O que ainda vale a pena dizer sobre Watchmen

Passei o carnaval deste ano finalizando minha monografia de MBA intitulada “As Tendências do Mercado de Histórias em Quadrinhos no Brasil”. Uma das coisas que me chamou atenção no período foi a quantidade de crianças fantasiadas de Superman, Batman e Homem Aranha. Como estes heróis ainda fascinam os pequenos! E também os grandes. Do contrário, o filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” não renderia mais de US$ 1 bilhão, entrando pra história como o 4º maior faturamento do cinema.
Logo depois, o espectador brasileiro se viu em meio a mais uma transposição dos quadrinhos para a tela grande com “Watchmen”, de Alan Moore. Foi uma grande alegria ver o quanto a mídia recebeu bem o produto, sobretudo por que eu sei o quanto é difícil conseguir espaço para HQs inclusive em cadernos literários. Baseada numa graphic novel de grande sucesso, a versão cinematográfica foi vista e revista por tantos aspectos, estéticos e filosóficos inclusive, que não sobrou muito a comentar.
Diferentemente de “Batman” e da mesma forma que “Spirit”, o espectador que se dispõe a passar três horas no cinema deveria ao menos saber um pouquinho do que se trata “Watchmen” em sua versão original. Ainda que o texto seja dos anos 80, muitas das críticas e reflexões são atuais, como o emprego da energia nuclear, o fascismo e a guerra silenciosa entre nações – no filme EUA versus URSS, hoje EUA e países árabes, por exemplo.


Sim, é um filme realista e violento, porém dentro das normas americanas para permitir a entrada de menores acompanhados dos pais. Os heróis são pessoas normais fantasiadas, com exceção do Dr Manhattan, a própria personificação de Deus. Os demais seres humanos cometem erros, traem, fazem sexo, são vaidosos e não matam os vilões. Apenas batem, e batem muito. Como sempre, existem personagens que herdam a fortuna dos pais e decidem ser cientistas ou fazer filantropia científica em prol da humanidade.
A cereja do bolo está mesmo nas piadas e nas críticas que valeriam para qualquer lugar do planeta. Em determinada cena, por exemplo, o Homem Mais Inteligente do Mundo pergunta aos seus amigos heróis: “você acha mesmo que eu sou como vilão de HQ que revela o plano antes de acontecer?”, Em outra passagem, alguém olha a foto de Ronald Reagan e pergunta ao outro: “você acha que eles voltariam num caubói?”.
O conceito dos Vigilantes traz ainda a inquietação “quem vigia quem?”. Trazendo isso pra realidade brasileira, onde a colocação de câmeras tornou-se uma pseudo-solução de segurança, e a polícia pode ser ao mesmo tempo bandido, a questão é pertinente. Seriam os justiceiros mocinhos ou vilões? No filme “Spirit”, que ainda não assisti, o protagonista é um detetive de carne e osso, que também usa máscara. Enfim, se “Watchmen – O Filme” será um sucesso de bilheteria ou entrará para a galeria dos filmes “cult”, ainda é cedo pra dizer. Mas assista de preferências duas vezes. Uma para se entreter, a outra para analisar com olhos críticos. Se nos quadrinhos não era um prato de fácil digestão, no cinema não poderia ser diferente.

A única unanimidade é a trilha sonora, com músicas de Bob Dylan, Nat King Cole, Billie Holiday, Jimmy Hendrix, Simon & Garfunkel, My Chemical Romance, Janis Joplin, Nina Simone, Smashing Pumpkins e outros como a versão para “Ride of the Valkyries” da Budapest Symphony Orchestra. Esse super repertório eu já fiz questão de colocar no mp3 player.



















