Vida besta (e também pervertida)

Alguns podem chamar de humor negro e mau gosto, outros de politicamente incorreto, o fato é que nunca houve tanta liberdade, inclusive nos quadrinhos. E na hora de fazer piada, ninguém escapa. Nem mesmo os mais poderosos. É o caso de dois lançamentos recentes, “Vida Besta” (Editora Juarez & Donizete) e “Deus, essa gostosa” (Quadrinhos na Cia).
Nas 60 páginas de seu novo livro, Galvão faz uma retrospectiva das tiras da série Vida Besta, publicadas entre 2007 e o início deste ano num jornal de Florianópolis (onde ele mora) e outro de Goiânia (onde ele nasceu). Foram impressos 1.000 exemplares, todos numerados à mão, por uma editora independente em todos os sentidos. “Não temos registro, não pagamos impostos, e vendemos o livro por um preço justo. Todo o lucro que por ventura aparecer será destinado a impressão e publicação de outros títulos, não apenas HQs. É uma ideia minha e de mais um parceiro secreto que não quer ser identificado”, explica.


De fato, o álbum a cores impresso em papel offset está a venda por apenas R$ 25 por uma lojinha no Facebook com frete grátis. “Como somos novos no meio, estamos aprendendo como fazer, mas a gente vai conhecendo um bocado de lojas e pessoas legais que estão dispostas a vender o material, como a Itiban de Curitiba, a Gibiteria de São Paulo, a La Cucaracha do Rio e a RV de Salvador. Minha casa está abarrotada de caixas”, brinca.
Quem acompanha o quadrinista vai perceber as mudanças de técnicas ao longo do tempo, como as fontes utilizadas e as técnicas de pintura. O que não mudou foi o traço típico de Galvão e o sarcasmo, usando e abusando de tiras de relacionamento, filosofia, escatologia e cotidiano.
DEUS NO CORPO DE UMA NEGRA
Por sua vez, Rafael Campos Rocha debuta por uma grande editora, com um álbum de certa forma polêmico, colocando o todo poderoso no papel de uma mulher e negra. O mais provocativo é que a tal protagonista é ninfomaníaca, trabalha em sex shop, adora se masturbar e fazer sexo o tempo todo. Organizado ao longo de sete capítulos, cada um referente a um dos sete primeiros dias da criação do planeta, “Deus, essa gostosa” (88 páginas) termina obviamente com o descanso de Deus.
Com um desenho mais tosco que o de Galvão, Rafael mistura sacanagem explícita com ficção científica, porém sobressai mais com o humor – no quarto dia Deus toma um chopp com Satã – e a aventura. No terceiro dia, ele participa de um banquete com crocodilos em algum lugar do planeta e os desenhos são bacanas.


Ambas as iniciativas são dignas de registro por qualquer pessoa que goste de quadrinho e se proponha a divulga-lo, como é o caso deste blog, porém o autor deve estar sempre preparado para uma reação do público. Isso lembra as tiras de André Dahmer sobre os apóstolos e os judeus. Nesse caso, cabe ao artista ignorar as críticas ou pegar mais leve na próxima. Na dúvida eu prefiro fazer como o Planet Hemp e manter o respeito.
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