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A Escola da Praia Vermelha

Dentre os vários aspectos que envolvem o nascimento e evolução da cidade do Rio de Janeiro, um dos menos conhecidos talvez seja aquele da história de suas fortificações, em sua maioria despojadas da função defensiva pela evolução tecnológica, mas tendo no passado desempenhado importante papel. Algumas destas veneráveis estruturas sobreviveram na forma original, um certo número desapareceu e outras se transformaram ao longo do tempo, à medida que a área ao seu redor se urbanizava. A Praia Vermelha foi um desses locais em que a presença militar precedeu a ocupação, e até determinou sua configuração.

Antiga Escola Militar
A Escola Militar antes das reformas da Exposição de 1908

A necessidade de postos de defesa avançados justificava-se pelo receio de uma invasão que, desembarcando longe do núcleo urbano, ameaçasse sua segurança atacando pelos flancos. Assim, em 1698, construiu-se uma modesta fortificação nessa praia, considerada ponto vulnerável, o que foi constatado durante a invasão francesa de 1710, pois o francês Duclerc tentou iniciar sua ofensiva por ali, e, sendo repelido, deslocou as naves até Guaratiba, seguindo por terra até o centro da cidade. Os justificados temores levaram o vice-rei Conde da Cunha a construir uma verdadeira fortaleza em 1767, fechando a passagem entre os morros da Urca e Babilônia, e, alguns anos depois, o Marquês do Lavradio ampliaria o complexo, transformando em quartel o pequeno forte do século XVII.

Tendo a necessidade por cursos de formação e aperfeiçoamento de pessoal militar se acentuado a partir da chegada da côrte portuguesa em 1808, D. João VI institui a Academia Real Militar, inicialmente sediada na Casa do Trem (Museu Histórico Nacional), de onde se transferiu para a inacabada catedral no Largo de São Francisco (hoje o IFICS da UFRJ), transformada em 1839 na Escola Militar, de onde finalmente se deslocaria para a fortaleza da Praia Vermelha em 1859, devidamente adaptada para a nova finalidade.

O prédio passaria por nova mudança durante a realização da Exposição Nacional, em 1908, quando se metamorfoseou no Pavilhão das Indústrias, com alterações estéticas em sua fachada, acompanhando o estilo dos demais prédios erguidos especialmente para o certame. Após o famoso evento, sediou a Escola de Estado Maior do Exército, e, em seguida , tornou-se sede do 3º Regimento de Infantaria.

Em 27 de novembro de 1935 foi deflagrada uma rebelião militar de esquerda, e o 3º R.I., por se encontrar na vanguarda do movimento inspirado pela Aliança Nacional Libertadora, foi duramente atingido pela repressão das forças governistas, comandadas pelo general Dutra. O prédio foi seguidamente bombardeado, e, após a contenção da revolta, decidiu-se pela demolição, dado seu estado precário.

A antiga Escola Militar foi sucedida por outras instalações na Praia Vermelha, dentre elas o Instituto Militar de Engenharia, página mais recente em uma história iniciada há mais de trezentos anos, quando alguns poucos e corajosos soldados defenderam a cidade das espadas e bacamartes dos corsários.

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Avenida Atlântica

A história do bairro de Copacabana está ligada, como se sabe, à precoce implantação da infraestrutura de serviços necessários, anterior à plena ocupação do local, com destaque para os meios de transporte. Em 1892 era inaugurado o serviço de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico pelo Túnel Velho, construído para tal, fazendo com que a vasta e desolada extensão se incorporasse ao resto da cidade.

À beira-mar, contudo, sua mais famosa rua ainda não fora construída. A Avenida Atlântica, tida como parte indissociável de Copacabana, talvez só existisse na mente de algum incorporador, sonhando com obras e investimentos futuros. Havia apenas a faixa onde a terra se encontra com a areia, fustigada pelas ondas de um mar desinteressante, pois quase ninguém pensava nele entrar. Muitas das primeiras casas tinham os fundos voltados para a praia e entrada pela Av. Copacabana.

Atlântica em 1936
Avenida Atlântica em 1936, já famosa no mundo inteiro

Tudo mudaria em 1906, quando surge a avenida, integrando-se ao recente acesso pelo Túnel Novo, inaugurado no ano anterior. Iniciativa do prefeito Pereira Passos, que, através de várias obras na orla, como a Av. Beira Mar e a urbanização da Praia de Botafogo, criou um novo caminho onde podiam ser contempladas algumas das mais belas paisagens da cidade. A nova avenida definiu a aparência e a tônica do bairro, daí em diante constituindo-se como seu centro de gravidade.

Mas nem tudo foi fácil, pois o mar castigava a pequena via, que, com apenas seis metros de largura, e quase sem nenhuma proteção, sucumbia periódicamente ao castigo das ondas. A ressaca de janeiro de 1919 foi mais violenta, e, tendo a destruição chegado quase até as casas, fez-se necessária uma completa reconstrução, concluída nesse mesmo ano, com pista duplicada e iluminação central, que formava o famoso colar de pérolas de luzes à noite.

Em 1923 surgia seu prédio mais famoso, o Hotel Copacabana Palace, que não só se transformou em ícone do bairro como também estimulou a febre por novas obras, instituindo o prédio de apartamentos como construção preferencial, em substituição às casas pioneiras. Um ano antes da inauguração do hotel, a mesma avenida foi palco de um acontecimento que marcaria sua história de modo diverso, quando militares do Forte Copacabana, revoltados com a prisão do Marechal Hermes da Fonseca, saíram em marcha para encontrar as forças governistas. Dentre os participantes destacam-se os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, que desempenhariam importante papel no movimento político conhecido como tenentismo.

O tempo só aumentou a fama da Atlântica, e foram necessárias algumas operações de maior ou menor monta para adaptá-la às novas demandas. O alargamento e duplicação das pistas se impôs em função da prioridade concedida ao automóvel como meio de transporte. Na década de 70, foi a vez do interceptor oceânico, além do calçadão, este último dando uma nova amplitude ao local e renovando a marca visual desta avenida, linha de frente em um dos cenários mais belos e conhecidos do mundo.

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A Praça José de Alencar

Durante sua curta estadia como governador do Rio de Janeiro, de 1575 a 1577, Antonio Salema procurou estabelecer uma melhor comunicação com novas áreas agrícolas, como em Botafogo, visando resolver o problema do abastecimento do núcleo colonial e assegurar o desenvolvimento local como modo de evitar ou combater invasões estrangeiras. Pleiteou e obteve junto à coroa portuguesa os recursos necessários à construção de um engenho de cana, às margens da lagoa de Sacopenapã, futura Rodrigo de Freitas, para qual a acessibilidade também era fundamental.

O engenho nunca funcionou, e das obras de Salema, apenas uma sobreviveria, a ponte sobre o rio Carioca, que acabou levando seu nome. Durante séculos, o rio que deu nome à terra formava uma barreira delimitando o Catete do Flamengo, e esta ponte era fundamental no planejamento das novas vias. Construída onde é atualmente a praça José de Alencar, que foi conhecida como Largo do Catete ou da Ponte do Catete, nela se cobrou o primeiro pedágio urbano, de 40 réis por animal ou carro, aplicado até 1866, por quase trezentos anos.

Praça José de Alencar em 1906
José de Alencar em sua bela praça no Rio de Janeiro de 1906

Os primeiros ocupantes se dedicaram à horticultura, além de existirem várias olarias, as quais utilizavam as águas do rio próximo. Do século XVIII em diante surgiram várias chácaras de grande área, sendo que, após 1808, com a vinda da côrte portuguesa, toda região do Catete foi rápidamente ocupada, tornando-se bairro de eleição para moradia dos mais abastados, o que continuou durante várias décadas.

Mas o prédio de maior destaque nesta praça foi o Hotel dos Estrangeiros, que originalmente deveria ser o palacete da chácara do conselheiro Cláudio da Costa, cujas obras foram suspensas em 1831. Com ampliações e modificações necessárias ao seu funcionamento, este luxuoso hotel estabeleceu um novo patamar em termos de qualidade, em um século onde o "know-how" da hospedagem ainda se desenvolvia. A notoriedade do estabelecimento, contudo, ficaria ligada a um acontecimento trágico, o assassinato do senador Pinheiro Machado no saguão hotel em 1915, apunhalado pelas costas pelo padeiro Francisco Manso de Paiva. O desaparecimento do político causou a decadência do partido republicano, do qual era presidente.

O velho largo do Catete mudaria seu nome em definitivo para José de Alencar no ano de 1897, quando foi inaugurada a bela estátua de Rodolfo Bernardelli, que lá se encontra até hoje, em posição diferente. A maior modificação feita nesta praça foi a canalização do rio Carioca, durante a gestão de Pereira Passos na prefeitura, entre 1903 e 1906, e as obras do metrô nos anos 70 iriam fazer desaparecer grande parte dos imóveis, ficando como ponto de referência apenas a Igreja Metodista, construída no século XIX.

A colocação da estátua de Alencar onde era antiga ponte do Salema, junto ao rio Carioca, é bastante simbólica, e uma justa homenagem àquele que, através de várias obras, imortalizou personagens, costumes e acontecimentos históricos desta cidade de São Sebastião.

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A Rua Nova do Conde

Ao chegar ao Rio no século XVI com os primeiros colonizadores, os jesuítas empregaram seu talento e conhecimentos não só na assistência espiritual, mas também e eficazmente no plano material, ao construir templos e seu colégio no Morro do Castelo. Além disso, possuíam fazendas, onde se dedicavam ao cultivo da cana e outras culturas, sendo que uma das maiores abrangia parte da zona norte, indo do Engenho Velho, onde está a Igreja de S. Francisco Xavier, até perto da Baixada Fluminense. Este núcleo agrícola foi o germe da ocupação posterior, gerando a necessidade de comunicação por terra com a cidade, na região central.

As condições do terreno limitavam o acesso, em sua maior parte constituído por pântanos e brejos. Os dois primeiros caminhos, do século XVII, contornavam os obstáculos, sendo que um deles, aberto acima dos charcos, foi chamado de Caminho para o Engenho dos Padres (Rua do Riachuelo), e o outro, um prolongamento da atual Rua da Alfândega, passava por trechos menos alagados. Este último era o Caminho de Capueruçu, nome indígena da Lagoa da Sentinela, situada perto do encontro das atuais ruas do Riachuelo, Frei Caneca e Santana, onde as antigas veredas se uniam, seguindo rumo norte. Por duzentos anos foram as únicas vias existentes.

Rua Frei Caneca
Frei Caneca, antiga Rua Nova do Conde no início do século XX

Em 1765, o vice-rei Conde da Cunha abre nova rua, um prolongamento da Rua do Piolho (Carioca) até a Lagoa da Sentinela. Chamada inicialmente de Rua Nova do Conde da Cunha, seria desdobrada em duas no século XIX, ficando o trecho entre a Praça Tiradentes e o Campo de Santana conhecido como rua Visconde do Rio Branco a partir de 1871. Do Campo até a então drenada Lagoa da Sentinela, mudaria seu nome para Frei Caneca em 1890, em homenagem a um dos líderes da revolta da Confederação do Equador, morto no Recife em 1825. Recém-aberta e ocupada com novas casas, foi presenteada em 1786 com o Chafariz do Lagarto, obra do genial Mestre Valentim, ainda existente. Em 1809, sob D. João VI, inaugurava-se mais um chafariz nesta rua, o do Catumbi, que também chegou até nós, apesar de depredado. Dois monumentos de grande destaque, merecedores de um tratamento mais digno que o atual abandono.

Valorizada no século XIX, sediou a Biblioteca Municipal, de 1874, além de alguns palacetes, como o do Barão de Bela Vista e do Duque de Saxe, marido da princesa D. Leopoldina, mas ficaria mais conhecida pela nova cadeia, perto do Estácio, construída em 1835 e embrião do atual presídio. No século seguinte a rua passaria a ter um caráter mais comercial, tornando-se ponto de referência no comércio de madeiras, como é até hoje em dia.

Mas seu prédio de maior fama é sem dúvida aquele da Gafieira Elite, nascida em 1930 como Dancing Elite Club, situada na esquina do Campo de Santana em uma casa que originalmente foi residência do Duque de Caxias. Esta verdadeira instituição do Rio de Janeiro e de sua música popular está na porta de entrada da antiga rua, assinalando um patrimônio histórico de valor, felizmente preservado em grande parte.

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A Rua dos Teatros

A vida noturna carioca, assim como em outras metrópoles modernas, se encontra dispersa por várias localidades, conseqüência do processo de crescimento e expansão experimentado pelas cidades. Contudo, em épocas passadas, muitas das casas de espetáculo tendiam a se concentrar em uma região, em função da clientela ou tradição, na esperança de garantir sua bilheteria. A partir do século XIX, e por um largo período, a área com maior número de teatros foi a Praça Tiradentes, o antigo Rossio, acompanhando o pioneiro Teatro São Pedro, de 1813.

Durante o nascimento e urbanização da conhecida praça, que era uma grande área entre terrenos alagados e chácaras, é aberta em 1801 uma nova rua, em terras da primitiva sesmaria que no século XVIII pertencia ao guarda-mor Pedro Dias Pais Leme. Ligando a Rua do Senado (iniciada em 1789) à Praça Tiradentes, a Rua do Espírito Santo se tornaria um dos endereços mais conhecidos na vida artística do Rio de Janeiro, nas décadas seguintes e até o século XX.

Rua do Espírito Santo
Rua Pedro I, lar de Chiquinha Gonzaga e de teatros de outrora

Em 1877, inaugurava-se o Teatro Varietés, chamado no ano seguinte de Teatro Variedades, depois Brasilian Garden e por fim, em 1880, Teatro Recreio Dramático, abreviado para Teatro Recreio. Localizava-se no final da rua, em um trecho sem saída, com os fundos dando para a encosta do morro de Santo Antônio. De capacidade média, era muito popular, tendo recebido até mesmo o imperador D. Pedro II em 1884. Fechou suas portas em 1969, após quase cem anos de existência. Outro bastante conhecido foi o Lucinda, de 1880, onde foram representadas peças de autores famosos, como Arthur Azevedo. Esta antiga casa de espetáculos também foi palco de acontecimentos políticos relevantes, quando, em abril de 1906, sediou o Iº Congresso Operário Brasileiro, que decidiu pela criação da Confederação Operária Brasileira e a deflagração da greve geral em 1º de maio de 1907.

Uma das figuras mais conhecidas da vida artística carioca nesta época foi Pascoal Segreto, cuja empresa arrendou o Teatro Carlos Gomes, o São José e o Maison Moderne, em frente ao Carlos Gomes, do outro lado da rua e fazendo lado com a praça. Em seus jardins Segreto fez instalar um parque de diversões com brinquedos, palhaços, mágicos e bandas de música, que tocavam maxixes e tangos, para atrair o público para suas peças. Em 1912, estreava no São José a peça Forrobodó, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, com música de Chiquinha Gonzaga, a mais famosa moradora desta rua, uma presença constante em seus teatros. Viveu e faleceu em seu apartamento, na véspera do carnaval de 1935.

A Rua do Espírito Santo, tão ligada às artes cênicas e à música, passaria em 1921 a se chamar Pedro I, após ter o nome de Luís Gama durante um período. O último teatro remanescente desta era, o Carlos Gomes, nasceu em 1872 como Teatro Cassino Franco-Brésilien, passou por três incêndios, e continua sua trajetória de quase 140 anos em pleno século XXI, como símbolo renascido da arte brasileira, eternamente persistindo e se reinventando.

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O Castelo Invisível

Dentre as diversas áreas que compõem o centro do Rio, uma das mais conhecidas e freqüentadas é aquela do Castelo. Geralmente associado com a avenida presidente Antonio Carlos, esse logradouro é uma idéia bastante vaga para a maioria das pessoas, que tem dificuldade em definir sua abrangência, além de desconhecer a própria origem do nome, pois nunca houve castelo algum no local. Ou teve?

A resposta nos remete à própria origem da cidade, quando Mem de Sá decidiu transferir a Vila Velha, no morro Cara de Cão, para uma região mais central e defensável contra invasores, a partir de 20 de janeiro de 1567. Escolheu-se um morro estrategicamente situado, denominado do Descanso ou São Januário, sendo o primeiro nome uma alusão à merecida paz após as inúmeras lutas travadas com os invasores franceses. Das primeiras construções destacam-se a igreja e colégio dos Jesuítas, a igreja de São Sebastião, onde foi sepultado Estácio de Sá, além da Câmara dos representantes e diversas casas de moradia.

Forte São Sebastião
Antigo Forte de São Sebastião, em desenho de 1730 do Pe. Diogo Soares

Para a defesa dos ataques vindos tanto do mar quanto da terra, erigiu-se a primeira estrutura dedicada a este fim, o Forte São Sebastião, com suas peças de artilharia. Situava-se a mais de 40 metros de altura, em um ponto correspondente ao cruzamento das atuais avenidas Nilo Peçanha e Graça Aranha. Tinha à sua direita a entrada da barra e à esquerda o interior da baía de Guanabara. Era uma construção modesta, de grande fragilidade em caso de ataque direto.

Durante o século XVII, o forte não conheceu grandes melhorias, o que foi incentivado pela relativa tranqüilidade que a cidade desfrutava, sem ataques e maiores problemas. Tudo mudou depois das invasões francesas de 1710 e 1711, onde a precariedade e desorganização da defesa acabou deixando a cidade em maus lençóis, capitulando e tendo de pagar resgate para recobrar sua liberdade. Nos anos seguintes, o antigo baluarte cederia lugar a uma construção muito maior e mais sólida, que recebeu o nome de Forte de São Januário. Dentre as melhorias introduzidas, construiu-se na praça de armas uma torre para depósito da pólvora. Por sua semelhança com estruturas medievais, acabou recebendo a alcunha popular de castelo, o que acabou finalmente mudando o nome do morro de São Januário para aquele de Castelo.

Ruínas do forte do Castelo
Ruínas do portão do Forte do Morro do Castelo, em seus últimos dias

Ao longo do tempo, o forte se deteriorou, mas, persistia, testemunha heróica dos tempos da colonização. Mas não duraria muito tempo, pois, com as reformas feitas na cidade a partir do início do século XX, o destino do Morro do Castelo estava selado. Em 1922, este não mais existia, destruído na gestão do prefeito Carlos Sampaio, liberando uma enorme área à especulação imobiliária e interesses paralelos, aproximadamente entre as ruas São José, Av. Rio Branco, Santa Luzia e Dom Manuel. A cidade de Mem de Sá, onde o Rio nasceu, passava a existir sómente em livros de história, sobrevivendo através de um nome que lembra um passado valoroso, e que não deve ser esquecido.

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O Polêmico Quiosque

Após a guerra do Paraguai, em 1870, a paisagem carioca ganhou um novo elemento, que nos anos seguintes se disseminaria por grande parte da cidade. Não se tratava de nenhuma melhoria do serviço público, mas de inúmeras unidades comerciais de pequeno porte, espalhadas pelas ruas, as quais, pela sua peculiaridade visual, receberam o nome de quiosque.

Imitação de congêneres europeus, eram estruturas de madeira de formato hexagonal, pintadas de côres diversas, evocando uma atmosfera oriental pelas suas formas, especialmente a cobertura de zinco. Originalmente destinados à venda de livros, cartões-postais, revistas e jornais, como um complemento e adorno às ruas, sua utilização com o tempo acabou se desviando bastante da original. Após algum tempo, a maioria deles passou a vender cachaça, café de má qualidade, sardinhas fritas, bilhetes de loteria e jogo de bicho.

O velho quiosque
O antigo quiosque e seu público, para muitos um incômodo vizinho

Tornando-se fundamentalmente um ponto de venda de bebidas, seus clientes, de condição modesta, geralmente não primavam pelo asseio e educação, tornando sua vizinhança altamente inconveniente, que ninguém desejava por perto. Uma das melhores descrições da repulsa existente na época foi feita pelo escritor Luiz Edmundo: "Contra o monstro do quiosque e sua freguesia reclamam as famílias, os homens de negócio e até as gazetas... mas ninguém tem coragem de com eles acabar, os homens de estado encolhem-se, os prefeitos desconversam, os fiscais engordam...".

Por trás desse comércio está Luiz de Freitas Vale, o Barão de Ibirocaí, dono do negócio desde 1898. Milionário com pretensões a origens aristocráticas, a fortuna de Freitas Vale era aumentada pelos pequenos botequins, sustentando mansão em Petrópolis e hábitos dispendiosos. O povo passou a chamá-lo de barão de Ibiroquiosque, uma mordaz ironia, referindo-se a este seu ramo de negócios.

Com as reformas da gestão de Pereira Passos na prefeitura, a situação dos quiosques se tornou insustentável, pois, pelo menos na área central, não se desejava nada que pudesse macular os ares progressistas. A burguesia se apossou do território e desejava escamotear e banir para longe a pobreza e a lembrança do passado, incompatíveis com a nova Paris tropical, o que levou, em 1906, a um ataque aos quiosques do centro, no qual vários deles foram destruídos e incendiados com querosene por grupos revoltados. Os quiosques continuaram a existir até 1911, quando seu contrato encerrou e recolheram-se-se os restantes.

A história dos velhos quiosques mostra o quanto é difícil e complexa a administração do espaço público, arena onde se encontram interesses diversos, com freqüentes conflitos. É preciso conciliar o direito da maioria à livre locomoção e limpeza com as concessões ao comércio de rua que, se bem organizado e localizado, pode oferecer uma contribuição positiva à cidade. Seja como for, a omissão por parte do poder público em enfrentar a questão, como várias vezes aconteceu ao longo do tempo, é algo que simplesmente não pode mais acontecer.

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O Chapéu de Sol

A paisagem carioca, cenário único criado pela natureza, sempre causou forte impacto em todos, e seu incomparável conjunto de montanhas, mar, céu e vegetação deixa uma marca perene nos olhos e na alma do visitante. Pairando sobre e como que coroando todas as elevações, está a montanha do Corcovado, encimada pela estátua do Cristo Redentor, a qual se tornou, desde sua inauguração, o maior símbolo visual da cidade. Para muitas gerações de cariocas, estátua e montanha são uma coisa só, que sempre esteve no mesmo local. Mas em verdade foi o final de uma longa história, ao longo da qual o cume do Corcovado foi conquistado. Assim, poderíamos até mesmo indagar: Como era o Cristo antes do Cristo?

Por séculos, o pico do Corcovado foi sómente objeto de contemplação, ninguém em sã consciência pensaria em subir até local tão inacessível e perigoso. Tudo começou a mudar no século XVIII, quando a falta de água forçou as autoridades a criarem um sistema de captação e transporte do líquido até o Centro da cidade, através de um aqueduto e dos Arcos, em seu trecho final. Com essa obra, passou a existir um caminho que ia até a origem das águas do rio Carioca, nas montanhas do Corcovado, o que levou os primeiros exploradores do século XIX a realizarem o ousado feito em lombo de burro ou cavalo, subindo a partir da Ladeira de Santa Teresa pelo trajeto das atuais ruas Joaquim Murtinho e Almirante Alexandrino, junto ao aqueduto.

Chapéu de Sol
O Chapéu de Sol do Corcovado, no início do século XX

O acesso à montanha só deixaria de ser uma aventura quando, em 1882, os engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares receberam autorização para a construção de uma estrada de ferro que fosse do Cosme Velho até o Corcovado, tornada possível pela recente invenção da tração por cremalheira, do suíço Riggenbach. A obra foi inaugurada em 9 de outubro de 1884, no trecho entre o Cosme Velho e as Paineiras, honrada com a presença do Imperador D. Pedro II e sua família. Os visitantes tiveram o privilégio de realizar uma viagem de sonho por uma floresta quase virgem, da qual se descortinavam fantásticas paisagens, que até então pouquíssimos haviam conhecido.

Em 1º de Janeiro de 1885, a ferrovia chegava até o Alto do Corcovado, ao mesmo local de hoje em dia, e daí subia-se até a plataforma de observação, no local da atual estátua. Para proteger os visitantes do sol inclemente, foi construído um pavilhão de ferro com 13,5 metros de diâmetro, cuja função e formato circular fez com que recebesse o apelido apropriado de "Chapéu de Sol". Foi contemporâneo de nossos bisavós, até que em 1931 fosse finalmente inaugurado o monumento do Cristo Redentor.

Hoje, mais de 120 anos depois, a subida até o Corcovado continua emocionando e impressionando pessoas do mundo todo, e é fundamental, por parte dos responsáveis, a boa conservação deste patrimônio, que inclui tanto a ferrovia quanto o próprio monumento. É uma forma de honrar o legado histórico e as bênçãos recebidas, representadas pelos generosos braços do Redentor, abertos sobre a Guanabara.

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A Glória do Ermitão

As diversas igrejas barrocas do Rio de Janeiro são um testemunho vivo de uma época na qual a devoção religiosa ocupava lugar de destaque na existência das pessoas, talvez por ser um dos poucos canais legítimos através do qual sentimentos e paixões coletivas podiam ser extravasados. Dentre os templos mais antigos, há um cuja origem foi retratada até mesmo de forma romanceada, destacando-se dos demais.

Em seu livro "O Ermitão da Glória", José de Alencar nos introduz ao universo do século XVII carioca, onde a pirataria era uma das ocupações mais freqüentes, seja por parte de ingleses, holandeses ou franceses que, após terem sido expulsos da Guanabara, ainda tinham uma base de operações em Cabo Frio, dedicada ao contrabando de pau-brasil. Além disso, até mesmo os colonos portugueses aderiram ao corso, atacando e saqueando navios estrangeiros. O protagonista do romance, Aires de Lucena, ao atacar um navio francês, acaba por assassinar os pais de uma menina, a qual ele salva e encarrega um amigo de criar. A filha adotiva, Maria da Glória, cresce, e Aires desenvolve uma paixão carnal e psicológicamente quase incestuosa pela moça, colocando-se contra uma interdição divina. O frustrado herói sublima então seus impulsos, construindo uma ermida dedicada à N. Sª da Glória, a qual originou o templo atual.

A Glória do Outeiro
Igreja da Glória do Outeiro, verdadeiro ícone carioca, em 1920

A realidade, por outro lado, embora não sendo tão floreada, tem aspectos históricos interessantes. Tudo começa em meados do século XVII, quando Antônio Caminha chega no Rio de Portugal. Sujeito estranho, andava vestido de frade e gostava de realizar suas adorações religiosas em lugares ermos. Não podia ser chamado de eremita, pois, na verdade, tinha família e filhos. Por outro lado, era escultor excepcional, e entalhou uma imagem de N.Sª da Glória de grande tamanho, colocando-a em 1671 numa ermida de taipa no alto do morro que havia no começo da praia do Flamengo, antiga uruçumirim, local da batalha final com os franceses, em 1567.

O arremedo de templo teve uma freqüência crescente, tornando-se cada vez mais popular, o que fez com que o Dr. Cláudio Gurgel do Amaral, proprietário das terras, as doasse em 1699 para a irmandade responsável pelo culto. Isso feito, o velho Caminha iniciou a construção de uma igreja de verdade, de pedra e cal, obra que só seria concluída em 1739, e que chegou até nossos dias.

No século XIX, a igreja de N.Sª da Glória do Outeiro se tornou a favorita da família real, depois da chegada da côrte portuguesa, tradição iniciada por D. João VI e que continuou durante o Império. Várias cerimônias de gala foram realizadas neste templo, e, em 1849, D. Pedro II concede o título de Imperial à irmandade, ainda presente atualmente.

Com bela arquitetura e localização excepcional, esta igreja se tornou um dos ícones da cidade do Rio ao longo dos séculos, tanto como referência visual em inúmeros livros e obras de arte quanto como lugar de culto, cujo passado se confunde com lendas e mistérios do tempo dos primeiros povoadores da terra carioca.

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Ecos de uma grande festa

A conquista de um novo território é um dos atos mais simbólicos do homem. Inúmeras narrativas históricas e mitológicas descrevem o momento de fundação com grande solenidade, não raro com significação religiosa. Em uma cidade, a história dos bairros de certo modo recapitula esse começo, quando, de modo específico no tempo e espaço, diferentes indivíduos enfrentam o desafio de criar um lugar para melhor viver onde anteriormente nada havia. A anexação de novas áreas geralmente ocorre de forma paulatina, mas há exceções, onde são rapidamente criados novos espaços pelo homem, alterando a face e a dinâmica de uma cidade.

Exposição de 1908
A Exposição Nacional, primeiro momento do bairro da Urca

Após as reformas do governo Rodrigues Alves, que proporcionaram o controle da febre amarela e do cólera, pensou-se em realizar uma grande exposição nacional, para mostrar ao mundo não sómente a nova capital, mas os produtos e mercadorias dos diversos estados e indústrias, onde, em seus pavilhões, as diversas nações pudessem contemplá-los. Foi escolhido o ano de 1908, marcando o centenário da "abertura dos portos ao comércio com as nações amigas", decretada por D. João VI. O local do certame foi um dos mais belos: um trecho que ia da Praia Vermelha até o antigo Hospício, hoje campus da UFRJ (na atual Av. Pasteur).

Em 11 de agosto de 1908, já durante o governo Affonso Penna, é inaugurado o evento. Vários prédios compunham um magnífico conjunto, causando profundo impacto no público e imprensa. A exposição exibiu um quadro extremamente favorável, onde o espírito do progresso, presente em toda parte, fazia sonhar com um futuro de possibilidades ilimitadas.
No embalo da festa e celebração, surge a idéia de se estender o aterro parcial, realizado entre a Av. Pasteur e o Morro da Urca, para criar um novo bairro, mas tal só aconteceria mais de dez anos depois. Aproveitando um caminho originalmente aberto pelo comerciante Domingos Pinto no século XIX, ligando a Praia da Saudade à Fortaleza de São João, nunca concluído, a empresa Sociedade Anônima Empresa da Urca elaborou um plano de aterro, posto em execução a partir de 1921, sendo as primeiras ruas abertas no ano seguinte.

Uma tarde na exposição
O público maravilhado de 1908 contempla uma fascinante exposição

A próxima década se tornaria a mais célebre em sua história, quando o Hotel Balneário foi transformado no Cassino da Urca, em cujo palco desfilaram os maiores nomes da música popular da época, como Carmen Miranda, Emilinha Borba e Marlene. Tudo terminaria no governo Dutra, em 46, quando o jogo foi abolido e os cassinos fechados. O prédio abandonado, contudo, voltaria à ativa em 1950, agora abrigando a TV Tupi, que marcaria o local pelos próximos 30 anos.

Apesar de ser um dos bairros mais novos do Rio, a Urca foi também o ponto de partida da colonização portuguesa da cidade, quando, em 1565, Estácio de Sá instalou sua vila, antes de vencer os franceses, dois anos depois. A esse extrato mais antigo adicionou-se a obra do homem, que, conjugada com a beleza natural transformou este local em um dos mais pitorescos a agradáveis de nossa cidade.

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