Ele mora em Curitiba e recentemente completou 33 anos. Porém não é de hoje que
José Aguiar briga por um espaço ao sol desenhando quadrinhos. Uma de suas bandeiras é justamente pelo reconhecimento ao termo "quadrinista", que é diferente de cartunista, chargista e caricaturista. Prestes a vir ao Rio e a Niterói para lançar seu segundo livro, o JBlog Quadrinhos conversou com o artista.
1. José, esse é o seu 2o livro solo após 10 anos de carreira. Você poderia ter lançado antes de forma independente, certo? Por que optou por esperar uma editora se interessar e como foi o processo com a HQM?
Ano passado lancei Folheteen pela Devir. Foi o primeiro álbum nacional publicado em 2007 e estou preparando uma seqüência. Na verdade, eu nunca esperei por uma editora. É que as oportunidades foram surgindo nos momentos corretos. Até 2004 meu foco principal era o trabalho de ilustrador. Aquele foi o ano em que decidi investir seriamente na carreira de autor de HQs. Para publicar independente eu teria que ter recursos. Não é o meu caso pois tiro meu sustento de meu trabaho como quadrinista, ilustrador e professor. Não disponho de tempo para cuidar de vendas e distribuição. Trabalhar só na promoção dos livros já dá muito trabalho. Por isso busco editores. Em especial desde que publiquei na França passei a chamar mais a atenção deles.
Quando ganhei o I Concurso internacional de Quadrinhos em 2005 a Devir me abriu a porta. Então não havia porque ser independente no sentido de me autopublicar. Se bem que, na minha opinião, quase todos os autores nacionais são independentes de um forma ou de outra.
2.Existiu cessão de direitos autorais? Você recebeu um adiantamento por vendas ou apenas alguns exemplares para dar / vender aos parentes e amigos?
Claro, ha a cessão. Sou bem rígido nesse aspecto contratual. É experiência que trago dos meus anos como ilustrador editorial e publicitário. Se eu quero ser profissional, tenho que trabalhar com quem seja também. Cada editora tem seu método. Mas eu costumo receber meu adiantamento de direitos, mais a prestação de contas e, claro, alguns exemplares. Se uma editora não lhe der nada disso em troca de seu trabalho, fuja dela. Tanto o autor quanto a editora tem que ser profissionais um com o outro.
3. Em "Quadrinhofilia" você mostra-se eclético em temas e estilos, quase como se fosse um portfolio, mostrando suas várias possibilidades. Esta foi a intenção?
De certa forma sim, é meu portfólio quadrinístico. Pois eu sempre me interessei por fazer coisas diferentes. Me adequar ao desafio. Acho que há traços e narrativas coerentes com cada roteiro. Mas há algo em comum sob a maquiagem de cada HQ. São as soluções típicas do meu trabalho. Não quero ser rotulado facilmente. Mas a intenção principal de Quadrinhofilia sempre foi desenterrar os trabalhos que nunca encontraram meios de serem impressos.
4. Afinal, o termo "quadrinhofilia" é a busca de um boa história ou serve para designar HQs que estavam enterradas numa gaveta?
Pode ser ambos. Mas o princípio do nome veio mesmo da idéia de desenterrar o arquivo-morto em busca do que valia a pena mostrar para dar cabo da sensação de eterno início de carreira. Enquanto não publicasse esse material eu estaria muito insatisfeito comigo mesmo. Creio que agora, com este livro, finalmente deixei de ser um talento promissor.
5. Nota-se mudanças na sua técnica, como se antes você preferisse aquarela e nanquin e hoje utilizasse mais o traço vetorial e o photoshop. Gostaria que você comentasse isso, como decide qual técnica utilizar e se você acha um conservadorismo restringir a arte ao que é feito de forma artesanal e não eletrônica (mouse sobre tela, etc).
Não tenho conservadorismo algum. Artesanal e digital podem coexistir juntos ou separados. Usar o Photoshop nada mais é que uma questão de praticidade. Por exemplo, o ilustrador Orlando Azevedo certa vez disse numa palestra que um dia ele se flagrou não mais desenhando em escala grande, como era acostumado. Ele desenhava só no formato A4 por causa da praticidade do scanner. Hoje os prazos para criar, comercialmente falando, estão longe do ideal. Antigamente eu usava mais a aquarela. Até por que os recursos do Photoshop eram mais limitados. Mas não por isso sou viciado nesse programa. Hoje, até brinco mais com o lápis de cor, coisa que não fazia por receio. Esse é um material que não está em Quadrinhofilia, mas há amostras dessa técnica em ilustrações em meu site.
6. Como é o seu processo de criação, de inspiração?
Não é algo esquematizado. Gosto de pesquisar, ler e assistir coisas relacionadas aos temas que vou desenvolver. Na verdade, ultimamente tenho montado meu "banco de idéias". Foi uma coisa meio óbvia, mas que só me pareceu lógica depois que tive o prazer de ouvir do Quino (o autor da Mafalda) que ele costuma deixar idéias até anos guardadas, esperando a hora certa de finalizá-las. Eu fico assim, fermentando, quando o projeto é algo pessoal. Quando é uma encomenda, já não tenho esse luxo. Tenho que me valer do meu repertório e experiência para fazer o melhor trabalho possível dentro das condições impostas. Mas uma coisa que gosto é de caminhar ao ar livre para soltar a mente. Ficar na frente do monitor me esgota as vezes...
7. Quantos % do seu dia são ocupados com o autoral e quantos % com os trabalhos que pagam as contas?
Felizmente eu não faço nada fora da minha profissão. Meu primeiro dinheiro eu ganhei publicando tiras de jornal, aos 16 anos. Se eu não fazia quadrinhos, ilustrava. Se os quadrinhos não eram autorias, eram institucionais. E, como professor, dou aulas de quadrinhos. Então, por mais que o foco não seja apenas a produção, meu sustento vem da minha arte.
Pode-se dizer que 40% é autoral e 60% é para as despesas. Mas sem essa rigidez. Há dias que paro completamente alguns trabalhos para aproveitar as idéias e resolver meus projetos pessoais. É uma questão de tentar fazer render melhor o tempo.
8. É possível sobreviver de HQs no Brasil ou dá pra viver e bem?
Sim é possível. Mas aí depende do que se considera "viver bem". Cada um tem o seu ideal. Mas para viver de quadrinhos é preciso ralar muito. Ser autor significa trabalhar muito. Maurício de Sousa é a prova de que é possível. Ele tem uma equipe grande de artistas de quadrinhos que vivem desse ofício. Antonio Cedraz com a turma do Xaxado também é outro exemplo. Cito-os para falar de estúdios que produzem HQs nacionalmente. Mas há também os que exportam. Mas ter um império não faz parte de minhas ambições, então creio que o meu ideal é mais palpável. Eu trabalho para viver acima de tudo de meus quadrinhos. Mas não me importo de fazer outras coisas relacionadas. Elas são um refresco para as idéias. Gosto de lidar também com teatro, de escrever. Claro que não é fácil, mas não troco por nada a opção que fiz que é a de viver da minha arte.

9. Você é professor de quadrinhos na Gibiteca de Curitiba, certo? Gostaria que você falasse sobre a importância da gibiteca no desenvolvimento de público e mercado local. E também sobre o perfil dos seus alunos e sua metodologia. O curso tem um final, por exemplo, ou é contínuo?
E também já fui aluno lá. Inclusive, o Cláudio Seto, o homenageado no HQMIX deste ano foi meu professor lá. Acho que só isso já atesta uma das razões pelas quais a Gibiteca importante. Ela é um referencial, um lugar onde pode ser fomentada a continuidade de nossa arte. Ela é um espaço pioneiro no mundo, criado ha 25 anos e que se tornou uma espécie de centro cultural , que agrega os amantes e autores de HQ com outras manifestações culturais afins como o RPG, os fãs clubes de ficção científica e até mágicos que usufruem de seu espaço.
O meu curso tem dois módulos um básico ( desenho, criação de personagens e linguagem de HQ) e um avançado ( Fanzine: do roteiro ao xerox). Cada módulo dura 04 meses. Na maioria os meus alunos estão entre os adolescentes e jovens adultos ( 16/30 anos). Mas há excessões: já tive também vários alunos acima de 60 anos que sempre quiseram fazer HQ mas tinham vergonha. Hoje, devido a maior exposição da HQ na mídia venceram essa barreira.
Outro fenômeno interessante é que nos últimos anos tem se intensificado o numero de estudantes de design, publicidade ( as vezes até algum diretor de agência aparece) em busca de formação na área. Desses alunos, alguns realmente enveredam pela coisa e iniciam carreira. Tenho diversos alunos que se tornaram ilustradores, animadores e, claro, quadrinistas graças ao incentivo do meu curso. Algo de que me orgulho muito.
10. O lançamento do livro no Rio e Niterói incluirá exposição ou apenas venda e autógrafos?
Em ambos estarei vendendo e autografando Quadrinhofilia e Folheteen. A exposição acontece apenas em Niterói, pois o espaço foi cedido pelo Instituto Cultural Germânico. A exposição tem o mesmo nome do meu novo livro, pois é a que concorreu a troféu HQMIX ano passado. Foi desse balanço de carreira que surgiu o livro que estou lançando. Quem for na sexta ( dia 13 de junho) verá os originais do mesmo e mais algumas surpresas. Eu estarei autografando a partir das 17h e a abertura da exposição será 19h.
Na segunda (dia 16 de junho) o livro será lançado na Livraria Dona Laura, na Casa de Cultura Laura Alvim. Lá eu estarei autografando a partir das 19h30. Ano passado estive em Niterói, com a exposição Viajando em Quadrinhos pela França e Alemanha, indicada este ano ao mesmo troféu HQMIX, no Centro de Cultura França-Alemanha.
11.Na sua ótima HQ sobre a viagem para a Alemanha, você trata da invasão do mangá e da proteção ao autor nacional. Como você compara a realidade alemã com a brasileira?
Obrigado pelo elogio! Na verdade, a aceitação dessa HQ tem me surpreendido muito! A realidade alemã dos quadrinhos é muito próxima da nossa. Pouca produção local, muito material traduzido. Com a diferença de que lá o mercado francês tem mais penetração e o mangá me parece ter ainda mais força que aqui.
12. Ainda neste relato autobiográfico você comenta que na França existe o público mais velho e os jovens, que existe uma renovação do publico leitor e que cerca de 300 títulos são lançados por mês no mercado francês.
São dados que me foram passados pelos donos das Comic Shops onde lancei Ernie Adams em 2006 e pelos editores com quem conversei no festival de Angouleme este ano. São tantos títulos que é difícil lançar novos autores. Devido a falta de espaço, se o titulo não vender bem pode correr o risco de ficar apenas uma semana em exposição. Ter um público jovem convivendo com o de mais idade é reflexo do hábito pela leitura de HQs que é passado pela família. Aqui, o que me assusta é que o público está envelhecendo e pouco se faz para cativar diferentes faixas etárias de leitores.
13. Se você tivesse a oportunidade de sugerir políticas publicas para incentivo a HQ nacional, quais seriam suas sugestões?
Precisamos de editais de fomento a produção: para a produção, pesquisa e resgate histórico de nossos quadrinhos. Leis que incentivem a difusão cultural através de publicações, festivais e do ensino. O preparo de professores para a utilização de HQs em sala de aula é fundamental. Quadrinhos são muito mais versáteis para se trabalhar e muito mais baratos de produzir que a maioria dos programas educativos que se vê por aí.
Também acho importante que haja uma reserva de mercado para a HQ nacional, contanto que hajam mecanismos para que esses produtos cheguem a público por um preço acessível e competitivo com o que vem de fora.
14. Num mercado profissional e muito concorrido, quais são os seus conselhos para um quadrinista se destacar?
Ser persistente e, acima de tudo, realmente profissional. O discurso de "sou artista" muitas vezes é desculpa para fazer um trabalho relapso que não dialoga com ninguém. Quadrinhos são sim uma forma de arte, mas também um meio de comunicação. Se você não levar a sério o que você faz, você presta um deserviço a sua arte. Você precisa receber dignamente por seu trabalho, pois ele não é um "hobby" é uma profissão também.
15.Por fim, você usa a seguinte frase no livro: "cada país tem a crise das HQs que merece. Qual é a nossa?". A ser ver, José Aguiar, qual é a nossa?
A nossa é uma mistura de várias: a falta de um mercado estabelecido, a falta de profissionalismo de quem edita e a de quem faz também. Mas o que mais me preocupa é o comodismo de quem só reclama e nada faz para mudar o cenário. Felizmente muitas pessoas pensam como eu e estão agitando a cena e mudando as regras do jogo.