Arquivo de March 2010

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O jeito mineiro de fazer política

Por Mauro Santayana


Um dos mais perturbadores segredos de Minas é o seu soberbo ar de província. Os mineiros são capazes de espantar o mundo, com seu saber histórico, sua ciência, sua literatura e seu talento esportivo. Não nos esqueçamos que Tostão e Pelé nasceram em Minas e mineiro foi o grande Guimarães Rosa. Mas onde quer que se encontrem, os mineiros continuam em Minas, amarrados a seus vales, fiéis ao ponto exato em que, da janela de seus quartos, vêem nascer o sol e devotados espectadores da paisagem da tarde, com sua promessa da noite e a advertência da brevidade da vida.

Sendo sempre uma província, Minas se parece a uma grande família. E foi como uma reunião de família a despedida de Aécio Neves do governo, ontem à tarde. Houve tudo aquilo que não pode faltar a uma festa mineira: música, cafezinho, pão de queijo para centenas de convidados e a emoção da multidão na Praça da Liberdade, apesar da chuva inesperada e forte que atrasou a cerimônia. Aécio reafirmou esse espírito de convivência dos mineiros, ao lembrar que houve natural cooperação entre o poder executivo e os outros poderes, em torno dos projetos necessários.

Aécio e o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, demonstraram, na prática, essa forma diferente de fazer política. Somaram seus recursos orçamentários a fim de realizar obras necessárias e adiadas, há décadas, na estrutura urbana da Capital. A mesma política de cooperação se estendeu a praticamente todos os municípios de Minas.

Esse sentimento de construção em comum revela- se no convívio entre as forças políticas do Estado. Isso se viu, ontem, na Assembléia Legislativa, na posse do novo governador, Antonio Anastasia, que cumprirá os meses restantes do mandato, e no ato da transmissão ritual do cargo, na sacada do Palácio da Liberdade: velhos adversários políticos se abraçavam, entre eles ex-governadores, com visível emoção. Todos os oradores, nas solenidades de ontem, elogiaram a coragem do ex-presidente e ex-governador Itamar Franco, na defesa do Brasil e de Minas.

Em todos os atos, principalmente na transmissão do cargo, era inevitável a memória de Tancredo ao assumir o governo em 15 de março de 1983, e na emocionante despedida dos mineiros, de seu líder morto, a caminho de São João del Rei, há 25 anos. Ao empossar-se, em 83, ele dera o seu recado – que os mineiros entenderam claramente – de que se empenharia em recuperar o poder da República para o povo. Em seu discurso, os avisos eram claros: os compromissos de Minas com a liberdade, o respeito à República e à Federação, o registro das lutas históricas dos montanheses e de outros brasileiros contra o centralismo do poder e a desigualdade regional.

Em 1983, houve um gesto simbólico e forte, de sua personalidade. Os portões do Palácio se encontravam fechados e a multidão, que ouvira seu discurso, esperava na praça. Com seu cavalheirismo conhecido, Tancredo acompanhou o governador que saía, Francelino Pereira dos Santos, até o automóvel, estacionado ritualmente junto ao portão. Com a saída do carro, Tancredo impediu que ele fosse novamente fechado e ele mesmo abriu e lado a lado os portões do Palácio, convidando o povo a entrar. O simbolismo do gesto era evidente. A multidão percorreu os jardins e os salões do Palácio, sem que uma só flor fosse danificada e sem que desaparecesse um só cinzeiro das mesas. Aécio também realizou um gesto simbólico, ao sair a pé do Palácio e misturar-se ao povo que o aplaudia. Foi uma festa mineira – e emocionante. Quando o governador se referiu ao chão metálico de Minas, e com ele se identificou, muitos não contiveram as lágrimas. Não obstante a existência de grupos de oposição intransigente, o que é natural em um sistema democrático, nenhum outro governador obteve aprovação tão ampla no Estado – nem mesmo Juscelino.

À solenidade de ontem, em Belo Horizonte, estiveram presentes os mineiros da diáspora, como o cartunista Ziraldo, e numerosos amigos de Minas, vindos de muitas partes do país – entre eles o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB. O grande segredo da política mineira é a sua intrínseca identidade com o jeito natural de sua gente – e isso se viu na despedida de Aécio e na posse de seu substituto.

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Ainda há tempo para mudanças

Por Mauro Santayana


Hoje é o último dia para que os ocupantes de cargos executivos, que não disputam a reeleição, se desincompatibilizem, se quiserem candidatar-se em outubro. É ainda muito cedo para que o pleito seja visto como decidido. É provável que esta manhã haja quem tenha, depois de consultado o travesseiro, resolvido não trocar o certo pelo duvidoso. A vida de um homem é uma sucessão de instantes, entre o primeiro e o último, e as grandes decisões, ainda que sejam longamente meditadas, são tomadas no último momento.

Estamos no último dia de março. As candidaturas postas deverão afrontar os tempestuosos tempos do outono e do inverno, com a guerra de dossiês, as acusações de lado a lado, a exasperação dos candidatos, sob o fogo impiedoso dos adversários. Coincidirão, esses meses, com o desenvolvimento de processos contra personalidades públicas nos tribunais superiores. Tudo isso alimentará o clima que antecede as convenções partidárias. Nada garante que esses encontros, órgãos de absoluta soberania, irão ratificar os nomes tidos como competidores definitivos. O aparecimento de candidaturas dissidentes é uma tradição no Brasil, e nem mesmo o governo militar foi capaz de impedi-las. É conhecida a rasteira que Paulo Maluf passou em Laudo Natel, na convenção estadual da Arena, em junho de 1978. O sistema militar, sob o comando do general Geisel, tinha horror a Maluf, porque ele vinha apostando na linha dura de Sílvio Frota. Geisel decidiu apoiar o ex-governador Laudo Natel, que governara o grande estado entre 1971 e 1975. Maluf visitou todos os delegados convencionais, um a um, e, na convenção da Arena, obteve 617 votos contra 589: a vitória foi apertada, mas Geisel se viu obrigado a engolir a derrota, em nome das próprias regras que o regime impusera. Na época, escrevendo para um jornal de São Paulo, resumi o assunto, dizendo que Maluf, sabendo que a convenção, dentro das circunstâncias antidemocráticas da época, era um assalto, assaltou o assalto. O fato lembrou aquelas cenas de faroeste antigas, quando um bando que assalta a diligência é cercado por outro, e perde o butim.

“Bater chapa” é uma tradição na vida partidária brasileira. Na convenção do PMDB, em 1989, o mais ilustre de seus líderes vivos, Ulysses Guimarães, não se sentiu diminuído com a decisão de Waldir Pires, Álvaro Dias e Íris Resende em disputar -lhe a indicação do PMDB à candidatura presidencial. Vencendo a convenção, com poucos votos de diferença, chamou Waldir a fim de compor a chapa como seu vice. Em São Paulo, em 1982, para assegurar a coesão partidária, Mário Covas desistiu da candidatura a vice, com Montoro, em favor de Orestes Quércia. Jânio Quadros venceu Juraci Magalhães, na convenção da UDN, em 1960. De certa forma, “bater chapa” é a manifestação de democracia no interior dos partidos políticos.

Não será surpresa se, durante as convenções estaduais e nacionais dos vários partidos, surgirem candidaturas de última hora. De acordo com a legislação e conforme os estatutos do partido, qualquer filiado, em dia com suas obrigações partidárias, e no gozo de seus direitos políticos, pode pleitear a indicação e dirigir-se aos delegados, apresentando seu programa e pedindo os votos. Quem obtiver a maioria, leva. E como é da tradição, cabe ao vencedor compor-se com os vencidos, para a reconstrução da unidade partidária. No passado, isso era comum, e não seria novidade em junho próximo. Passadas as convenções, e iniciada oficialmente a campanha, seria conveniente que a escolha não fosse plebiscitária. Um segundo turno é conveniente, a fim de que haja composições políticas capazes de matizar o resultado eleitoral, e assegurar o direito das minorias partidárias na medida do possível.

Um homem de jornal

Registro, com atraso, meu pesar pela morte de Armando Nogueira. Estive com ele poucas vezes, sempre por acaso, e não fomos além dos cumprimentos e de rápidos comentários sobre os assuntos do dia. Tivemos, no entanto, muitos amigos comuns, entre eles Araújo Neto, que me davam notícias de sua grandeza. Como era de hábito entre seus colegas de geração, admirava-lhe o estilo leve e sério, o texto correto, a elegante criatividade da frase, que coincidiam com a sua reconhecida dignidade pessoal.

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A crítica forte à Justiça Eleitoral

Por Cristian Klein

Mais do que os próprios candidatos à Presidência – que aliás ainda carecem deste status até a oficialização das chapas – é a Justiça Eleitoral que tem exercido o papel de protagonista na atual fase de pré-campanha eleitoral. As duas multas aplicadas pelo TSE ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num total de R$ 15 mil, representam menos uma punição rigorosa por propaganda antecipada – em favor de sua apadrinhada, a ministra Dilma Rousseff – do que um sinal, um símbolo de que o chefe de Estado não está acima do bem e do mal. Como destacado na coluna de domingo, o desenho institucional brasileiro é o que mais favorece uma Justiça Eleitoral independente e, neste sentido, não procede a grita da oposição, de que hoje estaria reinando um clima de imobilismo, parcialidade e submissão ao comportamento de Lula nos palanques.

O modelo de Justiça Eleitoral brasileiro é dos mais refratários à interferência dos interesses partidários. É uma herança avant la lettre da Revolução de 30, que tinha como um dos principais objetivos acabar com o pesadelo das eleições fraudulentas da República Velha. O modelo se impôs e persiste sem muitas alterações. Até hoje pode ser considerado “moderno”, um contraponto ao padrão anterior, mais antigo e muito mais vulnerável à partidarização, como o adotado nos Estados Unidos, em que os conflitos eleitorais são solucionados por um braço do Poder Executivo. O episódio da recontagem dos votos da Flórida, na eleição presidencial em 2000, que favoreceu George W. Bush, cujo irmão era o governador do estado e influenciou o resultado, expôs ao mundo as deficiências do sistema americano.

No Brasil, caso raro, a Justiça Eleitoral não deve sua formação nem ao Poder Executivo nem ao Poder Legislativo. O julgamento é feito, basicamente, por magistrados de carreira, excetuando a cota de indicações reservada para os profissionais com notório saber, geralmente advogados especializados na área. Esta separação em relação aos outros dois poderes é um dos pilares da independência, cuja função é a blindagem da Justiça Eleitoral face os interessados imediatos na competição política.

Por outro lado, sua instância máxima, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é umbilicalmente ligada ao Supremo Tribunal Federal (STF) que, por sua vez, deve sua formação à indicação do(s) presidente(s) da República. Como três dos sete membros do TSE também pertencem ao Supremo e os outros dois, com notório saber, são indicados pela Corte, com aprovação do presidente, é possível especular sobre alguma influência do Executivo. Mas isso equivaleria a debater e a questionar a própria politização do STF, o que seria uma discussão estéril, posto que a nomeação política dos membros da Corte Suprema é uma característica internacional.

Como se vê, a crítica forte à Justiça Eleitoral, no Brasil, está longe de ser a sua partidarização. Pelo menos dois pontos são muito mais relevantes. Em primeiro lugar, a falta de celeridade no julgamento dos processos. Isso se deve ao permanente rodízio de seus integrantes e ao fato de eles continuarem a exercer suas atividades principais de trabalho, o que dificulta a acumulação de experiência, a agilidade e a melhor qualidade do serviço. O segundo ponto tem a ver com o fenômeno da judicialização da política, ou seja, a intervenção do Poder Judiciário em assuntos que supostamente deveriam ter uma solução no campo político.

Facilitado por sua ligação siamesa com o Supremo, o TSE, não raramente, legisla sobre os assuntos eleitorais, por meio de resoluções e instruções quando esta prerrogativa deveria ser do Parlamento. Contra essa usurpação de poderes, tramita no Congresso projeto de lei que visa limitar o raio de ação do TSE.

Os excessos devem ser combatidos. Entretanto, a situação se complica ao vermos que o Legislativo, quando se dedica a matérias eleitorais, muitas vezes, ou legisla mal, com regras contraditórias, ou peca pelo velho e inerente vício de legislar em causa própria – seja em benefício da classe política como um todo, ou dos interesses das facções, do governo ou da maioria legislativa de plantão, vide os casuísmos que cercam o instituto da reeleição.

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Uma campanha em quarentena

A oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou as decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral multando o chefe do Executivo por antecipação de campanha em benefício da pré-candidata do PT e ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como uma pequena vitória na longa batalha eleitoral que já se iniciou. As multas dadas pela Justiça a Lula, no entanto, têm mais efeito simbólico, no sentido de que representam um atestado de que excessos foram cometidos pelo presidente no afã de promover a candidata de sua escolha, do que prático, tendo em vista que Dilma, outrora uma ilustre desconhecida do eleitorado brasileiro, escalou os percentuais de intenção de voto em velocidade surpreendente e hoje desponta ligeiramente abaixo do governador de São Paulo, José Serra, na corrida pela sucessão. Ainda que não seja razoável supor que o crescimento da petista esteja assentado mais na sua simples presença, quase sempre arquitetada para a ovação de claques governistas, em cerimônias oficiais ao lado de Lula, do que na maneira pela qual o Palácio do Planalto trabalha publicamente a imagem de Dilma enquanto representante mais sugestiva de um conjunto de políticas públicas e realidades econômicas consideradas satisfatórias pela ampla maioria da população.
PSDB, DEM e PPS sabem disso. Reclamam da lentidão da Justiça Eleitoral para enquadrar Lula. Estão corretos na medida em que discursos muito mais contundentes e propagandísticos do que aqueles que motivaram as multas, questionados pela oposição em representações na Justiça Eleitoral, passaram incólumes pelo crivo dos magistrados. Durante meses, o TSE parece ter se intimidado diante da árdua tarefa de manter o presidente dentro dos marcos legais enquanto este testava suas fronteiras. Agora, com o acirramento da disputa eleitoral e da pressão da oposição, exercida com o auxílio de parte da imprensa, o tribunal dá sinais de que encontrou vigor para funcionar como contrapeso da maneira como lhe cabe. De todo jeito, é provável que a reação da Justiça Eleitoral, para contento da oposição, tenha efeito moderador sobre o comportamento de Lula em atos oficiais. Pelo menos até a largada oficial da campanha, já que a confirmação das candidaturas em convenções partidárias deve marcar um mergulho ainda maior do presidente nos esforços eleitorais.
A queda de braço no TSE, mais nova face do fenômeno da judicialização da política, contudo, está baseada num conceito extremamente problemático: o de campanha antecipada. O legalismo estrito, hoje tão desafiado por decisões de vanguarda nos mais variados ramos do Judiciário, ainda mostra ter garras cravadas na Justiça Eleitoral. Numa visão profundamente restritiva do jogo político e das interações sociais, a campanha antecipada é vista, em geral, apenas como o pedido de votos fora do período legal de disputa eleitoral.
O governador José Serra tem razão quando diz que, no Brasil, o processo de escolha dos representantes políticos só costuma contagiar o cidadão comum nas semanas, talvez dias, imediatamente anteriores ao pleito. Antes, dificilmente é mais do que uma movimentação de bastidores que só desperta atenção da própria classe política, das militâncias partidárias, da imprensa e dos apaixonados pelo tema. Culpa da elevada apatia e volatilidade de parcelas do eleitorado, características que tão bem definem parte das democracias representativas contemporâneas. Mas seria possível estancar, dentro de poucos meses, como numa espécie de quarentena da opinião pública, a complexa multiplicidade de fatores que contribuem para a formação das preferências? A ideia de campanha antecipada é frágil na medida em que cada ato de governo, discurso, decisão, negociação, história política, propaganda ou oscilação do quadro econômico representam, potencialmente, uma variável capaz de influenciar as decisões de voto. Isso não significa, evidentemente, que o caos deva reinar na aplicação da legislação eleitoral. Mas que o crescimento ou queda de candidatos A, B, C ou D estão relacionados a variáveis muito mais dinâmicas e sutis do que a letra da lei prevê.

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Papel de vilão que não cai bem

Por Cristian Klein

A segunda punição do TSE ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por propaganda eleitoral antecipada, determinada na última quinta-feira, no valor de R$ 10 mil, mostrou que, apesar das críticas, o tribunal está longe de ser um vilão na democracia brasileira. O TSE foi acusado pela oposição de apático, leniente e condescendente, diante do furor com que o governo passou a incensar a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff. Os recentes julgamentos indicam que não é bem assim. Outros problemas podem existir, como os que envolvem a questão da celeridade e da judicialização. Mas a sensação de impunidade, de que Lula estaria acima das leis, não corresponde à realidade. Como disse na última coluna, o TSE tem suas falhas, mas está entre as instituições que fazem do Brasil exemplo até para democracias tidas como plenas, avançadas, consolidadas.

Nem todos os países contam com uma estrutura independente que se assemelhe ao TSE e aos TREs brasileiros. A maioria das nações latino-americanas, com exceção da Argentina, conta. Mas muitas democracias antigas, como as dos Estados Unidos, Reino Unido e Suíça, adotam um modelo em que a administração eleitoral é feita pelo Poder Executivo, o que dá margem à influência das agremiações políticas que comandam o governo de plantão.

Nos Estados Unidos, a regulação e os conflitos eleitorais são muito mais partidarizados, e a tendência é que o partido, Democrata ou Republicano, que domina politicamente o distrito, também tenha o controle sobre a administração e a Justiça Eleitoral. Basta lembrarmos o episódio vergonhoso da recontagem dos votos que definiu a eleição de George W. Bush contra Al Gore, em 2000. Houvesse Justiça Eleitoral imparcial na Flórida, onde os rumos da recontagem foram conduzidos pelo irmão do candidato – o então governador Jeb Bush – provavelmente o mundo teria sido poupado daquela que é considerada uma das administrações mais desastrosas que passaram pela Casa Branca.

Parece uma obviedade que em toda e qualquer democracia deva existir uma instituição eleitoral específica, independente. Mas nem sempre é assim. Por vezes, são organizações híbridas, com recrutamento de técnicos de carreira e membros indicados pelos partidos, como Equador, Rússia e Uruguai. No entanto, é o modelo adotado pelo Brasil durante a Revolução de 30 que vem se tornando cada vez mais majoritário, o que mostra como o país sempre esteve na linha de frente quando o assunto é governança eleitoral, não apenas pelo domínio da tecnologia das urnas eletrônicas. Um dos pressupostos da democracia é o primado de eleições livres e periódicas. Os Estados Unidos são o maior exemplo de respeito a uma periodicidade secular, quase astronômica, sem interrupções, sobressaltos ou mudanças de regras pelo caminho. Mas quanto à lisura eleitoral o histórico já não é o mesmo.

Foi lá, na falta de uma instituição semelhante ao TSE, que afloraram práticas como a do gerrymandering – nada mais, nada menos que um jeitinho encontrado pelos políticos americanos para coincidir o território da disputa, o distrito, com os locais onde se tem maior apoio eleitoral. A subordinação da administração eleitoral ao poder político, nestes casos, acabou criando distritos eleitorais com formatos bizarros. Gerrymandering é uma referência ao precursor da prática, Elbridge Gerry, governador do Massachusetts e vice-presidente dos Estados Unidos, que, em 1812, apoiado pela Assembleia Legislativa do estado, redefiniu seu distrito eleitoral, cujo desenho ganhou contornos semelhantes ao de uma salamandra. A origem do termo vem daí, da união do nome de Gerry + mander, final da palavra salamandra em inglês (salamander).

A democracia brasileira é conhecida por vários defeitos, alguns reais outros exacerbados pela desinformação ou pela repetição do realejo: corrupção, clientelismo, fisiologismo, personalismo etc. A Justiça Eleitoral não está imune a críticas ou questionamentos, como a de fomentar o mais amplo fenômeno da judicialização da política. Mas não é apropriado pô-la na mesma caixa de Pandora.

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Uma campanha como nunca etc

Por Villas-Bôas Corrêa

Nos 60 anos e quebrados como repórter político, cobri todas as campanhas eleitorais, desde a primeira na sucessão do medíocre governo do presidente general Eurico Dutra. As campanhas polarizadas pelo Partido Social Democrático, o PSD das sólidas bases municipais e estaduais – com os seus aliados de sempre, como o PTB getulista e outras siglas nanicas, contra a União Democrática Nacional, a UDN dos bacharéis e dos grandes oradores, como Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Adauto Lúcio Cardos e figuras exemplares como Milton Campos, que Carlos Castelo Branco consagrou como “o mais completo homem público que conheci” – eram de uma modéstia franciscana comparada com a miliardária pré-campanha da pré-candidata governista, a ministra Dilma Rousseff.
Com a melancolia dos idosos, passa pela memória a campanha do brigadeiro Eduardo Gomes, com o lerdo DC-3 alugado em viagens de horas para os comícios que eram bancados pelos diretórios estaduais com a ajuda da caixa de campanha. E a atração era a equipe dos grandes oradores que se revezavam na tribuna. Dali, a hospedagem nos modestos hotéis da época, para a recompensa do café da manhã reforçado com a fatia de queijo e a cota de bolo. Nos pequenos e médios municípios de roteiros de uma semana, os oradores se revezavam para poupar a garganta. O toque de modéstia não era uma novidade ou uma exceção. Pois, da classe média dos bacharéis, médicos, fazendeiros do interior era composta a maioria das duas Casas do Congresso.
E, como a marca que não se esquece, este depoimento pessoal de um instante inesquecível. Na campanha que reunia multidões do embirutado Jânio Quadros – o da renúncia que abriu o caminho para os 21 anos da ditadura militar – no final de uma longa série de comícios estava conversando com o candidato a vice, senador Milton Campos, quando Jânio veio se despedir. Milton Campos, com a maior naturalidade, avisou que não iria no dia seguinte ao comício de Porto Alegre. E deu a justificativa: a eleição de Jânio é que era importante. E o candidato certamente esperava receber votos do deputado Fernando Ferrari, o candidato avulso dissidente do PTB, com a bandeira da Campanha das Mãos Limpas. Jânio trairia Milton Campos duas vezes, a segunda no Jan-Jan do acerto com Jango Goulart, que por sua vez traiu o marechal Lott, candidato mais pesado que uma locomotiva.
Este ligeiro repasse pela memória é o ontem para o confronto com o agora. Nunca na história etc um partido, e o Partido dos Trabalhadores, fundado pelo líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, revelou a pujança de milionário como o PT se jacta de bancar para eleger a candidata Dilma Rousseff. Só para o período entre abril e junho, na pré-campanha, pois a campanha pela agenda do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começa a 6 de julho, o PT vai bancar cerca de R$ 250 mil em três meses, entre abril e junho, na pré-campanha de Dilma. E a lista é de destroncar a queixada: R$ 12 mil para aluguel de casa; salário da Dilma, R$ 17.800 mensais; salário de cinco assessores, R$ 55 mil por mês; aluguel de dois andares no Centro, previsão de R$ 30 mil mensais; mais aluguel de jatos executivos, locação de carros para a candidata e segurança e outros luxos.
Na grande festa de despedida de Dilma, na segunda-feira, dia 29. quando do lançamento do PAC-2, a previsão é da presença de mais de mil pessoas, entre governadores, ministros, secretários, prefeitos, parlamentares e a turma do cordão que cada vez aumenta mais, e como... Num toque de pitoresco ineditismo, o presidente Lula foi multado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a primeira em R$ 5 mil, aplicada por um só ministro, e a segunda de R$ 10 mil pelo TSE por ter infligido a lei eleitoral ao fazer propaganda da candidata num evento em sindicato, em São Paulo. Migalhas para um partido milionário.
Como a pré-campanha está uma pândega, o presidente Lula e os dois candidatos, a ministra Dilma Rousseff e o afinal desencantado governador de São Paulo, José Serra (PSDB), encontraram-se no mesmo palanque em Tatuí (SP) para a entrega de 650 ambulâncias adquiridas pelo governo federal para o Serviço de Atendimento de Urgência (Samu).
Governo e oposição afinal encontraram um tema em o acordo é perfeito: a crítica à imprensa. Divirtam-se...

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O eleitor indesejado

Por Mauro Santayana

Segundo os jornais, o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi excluído da lista dos possíveis oradores no lançamento da candidatura do governador José Serra à Presidência da República, no dia 10. De acordo com as mesmas fontes, o outrora festejado líder, mais do que ajudar, poderá prejudicar o governador de São Paulo.

É provável certo exagero na informação. O ex-presidente continua a ser um homem elogiado por setores das elites econômicas, que nele veem o physique du role do estadista perfeito. É poliglota, visita universidades estrangeiras e circula com familiaridade pelos corredores da Sorbonne, de Oxford e Harvard, onde cruza, por acaso, com grandes mestres. Há quem defenda a ideia de que o intelectual paulista está acima da maioria da gente brasileira, despreparada para ouvi-lo e entendê-lo. Certa vez, acutilado pelo tédio, queixou-se de que somos um povo de caipiras.

Para lembrar o poema de Bilac, nem todos temos ouvidos capazes “de ouvir e entender estrelas”. Para ouvi-las, adverte o poeta, é preciso amá-las. Talvez não amemos o grande líder, como é devido, e por não amá-lo, não o entendamos. Não se compreende, por exemplo, que o grande intelectual se meta nas articulações de seu partido em busca de apoio, como fez recentemente, no caso do Distrito Federal. Podemos admitir que ele, em busca do minuto de televisão de um pequeno partido, tivesse pretendido ajudar. Mas, no critério de seus astutos companheiros de partido de São Paulo, esse adjutório pode surtir efeito contrário.

É natural – e humano – que o professor Fernando Henrique Cardoso não se desgarre da nostalgia do poder. Todos os que o experimentaram guardam do mando memórias agradáveis, como aquelas dos amores juvenis. Mandar é crescer sobre suas próprias dimensões, multiplicar-se na obediência que lhe prestam os outros, aumentar sua presença no mundo: é prelibar esse crescimento nas estátuas normalmente erguidas para ampliar, na posteridade, o espaço que o corpo ocupou em vida.

De vez em quando sua humana vaidade escorre pela língua, e ele se qualifica como um líder nacional. O problema é medir a real abrangência dessa liderança. Ela é normal em alguns círculos acadêmicos e no grupo que o acompanhou nos dois mandatos presidenciais. Provavelmente não tenha peso suficiente para inclinar a balança eleitoral em favor da candidatura da oposição ao presidente Lula.

O fato é que, nesta altura do processo sucessório, as duas candidaturas conhecidas ainda se encontram de velas quietas. Falta-lhes o vento do entusiasmo. A candidatura da ministra Dilma Rousseff se move sob o sopro presidencial, mas o barco ainda passeia em águas costeiras. Como sabem os veteranos, a viagem eleitoral começa para valer logo depois das convenções partidárias, nos 90 dias que antecedem a abertura das urnas. O mesmo ocorre com a caravela da oposição.

Mais do que a provável e subjetiva reação popular contra o ex-presidente, pesa-lhe a insistência em considerar o seu governo melhor do que o do sucessor. Milhões de brasileiros têm sólidas razões para se sentirem mais felizes hoje do que há oito anos. Isso não significa que o presidente Lula seja o messias enviado pelo Todo Poderoso para redimir a gente brasileira. Seu governo tem erros, mas – e isso é o que interessa – eles são de segunda importância em um confronto eleitoral. Assim, tanto Serra, quanto Aécio, sabem que negar acertos ao atual governo é bater-se contra a realidade, o que a razão política proíbe.

Pode ser que se trate de ingenuidade, mas há, quase tocável pelos dedos, a percepção de que, na atual campanha, de pouco valerão os efeitos especiais do palanque eletrônico. Os eleitores estarão de ouvidos mais atentos aos substantivos do que aos adjetivos; de olhos menos interessados nos efeitos plásticos do écran. Nos anos 60, Affonso Arinos de Mello Franco, filho, dizia, a propósito da oposição alienada, que, na visão da UDN, o povo comia habeas corpus. Hoje podemos dizer que tendo escapado, com Lula, da dieta do feijão com farinha, os pobres estão mais preparados para defender o que já conquistaram.

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O destino e o dever

Por Mauro Santayana

O presidente Marcos Vilaça, em seu discurso de abertura, e o orador oficial, Eduardo Portella, acentuaram, durante a homenagem que lhe prestou a Academia Brasileira de Letras, a funda consciência de responsabilidade que orientou a vida de Tancredo Neves. Aos dois elogios somou-se o retrato de Tancredo, na memória da família, com o agradecimento do governador Aécio Neves. O governador lembrou o leitor Tancredo Neves e, no exame de sua biblioteca, identificou-lhe os interesses culturais e compromissos com o humanismo. Marcos Vilaça lembrou ter folheado, na vasta biblioteca de Tancredo, o exemplar de Casa-Grande & Senzala, o clássico de Gilberto Freire, minuciosamente anotado pelo mineiro. “Fiquei tentado a levá-lo, a fim de oferecê-lo ao mestre”, comentou, à margem de seu forte discurso, provocando a reação bem humorada do auditório.

Eduardo Portella situou, com precisão, Tancredo como homem de doutrina própria, imune a seitas e a idolatrias. Ele via o mundo com seus olhos, e o sentia com a alma. Os autores que lia não o mudavam, serviam para confirmar suas próprias ideias e acrescentar-lhes novos fundamentos. Haurira o essencial de seu espírito em São João del Rei, com sua forte religiosidade e o arraigado sentimento de amor à liberdade. A fé, que expressava na devoção particular a São Francisco de Assis, endossava seu compromisso político com a justiça social.

Na visão de Portella, Tancredo não foi o liberal costumeiro, que se servisse do rótulo a fim de esconder a covardia ou dissimular o oportunismo, mas homem convencido de seu destino e dever. A conciliação, sinônimo de paz, não pode ser obtida com a injustiça – o que é comum no conluio dos corruptos – mas como processo para novos avanços da sociedade. Como Getulio, Juscelino e outros de seus contemporâneos, Tancredo foi homem de extrema coragem – coragem física, e não apenas moral, como testemunham vários episódios de que participou.

Assim, a leitura correta da ação política de Tancredo é que se tratava de um radical em seu projeto de soberania nacional e de igualdade entre os brasileiros e paciente construtor do entendimento. Essa interpretação foi confirmada no discurso de Aécio, ao lembrar que o sofrimento dos ferroviários e trabalhadores rurais de São João del Rei levara o jovem promotor público a disputar o cargo de vereador e a obter a maior votação da cidade – aos 24 anos.

O nacionalismo de Tancredo teve como fonte inspiradora o Primeiro Manifesto dos Mineiros, de julho de 1842, documento que ele reputava como a primeira advertência contra a submissão dos governantes nacionais aos interesses estrangeiros. Embora houvesse razões políticas laterais para que o imperador decidisse dissolver a Câmara, convocada para 1842, a mais importante era a disposição dos novos parlamentares em negar renovação ao Acordo Comercial com a Inglaterra, altamente lesivo aos interesses brasileiros. Havia fundada suspeita de que o chefe da facção áulica, Aureliano Coutinho, tivesse interesses pessoais nessa renovação, e aconselhasse o jovem imperador a buscar a composição de um Parlamento favorável ao acordo (o que acabou ocorrendo). O Manifesto, datado de São João del Rei, redigido por Teófilo Otoni e assinado por José Feliciano Pinto Coelho, acusava o governo de permitir que os estrangeiros ditassem suas leis em nossa própria casa. A referência era direta ao Tratado, oriundo do extorsivo convênio firmado em Londres pelo Marquês de Barbacena, logo depois da Independência.

Em seu discurso, Aécio lembrou as velhas afinidades históricas entre Pernambuco, Bahia e Minas. Houve uma continuidade na ideia de fazer-se a pátria nos três centros de formação da gente brasileira. O povoamento de Minas, ao contrário do que muitos pensam, deveu-se mais aos nordestinos e aos vindos de além-mar do que aos paulistas, que minguaram sua presença na região das Minas, a partir de 1708, com a rebelião dos Emboabas. Essa referência não deixa de atar-se à atualidade política, e foi ouvida com atenção pelo auditório intelectualmente qualificado que se reuniu na Academia Brasileira de Letras.

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O petróleo e a Federação

Por Mauro Santayana


Ao examinar o problema da divisão dos royalties, o Senado provavelmente irá além da atualidade. É bom que examine a formação histórica e política do Brasil, desde a Colônia, e medite o esforço de todas as gerações seguidas a fim de conquistar o território, fixar-lhe as fronteiras e construir, a duras penas, a sua unidade política. Foi uma edificação difícil, muitas vezes argamassada com sangue, mas assegurada pela lucidez de grandes líderes políticos. Ainda nos debates da frustrada Assembleia Constituinte do Império Brasileiro, logo depois da Independência, contribuiu para a inteligência da hora o mais tarde senador Nicolau Vergueiro, ao contestar proposta de Carneiro da Cunha de que o Império se constituísse de “uma federação de províncias”. Naquele momento inaugural do Estado, essa divisão teria sido prematura: a Federação era necessária, e continua sendo necessária, mas o exemplo da América Espanhola estava muito próximo a sugerir a fragmentação do território entre pequenas repúblicas. A manutenção da integridade legada pelos portugueses era imprescindível em 1823.

A reivindicação federalista tinha a sua razão de ser, e já se expusera no projeto da Inconfidência Mineira, em 1789, e na Revolução Pernambucana de 1817. Meses depois da frustrada Constituinte, houve a tentativa da Confederação do Equador. Os movimentos autonomistas das províncias continuaram no Sul, em Minas e em São Paulo e novamente em Pernambuco, em 1848, com a Praieira. A dificuldade maior ocorreu no Rio Grande do Sul, pela sua situação geográfica, próxima dos vizinhos castelhanos e de sua influência republicana. A proclamação da República do Piratini constituiu, pela sua ousadia e circunstância, a grande ameaça à integridade territorial do país, mas a inteligência política dos dois lados assegurou a paz e a continuidade de nosso projeto nacional.

Ao extraordinário senso político de Caxias, a que se somava indesmentível patriotismo, devemos a contenção de tais movimentos sem o excesso da repressão, e o conselho político de que fossem rapidamente anistiados os seus responsáveis. A partir de 1836, as assembleias provinciais, que dispunham de razoável poder legislativo, puderam moderar o poder dos “presidentes” de províncias nomeados pelo governo imperial.
É preciso reconhecer a grande disparidade no desenvolvimento econômico e cultural entre as diversas regiões do país. O Norte, o Nordeste e parcela do Centro-Oeste se encontram a décadas de distância do avanço obtido nos estados do Sudeste e do Sul. Uma nação só se constrói com segurança e só pode garantir sua soberania quando trabalha para a igualdade de todos. Embora seja difícil, mesmo nos países mais adiantados, essa igualdade desejada – e necessária – o objetivo deve ser esse. No caso em questão, o exame mais sereno do problema deve levar à evidência de que os estados submetidos à extração dos recursos do subsolo, mesmo do que seja do subsolo marinho, devem ser ressarcidos dos danos ambientais, atuais e futuros, mediante participação maior. Mas, se os outros estados brasileiros, que não se encontram beneficiados pela natureza, ou que devam preservar seus recursos em benefício comum, não receberam ajuda compensatória dos mais ricos, a nação será sempre ameaçada em sua soberania. Impõe-se a solidariedade ou, mais cedo ou mais tarde, se esquarteja o país.

Foi – e continua sendo – um erro tratar do problema em ano eleitoral, o que eleva a paixão entre as partes e perturba o processo político. Por tudo isso é preciso que o Senado, que representa diretamente os estados, saiba tratar da questão tendo em vista o interesse maior do país, a sua unidade política, mas sem desprezar o pacto federativo. O Senado existe exatamente para negociar e dirimir os eventuais dissídios entre os estados-membros da União – embora muitos senadores não saibam o que fazem ali.

O melhor seria manter a situação como se encontrava, antes da decisão parlamentar, a fim de que se assegurem os direitos já adquiridos. Não se pode tirar de quem já obteve, mas é bom tratar da divisão justa no futuro.

A cada tempo basta o seu cuidado.

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É a popularidade de Lula, estúpido

Por Cristian Klein

Volto mais uma vez à discussão que tem predominado nesta fase de pré-campanha da eleição presidencial: a propaganda antecipada e os abusos da máquina pública para incensar as candidaturas. Tanto Dilma Rousseff, espécie de primeira-ministra do governo Lula, quanto José Serra, governador de São Paulo, aceleraram as inaugurações de obras, numa média aproximada de uma a cada dois dias. É uma briga de cachorro grande (ou de tucanos e outros animais políticos de porte). Ambos estão a bordo de poderosas máquinas: uma federal e outra do maior estado brasileiro, que concentra na prática 25% da votação nacional (considerando a menor taxa de abstenção e a maior proporção de votos válidos dos paulistas).
Curiosamente, da contenda e das acusações quase não participam aqueles que justamente seriam os mais prejudicados, os que não pilotam uma máquina pública turbinada, como os pré-candidatos Marina Silva (PV) e Ciro Gomes (PSB). A disputa não se dá pela chave possuídos/despossuídos ou motorizados/desmotorizados mas pelo confronto governo/oposição. São estes polos, pela maior força gravitacional, que organizam o conflito. O discurso do abuso do poder político virou peça de resistência do campo oposicionista, que espertamente age como se coitado fosse. E o governo, também espertamente, não perde tempo para aproveitar as chances que tem para associar Brasil afora a imagem de Dilma Rousseff à do presidente Lula.
Isso é que conta, muito mais do que o conteúdo e o valor duvidoso das obras, muitas inconclusas. Isso é que incomoda e tira o sono da oposição. No entanto, por mais que dê entrada em ações contra o governo na Justiça Eleitoral, tal esforço será um castigo de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado a rolar montanha acima enorme pedra e vê-la sempre descer ao chegar perto do cume. O esforço é vão. O problema está na legislação permissiva. Dilma poderá continuar – mesmo após sair do governo para ser, finalmente, apenas candidata – a acompanhar o presidente em seus compromissos. E Lula também poderá prestigiar sua apadrinhada em eventos, como qualquer cidadão brasileiro no exercício de seus direitos políticos. O problema, para a oposição, não está no uso da máquina pública mas na identificação Lula/Dilma, “o cara” e “a coroa”.
Esta associação, cada vez maior e inevitável, tem criado a noção de desequilíbrio no jogo e é o que atemoriza de fato a oposição, ao ver a subida galopante da ministra nas pesquisas de intenção de voto. O pesadelo é o apoio popular a Lula. Seu potencial de transferência de votos e a capacidade de aderência de Dilma para absorvê-los. Adaptando a máxima cunhada por James Carville, assessor de Bill Clinton na campanha de 1992: “É a popularidade de Lula, estúpido”.
As inaugurações contribuem, sim, para divulgar a imagem da ministra, apresentá-la às classes políticas locais e regionais; criar um belo acervo de imagens para a propaganda eleitoral na TV e, talvez mais importante, porém menos ressaltado, para Lula treinar sua candidata, sem traquejo de campanha, antes que a partida comece.
As críticas em torno das inaugurações são favorecidas por dois fatores conjunturais: de um lado, o hiperativismo do governo, alardeado pelo próprio presidente Lula, que anunciou em palanque que chegara a hora de bater bumbo; e, de outro lado, o suposto inativismo da oposição, diante da demora de Serra em assumir sua candidatura (embora sem perder tempo de também subir nos palanques para as inaugurações em São Paulo). Estes dois fatores contribuem para a noção geral de desequilíbrio.
Evidentemente, há os excessos dos competidores, e para isso existe o TSE. O fato de o tribunal, em decisões tomadas no mesmo dia, ter punido e absolvido Lula por propaganda antecipada foi criticado como contradição, incoerência. Mas não é preciso entender muito de direito para saber que cada caso é um caso, um em Minas Gerais, outro no Rio, em situações diferentes. A primeira não mereceu punição; a segunda, sim. Portanto, que se repreenda o presidente, que não está acima das leis. A Justiça Eleitoral tem suas falhas. Mas é preciso ter-se em conta que torná-la vilã pode se assemelhar muito ao comportamento do jogador que sempre põe a culpa no juiz quando o seu time está perdendo.

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Nas entrelinhas da candidatura Serra

Por Raphael Bruno

Enquanto parte da oposição comemorou, na sexta-feira passada, a tímida confirmação de que o governador de São Paulo, José Serra, será o candidato tucano na disputa pela sucessão presidencial, o conteúdo das declarações do principal adversário da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao anunciar a mais do que esperada disposição de concorrer ao cargo em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Rede Bandeirantes de Televisão, preconiza períodos turbulentos para o PSDB e seus aliados. A principal e mais óbvia dificuldade da oposição, ainda que apenas indiretamente admitida, são os elevados índices de aprovação do governo encabeçado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Serra é franco ao reconhecer que, do ponto de vista da oposição, não interessa confrontar o petista. “O Lula fez dois mandatos, está terminando bem o governo”, disfarçou o tucano.

A opção de não atacar a atual administração, contudo, envolve uma complexa equação política cuja solução, talvez, ainda escape aos estrategistas tucanos. Pelo lado do pragmatismo eleitoral, pode parecer inteligente não partir com críticas ferozes para cima de um governo que é avaliado como ruim ou péssimo por menos de 10% dos brasileiros. É o que o governador mineiro Aécio Neves defende há anos: que o PSDB não deixe de reconhecer os avanços do governo Lula. Desferir ataques duros contra a administração petista poderia significar a perda de preciosos votos de eleitores que simpatizam com o governo e enxergam nele pontos positivos mas que ainda não fidelizaram seus votos a favor da candidata do presidente. Serra dá indícios de que foi convencido pela tese do correligionário ao dizer, cautelosamente, que deseja para o Brasil que ele “continue bem e até melhore”. Por outro lado, a oposição precisa encontrar uma maneira de fazer a crítica política ao governo sem se render ao temor de cair no ostracismo eleitoral. Do contrário, pode ser exigir demais dos eleitores que votem contra a candidata da continuidade governista se nem seus adversários são capazes de esclarecer as razões para justificar tal comportamento.

O governador paulista deu a entender que a aposta tucana para driblar o dilema político-eleitoral é restringir a disputa eleitoral a uma comparação entre biografias e capacidades pessoais de gestão. “Não é o partido que vai se comparar. Você tem que ver quem é que vai ser presidente, quem vai dirigir as coisas, por que o presidente é insubstituível. Ele não governa terceirizado. Quem toma as decisões, inclusive nos momentos difíceis, é o prefeito, o governador, é o presidente. Não há ninguém que governe com alguém paralelamente”, destrinchou Serra.

A tática seria inegavelmente correta se tanto Serra quanto Dilma fossem representantes do mesmo campo político. Nesta hipótese, as eleições seriam, realmente, uma espécie de grande comparativo de estilos e nuances ideológicas. Os dois pré-candidatos, contudo, são os escolhidos pelos dois partidos que monopolizam a disputa presidencial há anos. E, a despeito das muitas semelhanças que aproximam PSDB e PT, são os indivíduos que pleitearão, por grupos políticos distintos, o cargo político máximo do país.

Neste sentido, o governador paulista deixa escapar o receio de ficar preso no chamado plebiscito que o presidente Lula planeja. Ou seja, que a eleição seja transformada num comparativo entre os oito anos de gestão petista do Palácio do Planalto e a era tucana de Fernando Henrique Cardoso. Serra já amargou, em 2002, a experiência de ser derrotado em uma eleição presidencial prejudicado pelos vínculos entre ele e um ex-presidente impopular. Espera que, oito anos depois, a história seja diferente. Logo, a tentativa artificial e quase desesperada de minimizar a importância do partido e daqueles que o acompanharam em sua trajetória política, entre eles o próprio FHC. Ainda que Serra tenha, ao longo desse caminho, pontuado divergências com políticas específicas do ex-presidente, principalmente na área econômica.

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O óleo derramado e o papel de Lula

Por Cristian Klein

A primeira declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a questão dos royalties – após o protesto de quarta-feira no Rio que mobilizou mais de 100 mil pessoas numa reação popular à aprovação da Emenda Ibsen – é preocupante. Há meses, em reunião com governadores dos estados produtores, Lula garantiu que vetaria o projeto caso ele passasse pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Agora, o presidente, numa mudança de discurso, diz que já cumpriu a sua parte e que o problema é do Congresso. Lula ainda não lavou as mãos, mas procurou saber onde está a bacia d’água. O veto passou a ser mera possibilidade.

Em seu comentário, Lula não descartou a hipótese de intervir na decisão do Legislativo. Mas, sem o mesmo compromisso de antes, afirmou apenas que vai “se debruçar” sobre a questão, caso o Congresso mantenha o teor radical da emenda proposta pelos deputados Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) e Humberto Souto (PPS-MG), que significaria para o estado do Rio e os municípios fluminenses uma perda de R$ 7 bilhões por ano, podendo levá-los à bancarrota.

Lula ensaiou um recuo no acordo feito com os estados produtores (Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo). Mas sua declaração revela ainda mais dois pontos contraditórios. O primeiro foi a recomendação aos parlamentares para que não tenham pressa, deixem a discussão sobre os royalties para o ano que vem, já que a distribuição dos recursos do petróleo só terá efeito prático a partir de 2016. Não era essa a posição do governo. Quando do lançamento do marco regulatório do pré-sal, no fim de agosto, o Executivo queria ver o assunto votado em caráter de urgência. Isso permitiria ao governo aprovar o marco regulatório a partir das bases criadas pela comissão interministerial que redigiu o texto original e faturar politicamente a conquista do pré-sal em um ano eleitoral. Mas o óleo entornou, e o clima de comemoração já não é mais possível. De boa notícia para o desenvolvimento do país, o pré-sal tornou-se politicamente um atoleiro.

O segundo ponto contraditório é a crítica de Lula aos parlamentares. O presidente afirmou que sua “vontade era a de não votar os royalties este ano, pois sabia que era um ano político e que em ano de eleição todo mundo quer fazer gracinha”. Ora, Lula também é político e não está numa redoma, fora do calendário eleitoral. Pelo contrário. Já disse que fará – e tem feito - de tudo para eleger sua candidata, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A questão dos royalties tornou-se um assunto espinhoso, perigoso, que pode tirar importantes votos. Se Lula não vetar a emenda que prejudica os estados produtores estará quebrando um compromisso e dando um discurso à oposição. O Rio, estado mais prejudicado com a nova divisão, é o terceiro maior colégio eleitoral do país (com cerca de 8,6% do total), o que pode fazer a diferença numa disputa presidencial que se prevê acirrada.

O fato é que todos os envolvidos são políticos e estão jogando para a plateia num ano eleitoral. Mas resta ao presidente da República o papel de maior responsabilidade. A questão do pré-sal exige dele um comportamento menos partidário, de estadista. É o primeiro com a obrigação de evitar tergiversações. Em poucas situações cabe tão bem seu poder de veto. A questão dos royalties é atípica pelo potencial de despertar a cobiça desenfreada, não importando o bom senso, apenas os interesses regionais de uma maioria que avançou contra os direitos da minoria. Diante do ambiente de irracionalidade, o presidente não pode abdicar de sua prerrogativa de intervir no assunto como um magistrado. Tem popularidade para isso. Se não fizer, fará o Supremo. Especialistas têm destacado os diversos pontos em que a alteração das regras fere a Constituição.

Não fosse o bastante, vale recorrer ao óbvio. Paradoxalmente, toda a celeuma se dá num momento de opulência, da descoberta de uma enorme riqueza para o país. O pré-sal não é um jogo de soma zero, em que para um ganhar o outro tem que perder. Há recursos demais para que todos saiam vitoriosos e nenhum derrotado.

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O blefe de Lula

Por Villas-Bôas Corrêa

Irritado com a derrota na Câmara, articulada por mansos dissidentes da sua dispendiosa maioria, o presidente Lula aproveitou a viagem a Israel para, como mensageiro da paz, dar um aperto nos seus aliados na Câmara, que embarcaram na canoa furada do deputado Ibsen Pinheiro, outro que subiu à tona depois de anos em que não foi visto nem falado. Mas é de uma evidência que entra pelos olhos que Lula, com baralho na mão, deu as cartas marcadas para o blefe na hora certa.
É só raciocinar sem paixão: depois de uma ousada articulação internacional, em que tantos se destacaram, para trazer para o Brasil a Copa do Mundo de 2014, já no governo do seu sucessor, provavelmente sucessora, e os Jogos Olímpicos de 2016, o presidente não aceitará a jogada eleitoreira da oposição de virtualmente botar tudo a perder. O governador do Rio, Sérgio Cabral, não está tocando fogo na palha para espantar fantasmas quando repete à exaustão que, se com a punga, a verba dos royalties de petróleo for reduzida a uma esmola, ele não terá como realizar as obras para preparar a cidade para receber os dois maiores eventos esportivos do mundo.
E, sem o Rio, nem Copa do Mundo nem Olimpíada. Ora, Lula está em campanha, acaba até de ser multado em R$ 5 mil pelo discurso de comício na visita a obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ao lado da candidata Dilma. As últimas pesquisas de opinião confirmam a ascensão da sua candidata, que se encosta no governador José Serra, de São Paulo, e virtual candidato da oposição.
A estratégia do presidente é transparente. A primeira guerrilha será no Senado, uma maioria que dá e sobra para uma articulação objetiva e direta: se não for derrubada ou negociada a emenda do deputado Ibsen Pinheiro, Lula cumprirá a palavra empenhada com o governador Sérgio Cabral de vetar o monstrengo. É a última porta a ser aberta.
Não é tudo: a passeata dos 150 mil do Rio, debaixo de chuva torrencial, aplaudida ao longo do trajeto da Candelária à Cinelândia é como tocar fogo em pólvora. Uma nova derrota no Senado de senhores e senhoras de cabelos grisalhos, e a população voltará às ruas. Muito mais bem informados pela imprensa, televisão, rádio e internet, os “traidores” da Copa e da Olimpíada não terão como fazer um comício em qualquer cidade do Rio. E vamos reviver a época das grandes passeatas. Das suas maiores desde a ditadura militar de 1964: a dos Cem Mil, que também saiu da Candelária e ocupou toda a Avenida Rio Branco até o Monroe, e acabou no AI-5. E a das Diretas Já, com 1 milhão de pessoas espremidas do palanque em frente à Igreja da Candelária até o Ministério da Guerra. As Diretas Já foram derrotadas pelo Congresso humilhado pelas cassações de mandato, no negrume da censura à imprensa e das violências, torturas e mortes nas masmorras dos Doi-Codi.
Assisti às duas. A dos Cem Mil caminhando pela Avenida Rio Branco entre os caras-pintadas do apoio dos estudantes e uma massa humana que era um corte em toda a sociedade, dos ricos aos populares já empanzinados de ditadura. E a do milhão do palanque ao lado dos dois líderes de temperamentos opostos. O visionário deputado Ulysses Guimarães, olhos marejados ao contemplar a multidão, sustentava o seu otimismo na certeza de que o Congresso não resistiria à pressão de 1 milhão que exprimiam toda a população. Do outro lado do palanque, a sabedoria mineira do senador Tancredo Neves racionava pelo avesso de Ulysses: o que eles teriam para dizer ao povo com a derrota inevitável das Diretas Já por um Congresso submisso à ditadura? Acertou na mosca.
O que não é o caso. A crise política do Brasil está agora em Brasília. E o escândalo da distribuição de pacotes de notas pelo ex-governador José Arruda, hoje preso, aguardando julgamento é a mais clara advertência de que a população da capital, construída por Juscelino Kubitschek e reconhecida como Patrimônio da Humanidade, graças ao gênio de Oscar Niemeyer e à dança das suas curvas, tem uma dívida com o país.
Quando Brasília fará a passeata que está devendo ao Brasil? Pacífica, sem violência, conforme o modelo da do Rio de Janeiro, que não registra um único incidente. E não há tempo a perder. O presidente Lula e a candidata Dilma precisam ser cobrados pela população que a Câmara ultrajou.

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As perversas circunstâncias

O governo do presidente Lula se viu obrigado a fazer aliança com o que há de pior no Congresso, a fim de aprovar as medidas que considera necessárias ao país. Conforme chegou a confessar, se Jesus governasse o Brasil, teria que fazer aliança com Judas. Podemos entender o desabafo do presidente.
Em recente jantar na fabulosa residência do suplente de senador Gim Argello, segundo os jornais, a ministra Dilma Rousseff foi aconselhada pelo senador Fernando Collor a conversar pessoalmente com o deputado Roberto Jefferson, a fim de obter o apoio oficial do PTB à sua candidatura à sucessão.
O suplente Gim Argello apregoa em Brasília sua amizade com a candidata, da mesma forma que alardeia sua riqueza, multiplicada, como tantas outras fortunas brasilienses, nos últimos 20 anos. Seu rápido enriquecimento é até mais recente: de acordo com a revista IstoÉ, iniciou-se depois de ter sido eleito deputado distrital em Brasília, há 11 anos. Argello está sob processo judicial, acusado de ter participado de um negócio milionário com terras públicas do Distrito Federal.
Admitamos que, na chefia do governo, o presidente Lula se veja obrigado a engolir sapos repulsivos, mas talvez não seja prudente à sua candidata aceitar conselhos como os de Collor, nem receber homenagens como as que lhe ofereceu Argello. As pessoas bem informadas e influentes de Brasília, que acompanham as atividades de Argello, receberam, aturdidas, a notícia desse jantar.
A campanha eleitoral deste ano vai, queira-se ou não, avançar fundo na questão da moral política. É um engano dos marqueteiros supor que aos pobres não interessa o discurso ético. Entre outros grandes benefícios do atual governo houve o de – ao libertar os mais pobres da dependência com relação aos chefes locais – ampliar a sua percepção do certo e do errado em matéria política. Mesmo que nos abstivéssemos dos juízos morais, haveria que se considerar a clássica relação entre os custos e os benefícios. A companhia de Jefferson, Collor e Argello compensará as restrições do eleitorado, mormente depois dos ataques que virão, certamente dos adversários, em plena campanha, mediante os blogs, o YouTube, o Twiter, os torpedos dos celulares?
No passado, as campanhas eleitorais se faziam por correspondência. Tanto no Império quanto na República Velha, eram famosas as circulares que os candidatos faziam chegar aos grandes eleitores, ou seja, aos líderes naturais de suas comunidades. Além dessas circulares, havia os jornais impressos, que, em linguagem apaixonada e muitas vezes desabrida, tomavam partido político e excitavam o debate eleitoral. Hoje, e com uma influência imensurável, a internet está aí. Para o bem e para o mal. É necessário pensar que se trata de um sistema de comunicação sem regras claras e muitas vezes sem pudor. A rede serve de veículo para a difamação e a calúnia. Mas serve, da mesma forma, para a mobilização das massas, como temos visto em alguns episódios no exterior.
Há também a questão interna. Ao denunciar o suposto esquema Marcos Valério, Jefferson promoveu o tumulto no interior do PT, com a cassação de José Dirceu e o envolvimento de alguns outros parlamentares no processo em andamento no Supremo Tribunal Federal, que aceitou a denúncia do procurador-geral da República. Como esses atingidos pelo deputado Roberto Jefferson, antigo chefe da tropa de choque de Collor no Parlamento, irão sentir-se, tendo-os como seus companheiros de campanha nos próximos meses? Conseguirão atuar coordenadamente com esses senhores, como é necessário que ocorra em uma disputa eleitoral?
Muitos suspeitam que essa excitada aproximação de Collor, Jefferson e outros com o governo Lula e sua ministra tenha como objetivo sabotar a eleição da candidata do PT. Para outros, isso seria reconhecer, nesses senhores, a argúcia mental de Richelieu e de sua eminence grise, o capuchinho François Leclerc, a quem se atribui inteligência ainda superior à do imenso cardeal. Não acreditam que disponham de tanta argúcia.

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Aproximações e distanciamentos

Por Mauro Santayana


O provável acordo entre Fernando Pimentel e Patrus Ananias, em Minas, talvez não seja o esperado pelo presidente Lula, que, ao incentivar arranjo eleitoral com Hélio Costa, pretendia o “palanque único” para a sua candidata no estado. A ideia do palanque único se associa à estratégia da eleição plebiscitária, com a divisão maniqueísta da sociedade política, mas não é conveniente à democracia. A democracia reclama, por definição, o pluripartidarismo. É certo que, em nosso sistema, o processo acaba sempre na escolha plebiscitária dos chefes de governo, seja com a eleição decidida no primeiro turno, seja na segunda rodada de votações. Mas há que se respeitar a existência de tantos partidos quantos se organizarem, de acordo com as regras da lei. E todos eles têm o direito e o dever de apresentar seus candidatos a todos os cargos em disputa.

O ministro Hélio Costa dispõe de boa base eleitoral em Minas. Ele a conquistou com a popularidade de homem da televisão, quando correspondente da Rede Globo nos Estados Unidos. Mas, da mesma forma que muitos outros membros do atual PMDB de Minas, pouca afinidade tem com a visão montanhesa da política.

Como todos os outros partidos, e em todos os estados, o PMDB de Minas tinha, em seus quadros, políticos menos qualificados, e homens públicos de grande nível. Se a morte dos grandes líderes da resistência democrática foi desalentadora para todos os brasileiros, em Minas o golpe foi mais duro. Isso não significa que o partido tenha minguado de votos: a sua força remanescente se expressa nos municípios mineiros, alguns deles de forte densidade eleitoral e importância econômica. Parcela ponderável do partido se somou ao governador Aécio Neves, desde as eleições de 2002, para derrotar Newton Cardoso, oficialmente candidato do partido. Em 2006, um grupo do PT se somou a Newton Cardoso, apoiando sua candidatura ao Senado, depois que ele, ressentido pela vitória de Aécio em 2002, derrotou a indicação de Itamar Franco como candidato ao Senado, na convenção do PMDB, com seus métodos próprios de fazer política. A ala do PT comandada por Nilmário Miranda apoiou a candidatura de Newton, e Itamar e Aécio apoiaram e elegeram Eliseu Resende. Nas eleições para prefeito de Belo Horizonte, em 2008, grande parte do PT acompanhou Fernando Pimentel na aliança com Aécio a fim de eleger o candidato do Partido Socialista Brasileiro, Márcio Lacerda, com o assentimento de Lula. O candidato adversário, do PMDB, recebeu alguns votos petistas, mas nenhum deles vindo dos correligionários de Patrus Ananias, embora o ministro não se sentisse representado no acordo municipal. Hoje, as nuvens já se deslocaram e formam desenhos diferentes, o que explica o entendimento atual entre o ministro Patrus e Pimentel.

Para quem conhece os segredos de Minas, a aproximação entre Patrus, Pimentel, Alencar e Aécio é muito mais provável do que um acerto entre o vice-presidente e os dois petistas com o ministro Hélio Costa. Quando Aécio diz que uma aliança entre ele e o PMDB será bem aceita, sabe bem a que PMDB se dirige. Não é exatamente o PMDB que apoia Hélio Costa. O que está ocorrendo em Minas ocorrerá necessariamente em outros estados importantes. Não é só a realidade local, com os interesses e as afinidades pessoais atuando, mas também o sentimento político de cada povo, em sua forma de ver o mundo, que conduzem o processo das alianças e coligações.

O fato é que, por isso mesmo, ao cidadão comum é difícil aceitar certos atos de conveniência política, como o apoio de Fernando Collor a Lula e à ministra Dilma Rousseff, candidata à sucessão. Apesar de isso ser comum, na vida política, esse ir e vir choca, principalmente, as pessoas mais humildes. Quando alguém acusa o adversário de atos ignominiosos, sobretudo quando não há nenhum interesse público nessas acusações, não é de esperar-se reconciliação tão fácil. Também nunca se entendeu que Mangabeira Unger tenha pedido o impeachment de Lula e depois ocupado o cargo de ministro em seu governo, e agora tenha sido chamado por Temer para fazer projeto de governo para Dilma.

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Obama e o fim da paciência

Por Mauro Santayana


Temos todas as razões para o pessimismo com relação ao problema da Palestina. Israel, sob o governo radical de Netanyahu, está disposto a afrontar Washington. A desfeita a Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, não foi reparada devidamente pelo governo de Israel. A posição de Israel parece endurecer-se, não obstante as duras admoestações, tanto da parte de Biden como de Hillary Clinton. A paciência de Obama dá sinais de estar chegando ao fim. Mas Israel joga com um fator psicológico bruto, ao insinuar, de forma velada, que o atual presidente dos Estados Unidos é muçulmano e, no fundo, inimigo dos judeus.

O jornalista norte-americano Roger Cohen, ao comentar o conflito entre o governo atual dos Estados Unidos e os radicais de Israel, cita, de início, uma frase atrevida de Netanyahu: “Israel e os Estados Unidos têm interesses mútuos, mas nós agimos de acordo com os interesses vitais do Estado de Israel”. Segundo Cohen, “os Estados Unidos também têm interesses vitais” que incluem a existência dos dois estados, o de Israel e o da Palestina, lado a lado, mas “essa solução é erodida todos os dias, com os repetidos assentamentos judeus no território que deveria pertencer aos palestinos”.

A propósito, Cohen reproduz uma conversa que teve com Ronan Nachman, prefeito de um dos maiores desses assentamentos judaicos, o de Ariel. Nachman lhe disse, com franqueza e determinação, que não haverá nunca um Estado palestino e que o território a ele destinado terá que ser dividido entre Israel e a Jordânia. Uma charge, publicada pelo diário Maaravi, também citada por Cohen, mostra Obama cozinhando Netanyahu em um caldeirão, na típica cena do canibal africano que prepara seu jantar. É muito significativo mostrar um homem negro cozinhando um branco. Pode insinuar muitas coisas.

Não parece que a situação evolua ao ponto de convencer os direitistas de Israel, sobretudo os que controlam as suas Forças Armadas, a mudarem de atitude e aceitarem conversações de paz sinceras com os palestinos. Sua estratégia parece ser a de corroer a disposição de resistência dos palestinos e engambelar a opinião pública mundial, até expulsar aquele povo de seu território histórico.

O presidente Lula foi beneficiado pela escassez de tempo, e deixou de visitar o túmulo de Theodore Herzl, o jornalista judeu-húngaro que, vivendo na Áustria, fundou em 1897 o Movimento Sionista Mundial. De acordo com algumas fontes, Herzl, antes de lutar pela criação de um Estado judaico, foi militante do pangermanismo, a causa da unificação de todos os Estados alemães – o que seria depois uma das mais caras metas de Hitler.

É importante recordar que o movimento sionista, desde o início financiado pelos judeus ricos, se opunha ao esforço de muitas comunidades hebraicas que, escapando da odiosa perseguição que sofriam nos países eslavos, pretendiam somar-se às comunidades nacionais que os acolhiam (sobretudo na América), de maneira a não se diferenciarem da humanidade como um todo, a não ser em seus cultos religiosos. O movimento sionista conteve essa aspiração.

Não temos, no Brasil, problemas com os judeus. Podemos falar de racismo contra os negros, mas é difícil assegurar que haja, a não ser em casos isolados, manifestações de antissemitismo em nosso país, como as há em outros países. Lula pode assim, em nome de nossa autoridade sobre o tema, discutir o problema com as autoridades de Israel, com os palestinos e com os iranianos. Quando ele diz que “não é de briga”, não manifesta apenas o seu sentimento pessoal mas, sim, o sentimento geral do povo brasileiro.
A única possibilidade de paz está dentro da própria população de Israel. No dia em que a maioria dos judeus de Israel e seus apoiadores, no mundo inteiro, descobrirem que a segurança de seu povo depende da segurança dos palestinos, provavelmente haverá paz ali, e distensão em todo o Oriente Médio.

A cada capitulação dos grandes do mundo diante da expansão de Israel, a situação se torna mais difícil, mas há tempo para evitar-se uma tragédia ainda maior, se as pressões externas estimularem o crescimento da oposição interna que, em várias organizações judaicas, trabalham pela paz.

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Política pequena não elege presidente

Por Cristian Klein

O mais importante na eleição de um candidato a presidente não é a política pequena das inaugurações de obras públicas, do discurso palanqueiro em cidades do interior para uma plateia muitas vezes formada por uma claque manipulada pelos chefes locais ou por um público já simpatizante. Como dito na coluna passada, o que importa é a grande política.
O sucesso do governo Lula, capaz de catapultar a candidatura de uma desconhecida da massa como a ministra Dilma Rousseff, tem mais a ver com um pacote de políticas públicas abrangentes lançadas e ampliadas nos últimos anos – Bolsa Família; ProUni; Minha Casa, Minha Vida –, além de ganhos econômicos percebidos pela população, do que com inaugurações apressadas de última hora. Assim também foi com Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu por ter controlado a inflação e criado o Plano Real. Tanto Lula quanto FHC não precisaram cortar fitas ou descerrar placas para trombetear e capitalizar tais realizações. O escopo de atuação de um presidente e de um governo federal está num outro plano, sobretudo no nível dos direitos e da condução dos rumos da economia.
No entanto, a onda de inaugurações protagonizadas por Dilma Rousseff (PT) e pelo governador paulista José Serra (PSDB), neste início de ano eleitoral, tem despertado uma série de críticas e denúncias na Justiça a respeito do abuso da máquina pública e da propaganda antecipada. Inaugurações tornaram-se vilãs, suspeitas, até prova em contrário. Não deveriam, pois obras públicas são – ou é de se esperar que sejam – um produto essencial para o bem-estar da população.
Mas os candidatos têm dado razões de sobra para se criar um clima de inconformismo. A sensação que se tem é que as inaugurações estão sempre envoltas num show de ilusionismo dos políticos, que querem faturar a todo custo. Vale “inaugurar” uma obra três vezes enquanto está em andamento; vale maquete, pedra fundamental, hospital concluído com verbas do governador aliado, escola que está longe de funcionar e fábrica que já está operando há tempos. Isso, o teatro, o engano, é o pior.
Até porque, a Justiça Eleitoral muitas vezes tem pouco a fazer em relação aos abusos da máquina pública e à propaganda antecipada. A legislação é falha, frouxa, tem lacunas e permite manobras e artimanhas, facilmente utilizadas por políticos experientes. Basta ter-se o cuidado de não falar explicitamente que há um candidato sobre o palanque querendo levar vantagem com a inauguração. Expectativa que – não fossem os excessos e o dom de iludir – é perfeitamente compreensível. Todo político tem o dever de prestar contas à população (accountability) e o direito ao credit claiming, ou seja, de reivindicar para si o crédito de suas realizações (e não de ficções, por pressuposto). Graças a esses mecanismos, os eleitores aprimoram suas escolhas nas melhores democracias.
Paradoxalmente, o fato de as inaugurações terem se tornado o centro do debate – deste jeito atropelado, mal ajambrado – pode estar trabalhando contra as intenções dos políticos e do marketing. É possível que os custos, em razão da veiculação das notícias negativas, sejam maiores que os benefícios esperados. Ou que o saldo fique neutralizado. Pelo caminho, oposição e governo têm se abastecido de munição uma contra a outra.
Outro ponto interessante, que reforça o argumento de que a inauguração de muitas e diferentes obras não é uma garantia de dividendos eleitorais, tem a ver com o caráter fragmentado, pulverizado da empreitada. Pesquisa realizada recentemente pelo governo mostra que a maioria dos cidadãos (51,8%) desconhece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da candidatura dilmista. E mesmo entre os que conhecem, 70,2% dos entrevistados não souberam citar uma obra sequer do PAC. Programa menos badalado, porém com mais foco – ataca o problema do déficit habitacional – o Minha Casa, Minha Vida é bem mais conhecido (70,6%). É curioso e mais um indício de que o cacoete das obras, disseminado na política local, não necessariamente funciona eleitoralmente no âmbito nacional.

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Dilma e a mulher na política brasileira

Por Raphael Bruno


Reiteradas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra-chefe da Casa Civil e pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, já deixaram claro que o campo governista pretende explorar, na campanha, o tema da participação feminina na política como maneira de capitalizar votos para a petista. É uma aposta arriscada. A questão do gênero não é, historicamente, um critério relevante para a decisão de voto do eleitorado brasileiro. A candidata petista tem, de toda maneira, uma margem razoável para crescimento, tendo em vista que, curiosamente, as sondagens de intenção de voto indicam que a ministra obtém, entre o eleitorado feminino, percentuais inferiores aos conquistados junto ao masculino.
É difícil deixar de constatar que as afirmações de Lula e Dilma no sentido de que o Brasil está preparado para eleger uma presidente e em defesa da ampliação da presença feminina na política nacional guardam sua dose de oportunismo. Se, por um lado, o governo petista buscou criar mecanismos para aperfeiçoar essa participação a nível institucional, por meio da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, por outro ignorou solenemente a questão em vários outros momentos significativos. O principal deles talvez tenha sido na última tentativa frustrada de emplacar uma reforma política, quando a proposta do governo não trouxe nenhuma espécie de mecanismo de cotas ou reserva de vagas para a eleição de mulheres. Um pecado haja vista o percentual ainda extremamente baixo de representantes femininas no Legislativo brasileiro.

A candidatura de Dilma, contudo, contém uma dimensão emancipatória por si só. Essa característica é explicada pela atuação político-administrativa da ministra. Dilma tem um perfil diferenciado que desafia fronteiras erguidas pelo machismo institucionalizado. Em geral, os partidos e os parlamentares reservam, para as poucas mulheres que conseguem obter um mandato ou um cargo no Executivo, áreas de atuação consideradas mais “adequadas” para a atuação política feminina. Este artifício altamente excludente abre as portas para as mulheres, por exemplo, de comissões setoriais consideradas “leves”, como de Seguridade Social e Família, Educação e Saúde, ao mesmo tempo que limita a participação delas em áreas entendidas como mais nobres, e ao mesmo tempo mais “sérias”, como política econômica, orçamento e tributação. O próprio governo Lula é um exemplo desse mecanismo. Dilma é a única ministra da equipe, além de Nilcéa Freire, titular da Secretaria Especial de Política para Mulheres, uma pasta atrelada à Presidência com status de ministério. No passado recente, quando mulheres chefiaram ministérios no governo de Lula, foram em assuntos como Meio Ambiente e Turismo. Nada de Planejamento, Fazenda ou Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Toda a carreira política de Dilma, por sua vez, está atrelada a áreas como infraestrutura e Casa Civil, onde, em geral, há hegemonia masculina. Mas a ministra não se limita a esse aspecto. A ciência política feminista, por muito tempo, ficou envolvida no debate que colocava em lados opostos a política de presença da política de ideias. De um lado, o argumento de que era necessária a presença física das mulheres nos espaços de poder. De outro, o entendimento ressaltando que o fundamental era que as políticas e legislações implantadas representassem adequadamente preferências femininas, independentemente do gênero de quem as impulsionava. Hoje, o debate parece ter alcançado um consenso em torno da percepção de que ambos aspectos são necessários. E essa lição Dilma demonstra ter apreendido ao vincular a simples identidade feminina a políticas públicas específicas, como fez na cerimônia comemorativa do Congresso em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres. Na ocasião, a ministra lembrou, por exemplo, que o pagamento do Programa Bolsa Família é feito para a mãe da família beneficiada. Melhor para todos nós que elas, teimosamente, ousem superar os obstáculos que ainda as impedem de participar das decisões sobre o futuro do país como legitimamente lhes cabe.

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O que há de mau nas inaugurações

Por Cristian Klein

O tsunami de inaugurações de obras públicas que tanto a ministra Dilma Rousseff, acompanhada do presidente Lula, padrinho de sua candidatura, quanto o adversário, o governador paulista José Serra, passaram a promover nos últimos meses está despertando uma discussão interessante. Ambas, oposição e situação, se acusam do uso e do abuso da máquina pública. Na pressa, até maquete e ponte que não existe já foram “inauguradas”.

As críticas ao governo federal são justificáveis. Há um aproveitamento do enorme poder de agenda e de criar fatos políticos – possível quando se está no comando de uma máquina administrativa gigantesca. Na inauguração da barragem de Setúbal, em Minas Gerais, em 19 de janeiro, Lula anunciou claramente seu propósito de inaugurar o “máximo de obras possível” até o fim de março para “mostrar quem foram as pessoas que ajudaram a fazer as coisas neste país”.

Pela declaração, o presidente recebeu, na última quinta-feira, a primeira reprimenda da Justiça Eleitoral. O ministro do TSE Felix Fischer aceitou a acusação de propaganda eleitoral antecipada contra Lula e Dilma, feita pela oposição, e votou pelo pagamento de multa no valor de R$ 5 mil para cada um.

Mas, apesar do quiproquó que têm gerado, devem as inaugurações merecer tanto destaque assim? Qual o seu impacto? Quantos eleitores votam em um candidato a presidente pensando nas obras que ele inaugurou?

Em primeiro lugar, o problema não é a inauguração em si. Obras (e mais genericamente políticas) públicas são um produto primordial que, espera-se, bons administradores entreguem a seus clientes, os cidadãos. Melhor tê-las do que não tê-las. O governo faturar politicamente sobre suas realizações é algo natural. O que não pode é o uso explícito destas cerimônias como trampolim para impulsionar nomes, candidaturas. Pior ainda, é a mania de se inaugurarem obras inacabadas, o que deveria ser proibido. Outra prática condenável é faturar sobre a inauguração de projetos iniciados ou terminados por outros gestores, como o episódio da última semana em que Dilma e Lula protagonizaram a abertura de um hospital estadual no Rio que não contou com verbas federais.

Em segundo lugar, tentar beneficiar-se de inaugurações, ainda mais de obras não concluídas, não significa que o eleitor corresponderá com seu voto. O povo, o cidadão que usa os serviços públicos, é o primeiro a saber que um posto de saúde ou uma escola não está funcionando. E, em se tratando de eleição presidencial, é de se duvidar da eficácia dos palanques locais diante do tamanho do eleitorado nacional. Há algumas décadas a política deixou de se basear no contato direto, no comício da praça pública. Os políticos tiveram de se adaptar e treinar falas mais curtas, para o dominante formato televisivo. Vive-se a era eletrônica. Se os discursos das inaugurações têm algum impacto além do público local – muitas vezes claques ou pessoas já engajadas na máquina de governo – é porque a difusão é feita pelos meios de comunicação de massa num Brasil em que a cobertura política é monopolizada pelo que o presidente da República faz ou deixa de fazer. É um reflexo do hiperpresidencialismo. De todo modo, mesmo considerando que o governo de plantão pode aproveitar-se da enorme centralidade, é de se perguntar o que contará mais na decisão de voto do eleitor. Na reta final das eleições, pouco se lembrará desta fase de inaugurações. O que importa, numa eleição presidencial, é o clima que vem sendo construído ao longo dos anos, se positivo ou negativo. Um governo impopular pode fazer as inaugurações que quiser, dentro ou fora dos prazos legais, que não continuará no poder. Da mesma forma, um governo bem avaliado pode se dar ao luxo de deixar de fazer qualquer inauguração palanqueira e mesmo assim garantir sua permanência. O mais importante é conquistar o cidadão com políticas públicas. Foi assim com FHC e a estabilidade econômica, o Plano Real. Foi assim com Lula e suas políticas sociais, como o Bolsa Família. Nenhuma delas precisou de palanque ou inauguração. (Continua na terça-feira)

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Uma pré-campanha chinfrim

Por Villas-Bôas Corrêa

Não tenho lembrança, por mais que cutuque a memória, de um início de campanha eleitoral mais medíocre, de mais baixo nível do que este, em que governo e oposição fogem dos temas prioritários, para o bate-boca de fim de feira livre sobre miudezas, a troca de farpas e fofocas de briga de comadres. A evidência do franco favoritismo da ministra-candidata Dilma Rousseff, lançada e patrocinada pelo presidente Lula da Silva com todo o peso da máquina oficial, contrasta com o encolhimento da oposição, à espera da definição do seu único candidato.
Não há regras intocáveis para os esquemas de campanha. Mas, como aconselha o bom-senso, é a oposição que deve disparar na frente para a campanha de críticas, denúncias, cobranças, especialmente com um governo como o do presidente Lula salpicado pela série de escândalos que os que se interessam pelo jogo político sabem de cor e salteado.
Uma leitura dos jornais ilustra a mediocridade da campanha. Em Brasília, a capital dilapidada pelos escândalos e pela roubalheira, a madraçaria que envolve os três poderes. O presidente regional do PT, Roberto Policarpo puxa o coro: “O nível está muito baixo”.
O dueto Lula e Dilma desprezou o aviso que bola que se chuta na parede costuma voltar na testa do desatento. O enrustido governador José Serra, de São Paulo, e virtual candidato da oposição, numa singela jogada publicitária, anunciou agora o projeto de uma ponte entre Santos e Guarujá no litoral paulista, que pretende construir se eleito presidente. Exibiu a maquete. A dupla Lula-Dilma não deixou passar em branco e apelou para a ironia: “Tem gente inaugurando até maquete”. Uma pesquisa nos arquivos e três fotos de Lula, uma com a candidata Dilma, ao lado de maquetes. Outra, de agosto de 2008, posando ao lado do então presidente União Nacional dos Estudantes, junto à suntuosa maquete da futura sede da UNE. Noutra, ainda, Lula e Dilma examinam a maquete das obras de transposição do Rio São Francisco.
A caturrice do governador José Serra de só se desincompatibilizar do cargo na data limite, 3 de abril, e que tanto incomoda os aliados que disputam a Vice-Presidência, a esta altura é um detalhe. Nada deve mudar numa pré-campanha medíocre, que foge dos grandes temas para as pirraças sobre maquetes. O governador quer exercer o mandato até o prazo final da desincompatibilização, o que é uma postura ética. E para os aspirantes à vaga de candidato a vice-presidente a urgência na definição do que altera a carreira política do escolhido e dos que terão de pleitear mandatos parlamentares. Dois passaram recibo: os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Tarso Jereissati (PSDB-CE). Jereissati declara-se extremamente preocupado “com essa estratégia que ninguém entende. Passo o dia respondendo a ligações de militantes sobre a demora de Serra e a inação do partido”. Com a paralisia do partido sem candidato, a ministra Dilma Rousseff cresceu não só no Nordeste mas em todo o país.
Mas não se engana a todos todo o tempo. A oposição sem candidato oficial para liderá-la aceita o jogo do governo de driblar os temas que fatalmente dominarão a campanha quando ela começar para valer, com o horário eleitoral gratuito nas emissoras de rádio e de televisão, de 17 de agosto a 30 de setembro no primeiro turno. Os grandes escândalos estão sendo evitados, mesmo nos debates parlamentares de um Congresso sem credibilidade.
Pois será um desacato ao eleitor, que fugirá da urna ou votará em branco se a crise moral do pior Congresso de todos os tempos não for enfrentada com medidas radicais. E que desembocam na desmoralização de Brasília, remexendo na crise crônica que começa com a mudança da capital para Brasília antes de ficar pronta. E com a sucessão de mordomias, vantagens, desvios de verba, gabinetes individuais para parlamentares com dezenas de assessores de coisa nenhuma explodiu na maior desta temporada, com as imagens do ex-governador José Arruda distribuindo pacotes de notas aos cupinchas que os escondiam nas meias, nas cuecas, nas dobras da calça, ou na pasta de segurança.

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O petróleo e o sal da discórdia

Por Mauro Santayana

É bom atar os cintos de segurança: os meses próximos, sendo de campanha eleitoral, serão tempestuosos. Não houve melhor sinal das tormentas do que a votação, na Câmara dos Deputados, do projeto sobre a distribuição dos lucros do petróleo a ser explorado abaixo da crosta do sal atlântico. O resultado – que os bem informados esperavam – tem, entre outras, duas razões. Uma delas é a reação federativa, em seu melhor sentido. Outra, os naturais jogos da política.

Os estados mediterrâneos, e os litorâneos cujo mar vizinho não foi beneficiado pela natureza, têm interesse em participar da repartição dos lucros das jazidas do fundo oceânico. É também legítimo que os estados premiados com a presença do mar – e do óleo – busquem maior fatia, mediante os royalties a serem pagos pela exploração. Tudo indica que a decisão da Câmara dos Deputados será acatada pelo Senado, que é uma casa de representação federativa e deve atender aos eleitores de seus estados. No caso em que o Senado altere a PEC, ela retorna à Câmara, que deverá rediscuti-la. Nesse caso, o presidente Lula, se for de seu interesse, terá como intervir politicamente, junto aos congressistas. Qualquer emenda constitucional, uma vez aprovada, será promulgada pelas mesas diretoras do Senado e da Câmara e vigerá imediatamente. Ao contrário do que especulam alguns comentaristas políticos, a Constituição não permite vetos presidenciais a emendas em seu próprio texto. Ao propor, discutir e aprovar (se for o caso), as duas casas do Congresso atuam como poder constituinte, logo, acima dos outros dois poderes constituídos.

Há, da mesma forma, os interesses políticos em jogo – e que têm origem também nas questões federativas. Como se sabe, o lastro da nave parlamentar, e que a faz flutuar, é a massa do PMDB – ou, melhor, dos peemedebês, que se não forem mais, são dois. Pelo menos uma de suas facções decidiu mostrar a própria força, quando estão em disputa a candidatura a vice-presidente na chapa oficial e a montagem das alianças regionais nas sucessões dos governos dos estados. Por mais hábil seja o presidente, na articulação de seus aliados, a realidade federativa se impõe. Não há, a não ser na simulada teoria política em voga, partidos nacionais no Brasil: há, sim, e quando muito, entendimentos formais das cúpulas partidárias, em torno de candidatos à Presidência da República e seus companheiros de chapa. No interior dos estados, a situação é outra. Em cada um deles são as circunstâncias e situações concretas que ditam as decisões.

Em todo processo político há a percepção dos eleitores do que são seus interesses comuns, além das aparências, das plataformas e dos discursos partidários. Essa percepção é, ou não, identificada pelos líderes políticos que buscam, mediante alianças táticas e muitas de última hora, seguir a opinião nem sempre explícita dos cidadãos. Por enquanto, na falta de candidatos já confirmados pelas convenções partidárias, essa percepção não pôde ser avaliada pelos observadores. As pesquisas eleitorais mostram como as coisas se encontram neste momento, ainda de relativa dúvida, e só indicarão melhor as perspectivas depois que o processo se formalizar.

A recomposição do governo federal e de alguns governos estaduais, depois da desincompatibilização dos governadores e de auxiliares candidatos a cargos eletivos, é também difícil. Trata-se de um trabalho de engenharia política delicada, a fim de que não se interrompam os programas administrativos e a máquina, como é da realidade política, atue em favor dos candidatos da situação.

O presidente Lula tem encorajado os membros de sua equipe a permanecerem no governo e não disputarem eleições. Há alguns casos difíceis, como os do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e do ministro Patrus Ananias, entre outros. Qualquer mudança de rumos e de desempenho nesses, e em outros postos-chaves, poderá comprometer a eleição de seu candidato à sucessão. Nem todos parecem dispostos a atender a seu apelo, mesmo com promessa de continuidade futura, porque o futuro, como sabemos, é incerto.

Por tudo isso, é bom buscar as melhores rotas, desviar-se dos ventos e raios, usar a bússola da prudência.

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O Brasil e o Oriente Médio

Por Mauro Santayana

É possível prever outros desencontros diplomáticos entre o Brasil e os Estados Unidos. A visita da senhora Clinton e as suas pressões para que concordemos com sanções contra o governo de Teerã é apenas um dos indícios. O governo norte-americano não consegue retirar lições de seus malogros bélicos e econômicos, e seu comportamento com relação a Israel é um dos grandes mistérios do convívio internacional. Washington age com relação ao Estado judaico como se a grande nação fosse mera colônia política de Tel Aviv. Entre as muitas explicações, há a do imenso e tradicional poder da elite econômica dos hebreus no mundo e, particularmente, nos Estados Unidos. A isso se acrescenta o fundamentalismo protestante, que hoje busca aliança com o judaísmo, tendo como ponto de encontro o Velho Testamento, com suas crônicas de guerra.

A senhora Bill Clinton a cada dia é mais parecida com sua antecessora, Condoleezza Rice. O presidente a recebeu com deferência, e ao tratar das questões que a trouxeram, junto ao chanceler Celso Amorim, seu interlocutor natural, ela recebeu o recado, cortês mas firme, de que não temos por que mudar nossa posição em relação ao Irã. Queremos a paz, e trabalharemos para obtê-la naquela região do mundo. Desde a descoberta dos grandes lençóis petrolíferos em Baku, no Cáspio, ela tem sido objeto da cobiça do Ocidente.

É difícil raciocinar fora dos interesses e preconceitos. Por que – é o que pergunta Lula – só o pequeno grupo de nações poderosas tem o direito de arbitrar os conflitos e decidir quem pode e quem não pode desenvolver tais processos industriais ou tais armas? Não há povos com mais direitos do que os outros. Desde que as armas, a partir do século 19, se tornaram mais letais, sempre se pensou no desarmamento como garantia da paz. Depois da guerra franco-prussiana de 1870, período que coincide com a utilização sempre maior do petróleo, as potências europeias passaram a discutir o assunto em público e a armar-se secretamente, criando novas e mais poderosas armas, como os gases venenosos e os canhões de longo alcance.

A guerra passou a ser planejada para a expansão do colonialismo e, sobretudo, o domínio estratégico do Oriente Médio. Em consequência, tivemos as duas grandes guerras mundiais no século passado e a construção da mais poderosa das armas, empregada no massacre de Hiroshima. Com ela, os norte-americanos pretendiam impor seu império ao mundo. Em seguida, os soviéticos, os ingleses, os franceses e os chineses também produziram suas bombas. Israel também fabricou o artefato, com ajuda americana. Esta é uma das razões que deixam o Estado hebraico tão seguro em desdenhar as inúmeras e repetidas resoluções das Nações Unidas, que tentam obrigá-lo a admitir o direito palestino a seu próprio Estado, como decidiu a comunidade internacional em 1948. Mais tarde, a Índia e o Paquistão também conseguiram entrar para o clube nuclear.

Israel está desafiando o governo Obama, e anunciou a decisão de construir 1.600 moradias para o uso de judeus no leste de Jerusalém, território palestino ocupado, em clara violação das determinações da ONU, pouco antes da chegada do vice-presidente Joe Biden. O visitante verberou, de forma firme, essa transgressão, mas o governo de Israel não se abalou. Não é provável que a próxima visita de Lula ao Oriente Médio traga grande avanço nos esforços para conciliar os interesses de Israel e os da Palestina. Ainda assim, ela é importante e necessária. O Brasil terá dado o primeiro passo em sua trajetória no esforço de obter diálogo fecundo e a paz na região. Nosso país tem a autoridade para isso, desde que, em nosso território, e há séculos, convivem, sem grandes conflitos, judeus e árabes; cristãos e muçulmanos.

Além do problema do Oriente Médio, temos os problemas comerciais que nos levaram ao remédio extremo de adotar, contra os subsídios oficiais dos Estados Unidos a seus produtores de algodão, as retaliações autorizadas pela OMC, depois de exaustivas e infrutíferas negociações com Washington.
Temos que manter a serenidade, mas agir com firmeza. Na vida das nações, como na vida dos homens, só são respeitados os que se fazem respeitar.

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O efêmero e o eterno

Por Mauro Santayana


Um arquiteto de São Paulo, que provavelmente ainda não tenha tido a oportunidade de mostrar seu talento criador, criticou Oscar Niemeyer a propósito da Cidade Administrativa Tancredo Neves. Se o objetivo era atingir o governador de Minas, em benefício de alguns interesses políticos de seu estado, o crítico paulistano poderia ter poupado o mais importante arquiteto do mundo. Oscar, tendo ultrapassado os 102 anos, com o mesmo vigor intelectual e os mesmos sentimentos da juventude, está muito além da aleivosia do rapaz que o atacou.

As razões são singelas e até mesmo humanas: bem mais jovem de quem o critica, Oscar já havia construído exitosa carreira: participara, com Corbusier e outros, da concepção do Edifício do Ministério da Educação, no Rio, e criara o belo conjunto da Pampulha, que, com suas linhas audazes, marca o início da arquitetura moderna brasileira. Aos 40 anos, Oscar participou da equipe que projetou os edifícios das Nações Unidas, em Nova York.

Há muito que se discute a natureza da arquitetura. Ela deve, ao mesmo tempo, proteger o ato de viver e expressar a arte. Algumas escolas de arquitetura, como é o caso notável da Bauhaus, de Walter Gropius, concentram-se na funcionalidade em prejuízo da estética. Gênios, como Corbusier, Frank Lloyd Wright, Frank Gehry, Luigi Nervi e Oscar Niemeyer, cada um deles com seu estilo próprio, souberam e sabem revestir a funcionalidade com a beleza.

Desde os Jardins Suspensos da Babilônia, a beleza é inseparável da arquitetura. Os templos gregos e romanos, construídos com a mesma filosofia de Oscar, são fascinantes contratos do artista com a natureza. As edificações obedecem aos limites do solo, dos ventos, das chuvas, do calor e do frio, mas também buscam harmonizar-se com a paisagem. A grande ousadia dos arquitetos do século 20, a partir de Oscar, favorecida pelo concreto armado, foi privilegiar as curvas, abrindo os grandes espaços internos, levantando as estruturas sobre pilotis, harmonizando, como concebeu Corbusier, as fachadas com os jardins.

O concreto armado é a maravilhosa síntese entre a estética e a técnica. Para servir à estética, o jardineiro francês Joseph Monier combinou o concreto com o metal. Encarregado de adornar os bulevares de Paris, abertos pelo prefeito Haussmann, com plantas floridas, Monier percebeu que era impossível moldar grandes vasos em cerâmica. Tentou o cimento, mas os vasos se fragmentavam sob o peso da terra. Teve a intuição de reforçar as paredes dos vasos com arame e hastes de ferro. O método foi patenteado em 1867 e passou a ser usado na construção civil.

A necessidade da beleza criou o novo material que possibilitou também as monumentais obras de engenharia como as represas Hoover, no Colorado, de Assuã, no Nilo, de Itaipu, no Paraná, e a de Três Gargantas, no ,
Yang-tsé, além das extensas pontes e elevados viadutos.

É natural que haja inimigos ideológicos do comunista Oscar Niemeyer. É natural que haja os que se incomodem com a gloriosa carreira do criador da Pampulha, que, arquiteto de dois séculos, vê agora inaugurado um dos mais expressivos e ousados conjuntos de sua carreira inigualável. É bom que Oscar – com seu forte entusiasmo juvenil de sempre – tenha dedicado, de novo, todo o seu talento para desenhar a sede do governo de Minas Gerais, situada a poucos quilômetros da Pampulha. Só a ânsia pela beleza e a emoção da solidariedade nos distinguem na natureza, nos fazem humanos – e nos diferenciam dos insanos predadores de nossa própria espécie. Causa indignação que se atrevam a atacar um homem da estatura ética e intelectual de Oscar.

O arquiteto é acusado de ser homem do passado. Por enquanto, a moderníssima modernidade neoliberal não foi capaz de produzir homens como Ictínius e Callicrates, os arquitetos do Parthenon de Atenas, Marcus Agripa e Adriano, que conceberam o Pantheon de Roma. Nem como Niemeyer e seus grandes colegas, os escultores em concreto do século 20. Oscar continua, em nosso século, na vanguarda da arquitetura, do humanismo, da solidariedade, do patriotismo. Como se diz em Minas, respeito é bom, e dele todos gostamos.

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Por que Aécio não deve aceitar ser vice

Por Christian Klein

O que a oposição ganharia com a formação da chapa puro-sangue, convencendo o governador de Minas, Aécio Neves, a ser o vice do governador de São Paulo, José Serra? Na coluna de domingo, destaquei os incentivos institucionais gerados pelo sistema político brasileiro para que os partidos formem chapas, digamos, “mestiças”, para usar um termo caro a Aécio. Em resumo, com tantas legendas no quadro pluripartidário, é um desperdício não se aproveitar o posto de vice para atrair um sócio no empreendimento de conquistar a Presidência da República (o raciocínio é o mesmo para outros cargos majoritários, como o de governador e de prefeito).

Ter o vice de um outro partido significa muito: aumenta os recursos eleitorais disponíveis (como o financiamento de campanha) em virtude do engajamento mais interessado de um parceiro que eventualmente poderá herdar a cadeira de presidente; garante, antecipadamente, um parceiro fiel na futura aliança governamental; e emite sinais para o eleitorado. A notícia veiculada na época do mensalão de que, em 2002, o então PL (hoje PR) teria pago R$ 10 milhões ao PT em negociação que envolvia a vaga de vice na chapa do candidato Lula dá uma dimensão do quanto está em jogo. Se verídica a suspeita, o preço, porém, pode ter saído muito barato ao PT, diante do que a participação de José Alencar representou para o partido: um sinal de que os petistas já não eram mais tão radicais e convidavam um empresário para sua chapa. Deu certo.

Como estratégia eleitoral, a vaga de vice vale. É uma peça importante, que é utilizada quase sempre sob o princípio que, na falta de expressão melhor, podemos chamar de não redundância. Lula/Alencar (2002 e 2006) foi uma chapa ideologicamente não redundante, ao juntar esquerda e direita; do mesmo modo que Lula/Brizola (1998) foi partidariamente não redundante, ao reunir à época os líderes das duas maiores legendas da esquerda brasileira. A chapa FHC/Marco Maciel (1994 e 1998) atendeu a um dos critérios mais tradicionais de não redundância, o geográfico, ao agregar as forças de um partido forte no Sudeste e de outro, o PFL (hoje DEM), que dominava o Nordeste, segunda região mais populosa do país.

Mas será que a vaga de vice tem a mesma importância para quem vai ocupá-la? Como estratégia de projeto de poder, o posto geralmente gera mais atrativos aos partidos do que aos candidatos. Ser político com pretensões, numa democracia, requer ser um líder. E quase todos os profissionais do ramo têm ambições políticas. A função de vice, neste sentido, é dos cargos menos atraentes na estrutura de oportunidades do sistema político. Salvo, é claro, a possibilidade, não desprezível, de o ocupante substituir o titular, em caso de morte, impeachment etc – probabilidade que, transformada em expectativa de avanço na carreira política, suscitaria comportamento ganancioso. Obviamente, os líderes, os cabeças de chapa, preferem evitar tal situação. E esta é a segunda razão para que os escolhidos para vice sejam políticos frequentemente sem grande brilho ou pretensões exacerbadas. O vice é aquele que não incomoda, não faz sombra. É o mais importante cargo de confiança. É Joe Biden, em vez de Hillary Clinton, como Obama quis.

A combinação destes dois fatores – a pouca atratividade de uma função secundária, de substituto, de reserva, aliada à preferência do titular por alguém que não divirja com suas ideias próprias – faz com que o posto de vice não combine com estrelas da vida pública.

A não ser em casos de desespero, como parece ser a pressão atual sobre Aécio Neves, esperado reforço para o time que se vê perdendo o jogo, diante do crescimento nas pesquisas da candidata do governo, a ministra Dilma Rousseff. O que o governador de Minas ganharia ao exercer o papel de coadjuvante numa chapa com Serra? Ele, nada. Abandonaria o seu distrito, o seu estado e sua trajetória de líder para atuar numa posição subalterna. Já a oposição ganharia provavelmente alguma coisa: mais votos no segundo maior colégio eleitoral do país e a oportunidade de especular sobre a saúde de Dilma, lembrando que a Presidência pode cair no colo do PMDB. E que há algo para “Temer”.

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Nos vestiários da disputa política

Três meses nos separam da Copa do Mundo da África do Sul, e o uso de metáforas futebolísticas para interpretar as movimentações políticas, tão apreciado e fartamente explorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nunca foi tão oportuno. O palmeirense governador de São Paulo, José Serra, por exemplo, deve estar se sentindo como aquele grande clube às vésperas de um clássico. PT e PSDB decidiram os últimos quatro “campeonatos”, com duas vitórias para cada lado. A rivalidade entre as duas agremiações, a principal da democracia partidária brasileira, é histórica. Hoje, o tucanato é como aquele time que liderou quase a totalidade da competição, mas que na reta final acumulou alguns resultados ruins enquanto o adversário cresceu de desempenho e praticamente igualou o número de pontos somados na tabela de classificação que é a preferência do eleitorado, como mostram as mais recentes sondagens de intenção de voto.
Serra, no entanto, é apenas um jogador, ainda que o principal, do time da oposição. E, para seu infortúnio, não faltam caneladas e botinadas dos próprios companheiros no treino que é a pré-campanha. Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de aliados, que o censuram por não colocar o time em campo e permitir a ascensão petista. E do governador Aécio Neves, que indiretamente o acusa de, arrogantemente, desejar colocar Minas Gerais a reboque de projetos políticos equivocados e apreensivos.
Nem tudo é desespero nos vestiários tucanos, todavia. Inteligentemente, o PSDB se esforça e deve conseguir, na própria base aliada, reforços para o confronto final com o PT. As negociações para que partidos como PTB e PSC se juntem ao elenco da oposição avançam. Além disso, em breve a agonia dos críticos de Serra chegará ao fim, junto com o encerramento do prazo para desincompatibilização de cargos no Executivo para aqueles que, como o governador paulista, desejem se candidatar nas eleições de outubro. E Serra terá que deixar de lado a estratégia defensiva que caracterizou sua atuação até o momento e revelar, finalmente, o tamanho do poderio ofensivo que conseguirá empregar no confronto com o PT.
O campo governista, por sua vez, também tem sua cota de problemas para administrar. Os maiores, ainda que até o momento não configurem uma ameaça ao crescimento da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, estão concentrados na delicada relação entre o PMDB e PT. Será necessária alguma dose de cautela para que as plataformas eleitorais das duas legendas sejam compatibilizadas em um programa de governo sem maiores rachas no elenco. E a alimentação, por parte de setores do PT, da preferência pelo nome do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para a vaga de vice na chapa de Dilma, ainda impulsiona ciumeiras na ala peemedebista da aliança. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e seus auxiliares próximos, na linha de frente do ataque governista no Congresso em muitos episódios da administração Lula, se sentem um pouco como aquele atacante que, embora artilheiro do time, tem que lidar constantemente com especulações sobre a chegada de uma nova contratação de peso para o setor.
Habilidoso, o presidente Lula tenta exercer o papel de treinador experiente e consagrado para aplacar as vaidades da equipe governista, ainda que num passado recente elas tenham sido estimuladas pelo próprio. Do ponto de vista da solidez da aliança com o PMDB, o petista já deu um passo importante para conseguir “fechar o grupo” em torno dos objetivos eleitorais. Os diretórios estaduais do PT foram enquadrados, de maneira dura em alguns casos, e tudo indica que o partido deve mesmo abrir mão de candidaturas próprias em estados decisivos, como Minas Gerais, para satisfazer as vontades do aliado. O número de postulantes petistas aos governos estaduais deve ser o menor em muitos anos. Um sacrifício útil e necessário para garantir que o PMDB, um partido marcado pela predominância dos interesses regionais, entre em campo ao lado de Dilma com empenho semelhante ao dos próprios petistas.

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Quanto vale o cargo de vice?

Por Cristian Klein

A aceitação ou a recusa do governador de Minas, Aécio Neves, em ser o candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo governador de São Paulo, José Serra, virou uma celeuma e passou a representar um dos principais suspenses da corrida presidencial deste ano – apesar das reiteradas negativas do mineiro.

A formação da chapa puro-sangue, com dois líderes tucanos, vinha sendo tratada apenas como uma interessante possibilidade, um trunfo. Mas, depois que a candidata do governo, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, tirou 14 pontos percentuais de desvantagem na última pesquisa de intenção de voto do Datafolha, colando em Serra (32% a 28%), a união dos dois governadores tornou-se, de repente, uma necessidade imperiosa.

Aécio como vice seria uma demonstração de “força máxima” da oposição. Um time com dois craques – dois Coutinhos ou dois Tostões – como, à possível chapa, já se referiu Lula, para criticá-la. Na ocasião, o presidente disse que nem sempre duas estrelas funcionam bem jogando na mesma equipe. Como política não é futebol – há inúmeros exemplos de times campeões que contaram com mais de um craque – e Lula está no lado adversário, seu comentário pode ser interpretado como um desdém. Mas não deixa de ter sentido. Não tanto pela analogia futebolística, mas pela própria lógica política.

Se não, vejamos. Até que ponto a formação da pretendida chapa puro-sangue faz sentido como estratégia eleitoral? Quanto vale, e o que significa um candidato a vice na decisão do eleitor? E na visão de um político? São estas as perguntas cruciais, mas que não têm aparecido no debate.

Em primeiro lugar, sob o ponto de vista dos incentivos institucionais, a criação de uma chapa Serra/Aécio seria uma saída que foge às expectativas do sistema político brasileiro, baseado no presidencialismo de coalizão. Com tantos partidos para se casar e juntar forças, que vantagem haveria para uma legenda em deixar de ampliar seu arco de apoios?

Habitualmente, a escolha do candidato a vice tem a função de emitir sinais ao eleitorado e/ou para formalizar a aliança com um parceiro que será importante para a governabilidade. A união com o empresário José Alencar e o PL (hoje PR), um partido pequeno e conservador, nas duas vitórias de Lula, serviram essencialmente ao propósito de indicar para o eleitor mais à direita, depois de três derrotas seguidas, que Lula e PT estavam moderados. Já em 2010, a parceria entre o PT e o PMDB reflete mais a consagração da aliança governamental atualmente em curso do que sinais estratégicos de uma aliança eleitoral. Prova disso é que, com a subida de Dilma Rousseff nas pesquisas, antes mesmo da escolha de seu vice, surgem no PMDB os temores de que cresça a desimportância do partido como parceiro essencial para agregar votos. Se o PT e Dilma mostrarem que podem ganhar praticamente sozinhos, o PMDB perderá cacife e terá seu poder de barganha diminuído.

A escolha do vice também segue um princípio básico: o da não redundância, seja geográfica ou partidária/ideologicamente – optando-se, no melhor dos mundos, por alguém que atenda a ambas dimensões. Exemplos: 1) se o cabeça de chapa pertence a um estado do Sudeste, a preferência é que o vice seja do Nordeste; 2) se um candidato detém importante fatia do eleitorado, digamos, da esquerda, e outro nome atrai outra fatia, como Lula/Brizola em 1998, eis mais uma forma de não redundância; 3) em 2002, com a ascensão de Lula e do PT ao poder, levados pelo pragmatismo eleitoral, lançou-se mão de uma nova complementaridade na formação da chapa presidencial, juntando direita e esquerda, capital e trabalho. Algo semelhante deve ser buscado na candidatura de Marina Silva (PV), cujo provável vice será o presidente da Natura, o empresário Guilherme Leal.

Ou seja, há muitos incentivos para que o posto de vice seja utilizado estrategicamente para um projeto de poder. Resta saber se ele é tão estimulante do ponto de vista das ambições políticas individuais. (Continua na terça)

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Lula quase avança o sinal

Por Villas-Bôas Corrêa

O presidente Lula puxou o freio de mão à beira do precipício, ao desmentir que alguma vez tenha passado pela sua cabeça licenciar-se da Presidência da República por dois meses, passando o cargo ao senador José Sarney, presidente do Senado. O vice-presidente José Alencar é provável candidato a uma vaga de senador por Minas, dependendo do seu estado de saúde. No caso, o desmentido é menos convincente do que o recuo diante da estapafúrdia manobra pela simples evidência de que na pré-campanha para eleger a candidata da sua exclusiva escolha, Lula tem passado por cima da ética e da lei, com o desembaraço de quem, deslumbrado com a popularidade recordista do maior líder da história deste país, faz o que bem entende.
A pré-campanha ao arrepio dos prazos constitucionais da candidata Dilma, é uma descarada demonstração de soberba, desde a arrancada com as viagens pelo Brasil para acompanhar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da construção de 1 milhão de residências populares do Minha Casa, Minha Vida. Presidente não é fiscal de obras. E para as viagens, a prioridade óbvia seria às regiões castigadas pelas enchentes, com milhares de famílias que perderam tudo e não sabem como recomeçar a vida. Ou a rede rodoviária em pandarecos, com pontes destruídas, barreiras que exigem malabarismos para o tráfego de carros e caminhões em mão única. O que não faltam são pedidos de socorro e gritos de desespero.
Depois, vamos abrir o jogo: o que é que o presidente Lula e a ministra Dilma podem fiscalizar em obras de rotina? Contar os tijolos assentados no milhão de residências em construção? Ou, com discurso em palanque com microfone e ampla publicidade, estimular a turma a tocar a transferência das águas do Rio São Francisco para encher os açudes do Nordeste? Uma estatística dos dias e horas que o presidente Lula passa no Brasil e em Brasília e toca a rotina em seu gabinete seria embaraçosa para o governo. E é daqui para pior. A oposição não ameaça o governo com as hesitações do governador de São Paulo, José Serra, em confirmar a sua candidatura e articular a escolha do seu companheiro de chapa, já que o governador mineiro, Aécio Neves, demonstrou que aprendeu as lições do seu avô Tancredo Neves, o mais completo homem público que conheci, e foge da candidatura a vice-presidente como o capeta da cruz.
Os exageros do presidente Lula na obstinação de eleger a ministra Dilma como sua sucessora deveriam ser revistos com bom-senso. Lula praticamente abandonou o governo. Se nunca gostou de tocar a rotina, marcava presença com o eficiente esquema publicitário que enchia os vazios com a presença frequente de convidados que rendem foto em jornais e revistas e minutos nos noticiários da rede de televisão. E que apenas complementa a cobertura recordista da maior rede oficial de comunicação de todos os tempos.
Mas, se a eleição da ministra Dilma é a obsessão de Lula, seria razoável esperar uma plataforma de pré-campanha definindo as prioridades no país de tantas urgências. È indefensável o desprezo por Brasília ou a falta de sensibilidade para reconhecer que o Distrito Federal foi transformado numa bagunça administrativa, com governador – e que governadores, de Roriz a José Roberto Arruda! – com Câmara Distrital, Câmara de Vereadores, milhões de favelados quando a população deveria ser de 500 a 600 mil habitantes e hoje encosta em 3 milhões.
Brasília é vítima da incompetência e da demagogia. E esta é a hora de enfrentar a sua salvação como a prioridade absoluta de todos os candidatos à Presidência da República. Pelo menos o centro administrativo da capital deveria ser recuperado na dignidade do projeto de Lúcio Costa e dos palácio do gênio de Oscar Niemeyer. E fechar as arapucas de falsificações do Senado e da Câmara dos Deputados.
Com Brasília restabelecida como a capital de fato do país, o Senado e a Câmara recuperariam a compostura e a dignidade, acabando com a farra das viagens semanais de senadores e deputados para as suas bases eleitorais, com passagens pagas pela Viúva e a penca de mordomias, vantagens, gabinete individuais com dezenas de assessores e cabos eleitorais.

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O nacionalista Tancredo Neves

Por Mauro Santayana

Em debate na TV-Educativa do Paraná, que será exibido no próximo domingo, o jornalista José Augusto Ribeiro narrou um episódio que mostra a altivez de Tancredo. Na viagem que fez aos Estados Unidos, logo depois de eleito, o presidente esteve com Reagan e seu secretário de Estado, George Shultz, na Casa Branca, e, em seguida, visitou o Congresso. O presidente Reagan estava mais interessado em conversar sobre os signos do zodíaco. Com Shultz, Tancredo foi firme ao dizer-lhe que esperava dos Estados Unidos o tratamento que merecem as nações soberanas e conscientes de sua independência. No Congresso, que estava em recesso, foi recebido pela Comissão de Relações Exteriores, reunida para a ocasião. Um senador tocou no assunto da Nicarágua. Naqueles meses, a administração Reagan, diante da vitória eleitoral de Ortega e da discussão de nova Constituição, determinara o embargo contra Manágua, e medidas mais drásticas estavam sendo planejadas. Tancredo, em resposta a um senador, disse, bem devagar, a fim de favorecer a tradução: “O Brasil não permitirá a invasão militar norte-americana contra a Nicarágua”. José Augusto se lembra de que o embaixador norte-americano no Brasil, Diego Asencio, presente ao encontro, ficou lívido, mas ele não tinha razões para surpreender-se com a posição de Tancredo. Meses antes, como governador de Minas, ele o recebera nas Mangabeiras, e, depois de uma conversa amável, lhe disse que as relações de troca entre o chamado Primeiro Mundo e os países em desenvolvimento eram profundamente injustas. Lembrou-lhe que os países ricos se nutriam da miséria dos pobres, ao pagar preços baixos pelas matérias-primas e cobrar muito caro pelas máquinas, insumos industriais e remédios, sem esquecer que se negavam a transferir tecnologia.

Quando o embaixador lhe lembrou que os Estados Unidos tinham imensos gastos militares para garantir as fronteiras do “mundo livre”, Tancredo, sorrindo, lhe disse que o mundo livre era grato por essa defesa, mas que estavam cobrando muito caro pela proteção. E, em tom aparentemente distraído, lhe disse que estavam cobrando “mais caro do que os rapazes de Chicago”. Depois de se desculpar, sorrindo, pela boutade, ficou repentinamente sério. Ao prever rebeliões no continente contra a injustiça social, que poderiam levar os conservadores a buscarem a intervenção norte-americana e levarem Washington à tentação do desembarque de seus “marines”, avisou, com a mesma suavidade na voz: “É bom lembrar, embaixador, que o Brasil é bem maior e muito mais populoso do que o Vietnã”.

Quando Tancredo foi convocado, em 1953, para assumir o Ministério da Justiça, Getulio estava acossado pelos norte-americanos. Eles pretendiam “americanizar” o Brasil, transformando-o em sócio menor no Hemisfério, como caudatário de seus interesses. O espaço brasileiro seria ocupado com a expansão de suas indústrias e a colonização agrícola. Do assunto trata o esclarecedor estudo de Gerald T. Haynes, historiador da CIA, The americanization of Brazil. O cerco se tornou mais duro, quando se soube que Vargas estava preparando a criação da Petrobras. Tancredo tomou posse em junho. Em outubro a sua seria a segunda assinatura – como ministro da Justiça – logo depois do presidente, na Lei 2.004, que criou a empresa estatal de petróleo.

Foi o que bastou para que a oposição se tornasse histérica, com a quase unanimidade dos meios de comunicação articulados contra o presidente. Tancredo nunca hesitou quando se tratava do interesse nacional. Em 1978, logo depois de eleger-se senador, concedeu ao colunista, na fazenda da família, em Cláudio, uma entrevista divulgada pela Folha de S. Paulo. Lembrou que, ao exercer o cargo de primeiro-ministro de Jango, negou-se a indenizar os franceses pela encampação da Port of Para, e agira da mesma forma no caso do Banco Hipotecário de Minas Gerais. Enquanto caminhava pela fazenda, ao ver um já raro tico-tico, comentou que os pardais, vindos da Europa, haviam dizimado a espécie, chupando-lhes os ovos e deixando os próprios, para que os nativos os chocassem e alimentassem os filhotes. “São o símbolo do capital estrangeiro”, observou, com a voz grave e amarga, o semblante endurecido.

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Tancredo Neves, homem do Brasil

Por Mauro Santayana


Tancredo Neves faria 100 anos hoje. Ao relembrar aqueles meses, dias e horas, dois sentimentos me abalam o espírito: a brevidade da vida e a escassez de homens de Estado. Atribui-se ao chanceler Oswaldo Aranha a constatação de que o Brasil “é um deserto de homens e de ideias”. Foi uma injustiça do bravo gaúcho – companheiro de Tancredo no segundo governo Vargas – para com muitos de seus contemporâneos, e a ele mesmo, invulgar servidor do Estado. Mas há situações históricas em que os grandes homens não deixam muitos seguidores. Naqueles anos finais do regime de exceção, a personalidade de Tancredo começou a destacar-se no horizonte. Ele não estava só: a oposição republicana contava com alguns veteranos combatentes, entre eles Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, Barbosa Lima Sobrinho, Leonel Brizola.

Embora os houvesse, os olhos mais atentos se dirigiam ao mineiro, porque às convicções democráticas e virtudes pessoais se reuniam as circunstâncias. Ele vivera o passado não como testemunha, e sim como militante político. Mesmo durante a noite de chumbo do regime militar, ele, como exigia a situação, manteve-se atuante na resistência, tanto mais efetiva, quanto mais discreta. Dominava, com paciência montanhesa, a angústia diante do regime de opressão, que censurava a imprensa, prendia, torturava e matava. Mas essa paciência, que ele parecia pastorear pelos corredores do Congresso, ocultava esforço incansável para a manutenção da esperança entre seus companheiros do Congresso e personalidades importantes da sociedade.

Homem da região do garimpo, sabia que todos os dias são de cata, de olhos atentos no fundo da bateia, de mãos seguras no tateio dos grãos esquivos entre os seixos inúteis, a argila pegajosa e os cristais de brilho falso. Ele desprezava os agravos recebidos, como se desdenham os cascalhos opacos, como ocorria nas manifestações públicas de seus adversários. Constatava, com pragmatismo, que as vaias fazem parte da dieta do homem público. Recordo-me que, quando não estava exercendo cargos executivos, e não o submetiam as razões de segurança, recusava, com delicadeza, o oferecimento para usar as salas especiais de espera nos aeroportos. Um dia explicou-me que já havia muitas razões para que as pessoas comuns se sentissem discriminadas, e ele não queria ostentar o mesquinho privilégio.

Poucos homens públicos conheciam, quanto ele, tão bem a história política brasileira. Sentia-se orgulhoso de que os mineiros nela tivessem o destaque conhecido. Referia-se a homens do Império e da Primeira República como se os tivesse conhecido na intimidade. Reconhecia-lhes os defeitos humanos, ao mesmo tempo em que lhes registrava as qualidades. Para ele, o maior equívoco da Independência (e o debitava menos ao príncipe e mais à própria sociedade brasileira daquele tempo) fora a manutenção da escravatura. Além de oprobriosa, a escravidão dificultaria o desenvolvimento da economia industrial, que só ocorreria quando os cativos se transformassem em assalariados.

A associação política de Tancredo com Getulio é dos casos mais emblemáticos da crônica política nacional. Tancredo nunca ocultou sua profunda admiração pelo presidente. Ele atribuía o forte nacionalismo de Vargas, entre outras razões, à história atribulada do Rio Grande do Sul, em seus entreveros com os vizinhos meridionais. A fronteira, ele costumava dizer, ao mesmo tempo em que favorece os pequenos desvios do contrabando, torna mais nítido o sentimento de pátria. Confrontar-se com o inimigo é o mais forte estímulo ao patriotismo. Por isso, tinha profunda admiração pelos pernambucanos, alagoanos e paraibanos, que expulsaram os holandeses do território brasileiro.

A outra forte marca de sua personalidade era a da justiça para com os que trabalham. Logo no início de seu governo, em Minas, metalúrgicos de Barão de Cocais fizeram uma marcha de protesto sobre Belo Horizonte, reclamando melhores salários. Tancredo mandou convidá-los para realizar a manifestação, em segurança, nos jardins do Palácio da Liberdade. E lhes manifestou solidariedade. Não era mero gesto político. Com o ato, o governador deu seu recado aos patrões, para que negociassem logo com os grevistas.

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O nó górdio da sucessão

Por Mauro Santayana


Noticiam os jornais uma romaria de políticos a Minas, com o objetivo de “convencer” o seu governador a aceitar a candidatura a vice-presidente na chapa encabeçada pelo governador de São Paulo. Se não bastassem as afirmações anteriores, anteontem, ao abrir as solenidades de homenagem a Tancredo Neves, Aécio não poderia ter sido mais claro: sendo “mestiço”, não pode aceitar compor uma chapa “puro-sangue”. Quando Aécio se identifica como “mestiço” – e em seu sangue, como de quase todos os mineiros velhos, há genes de bugres e puris – a metáfora é mais política do que biológica. Aécio deve ter pensado na Federação, que foi desouvida no processo. Por isso mesmo, ainda que sempre defendesse a ideia de uma coligação interpartidária, sugeriu o nome do senador Tasso Jereissati, do Ceará, para compor a chapa presidencial ao lado de José Serra.

Com todo o respeito pelo governador José Serra, que deve lastrear-se em respeitáveis razões para ter adiado seu anúncio como candidato, é curioso, para dizer pouco, que os tucanos de São Paulo pretendam responsabilizar o outro lado da Mantiqueira pela eventual derrota do PSDB em outubro. Aécio foi claro, desde o início. Pretendia disputar a Presidência. Como cidadão, cumpria os requisitos exigidos pela legislação eleitoral. Como homem público e governador de um estado federado (no caso, Minas, mas poderia ser o Piauí ou Pernambuco), tem credenciais obtidas pelo seu desempenho no Executivo, e em 16 anos de mandato parlamentar, dois dos quais na presidência da Câmara dos Deputados.

Membro de um partido, e defensor da descentralização nacional de decisões, propôs o óbvio: que as bases nacionais do PSDB fossem consultadas. Por mais difícil fosse a deliberação formal, havia meios de aferir a opinião dos líderes estaduais, de forma transparente. Aécio propôs que – tal como fizeram Lincoln e o Juiz Douglas, inaugurando a tradição dos debates, nas eleições para o Senado, pelo estado de Illinois, em 1858 – os dois pré-candidatos expusessem às bases suas ideias e programas.

A direção do partido, provavelmente sob o conselho de seu autoproclamado líder Fernando Henrique, não aceitou a sugestão. O ex-presidente acreditava ser possível “convencer” Aécio a ouvir e obedecer aos mais velhos, ele e Serra, e aceitar a segunda posição na chapa. Os que pensavam possível obter a obediência de Aécio desdenharam a personalidade do mineiro. Ele, desde que subiu a escada de ferro belga, que leva ao gabinete de governo do segundo andar do Palácio da Liberdade, estava consciente de que assumia o governo de Minas, com toda a sua importância real e simbólica. Deixava de ser ele mesmo, para se tornar o delegado de um povo a quem o destino histórico impusera marcas severas e criara sólida tradição cívica.

Quando ficou claro que tentavam vencê-lo pelo cansaço, depois de muita paciência de sua parte, Aécio disse que se afastava da pré-disputa. Iria cumprir sua responsabilidade para com o povo mineiro, empenhando-se em resolver os problemas do estado e se dispondo a representá-lo no Senado da República. Mesmo assim, desprezaram seu aviso. Comentaristas políticos interessados chegaram a dizer que o governador José Serra ia muito bem, obrigado, e que na hora certa colocaria o colar da Vice-Presidência no pescoço de Aécio.

O governador de Minas nada tem pessoalmente contra Serra e, sendo o paulista candidato de seu partido, irá realmente trabalhar pelo êxito eleitoral. Não acreditar na sinceridade dessas intenções de Aécio é repetir o erro cometido de não terem acreditado quando disse que ia cuidar das coisas de Minas e renunciar à pré-candidatura à Presidência da República.

Há quem admita que, hoje ou amanhã, nos encontros que os dois terão, durante as homenagens a Tancredo, José Serra venha a renunciar à candidatura presidencial, deixando o lugar a Aécio. O governador José Serra tem as próprias razões para acreditar na vitória em outubro. Dessa forma, a desistência, mais do que impossível, parece improvável. Ainda assim, na remota possibilidade de que ela venha a ser proposta, Aécio poderá, se quiser, dizer-lhe que não há mais tempo.

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O selo de garantia e a competência

Por Cristian Klein

Não foi preciso o temido sucesso, que não ocorreu, do filme Lula, o filho do Brasil. Nem o anunciado embate comparativo de realizações entre o atual governo com a administração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Menos ainda a apresentação maciça da biografia da pré-candidata. Bastou um programa de TV do Partido dos Trabalhadores, um punhado de inaugurações e aparições no noticiário, ao lado do presidente e fiador de sua candidatura, e, claro, os reincidentes desastres da oposição, para que Dilma Rousseff pulverizasse a desvantagem que tinha em relação ao governador de São Paulo, José Serra.
A ascensão meteórica da ministra-chefe da Casa Civil, detectada na pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana, é uma notícia que nem o mais otimista dos petistas poderia imaginar. A antes duvidosa transferência de votos de Lula para Dilma vem ocorrendo com intensidade e ritmo muito mais fortes que o previsto. As acusações de que os governistas começaram a fazer campanha antecipada, burlando a lei eleitoral, são justificadas, mas a esta altura do campeonato soam como ingênuos muxoxos. Isso se chama pré-campanha. E políticos estão sempre em campanha permanente. É uma artimanha. A esperteza não respeita calendários.
Em pouco mais de dois meses, entre o atual e o último levantamento do Datafolha, Dilma Rousseff reduziu em 10 pontos percentuais a diferença para o tucano José Serra. A vantagem era de 14 pontos. Caiu para quatro. Num cenário que inclui a candidatura de Ciro Gomes (PSB), a disputa estaria apertada, com 32% para Serra e 28% para Dilma. É um avanço e tanto. Levando-se em conta a margem de erro, de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, ambos podem estar empatados.
Mas não é tudo. A pesquisa trouxe outras más notícias para a oposição. Nas respostas espontâneas – importante indicador que reflete o nível de conhecimento dos eleitores dos nomes que estão na disputa –, Dilma (10%) aparece pela primeira vez à frente de Serra (7%). Mais 10% afirmam que votariam em Lula e outros 4% no “candidato do Lula”. Em outra pergunta, 42% responderam que votariam no candidato apoiado pelo presidente, 26% disseram que talvez votariam e apenas 22% afirmaram que não votariam no nome apoiado por Lula. Ou seja, os números mostram que ainda há uma grande margem de crescimento para Dilma. E o que é pior para a oposição: se antes a subida da petista ocorria num ambiente de estabilidade da preferência por José Serra, agora a candidatura do tucano sofre um acentuado processo de desidratação. Dos 10 pontos percentuais que Dilma tirou em relação ao governador, 5 foram de seu crescimento e 5 foram perdidos por Serra. Como os pesquisadores costumam comparar, olhando para a trajetória das linhas descendentes e ascendentes do gráfico, a “boca do jacaré” vai se fechando.
A explicação para o fenômeno está obviamente no potencial de transferência de votos de Lula. A opção por Dilma, até agora, tem muito mais a ver com a preferência pela continuidade das políticas do governo atual do que pelos atributos pessoais, quesito pelo qual Serra tem condições de levar mais vantagem, por sua maior experiência política. Isso só mostra como está longe da verdade a ideia de que eleições são decididas essencialmente pelo personalismo dos candidatos. Importam o partido, o grupo político e o balanço que o eleitor faz do status quo. É óbvio que há uma aparência de personalismo na transferência de voto de Lula para Dilma, mas é um tipo de personalismo que se acaba na medida em que o cidadão sabe que a petista, investida dos poderes de presidente da República, não seria um títere de Lula, mas uma garantia da continuidade das atuais políticas de governo. Primeiro, o eleitor escolhe se quer a alteração ou a manutenção do status quo e depois quem lhe dará a melhor garantia para se chegar ao resultado esperado. A principal tarefa da campanha dos governistas será esta: mostrar que Dilma vem com o selo de garantia.
A missão dos oposicionistas será mostrar que são mais competentes. E por isso cresce novamente a pressão pela formação de uma chapa puro-sangue, Serra/Aécio, governadores dos maiores estados brasileiros, para desequilibrar o jogo.

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