Marcos Franco é mais uma daquelas pessoas que ama e trabalha para colocar a Bahia em evidência novamente, neste caso no mundo dos quadrinhos. Estudante do 7° semestre do bacharelado em museologia na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e oficineiro de HQ no Centro Universitário de Cultura e Arte de Feira de Santana, é também um apaixonado por história. É dele o argumento de
"Sant´anna da Feira - Terra de Lucas" (2012, 180 págs), publicado com patrocínio da Secretaria de Cultura.
Com bela arte de
Helcio Rogerio, o livro traz a história de uma figura histórica da região de Feira de Santana. Considerado por muitos um “Robin Hood do cangaço”, Lucas Evangelista (1807-1849) foi um filho de escravos que na primeira metade do século XIX tentou fazer justiça social pelas próprias mãos, sem economizar na violência.
A HQ tem como mérito a leitura fluida, os balões com as falas do jeito que se dizia na época, excelentes desenhos – apesar de não aproveitar o recurso da página dupla como faz com maestria Danilo Beyruth em
Bando de Dois – e o fato de dar luz a este personagem pouco conhecido do brasileiro, mas que certamente ainda povoa o imaginário baiano. Uma aula de história que tem tudo para figurar na estante ao lado da
Revolta da Chibata,
Sertão Vermelho e outros do gênero.
JBlog >> Marcos, para você qual a principal diferença entre “Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira” (2010) e “Sant’Anna da Feira – Terra de Lucas” (2012)?
Marcos Franco - O álbum anterior girava em torno de um conto hipotético sobre o Lucas da Feira, enquanto esse novo trabalho possui uma abordagem histórica mais densa, sendo todo ele embasado em documentos oficiais e fontes alternativas, como cordéis, romances e na tradição oral do povo feirense.
A produção do “Sant’Anna da Feira - Terra de Lucas” teve inicio na segunda metade da década de 1990, quadro dei inicio a parte de pesquisa e idealizei o roteiro da obra, enquanto a versão anterior, que é uma espécie de compilação de um trecho desse novo álbum (trecho esse que acabou nem sendo utilizado no novo trabalho), foi desenvolvida apenas em 2009.
É um pouco confuso, mas o fato é que o trabalho original só foi publicado depois da versão alternativa. Por se tratar de uma publicação mais extensa e por consequência, com um custo de impressão mais elevado, a obra original acabou ficando engavetada por nada menos que 13 anos.
JBlog >> O que tanto lhe atrai na figura do Lucas, que para muitos era um bandido e assassino?
MF - Posso dizer que desde a infância tenho um interesse especial pela figura do escravo rebelde Lucas da Feira. Sempre tive uma relação bastante próxima à cultura popular e as coisas ligadas ao campo. Eu costumava ouvir dos mais velhos da zona rural de Feira de Santana “causos” e histórias sobre todos esses mitos do sertão, sobretudo a respeito do Lucas. Foram essas lembranças que me instigaram a pesquisar e a transportar para universo dos quadrinhos sua polemica história de vida.
História essa que não se resume ao moralismo de julga-lo herói ou bandido e sim de tentar elucidar pontos obscuros de um tortuoso período da cidade de Feira de Santana. A narrativa do álbum busca assim, revelar importantes pontos de significação histórica e social da Feira de Santana do século XIX, principalmente no que diz respeito às mazelas da escravidão.
JBlog >> Quais foram as maiores dificuldades nesses 13 anos de pesquisa?
MF - O maior entrave da pesquisa foi mesmo à investigação da história local e a dificuldade de acesso às fontes documentais. O município de Feira de Santana teve a sua emancipação politica da cidade de Cachoeira em 1832, mas até 1844 todo o tramite de cartório ainda era realizado por lá. Com isso, muito da documentação da época de Lucas acabou se perdendo, ou encontra-se de posse de arquivos públicos em outros municípios.
Agora, se por um lado encontrei dificuldades de ter acesso às fontes oficiais, por outro há uma proliferação de discursos sobre o personagem nos cordéis, nas conversas do cotidiano e nas pesquisas acadêmicas que analisam as memórias da tradição oral e escrita de Feira de Santana.
E foi esse paradoxo que me levou a seguinte conclusão: contar a vida de Lucas, quase dois séculos após sua morte, só se tornaria possível através da junção das escassas fontes documentais, memória oral, romances, cordéis, periódicos e da cultura material dos locais onde ele possivelmente teria percorrido. É a partir dessa visão metodológica, que o roteiro do álbum foi construído.
JBlog >> Apesar do título remeter a Feira de Santana, na historia o Lucas passa anos escondido no recôncavo, sobretudo as margens do Rio Paraguaçu. Ele tinha ligação com os quilombolas da região?
MF - Na verdade, ele transitava constantemente entre o recôncavo e o sertão baiano. Entretanto, a maior parte de suas ações delituosas ocorreu mesmo na estrada Real das Boiadas, via que cortava Feira de Santana e era o principal percurso de acesso entre o sertão e o litoral.
Segundo minhas pesquisas, ele possuía um rancho na região da Canavieira (atual bairro da Pampalona em Feira de Santana) e invariavelmente se escondia na fazenda Tapera, na cidade de São Gonçalo dos Campos (município que pertence à região metropolitana de Feira de Santana). Foi justamente nessa localidade, que fica às margens do Rio Paraguaçu, que ele se escondia no momento da sua prisão.
Quanto à ligação com quilombolas da região, eu posso afirmar que ele não só teve contato como também acolheu muitos deles em seu bando. Ao longo dos quase vinte anos de atuação, o bando de Lucas abrigou quase trinta escravos fugidos (em momentos distintos).
JBlog >> Você entrevistou alguém que tivesse memórias da época, mesmo que de algum parente que tenha transmitido essas historias através das gerações? Algum descendente do Lucas?
MF - Durante o período de pesquisa eu realizei dezenas de entrevistas com pesquisadores, historiadores e anciões da zona rural de Feira de Santana. Seria impossível entrevistar pessoas que tiveram um contato direto com ele, uma vez que o mesmo já possui 164 anos de morto, mas como cogitou em sua pergunta, tive contato e realizei algumas entrevistas com anciões (um deles centenário) que possuíam lembranças sobre o Lucas que lhes foram transmitidas oralmente.
Quanto a possíveis descendentes, eu não consegui localizar um único sequer. No romance biográfico “O Demônio Negro”, publicado na década de 1950 pelo santamarense (natural da cidade baiana de Santo Amaro) Sabino de Campos, existe algumas fotos e informações sobre uma suporta sobrinha-neta de Lucas da Feira, conhecida pela alcunha de “Cacetão”. Entretanto, nas cidades de Cachoeira e São Felix, locais onde teriam sido tiradas essas fotos, não encontrei ninguém que pudesse me dar maiores informações sobre essa provável familiar.
JBlog >> Vc participou ou participara da feira literária de Cachoeira?
MF - Não. Pelo que sei nenhum autor de quadrinhos local ou de fora do estado foi convidado a participar do evento. Infelizmente na Bahia ainda há uma certa resistência (para não dizer preconceito) aos quadrinhos. Eu não sei se é por falta de interesse ou de informação que os quadrinhos por aqui acabam por serem excluídos ou relegados a um papel secundário. Tenho me manifestado contra esse posicionamento da FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira) e espero que nas próximas edições o quadrinho possa estar devidamente representado no evento.
JBlog >> Qual foi o maior beneficio ao obter o patrocínio da Secult?
MF - O maior benefício foi sem sombra de dúvida a oportunidade de transformar um sonho em realidade. Sem o apoio da Secult seria impossível à publicação de um trabalho desse porte. Os editais culturais são uma estratégia importantíssima para fomentar a produção e a distribuição de histórias em quadrinhos no país. Esse estímulo é pertinente para dar vazão ao trabalho dos profissionais brasileiros e possibilitar que eles ganhem mais espaço num mercado que a muito tempo é monopolizado pela produção estrangeira.
JBlog >> Gostei muito de você ter mantido a linguagem oral nos balões, qual foi a sua fonte?
MF - Pois é, os diálogos coloquiais foram utilizados para dar um maior realismo e regionalismo à trama. Essa estratégia da uma maior densidade ao roteiro e, permite ao leitor uma imediata aproximação com os personagens e a trama. Pode-se dizer que a narrativa informal utilizada é ainda um reflexo da minha própria identidade cultural. Sou matuto, sou sertanejo e tenho muito orgulho das minhas raizes.
JBlog >> Qual seu próximo projeto? Outro livro? Uma animação do Lucas?
MF - Estou trabalhando em uma adaptação em quadrinhos do evento do 2 de julho (data da independência da Bahia do julgo português). A maioria dos baianos sabe que o dia 2 de julho é feriado no estado, mas não tem a real noção da sua importância histórica. Essa é uma data muito importante para nós baianos e eu acho que em geral todos precisam conhecer a riqueza e importância da nossa história e nosso patrimônio cultural para poder preservá-lo. Então, assim como o Sant’Anna da Feira – Terra de Lucas, esse novo trabalho também objetiva rememorar um importante momento da nossa história através da mídia dos quadrinhos.
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