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Ideologia: todos têm uma pra viver

Por Cristian Klein

Negar a existência da ideologia é, geralmente, apenas uma tentativa esperta de se esconder uma nova forma de ideologia, seja sob que véu for. Uma das formas mais conhecidas de encobrimento ideológico é aquela que se apoia no pressuposto de que existem soluções políticas e soluções técnicas para os assuntos da vida pública. O discurso do regime militar brasileiro, nos anos 60 e 70, se baseava neste pensamento tecnocrático. Ocorre que a decisão técnica, sobretudo em assuntos de impacto nacional, embute sempre uma escolha política em sua origem. É impossível fugir da política, cuja matéria-prima são os interesses. E os interesses, como apontado na última coluna, estruturam as preferências dos cidadãos em algo que se convencionou chamar de direita e de esquerda. Nos últimos anos, o encobrimento ideológico apareceu sobretudo pela negação da existência destes campos fundamentais da direita e da esquerda.

É claro que numa sociedade mais homogênea, onde os interesses são menos divergentes e polarizados, esta lógica ganha cores menos vibrantes. Mas num mundo onde as disparidades sociais, econômicas e de crenças são intensas, os interesses estão quase sempre prontos para serem ativados, mobilizados. Nos Estados Unidos, a clivagem entre um campo conservador e outro liberal permeia a sociedade, abrangendo questões não só materiais mas morais e religiosas, e traduziu-se na preferência pelos dois principais partidos, o Democrata e o Republicano. França, Chile e Itália são nações em que há uma clara tradição de direita e esquerda. E no Brasil?

A conexão eleitoral no país historicamente se consolidou sob a sombra da relação clientelista, da troca de favores entre candidatos e amplas parcelas pobres da população. Isso prejudicou, mas não evitou a disseminação de correntes de opinião, especialmente nas áreas mais urbanizadas, educadas e de maior renda. Há obviamente setores organizados, à esquerda e à direita, defendendo seus interesses por meio de associações profissionais, de classe etc. Há, obviamente, partidos que se aproximam de um ou de outro extremo. O que poderia haver de mais diferente entre PSTU e PSOL, de um lado, e DEM e PP, do outro? No entanto, dois fatores contribuem para que no país haja uma sensação de esvaziamento do conflito e das diferenças políticas: os fenômenos da direita envergonhada e o da convergência ideológica.

Diferentemente de outros países, em que os conservadores se assumem como tal, no Brasil confessar-se de direita é uma manifestação muito rara. Até para notórios representantes da classe política associados ao conservadorismo. Há três anos, questionado sobre se teria medo de ser classificado de direitista, Jorge Bornhausen, então presidente do PFL (hoje DEM), deu uma resposta no mínimo curiosa: “Não se trata de medo, é que não há como existir direita em um país que não é desenvolvido”. O fenômeno da “direita envergonhada” no Brasil é forte e vem desde o período da redemocratização. Surgiu como uma estratégia dos apoiadores do regime militar de escaparem ao estigma de autoritários. O tempo passou, e a expectativa de que a direita saísse do esconderijo não se confirmou. Pesquisas no Congresso Nacional mostram, por exemplo, que quase todos os legisladores se consideram à esquerda de seu partido, mesmo e principalmente os que pertencem a legendas de direita.

Outro fator é o movimento de convergência ideológica. Seguidas entrevistas feitas com parlamentares, a cada legislatura, pelo cientista político Timothy Power, da Universidade de Oxford, mostram que a classe política brasileira é muito menos polarizada do que 15 anos atrás. Questionados a respeito de temas da agenda pública, deputados e senadores têm opiniões cada vez mais centristas. Uma das explicações para o fenômeno seria a constante alternância dos partidos no poder e a troca de parceiros nas alianças nos níveis federal, estadual e municipal. Isso teria feito dos partidos sócios do sistema, levando-os a não exacerbarem suas divergências ideológicas. Os políticos também têm seus interesses enquanto classe...

Vergonha e convergência, contudo, não implicam indiferenciação. Fingir não ser o que é ou estar próximo do outro não significa que todos são iguais. E os múltiplos interesses da sociedade impedirão sempre a pasteurização ideológica.

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