Dentre as tantas efemérides do Brasil, há espaço para o
Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, celebrado hoje. A data foi escolhida por que em 30 de janeiro de 1869
Angelo Agostini publicou em jornal
As Aventuras de Nhô Quim, considerada a primeira HQ nacional. Um termo bastante apropriado, uma vez que, desde os anos 50, a classe artística luta por mais políticas públicas para o desenvolvimento de histórias tipicamente brasileiras e a consolidação do gênero dentro do mercado editorial.
Em contraponto à crise sentida no mercado de quadrinhos dos EUA e Europa, autores e editores brasileiros afirmam que 2009 foi um ano bom para esta arte produzido no Brasil. A explicação é longa, mas passa pela imensa variedade de temas, gêneros e estilos de desenho, associada a uma crescente profissionalização.
Rogerio de Campos, da editora Conrad, aponta profissionais brasileiros em destaque num contexto global:
– Dá para colocar tranquilamente o Marcello Quintanilha, por exemplo, como um dos autores mais importantes dos quadrinhos mundiais contemporâneos.
CHICO BENTO ADOLESCENTE
Veterano no mercado nacional,
Mauricio de Sousa celebra o sucesso da
Turma da Mônica Jovem: graças aos personagens adolescentes seu estúdio poderá lançar novos projetos em parceria com a editora Panini. Estão na fila a Turma do Chico Bento Jovem e revistas especiais em cima dos lançamentos de desenhos animados em produção: Penadinho, Astronauta e Horácio. Há também um projeto antigo, que mistura os seus personagens aos do maior autor de mangás japoneses, Osamu Tezuka.
– Na área internacional, avançamos bastante, principalmente na distribuição de tiras para jornais no mundo inteiro – destaca Mauricio de Sousa. – Particularmente com o personagem Ronaldinho Gaúcho, que já fala mais de 30 idiomas. Fora revistas, principalmente na Europa.
Quem também investiu em rejuvenescimento de personagem foi a Ediouro, que em junho lançou a revista
Luluzinha Teen. O editor
Daniel Stycer confirma a satisfação da editora.
– Fizemos uma aposta, que foi resgatar uma personagem há anos fora da mídia e dar nova vida a ela, que conquistou de cara uma legião de novos fãs – ressalta Stycer. – Isso se revela não apenas na compra da revista em banca, mas em inúmeros sites, blogs e posts que publicam diariamente. Lulu Teen é um fenômeno.
Ziraldo, por sua vez, investiu em futebol, lançando a história do Corinthians e do Flamengo no formato de Histórias em Quadrinhos. Outros times serão contemplados neste ano, como adianta Miguel Mendes, seu braço direito e administrador do estúdio Megatério.
– Já estão prontas as histórias do Vasco e do Palmeiras – conta Mendes. – Com exceção do Flamengo, aproveitamos para lançar mascotes dos times desenhados pelo Ziraldo. Já está na rua o Mosqueteiro, o Mosquetinho e a Mosquetinha do Corinthians.
A editora Devir, que mais lança HQs por ano, também manteve uma boa quantidade de publicações de qualidade. O editor
Douglas Quinta Reis confirma a intenção de manter o ritmo em 2010.
– Em janeiro, já lançamos
Joquempô, de Rogério Vilela e Nelson Cosentino, o primeiro trabalho de um projeto de fôlego. Outras coisas estão a caminho, entre eles um livro novo do Laudo Ferreira, outro do Marcatti e dois do Fernando Gonsales – adianta Reis. – Também acho importante ter pesquisas e textos teóricos sobre o assunto. Estamos planejando um livro sobre o Ângelo Agostini com o Maringoni e outro sobre ficção científica produzida no Brasil com a Mary Elisabeth Ginway.
A editora
Gabriela Javier, da Desiderata, concorda que 2009 foi um ano de valorização dos quadrinhos pelo mercado editorial, com mais destaque aos lançamentos tanto na imprensa como nas livrarias.
– Espero que essa valorização continue e que o mercado não desanime com os resultados, que não são tão rápidos quanto os dos livros tradicionais – torce Gabriela. – E que o público continue descobrindo que há títulos para todos os gostos, dos super-heróis até temas profundos.
Com três lançamentos agendados para 2010,
André Diniz começa o ano com
Quilombo Orum Aiê, que aposta na história do Brasil para vender gibis.
– A revista sai até março pela Record e conta a saga de três escravos e um branco foragido que partem em busca de um quilombo utópico, após a Revolta dos escravos malês de 1831.
Quem também tem lançamento programado é
Allan Sieber, que a convite da Desiderata/ Agir lançará sua adaptação de histórias do João do Rio, baseadas nos livros Dentro da noite e A alma encantadora das ruas. Na esteira do seriado
Aline, que a globo exibiu no ano passado, em breve a TV Brasil lançará o sitcom
Vida de Estagiário, inspirado no livro do cartunista.
Andre Dahmer, criador dos
Malvados, lembra que uma nova geração muito boa está se formando: Rafael Sica, Salimena, Estevão e João Montanaro, só para citar alguns.
– O mais importante é que a velha geração continua afiada e não se acomodou – comenta Dahmer.
Para Rogerio de Campos, da Conrad, o mercado vai se abrir mais para o quadrinho nacional à medida em que o público for seduzido: – Falta um novo quadrinho popular brasileiro, que vai surgir, naturalmente, de um canto inesperado do país.
Homenageado em 2009 com um álbum desenhado a 50 mãos diferentes, batizado
MSP 50, celebrando seus 50 anos de carreira, Mauricio de Sousa destaca a adaptação de clássicos da literatura para o formato dos quadrinhos. E vai além: – Desde que atingimos números maiores do que os produtos estrangeiros penso que todo dia pode ser do quadrinho nacional. Sempre vai haver mais gente lendo material brasileiro do que de fora. Gibis são para hoje e sempre.