O gosto amargo de uma briga conjugal

A iraniana Marjane Satrapi ficou mundialmente famosa quando a sua história em quadrinhos Persépolis foi adaptada para o cinema, num divertido e emocionante longa metragem em animação. Agora, a mesma editora que lançou a obra anterior no Brasil também põe nas livrarias Frango com Ameixas (Companhia das Letras), lançado originalmente em 2004.
Inspirado numa história real, ocorrida 10 anos antes de Marjane nascer, narra um episódio sobre um querido tio-avô que entrou em depressão após uma briga conjugal. O motivo? Nasser Ali Khan havia se esquecido de um compromisso enquanto tocava. No meio da confusão, a esposa gritava e ele tentava se explicar: “Você casou com um músico, não com um operário!”. Só isso já renderia um complexo texto sobre como a sociedade enxerga a arte como profissão.
Enfim, teria sido só mais uma briga conjugal se a esposa não tivesse quebrado o seu estimado tar – instrumento iraniano que o acompanhava por anos e feito dele um dos maiores músicos do país. Frustrado por não conseguir adquirir outro tar com tamanha qualidade, Nasser Ali decide morrer. A partir dali, serão oito dias de conflitos, com reflexões sobre a vida e o mundo.

Inteligentemente, a autora utilizou o recurso dos quadros com fundo negro para distinguir o que são flashbacks (recordações do passado) da narrativa presente. O título do livro é explicado no terceiro dia em que o protagonista continua trancado no quarto. Sua esposa decide servir o seu prato predileto: frango com ameixas. Mas àquela altura do campeonato, Nasser não gostava de mais nada, muito menos da esposa, a quem nunca perdoaria por ter quebrado seu instrumento musical. “Perdi o gosto, o sabor, o prazer”, diz à mulher, que vai embora furiosa.
O quarto dia é um dos mais interessantes. Narra a autora: “Nenhum dia na curta vida de Nasser Ali Khan foi mais sinistro do que aquele18 de novembro de 1958. (...) Embora ele estivesse à espera da morte fazia quatro dias, apenas sua filha caçula, a Farzaeh, lhe dedicara alguns minutos de seu tempo. A ingratidão dos três outros filhos o deixava profundamente amargurado”. O personagem principal decide então sair do quarto para conversar com dois filhos, que não ligam a mínima pra situação. A cena termina com outra grande decepção: “vou morrer e meu filho peida na minha cara. Que pastelão!”, lamenta o músico.
Na última página, a ilustração do enterro de Nasser destaca as figuras do diabo – com quem o músico trava um curioso diálogo no sexto dia – e de Irâne, mulher que havia sido sua paixão na juventude.
Um livro gostoso e rápido de ler, que dá pra devorar em poucas horas. E ainda comer um delicioso frango com ameixas de sobremesa.










