Santo Antônio. De capacidade média, era muito popular, tendo recebido até mesmo o imperador D. Pedro II em 1884. Fechou suas portas em 1969, após quase cem anos de existência. Outro bastante conhecido foi o Lucinda, de 1880, onde foram representadas peças de autores famosos, como Arthur Azevedo. Esta antiga casa de espetáculos também foi palco de acontecimentos políticos relevantes, quando, em abril de 1906, sediou o Iº Congresso Operário Brasileiro, que decidiu pela criação da Confederação Operária Brasileira e a deflagração da greve geral em 1º de maio de 1907.

Uma das figuras mais conhecidas da vida artística carioca nesta época foi Pascoal Segreto, cuja empresa arrendou o Teatro Carlos Gomes, o São José e o Maison Moderne, em frente ao Carlos Gomes, do outro lado da rua e fazendo lado com a praça. Em seus jardins Segreto fez instalar um parque de diversões com brinquedos, palhaços, mágicos e bandas de música, que tocavam maxixes e tangos, para atrair o público para suas peças. Em 1912, estreava no São José a peça Forrobodó, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, com música de Chiquinha Gonzaga, a mais famosa moradora desta rua, uma presença constante em seus teatros. Viveu e faleceu em seu apartamento, na véspera do carnaval de 1935.

A Rua do Espírito Santo, tão ligada às artes cênicas e à música, passaria em 1921 a se chamar Pedro I, após ter o nome de Luís Gama durante um período. O último teatro remanescente desta era, o Carlos Gomes, nasceu em 1872 como Teatro Cassino Franco-Brésilien, passou por três incêndios, e continua sua trajetória de quase 140 anos em pleno século XXI, como símbolo renascido da arte brasileira, eternamente persistindo e se reinventando.

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