Uma das coisas que me deixa mais feliz em editar esse humilde blog é conhecer pessoas e iniciativas interessantes no Brasil e no exterior. É o caso do programa independente
Pipoca e Nanquim, gravado e editado no Centro Universitário de Araraquara (UNIARA), como parte da programação da TV UNIARA, atração exibida no canal por assinatura NET na região. Por trás, os amigos
Bruno Zago,
Daniel Lopes e
Alexandre Callari. Praticamente todo o trabalho é feito pelos três: desde montar o cenário, decidir pauta, colher material e preparar a edição, até escrever os textos de divulgação, responder os emails e cuidar das mídias sociais. Ah, além de atualizar o site, fazer banner, etc. Leia a entrevista e conheça mais sobre esse super trabalho.
JBlog >> O programa é um projeto de extensão? Quem financia?
P&N: Não se trata de um projeto de extensão, é uma iniciativa nossa que foi aceita pela universidade como forma de suprir uma lacuna antes existente em sua grade, a da cultura pop em geral. É como uma parceria, a universidade nos fornece os recursos de filmagem e edição, mas todo conteúdo, produção e direção é por nossa conta, desde a compra dos quadrinhos, DVDs, viagens para cobrir eventos, despesas com manutenção de site, etc... Com o podcast é a mesma coisa, exibido pela rádio do mesmo centro universitário, a UNIARA FM.
Mas, além do centro universitário, temos que mencionar nossos parceiros na web, que auxiliam na divulgação dos programas. Primeiro, o pessoal do blog Nerds Somos Nozes, sem eles jamais seriamos tão vistos, foi nosso primeiro grande passo na internet. Depois, estabelecemos parcerias com o blog Soc Tum Pow e o Área 171.
Jblog >> Vocês gravam um videocast por semana? É um trabalho voluntário?
P&N: Sim, gravamos um videocast e um podcast por semana, é um trabalho voluntário mesmo, não recebemos pagamento por isso, mas em compensação ganhamos a possibilidade de conhecer muita gente na área, reconhecimento por parte daqueles que nos acompanham, e o mais legal de tudo, podemos fazer amizades e trocar idéias sobre esses assuntos que tanto adoramos.
Exige muita dedicação e comprometimento, já que todos os membros do programa possuem trabalhos paralelos para poder pagar as contas. Mesmo assim, cavamos algumas brechas para nos dedicar a isso. Depois da inauguração do site nossa produção aumentou ainda mais, pois precisamos gerar conteúdo durante a semana inteira: videocast de sexta, podcast de segunda e posts de todo tipo nos demais dias. Mas, a resposta do público tem sido excelente e nos incentiva sempre a continuar.
JBlog >> Existe reunião de pauta semanal, por exemplo?
P&N: Sim, muitas vezes nos reunimos, mas em algumas ocasiões as pautas são feitas e conversadas por email, já que nem sempre podemos nos encontrar pessoalmente. Nessas conversas, somente definimos os temas que vamos abordar e algumas indicações principais, pois como os programas são bem informais, o bate-papo se desenrola numa boa, as piadas surgem na hora e sempre nos lembramos de coisas no momento da gravação, o que contribui para ficar mais espontâneo. Nunca fizemos ensaios e raramente fazemos cortes.
Jblog >> Todos os trêsdesenham ou roteirizam quadrinhos também?
P&N: Hoje em dia nenhum dos três desenha quadrinhos, o Bruno desenhava antigamente algumas coisas na linha mangá, mas desencanou, atualmente ele faz alguns roteiros e tenta tirar do papel alguma coisa, mas ainda nada profissional e certo. O Alexandre é escritor, já escreveu sobre gramática, filosofia, atualmente está finalizando um livro de zumbis e também faz alguns roteiros, recentemente uma de suas histórias foi publicada na coletânea Do Além, publicada pela Bodega do Leo. O Daniel só aprecia mesmo e dá dicas construtivas para os outros dois.
JBlog >> Como tem sido a receptividade do mercado editorial com iniciativas independentes como a de vocês?
P&N: Nós ainda estamos em fase de crescimento,muitos ainda não conhecem o Pipoca e Nanquim, mas boas oportunidades já surgiram. As editoras Cia. das Letras e Devir gostaram dos programas e frequentemente nos apóia enviando alguns quadrinhos para resenhas. Isso é ótimo, pois nós ganhamos em conteúdo e eles em divulgação, já que nosso videocast possui uma audiência bastante relevante, entre 10.000 e 25.000 visualizações semanais, a depender do tema escolhido.
Já obtivemos auxilio de lojas de quadrinhos também, como a Gibiteria e a Diversão Store, na realização de sorteios para nossos espectadores. Sempre estamos em busca de oportunidades e parceiros, queremos que as pessoas descubram o Pipoca e Nanquim, pois gostamos muito do que fazemos e acreditamos no nosso trabalho.
JBlog >> Como é a "cena" de HQ aí em Araraquara, tá forte?
P&N: A cena aqui não é das melhores não, viu. Araraquara é interior de São Paulo, estamos na classificação inferior dos setores de distribuição, então não chega às bancas daqui todas as novidades que gostaríamos e as livrarias não tem grande interesse na maioria dos álbuns lançados, então só temos coisas mais badaladas, o que é muito pouco, a salvação é mesmo a internet.
Editoras e jornais que publiquem quadrinhos também não temos, mas às vezes rolam algumas iniciativas independentes como fanzines e tal, mas nada de grande vulto. Mas cabe destacar com orgulho de Araraquara ser a morada de Sebastião Seabra, um veterano dos quadrinhos nacionais, e Lucas Lima, o “pai” da Turma do Nicolau, que ano passado foi um dos escolhidos para o MSP+50.
JBlog >> E por fim conta aí o que vocês tem achado da cena nacional de HQ
P&N: A cena nacional de quadrinhos vem apresentando um melhora crescente. Os leitores brasileiros parecem que estão descobrindo que HQs nacionais podem render excelentes histórias, o Brasil está aprendendo a valorizar seus quadrinhos e várias editoras têm apostado em lançamentos de novos títulos.
O governo também tem colaborado colocando quadrinhos nas bibliotecas escolares com o
PNBE – Programa Nacional Biblioteca da Escola, e incentivando adaptações de clássicos literários, como
Jubiabá,
O Alienista e
A Escrava Isaura (esse último da editora Ática, que inaugurou o selo Clássicos Brasileiros em HQ e lançou vários trabalhos). Há também o
ProAc – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, esse tipo de incentivo é fundamental, isso tem que aumentar cada vez mais. De vez em quando rola umas besteiras, como a censura de graphic novels do
Will Eisner e outras obras, mas no geral a situação está a favor.
Ainda é dureza para alguém sobreviver de produção de quadrinhos no país, infelizmente muitos dos nossos desenhistas precisam ir pro mercado norte-americano se quiserem abraçar a profissão, o que faz com que todos os anos os gringos descubram novos brasileiros de talento. Agora é torcer para que nossas editoras aumentem o número de lançamentos brazucas, e quem sabe um dia alguém resolve pagar salários mensais para desenhistas e roteiristas continuarem a produzir dentro do país.
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