Rio, 28 de maio de 2012: a rolha inteligente
Peço emprestado esse título ao Alexandre Frias, que colocou essa nota na primeira edição da excelente Revista Baco, dirigida pelos meus competentes amigos (e competentes enólogos e enófilos) Marcelo Copello e Sérgio Queiroz, publicação essa que já está nas principais bancas do Brasil.
É uma ótima notícia para quem gosta, compra e guarda vinhos. Porque a empresa americana Nomacorc, pioneira na fabricação de rolhas sintéticas, já há alguns anos se associou à Universidade Católica do Chile para iniciar um estudo visando melhorar a qualidade da vedação dos vinhos.
Começou com a experiência de sintéticas integrais e, a seguir, experimentou as mistas, ou seja, rolhas com as pontas de cortiça e o “miolo” de um material sintético -- tendo a seriedade de lança-las nas cores vermelhas, pretas, etc, para mostrar "isso não é rolha de cortiça"
e, agora, inova mais uma vez.Acaba de criar uma rolha sintética que gerencia a entrada de oxigênio dentro da garrafa. Ou seja (e cito ipsis litteris o Frias): “assim que o vinho é engarrafado, a rolha libera menos oxigênio, evitando a rápida oxidação. Em contrapartida, com o passar do tempo, a rolha permite a entrada do oxigênio na medida suficiente para a maturação lenta e necessária da evolução do vinho dentro da garrafa...”
Ou seja: conforme o tipo de vinho (para uso imediato, curto prazo ou vinhos de guarda), teremos no futuro a rolha customizada para cada tipo de vinho -- e o seu consumo. Obviamente, não me refiro “aos cardeais” – os Romanées Conti, os Opus One, os Almaviva, os Vega Sicília, os Chambertin, enfim, esses nécatres eternos -- que, espero – continuarão pelos séculos afora usando o tradicional produto do sobreiro: a rolha de cortiça.
Um naco de história:
Até o início do século 18, os bebedores de vinho não dispunham nem das rolha, nem das garrafas atuais. O vinho era retirado dos tonéis logo após a fermentação e colocado em odres, ou ânforas, os quais eram vedadas precariamente com tampões de linho, ou estopas, embebidos em linhaça, e ali permanecia o menor tempo possível, isto é, até ser colocado em pequenas jarras e transportado à taça dos convidados - que o bebiam, portanto, ainda jovem.
A descoberta da rolha de cortiça e da garrafa foram, por conseguinte, as maiores conquistas enológicas não apenas do século XVII -- mas de todos os tempos.
A rolha de cortiça é retirada da casca (manta) do sobreiro – Quercus Suber.

É uma árvore de crescimento demorado (30 anos em diante), encontrada basicamente em Portugal (sobretudo no Alentejo), na Espanha e na Grécia. E só a partir de 1700 passou a ser amarrada por barbantes às garrafas. Nessa época, era formada de cubos maciços de cortiça com arestas aparadas; só em 1820 surgiu o primeiro dispositivo para produzir rolhas cilíndricas.
Ainda hoje, a sua vida útil varia em média de 20 a 50 anos. Nos vinhos do Porto, por exemplo, elas são trocadas uma e até duas vêzes durante a sua longa permanência nas adegas.
Mas de uns anos para cá surgiu não só a rolha sintética, mas a polêmica tampa de rosca – screw-cap..

Os primeiros produtores a utilizá-la foram os da Nova Zelândia e da Austrália, desde o final dos anos 90. Hoje, até a França aderiu – eles lá chamam de stelvin – e, atualmente, há bons rótulos de borgonhas e bordeaux no mercado com esse tipo de vedação. É como uma tampa de refrigerante, revestida de um material que pode ficar em contato com o vinho. Suas vantagens são as de apresentar 0% de risco de contaminação aromática, poder ser tirada e recolocada na garrafa, além de ser altamente indicada para vinhos que não necessitam da presença do oxigênio para melhorar.
"É melhor uma tampa de rosca do que uma rolha ruim", diz Paulo Nicolay, enólogo que assina as cartas de vinhos de vários restaurantes cariocas. Dionísio Chaves, outro sommelier premiado, concorda: "Acho que a tampa de rosca é a única saída para vinhos jovens. Com a quantidade de vinhos que estão sendo engarrafados no mundo, não há cortiça que dê conta. Só vai ter rolha boa para vinhos de grande guarda.
Moral da história:
A rolha de cortiça tem todo o charme de ser algo antigo, tradicional, que faz parte do imaginário de uma garrafa de vinho. Por outro lado, o custo da matéria-prima mais o processamento é alto e às vezes chega a custar entre 25 e 50 cents de euro, podendo chegar a 1 euro - mais do que o preço de custo de um litro de alguns vinhos.
As rolhas sintéticas são mais em conta e barateiam o custo de produção do vinho, mas não têm o charme e a tradição das rolhas de cortiça, nem a aparência de modernidade das de metal.
As screw-cap são as mais baratas de todas, custando no máximo 25 cents de euro. E a maioria já apresenta micro-furos que permitem a passagem de ar. Vinhos australianos, neo-zelandeses, franceses, americanos e alguns chilenos e argentinos já estão adotando este novo formato, como dissemos.
Provocação: já pensaram num Petrus, ou um Cheval Blanc com screw-cap? É difícil aceitar, mas é bom deixar a emoção de lado, porque a vida é a arte do possível e qualquer dia vão embelezar tanto o design da screw-cap, - com nano-reproduções de Portinari, Di, Fukuda, etc... - que não sei não...
O consolo é que o bom, mesmo, é o vinho: a gente não bebe nem a garrafa nem a tampa!
Saúde.