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Olha o outro lado da moeda aí

Vejam só como são as coisas:

Um jornal aqui do Rio publicou no alto da primeira página que o pai de um conhecido comediante foi preso por tráfico de drogas.

O tom da manchete, no entanto, é bem diferente daqule dedicado aos dois jogadores de futebol, negros e nascidos em favelas.

Agora, o jornal é paternal, quase choroso, afinal o humorista é branco e de classe média, ao que se saiba nunca morou numa favela. Merece, portanto, ser exposto da forma mais respeitosa possível.

"Fulano vive um drama com o pai preso por tráfico", diz o jornal (que, como sua nave-mãe, também tem nome de biscoito-que-se-come-na-praia). Aqui é drama; com os atletas é banditismo mesmo.

E segue o subtítulo: "ele diz que se afastou do pai 'por causa de problemas'". Vejam bem, nesse caso a palavra dele vale. Vágner Love também disse que nâo tem ligação com o tráfico, mas isso não valeu de nada. Disseram até que o jogador era "escoltado" por traficantes armados, embora a imagem não dê margem a essa conclusão.

O humorista, que faz boa parte do Brasil rir todos os sábados, certamente não será chamado a depor na delegacia pelo delegado que convocou Adriano e Vágner Love. Ele disse ao jornal que nâo vê o pai há seis anos e isso basta.

Aliás, nem teria por que ser chamado mesmo

No final das contas, ele terá sido vítima apenas da coluna de fofoca do jornal. Embora cuidadosa e cheia de dedos na abordagem, a Candinha de rapina não deixou de expô-lo. Não iria perder esse filé.

Está implicito para nossa sociedade preconceituosa que o ator nada tem a ver com os infelizes negócios do pai. Ninguém tem dúvidas disso. Seu sigilo telefônico não será quebrado, como será o de Adriano, que, em tese, tem direito de presentear quem bem entender, mesmo uma mulher cujo filho é acusado de tráfico. Esse é o estado de direito.

Ser mãe de traficante significa muito quando o assunto é a moto dada por Adriano. Mas ser filho de traficante não significa nada quando está em questão o humorista.

Os jogadores terão que se explicar na delegacia, apesar de a lei dizer que o ônus da prova cabe a quem acusa.

Uma leitora deste blog citou também os casos de dois galãs de novela presos comprando drogas. Foram tratados como vítimas que precisam de ajuda. E são mesmo, excelentes pais, inclusive. Mas vale lembrar que nem Adriano nem Vágner Love foram flagrados em antidoping... e no entanto estão sendo apedrejados. Para os galãs, apareceram tiras compreensivos.

Bom, as coisas são assim...

Aos que disseram que defendo marginais, recomendo um curso urgente de alfabetização, porque este não é um debate policial, mas sobre os limites éticos e legais da imprensa.

Só para encerrar, como disse o leitor ZFlash, que conheço como o Dean Martin da Rua do Russel, sou tricolor e não rubro-negro.

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Perversidade contra dois jogadores de futebol

As últimas "notícias" veiculadas por parte da grande imprensa sobre dois jogadores de futebol de origem humilde mostram mais uma vez o quanto este país, este nosso povo deseducado, é elitista e hipócrita (aliás, o ser humano em geral hoje pensa e age assim em quase todo o mundo, salvo honrosas exceções).

Primeiro, pegaram Adriano Imperador, craque do Flamengo e da Seleção Brasileira, para Cristo. O motivo? Ele teve uma briga pública com a noiva numa favela. Na favela onde nasceu e foi criado, diga-se, até descobrir que o destino lhe havia sorteado uma megasena, dando-lhe o dom de jogar bem o futebol.

Adriano _ ou melhor, sua vida particular _ virou manchete. Como se fosse o único ser humano famoso e rico a se envolver em barracos. Quantos barracos de atrizes de novela, diretores de cinema, políticos e empresários a grande imprensa deixou debaixo do tapete nas últimas décadas?

Não era conveniente publicar... ainda mais na base do "ouvi dizer"

Mas, como se trata de um negro com pouco estudo, a execração pública está liberada. Afinal, se Deus não fosse camarada com ele, Adriano estaria numa esquina dessas defendendo o almoço do dia como flanelinha. Ou dando duro debaixo do sol como auxiliar de pedreiro. Ou até montando guarda numa boca-de-fumo com uma arma na mão. Quem saberá qual teria sido seu destino? Adriano é rico hoje, mas ainda é um favelado sobre quem achamos que podemos tripudiar ao menor escorregão. Adriano escorrega, nós não.

No último domingo, um jornal publicou que o craque promove festas de arromba com prostitutas e animais. Isso mesmo, animais. Se for mesmo verdade (porque o jogador deveria superar seu complexo de vira-lata e ir à Justiça para que provem isso), só quem deve se preocupar é a Sociedade Protetora dos Animais. Nào há uma declaração assumida na suposta reportagem. Acusam Adriano de promover aberrações, mas ninguém tem coragem de dar o próprio nome. "Dois jogadores", diz o texto, contaram a história ao repórter. "Um empresário" confirmou. Isso é o bastante para atacar a hora de uma pessoa? Uma boa fofoca? Hoje, no Brasil, é.

A vida privada de Adriano, por mais estranha que possa ser, não é mais dele, é de todos os brasileiros, que, parece, nada têm de mais importante com que se preocupar.

Ah, têm sim, o Big Brother Brasil...

No domingo à noite, foi a vez de Vágner Love, outro jogador do Flamengo, ser pregado na cruz. Filmaram o rapaz chegando a uma favela em meio a traficantes armados. Descobriram a pólvora? Ninguém sabia que na maioria das comunidades ainda reina o crime organizado? Agora, vão chamar o Vagner Love para depor (porque alguns adoram entrar na onda da TV). Teve um engravatado que apareceu na televisão dizendo que o jogador não deveria frequentar aqueles lugares. Poxa, mas ele nasceu ali, ali estão seus parentes, seus amigos de infância. Alguns viraram bandidos, a maioria não. Ali na Rocinha estão suas raízes. Fazer o quê?

Queriam que o atacante desarmasse os criminosos? Queriam que ligasse para a polícia e dissesse que estava cercado por traficantes? Se o delegado o chamou para depor, tem que exigir explicações também de todos os moradores da comunidade, que convivem com aquela realidade diariamente. E dos políticos, que, em época de campanha, sobem morros após seus assessores negociarem com as quadrilhas o salvo conduto.

Hipocrisia, preconceito acusar apenas os jogadores, que, pelo menos, não estão ali para fazer demagogia e pedir voto.

Quando Vágner Love nasceu, já cantavam na Rocinha os fuzis e metralhadoras. A polícia sabe disso há décadas, não precisa convocar o artilheiro para se informar.

Onde estava o delegado que convocou Love para depor quando Michael Jackson teve que pedir permissão aos traficantes do Santa Marta para gravar um clipe no alto do morro? Aliás, quem fez a segurança da equipe de Jackson e do diretor Spike Lee lá em cima foram os traficantes, como a mídia cansou de noticiar na época...

Mas Vágner Love é um negro brasileiro, mais negro que Adriano. Tem dinheiro, mas não tem berço nem sobrenome.

Seu sobrenome é Love.

Então podemos cair de pau em cima, dando vazão a toda a nossa crueldade, a toda a nossa mediocridade. Provas? Quem precisa delas?

Se os dois forem criminosos, que a polícia os prenda e um juiz os condene. O que se discute aqui é a abordagem jornalística das tais festas de arromba (a denúncia da moto foi posterior) e do vídeo do jogador Love na favela. Elitista como sempre.

Por essas e outras, às vezes, me envergonho de ser jornalista. Mais: de ser humano.

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A amiga dos pombos

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Tive um ótimo professor de biologia, chamado Claudio Mario, que brincava na sala de aula quando falava de pombos. Dizia que, pelos hábitos predadores dessa espécie, era possível entender por que no mundo há tantas guerras:

_ Foram escolher logo esse bicho para símbolo da paz...

As grandes cidades estão infestadas de pombos, que vejo como ratazanas aladas. Isso se deve, em parte, creio, à sujeira reinante, mas também a pessoas como essa senhora da foto acima, que quase todas as manhãs pode ser vista numa das esquinas de Copacabana distribuindo milho às centenas de aves que para lá voam em busca do desjejum.

Um dia desses, parei para falar com ela. Perguntei se não temia pegar uma das doenças que os pombos podem transmitir ao ser humano.

_ Já estou doente do rim _ surpreendeu-me a anciã, resignada.

_ Por causa dos pombos?

_ Não, nada a ver com eles.

Foi a primeira vez que ouvi um argumento desse tipo "se já tenho uma doença não tenho medo de pegar outras". Lembrei imediatamente de uma piada sobre um jogador de futebol que teria tomado muito mais doses de remédio do que o indicado pelo médico do clube. Questionado, ele saiu-se com essa:

_ Bom, mas se é remédio, quanto mais, melhor...

Voltando aos pombinhos, a senhora se queixou de que estão roubando pombos de rua. Não sei se é verdade, mas quando ela disse aquilo seus olhos marejaram.

_ Chegam um carro aí todo dia e levam uns cinco ou seis, não sei para quê.

Fiquei conjecturando sobre o que, a ser verdade aquela história, levaria pessoas a roubarem pombos nas ruas. E lembrei de um motirista do Jornal do Brasil que me deu a receita de pombo a passarinho, iguaria que ele adorava.

_ Mas tem que ser filhote, porque a carne é mais tenra _ segredou-me o gourmet.

Quanto àquela anciã solitária, talvez ela precise mais dos pombos do que eles dela. E como há solitários no formigueiro humano de Copacabana...

Confesso que em determinado momento pensei em repetir para ela que não se deve alimentar pombos, pois aumenta ainda mais sua população e o decorrente desequilíbrio natural, mas vi que de nada adiantaria. Falar dos países europeus que optaram pelo extermínio em massa, nem pensar. De mais a mais, ela estava cercada de pombos que batiam asas em torno de mim, me obrigando a prender a respiração seguidamente. Quando viu meu desconforto no meio daquele filme de Alfred Hitchcock ao vivo, a senhora esboçou um sorriso.

Seus guardiões, mais uma vez, estavam afugentando um intruso que atrapalhou aquele ritual afetivo diário.

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