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O Observatório

Um dos traços mais conhecidos do imperador D. Pedro II era seu interesse pelas ciências, especialmente aquelas ligadas à natureza. Assim, com seu beneplácito e apoio material, foi criado em 1846 o Observatório Astronômico, cujos serviços incluíam o serviço da hora astronômica. Os escassos recursos, contudo, fizeram com que fosse instalado em local técnicamente desfavorável, apesar de menos dispendioso. Em vez do preferível Morro da Conceição, feito de granito e geológicamente estável, escolheu-se a igreja inacabada de Santo Inácio no Morro do Castelo, opção mais em conta por pertencer ao estado.

O terreno, contudo, compunha-se de gnaisse em decomposição, e movia-se considerávelmente, para finalidades de observação. Em que pesem as adversidades, foi o local de nascimento da ciência astronômica no Brasil, produzindo as primeiras publicações nacionais desta área de conhecimento. O imperador, entusiasta deste campo, visitava regularmente o local e sua biblioteca.

Observatório do Castelo
Observatório do Castelo, construído sobre a igreja dos Jesuítas

Outro serviço prestado pelo observatório era o da hora astronômica. Em uma época na qual não existiam as zonas de tempo determinadas a partir do meridiano de Greenwich, e muito menos como sincronizar relógios em escala mundial, a referência para a hora local era dada pela passagem do sol pelo zênite, que ocorre ao meio-dia. Para fins de sincronização, exatamente neste momento o observatório soltava um balão, visível em todo centro, como referência, conhecido como "balão do meio-dia". Este serviço funcionou desde 1846, e só foi modificado décadas depois com o uso de lanternas elétricas. Com a mudança do observatório para o Morro de São Januário, em 1918, essa atividade seria extinta, tornando-se mais uma recordação do passado.

Em 1922, desaparecia o Morro do Castelo, e as ruínas da igreja dos jesuítas, então com 350 anos de idade, eram transformadas em entulho, levando consigo também esta página pouco conhecida dos primórdios da ciência astronômica no Brasil.

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A Igreja da Mãe dos Homens

Na rua da Alfândega, perto da Av. Rio Branco, encontra-se uma das igrejas menos conhecidas do centro do Rio, em que pese sua antiguidade e beleza. Dedicada a N.Sª Mãe dos Homens, este templo origina-se no século XVIII, e teve ligação com acontecimentos importantes da história carioca e brasileira.

Quando o trecho da rua da Alfândega (antigo caminho de Capurerussú) ainda era chamado de Quitanda do Marisco, nome devido à existência de um estabelecimento na esquina da atual rua da Quitanda, erigiu-se um oratório com a imagem da Mãe dos Homens, junto ao qual, à noite, e sob a luz baça das lâmpadas de azeite de baleia, fiéis se reuniam e invocavam as graças da santa. O crescente número de devotos levou à construção de uma pequena capela, e em 1758 é fundada uma agremiação em seu nome. Doações possibilitariam, anos depois, o início das obras do templo atual. As primeiras iniciativas datam de 1779, e os trabalhos continuariam até o século seguinte. Com estilo arquitetônico barroco, possui rico trabalho de talha, além de belas imagens e pinturas. Seu terreno originalmente estendia-se até a Av. General Câmara, atual Av.Presidente Vargas, e foi utilizado como cemitério durante um período.

Igreja Mãe dos Homens
Igreja da Mãe dos Homens, relíquia barroca
entre os prédios da Rua da Alfândega


Os fiéis formavam uma comunidade coesa, e, por isto mesmo, causou grande comoção os acontecimentos que atingiram um de seus membros, a viúva Inácia Gertrudes de Almeida, durante a época da Inconfidência Mineira. Há tempos sua filha sofria um problema de saúde aparentemente insolúvel: uma ferida no pé que nunca cicatrizava, não importando o medicamento empregado. Chegou a seus ouvidos que estava no Rio uma pessoa que poderia curá-la deste mal. O especialista não era ninguém menos que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, com conhecimentos em medicina bem mais amplos que a odontologia. Comprovando sua perícia, após dois meses de tratamento, a moça estava curada.

Por esta época, o vice-rei Luís de Vasconcellos havia começado sua caça aos inconfidentes, e Tiradentes organizou sua fuga. Necessitando ocultar-se por três dias antes de viajar, solicitou a Inácia que o acolhesse, mas esta, por ter filha solteira em casa, não podia recebê-lo, e pediu este favor a seu compadre Domingos Fernandes da Cruz, residente à rua dos Latoeiros (Gonçalves Dias). Foi neste endereço que o mártir da Inconfidência foi preso, e Inácia, sua filha, Domingos e o padre Inácio Nogueira, sobrinho de Inácia, que nada sabiam, foram presos como cúmplices, amargando vários meses na cadeia, até terem a inocência comprovada. A viúva atribuiu sua libertação à intercessão da santa de sua devoção — a Mãe dos Homens. E quem pode dizer que não?

Esta antiga igreja, tombada pelo IPHAN, realiza missas regularmente e merece ser conhecida pelo seu valor histórico e estético, sendo parte integrante do valioso e respeitável patrimônio histórico da cidade do Rio de Janeiro.

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A Rua das Violas

O ano de 1904 foi marcado por intervenções de grande vulto na estrutura urbana da cidade, de acordo com a iniciativa da prefeitura sob o comando do engenheiro Pereira Passos. Uma das obras de maior importância foi o prolongamento da Rua Larga de São Joaquim até o mar, projeto imaginado há várias décadas pelo Barão de Taunay, mas só então realizado. Uma das perdas lamentáveis foi a Igreja de São Joaquim, localizada ao lado do Colégio Pedro II e que marcava a transição da Rua Larga para a Estreita de São Joaquim, as duas formando a atual Marechal Floriano.

Além da igreja, também foram demolidos imóveis do lado par, levando consigo algumas lembranças associadas a uma rua próxima, Teófilo Otoni, cujas origens nos remetem a um passado distante. Por iniciativa de Domingos Coelho, proprietário de terras junto ao mar, esta rua foi se dirigindo para o interior desde o litoral, com ponto de partida no posteriormente conhecido Cais dos Mineiros, desde meados do século XVII. Seu desenvolvimento, assim como da maioria dos logradouros de então, dependia do lento processo de drenagem e aterro, pois quase toda área da cidade era composta por pântanos e alagadiços. As condições desfavoráveis fizeram até mesmo a Santa Casa rejeitar os prédios legados a esta por Domingos Coelho, quando de seu falecimento.

Rua das Violas
Antiga Rua das Violas, no início do século
passado


Em 1710 a via finalmente alcançava a rua dos Ourives (Miguel Couto), recebendo também outro nome, de Rua Serafina, viúva de Domingos Coelho. Outro nome, cuja origem é desconhecida, foi o de Rua dos Três Cegos. Após a construção da Igreja de Santa Rita, em 1721, o trecho atrás do templo ficou conhecido como Detrás de Santa Rita, e também da Ilha Sêca, em referência a um trecho entre a rua da Conceição e Vala (Uruguaiana) que encontrava-se livre das águas. Mas só final do século XVIII o antigo caminho receberia o nome pelo qual ficaria conhecida, após lá se estabelecerem fabricantes de violas, que, embora não sendo muitos, tinham presença marcante, fazendo com que o local ficasse logo conhecido segundo seu negócio. Nascia a Rua das Violas.

O nome permaneceria até 1869, quando passou a ser chamada de Teófilo Otoni em mais uma mudança por razões políticas, homenageando um parlamentar que nada tinha a ver com a história do local. Nesta época, a maioria dos violeiros já havia se transferido para a rua Estreita de São Joaquim, cujas grandes mudanças de 1904 apagariam a lembrança deste capítulo peculiar da história do Rio de Janeiro.

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A Casa do Trem

A colonização do Rio de Janeiro tem uma história rica em todo tipo de episódios, com páginas heróicas, outras tristes e algumas até mesmo cômicas. É normalmente aceito como origem da cidade o ano de 1567, após a expulsão dos franceses, ou a fundação da cidade velha no morro Cara de Cão em 1565, mas, se quisermos ser rigorosamente justos, temos de considerar a iniciativa dos franceses, que em 1555 aqui chegaram para ocupar uma terra até então abandonada, pois o esforço de Portugal se concentrava no norte do país, desde a capital da colônia, Salvador.

Visando fundar um núcleo protestante no hemisfério Sul, a "França Antártica", Villegagnon e seus homens iniciaram a povoação, a qual ocorreu com muitos conflitos, refletindo o contexto francês da época, com as guerras de religião. Villegagnon tinha apoio importante, o do almirante Coligny, de grande ascendência sobre o rei Carlos IX, mas que não conseguiu os recursos necessários para o projeto de Villegagnon. Algumas das razões para o fracasso desta iniciativa podem ser melhor compreendidas no filme A Rainha Margot, onde o próprio Coligny é assassinado na noite de São Bartolomeu, em 1572. Protestantes e católicos estavam ocupados demais se trucidando para dar alguma atenção a uma colônia perdida no sul do Atlântico.

Casa do Trem
Trilhos na antiga Casa do Trem, atual
Museu Histórico Nacional

(Revista Eu sei tudo, julho de 1919)

Expulsos da Guanabara, em 1567, os franceses deixaram construções e vestígios em alguns lugares, como na Praia do Flamengo, Ilha do Governador e no Forte Coligny, a Ilha de Villegagnon, onde está hoje a Escola Naval. Os portugueses, aproveitando o espólio do inimigo, incorporaram a fortificação da ilha, e, complementando a defesa, erigiram o Forte de São Sebastião, no alto do Morro do Castelo.

O governador Salvador Corrêa de Sá, considerando insuficiente as defesas, criou mais uma bateria de canhões na base do Morro do Castelo, obra que só terminaria em 1603, com Mem de Sá, e que recebeu o nome de Forte de São Tiago. Reconstruído em 1693, foi nesta época agregado um novo anexo, o Calabouço, e, em 1762, Gomes Freire inaugura a Casa do Trem, destinada à guarda dos equipamentos de artilharia. O nome "trem" deve-se aos trilhos sobre os quais corriam os canhões e outras peças de grande peso. A seguir, o vice-rei Conde da Cunha, instala, em 1764, o Arsenal de Guerra, aumentando dessa forma o complexo militar.

Mas, além das atividades bélicas, a Casa do Trem é célebre noutro sentido, pois lá fundiram-se as primeiras estátuas do Brasil, a Ninfa Eco e o Caçador Narciso, feitas por Mestre Valentim em 1785 e que adornavam uma de suas mais belas obras, o Chafariz das Marrecas, demolido em 1906. As obras foram salvas e estão há um século no Jardim Botânico.

Em 1897, no início do período republicano, o Arsenal foi palco de um acontecimento dramático, quando, em 5 de novembro, o presidente Prudente de Morais sofre atentado e é defendido pelo marechal Machado Bittencourt, que falece após ser ferido por Marcelino Bispo, um dos muitos florianistas fanáticos da época, que aspiravam a uma ditadura militar. Até hoje se encontra uma estátua no local do atentado, homenageando o falecido marechal, cujo sacrifício talvez tenha impedido uma crise política de maiores dimensões.

Em 1922, o Arsenal é transformado no Museu Histórico Nacional, iniciando suas atividades durante a Exposição do Centenário, atividade na qual continua até os dias atuais. É mais uma peça do patrimônio histórico que estava marcada para a destruição, sendo felizmente salva pela iniciativa responsável de alguns poucos.

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A Igreja da Prainha

As invasões francesas, em 1710 e 1711, foram dos eventos mais traumáticos pelos quais o Rio de Janeiro passou, e sua lembrança ainda assombraria várias gerações de cariocas até que a bruma do tempo as reduzisse a práticamente nada. Muitas foram as vítimas inocentes do conflito, só encerrado após pagamento de resgate em 1711 ao corsário Duguay-Trouin, que se apossou da cidade após o governador Francisco de Castro Morais tê-la deixado à própria sorte e fugido covardemente, atitude que lhe valeu condenação posterior, recebendo pena de degrêdo e prisão perpétua na Índia.

Dentre as desastradas medidas tomadas pelo infeliz governante em 1710, uma delas atingiria um antigo e modesto templo, afastado da região central. Como resultado de péssima inteligência e falta de melhor conhecimento militar, Francisco de Morais concentrou suas tropas ao longo da Vala (Rua Uruguaiana) e aguardou o inimigo, que, ao perceber o estratagema óbvio, seguiu outra rota, passando pela Rua do Riachuelo sem práticamente encontrar resistência. Com medo de ser surpreendido pelo lado da Prainha (Praça Mauá), Morais ordenou que se incendiasse os armazéns, procurando com isso dificultar a passagem dos possíveis atacantes. O fogo os consumiu, mas também levou a pequena capela de São Francisco da Prainha, a única das redondezas.

Igreja de S. Francisco da Prainha
São Francisco da Prainha: testemunha histórica
renascida das cinzas de 1710


Construída durante o século XVII, sua existência deve-se à iniciativa exclusiva do padre Francisco da Mota, dono de várias propriedades, que incluíam armazéns e diversos imóveis. Ao falecer, em 1704, legou em testamento todos os bens à Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Vinte e oito anos após o desastre de 1710, era reinaugurada a capela da Prainha, reconstruída e entregue ao público em novembro de 1738. O templo atual, contudo, é produto de reforma posterior, feita em 1910, e está no centro de um conjunto de imóveis antigos e preservados, nos quais está incluída a Escola Padre Doutor Francisco Mota, construída em 1897.

A igreja, renascida das cinzas em 1738, é tombada pelo IPHAN, e sua localização a torna menos conhecida que outras da região central, como aquelas situadas na Av. Primeiro de Março, sendo este mais um motivo para se conhecer aquele que é um dos mais antigos templos da cidade e testemunha de dramáticos acontecimentos do passado.

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A Estátua de Osório

No final de 1888, voltava da Europa o escultor Rodolpho Bernardelli, em missão na França para adquirir materiais indispensáveis à criação de nova e importante obra, encomendada no ano anterior: uma estátua eqüestre do conhecido General Osório, falecido em 1879. Com a maquete do projeto aprovada, o artista caminhava para sua realização efetiva.

Manuel Luís Osório foi um dos mais destacados militares da história brasileira. Nasceu em 1808 — mesmo ano da chegada da côrte portuguesa — no Rio Grande do Sul. Aos 15 anos, já com o país independente, iniciou carreira acompanhado o regimento de seu pai, também soldado. Apesar de ter simpatia pelo movimento farroupilha, não concordou com as idéias separatistas, e integrou-se ao exército Imperial. Sua grande capacidade e destemor levariam aos mais altos postos, tendo-se tornado uma das grandes figuras da Guerra do Paraguai, movida por Brasil, Argentina e Uruguai contra o ditador Solano Lopez. No conflito, encerrado em 1870, Osório sofreu ferimentos que prejudicaram a saúde, mas que elevaram ainda mais sua aura de herói.

Estátua de Osório
Inauguração da estátua equestre do General Osório, em 1894
(Revista Eu Sei Tudo, Dez. 1923)

Bernardelli, um dos maiores escultores que o país conheceu, estava à altura da tarefa, e, em seu afã de perfeccionismo, estudou por meses o movimento dos cavalos, e, no final de dois anos, o molde estava pronto. Em 1892 seguiria para a França, onde seria fundido, Bernardelli o acompanhando como um pai extremoso, para garantir o sucesso da empreitada. Tudo correu perfeitamente, e, após o retorno, cuidou-se da construção da base da estátua, feita com pedra importada da Itália.

O monumento foi inaugurado em 12 de novembro de 1894, com a presença de autoridades e grande público, homenageando uma figura exponencial cuja lembrança ainda era recente. A Praça XV sofreu uma reforma para acomodar a memorável obra, a qual recebeu em sua base os restos mortais de Osório, lá permanecendo até 1993, quando foram trasladados ao Rio Grande do Sul e sepultados perto da casa onde nasceu.

Nas últimas décadas, a Praça XV e os prédios históricos remanescentes foram beneficiados por iniciativas de preservação, valorizando a região e consequentemente a cidade. Os monumentos, contudo, se ressentem da falta de uma estrutura de vigilância que impeça sua contínua destruição nas mãos de vândalos e vagabundos, que mereceriam punições bem mais rigorosas que as atuais. A magnífica estátua de Osório não foi exceção, infelizmente, tendo várias partes roubadas, como o portão de acesso, as balas de canhão nos 4 cantos, as pontas de lanças da grade e até mesmo a corbeille que emoldurava a dedicação. Uma perda irreparável, considerando que o bronze empregado era proveniente do derretimento dos canhões apreendidos ao Paraguai após a guerra de 1870. Objetos podem ser substituídos, a história não.

A estátua encontra-se em processo de restauração, o que deve ser elogiado, mas, a menos que se implemente um esquema de vigilância permanente com câmeras e guardas dedicados — coisa que qualquer prédio sem importância possui — a recuperação dos monumentos terá de continuar por toda eternidade, pois as forças da destruição estão e sempre estarão de prontidão, noite e dia.

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Gelosias e Urupemas

Ao pensarmos na vida do Rio de antigamente, quase sempre ocorrem imagens da época imperial, especialmente o reinado de D. Pedro II. Não é difícil visualizar um passeio pelas ruas dos contos de Machado de Assis e José de Alencar, quando muitos dos confortos (e flagelos) modernos não existiam. Provávelmente nos adaptaríamos a esse mundo, imbuído de uma relação de familiaridade análoga a que teríamos com nossos bisavós ou tataravós.

Muito diferente a época colonial, quando a vida cotidiana e as relações aconteciam de forma (para nós) difícil de assimilar. Seria como uma viagem a um planeta estranho, dotado de uma atmosfera ainda respirável, mas com um meio-ambiente nos afetando de modo extremamente desagradável. A estranheza seria comum a todos, mas, para as mulheres de hoje, viver nessa época seria comparável a uma passagem só de ida ao inferno, com restrições difíceis até de se imaginar.

Casas coloniais
Sobrados da época de D. João VI, ainda com vestígios de
gelosias
(rótulas) no andar superior

A esposa e filhas do chamado homem de bem eram objetos de propriedade exclusiva, sobre os quais exercia poder absoluto, podendo punir, maltratar ou até matar. Viviam em regime de clausura, saindo pouquíssimas vezes durante o ano. Vigiadas o tempo todo e sem acesso à educação, o desejo exacerbado de posse de seu dono as guardava de olhares alheios, seja através do uso da mantilha, usada como uma espécie de burka light, mas principalmente através da adaptação das moradias ao objetivo explícito de ocultar.

A palavra ciúme, que na maioria das línguas indo-européias tem uma raiz pronunciada aproximadamente gelos — no francês jealousie, em espanhol celos ou no inglês jealousy, dentre outros idiomas — serviria para nomear um dos elementos arquitetônicos mais usuais do período colonial. Popularizado durante os séculos de ocupação moura na península ibérica, o desejo de esconder as mulheres levou à adaptação das moradias a esta finalidade. Para evitar que qualquer estranho tivesse a possibilidade de vislumbrar o interior, eram colocadas, nas janelas e portas, treliças de madeira ou de urupema, fibra vegetal. Este dispositivo receberia o nome adequado de gelosia ou rótula, e dificultava a quem estivesse na rua conseguir distinguir algo dentro da casa. Em casos extremos as grades de madeira cobriam toda fachada do imóvel, só por via das dúvidas. Neste cárcere paterno viviam as jovens, passando posteriormente, pelo casamento, para aquele do marido.

Quando a côrte portuguesa chegou, em 1808, uma das primeiras providências tomadas pelo intendente de polícia Paulo Vianna, cargo que equivalia ao de prefeito, foi a remoção das gelosias por razões de estética e segurança, pois algum possível malfeitor poderia se esconder nelas para atentar contra a vida do monarca. O edital de 11 de junho de 1808 colocava que "não se pode nem deve continuar a tolerar bisonhos e antigos costumes", declarando "desde já que devem abolir as rótulas das janelas dos sobrados, que desaparecerão em oito dias".

Sumia o velho dispositivo mourisco, permanecendo, contudo, vestígios em alguns imóveis, desde que não se chocassem com o decreto. Era o início da reforma de costumes que desembocaria no período imperial e no conhecido Rio de Janeiro cosmopolita do século XIX. As últimas casas trazendo algumas dessas características desapareceriam nos primeiros anos do século seguinte, levando consigo os derradeiros traços da arquitetura e costumes do distante período colonial.

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Glória às Baleias

Quando os primeiros colonizadores chegaram no Rio de Janeiro, encontraram uma terra desconhecida, a qual reservaria muitas surpresas. Um dos acontecimentos a causar maior admiração foi a presença, na baía de Guanabara, de grande número de baleias, voltando anualmente para se reproduzir.

Grande cobiça causaram os cetáceos, pois seu tamanho descomunal poderia abastecer a comunidade por vários meses, o que seria oportuno, pois a produção local ainda engatinhava. Um belo dia, durante o governo de Afonso de Albuquerque, (1608-1613), uma baleia encalha em frente o Convento do Carmo, que então ficava à beira-mar (ainda não existia a Praça XV). Todos correram para obter seu quinhão do animal, e um dos produtos extraídos foi o óleo, conhecido como azeite de peixe, com o qual os cariocas puderam iluminar seus candeeiros por dois anos.

Pesca de Baleias
Pesca de baleias nas límpidas águas da Guanabara do século XVIII

Como as baleias ocorriam em vários pontos da costa brasileira, e a comercialização do azeite se mostrava altamente lucrativa, a coroa portuguesa estabeleceu monopólio sobre o produto mediante regime de contratação, segundo o qual um particular arrematava o privilégio de explorar a atividade através de pagamento de taxa. No Rio, o primeiro contrato ocorreu provávelmente na década de 1630, e a produção de azeite de baleia seguiu séculos afora como atividade próspera. O primeiro depósito do produto ficava onde foi a rua General Câmara (lado esquerdo da av. Presidente Vargas), próximo ao mar, transferido posteriormente para a Travessa do Comércio. Outro foi construído em 1680 na Misericórdia, cujos vestígios foram encontrados quando os últimos imóveis deste bairro foram destruídos, após o desaparecimento do Morro do Castelo.

A indústria da pesca das baleias também impulsionou a colonização da região de Niterói, pois a administração determinou que o estripamento dos animais fosse feito longe da cidade, pelo mau cheiro e medo das possíveis moléstias associadas a essa atividade. Para essa finalidade foi criada, do outro lado da baía, a Armação de São Domingos, que por muito tempo esteve envolvida nesse comércio.

A pesca intensiva por todo litoral levou a uma diminuição do número dos animais, mas, ainda no século XIX, sua presença viabilizava a indústria. Dois acontecimentos vindouros, contudo, decretariam seu declínio. Enquanto a navegação era movida pela força dos ventos ou remos, as baleias continuavam vindo, oferecendo-se quase que graciosamente ao sacrifício. Mas a chegada dos primeiros navios a vapor as afastou definitivamente. O barulho gerado por essas máquinas era intolerável, e todos os locais que estas frequentavam foram riscados do mapa. A seguir, em 1854, graças à iniciativa do Barão de Mauá, é inaugurada a iluminação a gás, um progresso inacreditável, que relegou ao passado os lampiões a óleo de baleia com sua luz baça.

Assim, os pobres animais puderam ter certo alívio, apesar de sua exploração continuar no mundo todo. Hoje em dia, tanto as baleias quanto os golfinhos, outro símbolo da Guanabara, até fazendo parte de sua bandeira, poucas chances teriam na baía, com suas águas saturadas por todo tipo de poluição, industrial e de esgotos, além de lixo flutuante e óleo. Espera-se que o programa de despoluição da baía, que ocorre há anos, seja algum dia capaz de produzir resultados palpáveis, e possibilitar o reflorescimento da vida animal, como os livros de história mostram já ter ocorrido no passado.

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A Rua do Príncipe

Um dos primeiros bairros fora da região central do Rio de Janeiro, o Catete teve sua ocupação facilitada pela presença de um elemento vital, a água, que corria pelo rio Carioca proveniente da serra do Corcovado. Ao chegar perto da foz, na praia do Flamengo, bifurcava nas imediações da Praça José de Alencar, seguindo o grosso do caudal para o mar, mas com uma parte desviando em direção à cidade, para desaguar na Glória. Era conhecido como "braço norte" do Carioca.

O rio, naturalmente, se fez acompanhar por uma via, ancestral da atual rua do Catete, ao longo da qual surgiram várias chácaras, algumas com grande área, com fundos dando para o mar. A construção do aqueduto da Carioca, no século XVIII, diminuiria considerávelmente a vazão do rio, o que levaria à extinção do braço norte, aterrado a seguir. A região iria adquirir uma nova feição após esta mudança, criando o espaço que viveria sua fase áurea no século XIX.

Rua do Príncipe
Colégio de Meninas da Baronesa de Geslin, na antiga
Rua do Príncipe, hoje Silveira Martins


A carência de moradias súbitamente criada com a vinda da côrte portuguesa, em 1808, fez com que muitos nobres e abastados voltassem sua atenção para o Catete, uma grande e bela região próxima da área central. Muitas das antigas chácaras mudaram de mãos, sendo com frequência os terrenos desmembrados para a construção de novos imóveis. O movimento de expansão imobiliária levou à abertura de duas ruas, chamadas Rua Bela do Príncipe e Rua Bela da Princesa, atuais Silveira Martins e Correia Dutra. Seus nomes eram uma homenagem a D. João VI, ainda príncipe-regente, e sua esposa Carlota Joaquina.

Das muitas construções feitas durante a primeira ocupação da Rua Bela do Príncipe ou Rua do Príncipe simplesmente, todas desapareceram, restando como testemunho apenas os dois leões colocados na entrada do Hotel Novo Mundo, na esquina da Praia do Flamengo. Eram originalmente quatro, que adornavam os dois portões do Colégio de Meninas da Baronesa de Geslin, situado no antigo número 25. O colégio ficava originalmente no Largo dos Leões, e foi posteriormente transferido para o novo prédio da Rua do Príncipe.

O único imóvel a permanecer no trecho entre a praia e a rua do Catete é o Palácio, construído em 1866 pelo Barão de Nova Friburgo, e que 30 anos após passaria à propriedade do Governo Federal. No belo prédio, hoje transformado em museu, aconteceriam alguns dos principais momentos da história republicana do Brasil, tendo o nome Catete se transformado em sinônimo de política. A rua do Príncipe mudaria em 1917 para Silveira Martins, homenageando o político gaúcho banido após a proclamação da República, e chefe civil na revolta antiflorianista de 1893.

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O Hotel dos Estrangeiros

O que conhecemos por hotelaria, presente em todo mundo e essencial à vida de todas comunidades, em verdade nem sempre existiu. Os viajantes acomodavam-se em estalagens precárias ou casas de terceiros, não raro causando desentendimentos, como aconteceu no Rio de Janeiro colonial, quando, por diversas vezes, soldados oriundos de Portugal eram recebidos em casas de família, retribuindo o favor com um comportamento que fazia com que ninguém mais os quisesse.

Até a vinda da côrte portuguesa, em 1808, o panorama não mudou, sendo necessário acomodar-se em imundas pensões e congêneres, pois não havia opção. Com o Rio transformado em capital do reino de Portugal, surgiu em 1816 o primeiro estabelecimento razoável, o Hotel Pharoux, na Praça XV. Sua iniciativa praticamente inaugurou um novo setor, e empreendimentos nas décadas seguintes investiram na qualidade da hospedagem, esforçando-se em equipará-la aos padrões internacionais.

Hotel dos estrangeiros
Hotel dos Estrangeiros, na antiga Praça José de Alencar

Nesse contexto surge, em 1849, o Hotel dos Estrangeiros, localizado entre as atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo. Considerado um dos mais importantes hotéis da história brasileira, destacou-se pelo excelente tratamento dispensado aos clientes durante um século de existência, com belas e higiênicas instalações e oferecendo os mais diversos serviços, como duchas e bilhares, além de possuir restaurante de qualidade. Incorporou novidades, como o telefone, que alguns hóspedes tinham em linha exclusiva nos quartos. A nós não parece nada excepcional, mas coisas banais, como lavanderia, não existiam nos hotéis da época.

Por suas diversas qualidades, o Hotel dos Estrangeiros também passou a ser ponto de referência para reuniões e encontros, principalmente os de natureza política. Foi justamente este fato que transformou-o, em 1915, no palco de um acontecimento trágico, que foi o assassinato do senador Pinheiro Machado. Eminência parda da República Velha, iniciou carreira política após a Guerra do Paraguai, e procurava manipular os rumos da política nacional dos bastidores. Sua influência é atestada por uma frase irônica do presidente Hermes da Fonseca ao seu sucessor, Venceslau Brás: "Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente". Mui amigo.

Com muitos desafetos, o político encontraria seu destino em 8 de setembro de 1915, quando Francisco Manso de Paiva lhe dá uma punhalada nas costas no interior do Hotel dos Estrangeiros. O senador ia ao encontro de Rubião Júnior, do PRP de São Paulo, e morreu logo a seguir. O assassino declarou ter agido por conta própria, não fazendo parte de um complô. Seja como for, o desaparecimento de Pinheiro Machado mudou o panorama político da época.

Este fato não manchou, contudo, a reputação do hotel, no qual, em 09 de novembro de 1936, fundou-se a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, expressão da grande evolução ocorrida no setor desde o século XIX. O belo prédio, entretanto, estava com os dias contados, desaparecendo menos de 20 anos após, e deixando como lembrança sua bela imagem adornando a Praça José de Alencar de outrora.

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