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Fauna política, de raposas a tucanos

Por Cristian Klein

Uma das expressões mais caras aos comentaristas que analisam o mundo representativo é a do animal político. Sobre determinado homem público, quando se quer ressaltar sua esperteza ou mesmo suas maquiavelices, diz-se que é uma raposa política. Mas, quando o objetivo é enfatizar um perfil em que se misture força, capacidade de articulação e intempestividade, costuma-se atribuir a pecha de animal político. É neste sentido que, na história recente brasileira, Sarney e Michel Temer são raposas políticas. Lula, Collor e Garotinho são animais políticos.
Raposas políticas são exímias em sua atuação nos bastidores e se arriscam pouco. Seu instinto é de preservação. Os animais políticos gostam da selva e partem para a caça, sob o risco de se ferirem e terem de se recolher para cuidar das feridas. É o caso de Collor e Garotinho, que tentam agora retomar suas carreiras e ter alguma relevância na paisagem política. Lula nunca se feriu a tal ponto. Sempre teve um grupo numeroso a acompanhá-lo na caça, um partido, o que faz muita diferença. À luz da história, suas três derrotas nas eleições de 1989, 94 e 98 podem ser vistas mais como um cerco ao poder – que lhe deram musculatura e, principalmente, a astúcia que faltava – do que sangrias de uma luta encarniçada.
A expressão animal político, vale lembrar, assumiu vulgarmente um significado bem diferente daquela definida certa vez por Aristóteles. Ao denominar o homem – de uma maneira geral e não pretendentes ou ocupantes de funções públicas de índole mais agressiva – como um animal político, o filósofo grego tinha outra intenção. Quis apontar uma das principais características da natureza humana, que seria sua necessidade de se relacionar com outras pessoas, de interagir em sociedade, cujo espaço por excelência é a cidade, a polis, origem da palavra política. Para o pensamento aristotélico, somos todos animais políticos.
Na crônica política contemporânea, no entanto, a expressão ganhou um sentido distinto, e talvez fosse exercício inútil querer corrigi-la. Será sempre tentador utilizar a palavra animal, até mesmo de modo literal, quando se observa um cenário em que representantes dos mais altos cargos eletivos se comportam como bichos. Demonstrações recentes não faltam e, verbalizadas, já criaram frases antológicas. Desde o “Vossa excelência provoca em mim os instintos mais primitivos” (de Roberto Jefferson para José Dirceu, durante o escândalo do mensalão) até o inacreditável “Se ele viesse, eu ia correr atrás dele e estuprá-lo em praça pública” (do governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, ao dizer o que faria caso o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, visitasse o seu estado).
Mas a fauna política é variada e produz espécies de todo tipo. Mais ou menos indóceis. Os tucanos, por exemplo, são aves de peito estufado e um bico enorme, útil para intimidar. Símbolo do PSDB, nada melhor para ilustrar o imbróglio atual da tão aguardada definição do partido à eleição de 2010. A legenda tem dois fortes candidatos, mas o equilíbrio entre eles curiosamente tem prejudicado o partido na corrida ao Planalto. Há algum tempo, os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) se bicam pela candidatura. Enquanto isso, a presidenciável do governo alça seu voo e constroi alianças.

Aécio agora decidiu assumir uma postura mais contundente, algo difícil, diga-se, para alguém que pertence a um estado cuja tradição é a de ser uma toca de raposas políticas. O estilo mineiro não é o da confrontação. Como também não é o do PSDB, que até cogitou a realização de prévias para se decidir entre Serra e Aécio, mas já ficou conhecido por ter escolhido seu candidato a presidente em requintado restaurante, num jantar a três.
A preferência de Serra é levar em banho-maria até março. Contudo, numa espécie de ultimato, o governador de Minas disse, na última semana, que espera só até o fim do ano pela decisão. Aécio, ao que parece, repete o timing de Geraldo Alckmin para as eleições de 2006. O então governador de São Paulo esperou até o dia 12 de dezembro de 2005, quando, de forma surpreendente, anunciou, sem rodeios, no programa de entrevistas Roda vva, que estava lançando sua candidatura à Presidência. Foi o dia em que o governante comparado a um picolé de vegetal sem gosto teve seu momento animal político.

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