FHC acerta Lula e as contas com o passado
Por Cristian Klein
Demorou, mas a fleuma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso finalmente cedeu espaço à virulência que o embate político muitas vezes exige. FHC chamou Lula, Dilma e o PT para a briga. Às vésperas do Carnaval, o ano eleitoral começa com o rufar dos tambores das hostes petistas e tucanas.
No artigo publicado, domingo, no Estado de S. Paulo, sob o título Sem medo do passado, Fernando Henrique fez tudo o que os peessedebistas sempre tiveram dificuldade de fazer: defender seu governo, abertamente, mesmo o que há de mais polêmico, como a privatização. Num só parágrafo, o ex-presidente menciona quatro vezes a palavra ou uma variante dela (privatizada). Aponta os “ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares”; o “fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal”; e “que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada”.
É claro que aspectos negativos, como a venda das empresas por um valor ínfimo e os atuais altos custos da telefonia, não são mencionados. Mas FHC marca posição e procura mostrar os benefícios que sua política trouxe para o país. Algo que os dois candidatos do PSDB à Presidência, José Serra, em 2002, e Geraldo Alckmin, em 2006, se esquivaram de fazer.
Lançar o debate sobre a privatização, na última eleição, foi uma grande sacada do PT para o segundo turno. Deixou Alckmin atônito. Mas uma reação rápida e não tímida, envergonhada, como foi a de Alckmin, talvez tivesse impedido um fato inusitado: o candidato teve quase 2,5 milhões de votos a menos no segundo turno. O tucano simplesmente não forneceu a matéria-prima de qualquer campanha: produzir argumentos para que os eleitores tenham como defender suas posições, na intensa conversação social que ocorre às vésperas da eleição.
É isso que FHC pretende evitar que ocorra de novo. Ainda mais diante da antecipação do clima eleitoral, do rápido crescimento nas pesquisas da candidata do governo, a ministra Dilma Rousseff, e da propalada estratégia do governo de impor um caráter plebiscitário à disputa, comparando os oito anos da era Fernando Henrique com os oito anos de Lula. É bom mesmo que os tucanos façam uma lista de realizações, pois essa será a tônica, queiram ou não.
E o artigo do ex-presidente lança-se à tarefa. Traça as linhas-mestras de ação para os tucanos. Tal como uma vacina, extrai o veneno dos argumentos que poderão ser usados pelo PT e dele produz potenciais antídotos. Antecipa que “na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi ‘neoliberal’ – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social”.
Mas FHC não só se defende. Também ataca. E muito. Acusa Lula de, levado pela euforia, “enunciar inverdades”, de autoglorificar-se, de fazer bravatas personalistas e intolerantes, de propagar “ecos de um autoritarismo mais chegado à direita”, de se deixar “contaminar por impulsos toscos e perigosos”, de “baixar o nível da política à dissimulação e à mentira”.
É uma batalha que já se desenhava. Recentes declarações exaltadas de Lula e do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, mostravam intensa animosidade. Desta vez, depois de ponderar que “eleições não se ganham com o retrovisor”, FHC termina chamando para a briga: “Mas, se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.
Isso mostra que a disputa presidencial deste ano tem tudo para ser a de maior voltagem entre petistas e tucanos. Afinal, nas duas primeiras, em 1994 e 1998, embalado pelo sucesso do Plano Real, FHC nadou de braçada. Ganhou duas eleições facilmente, ambas no primeiro turno, com mais de 20 pontos percentuais de vantagem sobre Lula. Nas duas seguintes, foi a vez de Lula vencer os tucanos com folga. Precisou do segundo turno, mas também pôs 20 pontos percentuais sobre Serra e Alckmin.
Agora, com a oposição faminta – há oito anos fora do poder – e os governistas não querendo largar o osso – fala-se em um projeto de longa permanência, por mais 12 anos –, e com as candidaturas equilibradas, o jogo será pesado.
Demorou, mas a fleuma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso finalmente cedeu espaço à virulência que o embate político muitas vezes exige. FHC chamou Lula, Dilma e o PT para a briga. Às vésperas do Carnaval, o ano eleitoral começa com o rufar dos tambores das hostes petistas e tucanas.
No artigo publicado, domingo, no Estado de S. Paulo, sob o título Sem medo do passado, Fernando Henrique fez tudo o que os peessedebistas sempre tiveram dificuldade de fazer: defender seu governo, abertamente, mesmo o que há de mais polêmico, como a privatização. Num só parágrafo, o ex-presidente menciona quatro vezes a palavra ou uma variante dela (privatizada). Aponta os “ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares”; o “fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal”; e “que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada”.
É claro que aspectos negativos, como a venda das empresas por um valor ínfimo e os atuais altos custos da telefonia, não são mencionados. Mas FHC marca posição e procura mostrar os benefícios que sua política trouxe para o país. Algo que os dois candidatos do PSDB à Presidência, José Serra, em 2002, e Geraldo Alckmin, em 2006, se esquivaram de fazer.
Lançar o debate sobre a privatização, na última eleição, foi uma grande sacada do PT para o segundo turno. Deixou Alckmin atônito. Mas uma reação rápida e não tímida, envergonhada, como foi a de Alckmin, talvez tivesse impedido um fato inusitado: o candidato teve quase 2,5 milhões de votos a menos no segundo turno. O tucano simplesmente não forneceu a matéria-prima de qualquer campanha: produzir argumentos para que os eleitores tenham como defender suas posições, na intensa conversação social que ocorre às vésperas da eleição.
É isso que FHC pretende evitar que ocorra de novo. Ainda mais diante da antecipação do clima eleitoral, do rápido crescimento nas pesquisas da candidata do governo, a ministra Dilma Rousseff, e da propalada estratégia do governo de impor um caráter plebiscitário à disputa, comparando os oito anos da era Fernando Henrique com os oito anos de Lula. É bom mesmo que os tucanos façam uma lista de realizações, pois essa será a tônica, queiram ou não.
E o artigo do ex-presidente lança-se à tarefa. Traça as linhas-mestras de ação para os tucanos. Tal como uma vacina, extrai o veneno dos argumentos que poderão ser usados pelo PT e dele produz potenciais antídotos. Antecipa que “na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi ‘neoliberal’ – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social”.
Mas FHC não só se defende. Também ataca. E muito. Acusa Lula de, levado pela euforia, “enunciar inverdades”, de autoglorificar-se, de fazer bravatas personalistas e intolerantes, de propagar “ecos de um autoritarismo mais chegado à direita”, de se deixar “contaminar por impulsos toscos e perigosos”, de “baixar o nível da política à dissimulação e à mentira”.
É uma batalha que já se desenhava. Recentes declarações exaltadas de Lula e do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, mostravam intensa animosidade. Desta vez, depois de ponderar que “eleições não se ganham com o retrovisor”, FHC termina chamando para a briga: “Mas, se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.
Isso mostra que a disputa presidencial deste ano tem tudo para ser a de maior voltagem entre petistas e tucanos. Afinal, nas duas primeiras, em 1994 e 1998, embalado pelo sucesso do Plano Real, FHC nadou de braçada. Ganhou duas eleições facilmente, ambas no primeiro turno, com mais de 20 pontos percentuais de vantagem sobre Lula. Nas duas seguintes, foi a vez de Lula vencer os tucanos com folga. Precisou do segundo turno, mas também pôs 20 pontos percentuais sobre Serra e Alckmin.
Agora, com a oposição faminta – há oito anos fora do poder – e os governistas não querendo largar o osso – fala-se em um projeto de longa permanência, por mais 12 anos –, e com as candidaturas equilibradas, o jogo será pesado.