Arquivo de November 2008

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Preto no branco: a revolta da Chibata

revolta da chibata capa
No dia 22 de novembro de 1910, os marinheiros do encouraçado Minas Gerais tomaram o controle do navio após luta e derramamento de sangue. Indignados com os maus tratos, sobretudo a péssima alimentação e as punições com palmatória e chibata, os marujos liderados por João Cândido conseguiram adesão dos demais companheiros, que também se amotinaram em outras embarcações.

Conhecida como A Revolta da Chibata, a ação teve efeito imediato na cidade do Rio de Janeiro, então capital da república, com navios enormes apontando seus canhões para terra. Apesar de concedida a anistia aos revoltosos pelo Marechal Hermes da Fonseca, sucederam-se uma série de prisões e assassinatos dos envolvidos, até hoje não explicados. Preso, torturado e internado num hospício, João ficou conhecido como Almirante Negro, inspirando outras rebeliões em prol da igualdade entre negros e brancos.

Nesta envolvente história da dupla cearense Olinto Gadelha (roteiro) e Hemeterio (arte), toda em preto e branco, o leitor é convidado a reviver aqueles dias de tensão na baía de Guanabara e o drama que acompanhou João Cândido até sua morte, em 1969, aos 89 anos de idade. O traço ora caricatural ora artístico encontra berço no uso inteligente do contraste e do enquadramento cinematográfico com uma grande riqueza de detalhes – por exemplo, na cena de Oswald de Andrade com o bonde 22 passando atrás, em alusão a Semana de Arte de 1922, e na redação dos Diários Associados em 1944 durante a 2ª Guerra Mundial.

Também transparecem influências do surrealismo, a mistura de ação e humor que o falecido Will Eisner usou tão bem nas histórias do Spirit e a técnica de fusão de imagens. A passagem de uma cena para outra utilizando as mesmas posições, transição que Dave McKean fez com maestria no clássico Orquídea Negra (1989), foi assimilado e bem executado por Hemeterio. Impossível não ler sem visualizar mentalmente a seqüência de imagens. Além de uma bela homenagem a tão importante luta pela liberdade, o álbum Chibata! (Conrad Editora) daria um bom desenho animado, algo fundamental de se pensar em tempos onde tudo converge para telas de todos os tamanhos.

Chibata 2 pag interna
Chibata pag 1 interna

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Presente de natal para os fãs de Tintin

Há quem prefira Asterix, há quem goste mais dele e há pessoas como eu, que gostam dos dois. O repórter Tintin e seu inseparável cachorro Milu foram criados pelo quadrinista belga Hergé (1907-1983) - que adotou este pseudônimo por conta de suas iniciais R e G, de Remi Georges - e deram origem a uma série de álbuns geniais. Além dos bons roteiros, as HQs eram fiéis aos cenários, costumes e as roupas dos habitantes do país onde a aventura se passava. Esse importante detalhe é fruto de um acervo particular de referências históricas e culturais do artista, o que fazia a diferença em tempos onde nem se falava em sites de busca na internet.

O sucesso dos álbuns foi tanto que deu origem a uma série de desenhos animados exibida em mais de 60 países. Diferente dos desenhos de hoje, com traços vetoriais e cores padronizadas, As Aventuras de Tintin conseguem unir o melhor da arte de Hergé com uma boa sonoplastia, ritmo, suspense, aventura e uma pitada de humor. Sem apelação, as histórias seguem a linha da boa moral, onde o mal vence o bem no final. Mesmo quando algum personagem morre, como no episódio passado na Chicago dos gangsters, não espirra sangue na tela ou algo do tipo. Há um toque humanizado e até mesmo críticas veladas ao consumismo - a cantora lírica Bianca Castafiore e seu apego pelas jóias - e ao alcoolismo, personficado pelo capitão Haddock, que em suas viagens carrega uma garrafa de uísque mas, por algum motivo, ela acaba quebrando.
Box Tintin capa

Polêmicas a parte, o importante é que as três temporadas dos desenhos animados inspirados pelos filmes noir dos anos 30 foram reunidos num só box, “As Aventuras de Tintin”, e lançados no Brasil pela Log ON. Ao todo são nove DVDs e 39 episódios, pelo preço sugerido de R$ 139,90. Cada temporada também pode ser adquirida separadamente ao custo de R$ 59,90 cada. O mais interessante é que algumas histórias se complementam. Personagens que aparecem numa aventura, reaparecem mais adiante em outra, num país diferente. Ou mesmo num outro planeta, caso de Rumo à Lua (partes 1 e 2) e Explorando a Lua (partes 1 e 2). O mais curioso é ouvir a dublagem em inglês onde Milu vira Snowy e professor Girassol vira professor Calculus - segundo a distribuidora, essa tradução será corrigida no próximo lote.

Confira detalhadamente a seguir os episódios e as temporadas:
pack tintin 1a temporada
1a TEMPORADA
‘O Caranguejo das Tenazes de Ouro’
‘O Segredo do Unicórnio’
‘O Tesouro Vermelho dos Rackham’
'Os Charutos do Faraó´
'O Loto Azul´
'A Ilha Negra´
'O caso Girassol´

pack tintin 2a temporada
2a TEMPORADA
'A estrela Misteriosa´
'O Ídolo Roubado´
'O Cetro de Otocar´
'Tintin no Tibete´
'Tintin e os Tímpanos´
'Tintin no País do Ouro Negro´
'Vôo 714 para Siddney´

pack tintin 3a temporada
3a TEMPORADA
'Perdidos no Mar´
'As 7 Bolas de Cristal´
'O Templo do Sol´
'As Jóias da Castafiore´
'Rumo à Lua´
'Explorando a Lua´
'Tintin na América´

Apesar da ordem no DVD não corresponder a ordem cronológica da série - até o sexto, por exemplo, Tintin não conhecia o Capitão Hadock - e de não ter nenhum extra, os desenhos estão com a mesma qualidade exibida na TV e são peça obrigatória para tintinófilos como eu. Ah, fique de olho, em 2009 o filme sobre o repórter chegará às telas dos cinemas, adaptado por nada mais nada menos que Steven Spielberg.

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A exposição que eu tanto esperei pra ver...

1 fest humor EU

Eu confesso. Minha maior inspiração para começar a desenhar histórias em quadrinhos foi a revista Chiclete com Banana e seus derivados. Por isso não titubiei em conferir ao vivo e a cores a exposição de dois quadrinistas que tanto me serviram de modelo: Angeli e Laerte. Cada um a seu jeito. Nesta mini reportagem fotográfica, conto pra você um pouco do que vi no Centro Cultural Correios, no centro do Rio.

1 Fest de Humor visao geral da exposicao

"Angeli genial"
Comecei pela exposição do Angeli, a maior de todas, ocupando a maior parte dos dois salões principais no terceiro andar. Não conhecia a primeira fase dele, mais engajada, com o traço bem parecido com o pessoal que publicava no jornal O Pasquim. A partir dali são diversos originais de seus personagens, além de bonecos, cartazes e seções especiais dedicadas a quadrinhos de sexo, música e outras pirações. Nada como ver um original retocado a mão, com as letras à mão e balões colados por cima do desenho. Também impressiona ver a rápida evolução não apenas no traço, mas também na pintura com tinta de verdade - nada de baldinho do Photoshop...

1 Fest Humor boneco do angeli

Só faltou duas coisas na exposição do Angeli: um cenário urbano, pixado, típico de suas HQs bem paulistanas, onde todo mundo usa preto e cospe nos homens de terno; e um som ambiente. Afinal, foi lendo Bob Cuspe que eu comecei a ouvir The Clash e a inserir rock nas minhas histórias como trilha sonora, fazendo os personagens cantar, etc. A diferença é que sempre privilegiei as bandas independentes do underground nacional. Em tempo, vale a pena ler "Satisfaction", a HQ sobre o dia em que ele ganhou um compacto dos Stones.

1 fest humor Angeli cartazes
1 fest humor parede Angeli

"Laerte et real"
Na sala ao lado estava a retrospectiva ilustrada do gênio Laerte, outro que começou pelas vias do quadrinho sindical mas que também se destacou pelos personagens, como Piratas do Tietê, O Síndico (quem diria, inspirado no síndico de um prédio onde ele morou) e os gatinhos, entre outros. Havia pouca coisa dele que eu ainda não havia lido, mas valeu a pena.

1 fest humor Laerte

"Ver Veríssimo"
Seguindo o fluxo, a sala da exposição em homenagem ao Luiz Fernando Veríssimo, com tiras das cobras e outras tantas. Bacana a disposição delas, a idéia das camas e a pintura na parede que eu tive de fotografar, olha aí.

1 fest humor verissimo parede
1 fest humor verissimo cama

Ainda no 3o andar, haja pernas, a exposição do "Prêmio Desenho de Imprensa 2008" com os selecionados e os vencedores. Não tão empolgante. Aliás, pelo mesmo motivo que vários outros concursos: a vitória da técnica, do traço perfeito (muitas vezes vetorial, o tal mouse sobre tela, ou tablet sobre tela) e da pintura primordial em detrimento da piada propriamente dita. Se você for lá na exposição e não der tempo de ver tudo, deixe essa pra outro dia.

1 fest humor premio desenho imprensa

"World Press Cartoon"
Descendo para o térreo, rola uma exposição com cartuns premiados pelo mundo todo, incluíndo alguns brasileiros. Também achei com altos e baixos, mas esse desenho aí embaixo me capturou. Lembra a logo da Manifesto Discos, selo do Bill, que tocava na banda Noção de Nada. E assim terminou meu passeio pelo 1o Festival Internacional de Humor do Rio de Janeiro. Aproveite você também para conhecer e dar boas risadas. Vai até 23 de novembro, das 12h às 19h com entrada franca.

1 fest humor trabalho do world cartoon
1 fest humor world press

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