Matéria de capa hoje no Caderno B, a seguir o texto original.
No ano do bicentenário, a Argentina não ganhou a Copa do Mundo de Futebol, mas foi contemplada com o livro
Bienvenido, do jornalista
Paulo Ramos, lançado pela editora
Zarabatana. Em 176 páginas, o leitor pode ter uma boa noção da evolução do mercado, dos autores, editoras e da importância que eles dão aos seus personagens. A menina Mafalda, por exemplo,
virou estátua no bairro de San Telmo, em frente ao prédio onde seu criador, Quino, morou durante anos.
Quando se analisa os quadrinhos argentinos, a primeira coisa que chama a atenção é o processo de nacionalização das tiras e o destaque dado a elas. Desde 2007, 100% das tirinhas publicadas nos principais periódicos do país são de artistas locais.
----- De fato, as tiras na Argentina têm tido um destaque e uma ligação com a sociedade do país muito maior do que aqui no Brasil. Quando dizemos "destaque" fazemos menção ao espaço físico ocupado por elas. No caso do
Clarin, o principal diário de lá, elas tomam quase toda a página final. Funciona como uma contracapa do jornal. ---- explica Paulo Ramos. --- Há quem defenda que a nacionalização das tiras em todos os periódicos de Buenos Aires tenha ocorrido por motivos financeiros. Hoje, sai mais barato pagar a um autor local do que importar histórias dos Estados Unidos, já que um dólar equivale a quase quatro pesos argentinos. Pode até ser, mas não exclui o fato de que sejam nacionais, todas elas.
Sobre o envolvimento da população, o autor lembra o caso do pássaro
Clemente, criado pelo cartunista
Caloi, que aparecia no placar dos estádios durante a Copa do Mundo de Futebol de 1978:
----- O personagem se tornou uma espécie de foco de resistência ao período militar de então durante as partidas da Copa.
De tão popular,
Clemente teve centenas de votos na eleição para o Senado. Fato parecido com o que aconteceu em 1988 no Rio de Janeiro, quando um chimpanzé do zoológico, chamado
Macaco Tião, teve 400 mil votos.
---- O brasileiro também dialoga fortemente com a realidade em muitas de suas histórias, inclusive nas tiras. O que há de diferente é que não ecoa de forma tão eloquente com a sociedade como alguns trabalhos de lá.
Outro exemplo de envolvimento aconteceu quando
Carlos Trillo e
Ernesto Sejas decidiram encerrar as histórias do jornalista mulherengo
El Loco Chávez. Nos estádios de futebol os torcedores cantavam “El Loco no se va, El Loco no se va”. O quadrinista
Roberto Fontanarossa, que criou o personagem
Boogie, El Aceitoso - cujo longa-metragem foi exibido no festival Anima Mundi 2010 – faleceu em 2009 e sua morte foi notícia em todo o país.
O DESAFIO DE SOBREVIVER DOS QUADRINHOS
Tanto lá quanto cá, os desenhistas e roteiristas também cortam um dobrado para conseguir pagar as contas apenas com histórias em quadrinhos. No livro,
Lucas Nine chega a dizer que “a maior parte da historieta argentina se consome fora da Argentina”. O que acontece de fato é que, assim como o Brasil, nossos vizinhos também trabalham para o mercado estrangeiro, onde a remuneração é melhor.
----- Não creio que o caminho da comparação de autores que atuam no exterior seja de ordem qualitativa ou quantitativa. --- explica Ramos. ---- O que há, no entanto, é uma tradição maior de roteiristas de narrativas mais longas. Muitos desses profissionais escrevem para o mercado europeu desde meados da década de 1970, bem antes dos brasileiros. Após serem publicadas na França, Itália ou Espanha, essas histórias costumam retornar à Argentina na forma de álbuns ou seriadas em revistas específicas.
Outra constatação feita no livro é que a mídia reconhece os artistas, há várias editoras, mas o artista ainda é muito mal pago. Igual ao Brasil.
---- Muitos desenhistas precisam fazer outros trabalhos para viverem, como ilustrações e projetos para a área publicitária. Mas produzem e procuram se manter no meio, como cá. Quem se sai melhor são aqueles que têm projetos feitos para o mercado externo, em particular o francês, que permite um fôlego financeiro um pouco maior.
É o caso do publicitário
Ricardo Liniers, que ilustrou a capa de
Bienvenido. Levado para o jornal
La Nacion pela quadrinista
Maitena, autora da série
Mulheres Alteradas, ele criou sua própria editora (Editorial Común) e se tornou um fenômeno editorial.
---- A sexta coletânea de
Macanudo, a primeira pela editora dele, esgotou em questão de dias no final de 2008. A primeira tiragem foi de 5 mil exemplares.
O pulo do gato foi personalizar todas as capas da primeira edição, desenhando a mão cada uma. No ano passado, Liniers levou o
Prêmio HQ Mix de melhor desenhista estrangeiro e começou a publicar num grande periódico de São Paulo.
Apesar do “faz-me-rir” no final do mês, os artistas consideram os veículos impressos um importante veículo de divulgação. “Te chamam para trabalhos por que é o desenhista do jornal”, diz
Max Aguirre, que também aceitou o convite do
La Nacion pela visibilidade oferecida. É também o caso de
Salvador Sanz, que complementa sua renda fazendo
storyboards para publicidade e TV.
O CASO DA FIERRO
Nos jornais, há quase que uma predominância do humor político, já que a Argentina sofreu várias trocas de comando por meio de golpes militares e, claro, censura. Um caso interessante é o da revista
Fierro, que teve sua primeira encarnação editorial entre 1984 e 1992.
Catorze anos depois, ela voltou com periodicidade mensal, 64 páginas e tiragem de 15 mil exemplares, encartada no jornal
Pagina/12 – que arca com os custos de impressão, o salário dos editores e o pagamento dos autores. Em troca, fica com o dinheiro das vendas e das propagandas veiculadas. Na opinião do chefe de redação,
Lautaro Ortiz, a boa aceitação se deve ao perfil do leitor do jornal, mais intelectualizado e afinado com a esquerda, que tende a gostar de quadrinhos. Há pouco mais de um mês, o próprio Paulo Ramos noticiou que a
Fierro ganharia uma versão brasileira em breve.
---- Naquela ocasião, apuramos que o projeto da editora Zarabatana, que banca a idéia, é publicar o primeiro número já neste segundo semestre. O objetivo inicial é mesclar material de lá com o de autores brasileiros.
Aliás, editora é um assunto polêmico entre os
hermanos. Na opinião de
Javier Doey, que já teve alguns selos de quadrinhos, “as HQs não são Best Sellers na Argentina por que as editoras não relançam em livrarias os projetos bem sucedidos”. Daí ele vender mais seus trabalhos para a França. O roteirista
Carlos Trillo, que também já teve sua própria editora, diz que o mercado se reduziu.
Num país onde existe o hábito da leitura, existem várias comiquerías, ou seja, lojas especializadas que vendem HQs de heróis, europeus, mangás e locais. A distribuição é melhor, mesmo para os independentes, porém o patrocínio do governo não é tão substancial. Então por que os argentinos, tão politizados, ainda não se envolveram politicamente para construir um programa de políticas públicas como já existe, por exemplo, no cinema de lá?
---- Boa pergunta. Mas não sei dizer. ---- devolve Paulo Ramos.
Em 2004, o governo federal declarou como sendo de interesse cultural a obra literária de
Héctor Oesterheld, por ele ter elevado a historieta a literatura desenhada. O escritor de quadrinhos é um dos milhares de desaparecidos políticos do regime autoritário iniciado em 1976. Ele e suas quatro filhas. Na última parte de
Bienvenido, Paulo publicou uma emocionante entrevista com a viúva de Oesterheld.
INTERCÂMBIO SUL-AMERICANO
Apesar da proximidade geográfica, o intercâmbio entre quadrinhos brasileiros e argentinos é mínimo se comparado a EUA e Japão. O gaúcho
Adão Iturrasgarai se mudou para a Patagônia em 2007 e começou a publicar por lá no ano seguinte. No ano passado, alguns brasileiros estiveram no festival
Viñetas Sueltas. Por sua vez,
Pablo Holmberg, mais conhecido como
Kioskerman, começou a enviar suas tiras por e-mail para 2.000 pessoas e algumas saíram na primeira edição da revista carioca
Beleléu, no início deste ano. Mas ainda é pouco. O que falta para estreitar esta relação?
----- Muitos colegas jornalistas têm me feito a mesma pergunta, o que tem me levado a pensar mais a fundo sobre o tema. Minha hipótese é que tivemos uma tradição quase cega de importação de conteúdo norte-americano, o que ofuscou obras do mercado latino-americano, com raras exceções. Mesmo quadrinhos europeus chegaram ao Brasil sombreados pelos personagens norte-americanos. Para que tal relação fique mais estreita, faltam iniciativas como as das editoras Zarabatana e Martins Fontes, que publicarão obras importantes da Argentina, inéditas aqui no país.
Paulo confessa conhecer pouco os quadrinhos de outros países como Chile, Uruguai, Peru, Bolívia e Venezuela, mas faz um paralelo entre a produção argentina e a brasileira:
----- Nesse ponto, coincidimos muito no humor, tanto nas tiras quanto nas charges e cartuns. Nos separamos no terror e no erotismo, gêneros muito explorados no Brasil. E estamos bem distantes deles no tocante a narrativas maiores, de aventura ou ficção científica, área em que eles têm um histórico de décadas com produções ímpares, a maioria desconhecida do leitor brasileiro.
Leia também:
Políticas públicas para os quadrinhos brasileiros