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Bater em filho deveria dar cadeia

O governo federal apresentou projeto de lei que proíbe pais de castigarem fisicamente os filhos. Palmada, beliscão, puxão de orelha e outras idiotices que quem tem preguiça de conversar usa para enquadrar crianças.

Bato palmas de pé para o projeto.

Se eu der um tapa em você na rua, você pode me processar.

Por que então você tem direito de agredir seu filho?

Segundo pesquisa do Datafolha 54% dos mais de 10 mil entrevistados declarou que já apanhou dos pais, bateu nos filhos e é contra o projeto do governo. Como se os erros do passado justificassem mais agressões no futuro.

"Ah, mas uma palmada não é agressão", vão dizer.

É sim, e uma agressão violentíssima para uma criança. A criança nunca espera um ato violento de seus pais, até o dia em que ele acontece. Esse dia é um divisor de águas. Aquela violência nunca mais é esquecida.

Uma criança que vai pegar qualquer coisa e leva uma palmada na mão corre sério risco de se tornar um adulto reprimido, medroso, sem iniciativa.

"Ah, mas temos que educar, impor limites", vão continuar dizendo.

Que eu saiba, quem ama educa com palavras, com diálogo. Quem não tem argumentos é que recorre à violência.

Quem tem preguiça de educar é que bate. Quem acha que filho foi um transtorno na vida, e que com ele não se deve perder muito tempo, é que agride.

Um dos comentaristas aí embaixo citou o exemplo da mão na tomada. Primeiro, uma criança de 2 anos já tem o cérebro formado, é possível, sim, conversar com ela, argumentar, explicar que ali é perigoso. Segundo, para o pai que quer relaxar e esquecer que o filho existe, é mais fácil dar-lhe um tapa na primeira vez que ele se aproximar do interruptor do que ficar de olho nele permanentemente, tomar conta. Sim, criar um filho é trabalhoso, exige dedicação, atenção permanente, paciência e disposição para o diálogo, principalmente nos primeiros 10 anos. Quem não quer ter trabalho, traumatiza logo a criança com um safanão na primeira vez que ela estende a mão para o lugar onde dá choque. Aí, acha que educou e que está livre para ler o jornal, para tomar cerveja ou para ver televisão em paz.

Já conheci muita gente que teve que recorrer a psiquiatras pelo resto da vida por ter sido agredido pelos pais na infância. E tem mais, quem agride os filhos quando eles são pequenos está se arriscando a apanhar deles quando for velho. Sim, porque covardia costuma ser paga com covardia.

Quem é educado com a linguagem da agressão física, vai usar esse código pelo resto da vida. Ou então vai reprimir essa violência latente com graves prejuízos para sua saúde psíquica.

Não bata no seu filho, explique a ele seu ponto de vista, que é baseado na maior experiência de vida que você tem em relação a ele. Convença-o. Dá trabalho, mas você estará formando uma pessoa que aprendeu a ser respeitada e saberá respeitar os outros.

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Jornalista que se preza não tem amigos

“Zagueiro que se preza não ganha o prêmio Belford Duarte.”

A declaração foi feita na década de 70 por um defensor do Vasco chamado Moisés, que costumava bater até na família dos atacantes adversários. Ele ironizava um prêmio oferecido pela federação aos jogadores que passassem 10 anos sem uma única expulsão de campo.

Recorri à sabia filosofia futebolística porque vou fazer uma adaptação: jornalista que se preza não tem amigos. Bom, certamente isso é um problema quando o tal jornalista fica desempregado, mas, quando ele está trabalhando, a máxima deve ser aplicada. Sem ela, a independência do repórter vai para as cucuias.

Fiz essa introdução para chegar ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes. Nos contatos que tive com ambos, eles se mostraram pessoas bastante agradáveis. Foram encontros profissionais, mas em clima de descontração.

Jornalista, em geral, é um bicho muito carente. Está sempre ali, de coadjuvante, ouvindo o que os outros têm a dizer (ou pensam que têm) e impedido pela ética de dar sua opinião no texto que escreve (coisa que muitos não conseguem, inclusive eu). Então o repórter, aquele anônimo que vive a emoldurar gente famosa, de repente, está sentado com o governador do estado, ou com o prefeito, trocando ideias e sorrisos olhos nos olhos. Seu ego recebe, enfim, o afago tão esperado. Fica difícil, a partir daí, criticar pessoas tão amáveis.

Muitos políticos usam isso como um truque que os blinda diante da imprensa. Outros não representam. Sua simpatia é autêntica e verdadeira – espero.

A regra vale para qualquer área do jornalismo. Imagine dizer que o disco que o amigo acaba de lançar é uma porcaria, ou que aquele cara legal não está jogando nada e merece ir para a reserva do time...

O cantor Roberto Carlos, com seu milhão de amigos, seria um jornalista ultracomprometido.

Agora, devo dizer que vou criticar o governador e o prefeito meio constrangido. Mas é o meu dever e nesse ponto fico com o zagueiro Moisés. Perco o prêmio do fair play, mas não o texto.

Cabral não deve aguentar mais pedir desculpas à população em nome da PM. Não falo nem da liberação do atropelador de Rafael Mascarenhas. Há oito dias, nossa polícia trocou tiros com bandidos diante de um Ciep cheio de alunos em aula. Um deles, de 11 anos, levou um tiro de fuzil no peito, dentro da sala.

Em vez de pedir desculpas aos pais do menino, o governador do Rio deveria proibir de uma vez operações desastradas como aquela. Tudo bem, ele afastou o comandante do batalhão, mas, se não houver uma determinação clara, outros inocentes morrerão. De que adiantou a PM matar seis traficantes e apreender drogas naquele dia? Nada. Hoje, há outros bandidos lá, e as boca-de-fumo continuam funcionando.

O menino Wesley, porém, não tem reposição.

Fazer esse tipo de incursão policial em favelas revela, no fundo, um profundo desrespeito pelas pessoas honestas que vivem lá. Um tremendo elitismo institucionalizado. A polícia só deve invadir uma favela se for para não sair mais. E para chegar com toda a estrutura que o estado sonegou ãqueles cidadãos por décadas, não apenas com armas e blindados.

Mas os governos sempre dizem que faltam recursos para tornar as comunidades carentes bairros dignos. Para fazer trem bala, no entanto, há R$ 3,7 bilhões em caixa...

O prefeito Paes é outro boa praça. Mas está empurrando a pobreza para debaixo do tapete. Com os abrigos municipais lotados de sem-teto, restou à prefeitura praticamente suspender os acolhimentos. No sábado passado, vi os fiscais do choque de ordem expulsando um grupo de mendigos da Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. O fiscal foi bem claro:

– Se eu encontrar vocês aqui de novo, vou levar para o abrigo. Circulando.

E lá se foi o grupo, cambaleando, para algum lugar bem longe da Zona Sul. Um lugar onde os choques de ordem são bissextos ou nunca acontecem.

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Triste constatação

Quando eu era pequeno, lembro que olhava os policiais fardados com grande admiração. Era como se fossem os super-heróis que eu via na TV, só que em carne e osso, ali, diante de mim. Contemplava suas botas, seu cassetete, o revólver, a farda. Ficava feliz quando algum deles prestava atenção em mim e via que, para aquela criança, ele era um ídolo.

Criança é assim, né? Acredita nas coisas, nas pessoas, no futuro. Por isso, os crimes contra crianças são hediondos, porque destroem uma ilusão de que a vida é boa, de que a felicidade é possível, de que as pessoas são legais... enfim, destrói a pureza.

Voltando à polícia, as coisas aqui no Rio parecem ter chegado a um ponto de virada. Fica difícil, quase impossível, confiar nos agentes da lei. Eles despertam mais medo do que sentimento de proteção. Aliás, sempre foi assim nas favelas, onde o filho chora e a imprensa não vê. Onde o tapa na cara do trabalhador é uma constante, onde, para os estressados policiais, todo mundo é bandido. Todo mundo.

A diferença é que agora estamos nos sentindo assim também no asfalto. Ai de quem depender da PM. Seja para registrar um acidente de trânsito sem vítimas (como contei aqui outro dia), para reclamar do barulho da festa do vizinho, para coibir flanelinhas ou para perseguir um ladrão que acaba de roubar. Quanto mais simples é a demanda do cidadão, mais dificuldades os policiais costumam contrapor para resolver.

A impressão que se tem, infelizmente, é que eles andam o dia inteiro para lá e para cá à caça de propina. Aqui, ali e acolá. É triste, eu sei, não gosto de estar escrevendo isso, mas é a imagem que o cidadão carioca tem.

No ano passado, passei em frente ao Hospital Pinel, em Botafogo, minutos depois de um motoqueiro ser morto com vários tiros por ocupantes de um carro não identificado. Quando os PM chegaram, simplesmente fizeram uma limpa no cadáver. Não deixavam ninguém que não fosse policial se aproximar. Quem tentasse chegar perto, era ameaçado ferozmente. Acho que não sobrou nada de valor na vítima abatida, só a carcaça.

Não há como conceber a liberação do atropelador do filho da atriz Cissa Guimarães com o carro no estado em que se encontrava. Todo amassado, com vidro quebrado, sem placa. Mesmo assim, os PMs o deixaram ir embora. Levaram dinheiro, claro, e esqueceram até das câmeras da CET-Rio a filmá-los. Nem é preciso esperar a sindicância, parece óbvio. Tão óbvio que a justificativa apresentada pelos policiais foi a mais ridícula possível. Disseram que estava escuro e não viram as avarias no carro. Se precisarem atirar à noite, então, estão perdidos.

A situação chegou a tal ponto que não basta mais pagar bem à polícia. É preciso educá-la, ensinar-lhe valores básicos de cidadania, noções de certo e errado, de honestidade, que, ao que parece, são escassas na corporação. Aliás, , da mesma forma que andam raros na sociedade, de onde vêm os policiais. Temos a cultura de corromper. Aquele entre nós que nunca nunca deu um trocado ao guarda, que atire a primeira moeda.

Por isso, vamos à ressalva que evita a generalização: claro, não são todos os policiais. Só uma minoria.

O gozado é que sempre topamos com essa minoria nas ruas...

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