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Aproximações e distanciamentos

Por Mauro Santayana


O provável acordo entre Fernando Pimentel e Patrus Ananias, em Minas, talvez não seja o esperado pelo presidente Lula, que, ao incentivar arranjo eleitoral com Hélio Costa, pretendia o “palanque único” para a sua candidata no estado. A ideia do palanque único se associa à estratégia da eleição plebiscitária, com a divisão maniqueísta da sociedade política, mas não é conveniente à democracia. A democracia reclama, por definição, o pluripartidarismo. É certo que, em nosso sistema, o processo acaba sempre na escolha plebiscitária dos chefes de governo, seja com a eleição decidida no primeiro turno, seja na segunda rodada de votações. Mas há que se respeitar a existência de tantos partidos quantos se organizarem, de acordo com as regras da lei. E todos eles têm o direito e o dever de apresentar seus candidatos a todos os cargos em disputa.

O ministro Hélio Costa dispõe de boa base eleitoral em Minas. Ele a conquistou com a popularidade de homem da televisão, quando correspondente da Rede Globo nos Estados Unidos. Mas, da mesma forma que muitos outros membros do atual PMDB de Minas, pouca afinidade tem com a visão montanhesa da política.

Como todos os outros partidos, e em todos os estados, o PMDB de Minas tinha, em seus quadros, políticos menos qualificados, e homens públicos de grande nível. Se a morte dos grandes líderes da resistência democrática foi desalentadora para todos os brasileiros, em Minas o golpe foi mais duro. Isso não significa que o partido tenha minguado de votos: a sua força remanescente se expressa nos municípios mineiros, alguns deles de forte densidade eleitoral e importância econômica. Parcela ponderável do partido se somou ao governador Aécio Neves, desde as eleições de 2002, para derrotar Newton Cardoso, oficialmente candidato do partido. Em 2006, um grupo do PT se somou a Newton Cardoso, apoiando sua candidatura ao Senado, depois que ele, ressentido pela vitória de Aécio em 2002, derrotou a indicação de Itamar Franco como candidato ao Senado, na convenção do PMDB, com seus métodos próprios de fazer política. A ala do PT comandada por Nilmário Miranda apoiou a candidatura de Newton, e Itamar e Aécio apoiaram e elegeram Eliseu Resende. Nas eleições para prefeito de Belo Horizonte, em 2008, grande parte do PT acompanhou Fernando Pimentel na aliança com Aécio a fim de eleger o candidato do Partido Socialista Brasileiro, Márcio Lacerda, com o assentimento de Lula. O candidato adversário, do PMDB, recebeu alguns votos petistas, mas nenhum deles vindo dos correligionários de Patrus Ananias, embora o ministro não se sentisse representado no acordo municipal. Hoje, as nuvens já se deslocaram e formam desenhos diferentes, o que explica o entendimento atual entre o ministro Patrus e Pimentel.

Para quem conhece os segredos de Minas, a aproximação entre Patrus, Pimentel, Alencar e Aécio é muito mais provável do que um acerto entre o vice-presidente e os dois petistas com o ministro Hélio Costa. Quando Aécio diz que uma aliança entre ele e o PMDB será bem aceita, sabe bem a que PMDB se dirige. Não é exatamente o PMDB que apoia Hélio Costa. O que está ocorrendo em Minas ocorrerá necessariamente em outros estados importantes. Não é só a realidade local, com os interesses e as afinidades pessoais atuando, mas também o sentimento político de cada povo, em sua forma de ver o mundo, que conduzem o processo das alianças e coligações.

O fato é que, por isso mesmo, ao cidadão comum é difícil aceitar certos atos de conveniência política, como o apoio de Fernando Collor a Lula e à ministra Dilma Rousseff, candidata à sucessão. Apesar de isso ser comum, na vida política, esse ir e vir choca, principalmente, as pessoas mais humildes. Quando alguém acusa o adversário de atos ignominiosos, sobretudo quando não há nenhum interesse público nessas acusações, não é de esperar-se reconciliação tão fácil. Também nunca se entendeu que Mangabeira Unger tenha pedido o impeachment de Lula e depois ocupado o cargo de ministro em seu governo, e agora tenha sido chamado por Temer para fazer projeto de governo para Dilma.

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Obama e o fim da paciência

Por Mauro Santayana


Temos todas as razões para o pessimismo com relação ao problema da Palestina. Israel, sob o governo radical de Netanyahu, está disposto a afrontar Washington. A desfeita a Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, não foi reparada devidamente pelo governo de Israel. A posição de Israel parece endurecer-se, não obstante as duras admoestações, tanto da parte de Biden como de Hillary Clinton. A paciência de Obama dá sinais de estar chegando ao fim. Mas Israel joga com um fator psicológico bruto, ao insinuar, de forma velada, que o atual presidente dos Estados Unidos é muçulmano e, no fundo, inimigo dos judeus.

O jornalista norte-americano Roger Cohen, ao comentar o conflito entre o governo atual dos Estados Unidos e os radicais de Israel, cita, de início, uma frase atrevida de Netanyahu: “Israel e os Estados Unidos têm interesses mútuos, mas nós agimos de acordo com os interesses vitais do Estado de Israel”. Segundo Cohen, “os Estados Unidos também têm interesses vitais” que incluem a existência dos dois estados, o de Israel e o da Palestina, lado a lado, mas “essa solução é erodida todos os dias, com os repetidos assentamentos judeus no território que deveria pertencer aos palestinos”.

A propósito, Cohen reproduz uma conversa que teve com Ronan Nachman, prefeito de um dos maiores desses assentamentos judaicos, o de Ariel. Nachman lhe disse, com franqueza e determinação, que não haverá nunca um Estado palestino e que o território a ele destinado terá que ser dividido entre Israel e a Jordânia. Uma charge, publicada pelo diário Maaravi, também citada por Cohen, mostra Obama cozinhando Netanyahu em um caldeirão, na típica cena do canibal africano que prepara seu jantar. É muito significativo mostrar um homem negro cozinhando um branco. Pode insinuar muitas coisas.

Não parece que a situação evolua ao ponto de convencer os direitistas de Israel, sobretudo os que controlam as suas Forças Armadas, a mudarem de atitude e aceitarem conversações de paz sinceras com os palestinos. Sua estratégia parece ser a de corroer a disposição de resistência dos palestinos e engambelar a opinião pública mundial, até expulsar aquele povo de seu território histórico.

O presidente Lula foi beneficiado pela escassez de tempo, e deixou de visitar o túmulo de Theodore Herzl, o jornalista judeu-húngaro que, vivendo na Áustria, fundou em 1897 o Movimento Sionista Mundial. De acordo com algumas fontes, Herzl, antes de lutar pela criação de um Estado judaico, foi militante do pangermanismo, a causa da unificação de todos os Estados alemães – o que seria depois uma das mais caras metas de Hitler.

É importante recordar que o movimento sionista, desde o início financiado pelos judeus ricos, se opunha ao esforço de muitas comunidades hebraicas que, escapando da odiosa perseguição que sofriam nos países eslavos, pretendiam somar-se às comunidades nacionais que os acolhiam (sobretudo na América), de maneira a não se diferenciarem da humanidade como um todo, a não ser em seus cultos religiosos. O movimento sionista conteve essa aspiração.

Não temos, no Brasil, problemas com os judeus. Podemos falar de racismo contra os negros, mas é difícil assegurar que haja, a não ser em casos isolados, manifestações de antissemitismo em nosso país, como as há em outros países. Lula pode assim, em nome de nossa autoridade sobre o tema, discutir o problema com as autoridades de Israel, com os palestinos e com os iranianos. Quando ele diz que “não é de briga”, não manifesta apenas o seu sentimento pessoal mas, sim, o sentimento geral do povo brasileiro.
A única possibilidade de paz está dentro da própria população de Israel. No dia em que a maioria dos judeus de Israel e seus apoiadores, no mundo inteiro, descobrirem que a segurança de seu povo depende da segurança dos palestinos, provavelmente haverá paz ali, e distensão em todo o Oriente Médio.

A cada capitulação dos grandes do mundo diante da expansão de Israel, a situação se torna mais difícil, mas há tempo para evitar-se uma tragédia ainda maior, se as pressões externas estimularem o crescimento da oposição interna que, em várias organizações judaicas, trabalham pela paz.

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Política pequena não elege presidente

Por Cristian Klein

O mais importante na eleição de um candidato a presidente não é a política pequena das inaugurações de obras públicas, do discurso palanqueiro em cidades do interior para uma plateia muitas vezes formada por uma claque manipulada pelos chefes locais ou por um público já simpatizante. Como dito na coluna passada, o que importa é a grande política.
O sucesso do governo Lula, capaz de catapultar a candidatura de uma desconhecida da massa como a ministra Dilma Rousseff, tem mais a ver com um pacote de políticas públicas abrangentes lançadas e ampliadas nos últimos anos – Bolsa Família; ProUni; Minha Casa, Minha Vida –, além de ganhos econômicos percebidos pela população, do que com inaugurações apressadas de última hora. Assim também foi com Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu por ter controlado a inflação e criado o Plano Real. Tanto Lula quanto FHC não precisaram cortar fitas ou descerrar placas para trombetear e capitalizar tais realizações. O escopo de atuação de um presidente e de um governo federal está num outro plano, sobretudo no nível dos direitos e da condução dos rumos da economia.
No entanto, a onda de inaugurações protagonizadas por Dilma Rousseff (PT) e pelo governador paulista José Serra (PSDB), neste início de ano eleitoral, tem despertado uma série de críticas e denúncias na Justiça a respeito do abuso da máquina pública e da propaganda antecipada. Inaugurações tornaram-se vilãs, suspeitas, até prova em contrário. Não deveriam, pois obras públicas são – ou é de se esperar que sejam – um produto essencial para o bem-estar da população.
Mas os candidatos têm dado razões de sobra para se criar um clima de inconformismo. A sensação que se tem é que as inaugurações estão sempre envoltas num show de ilusionismo dos políticos, que querem faturar a todo custo. Vale “inaugurar” uma obra três vezes enquanto está em andamento; vale maquete, pedra fundamental, hospital concluído com verbas do governador aliado, escola que está longe de funcionar e fábrica que já está operando há tempos. Isso, o teatro, o engano, é o pior.
Até porque, a Justiça Eleitoral muitas vezes tem pouco a fazer em relação aos abusos da máquina pública e à propaganda antecipada. A legislação é falha, frouxa, tem lacunas e permite manobras e artimanhas, facilmente utilizadas por políticos experientes. Basta ter-se o cuidado de não falar explicitamente que há um candidato sobre o palanque querendo levar vantagem com a inauguração. Expectativa que – não fossem os excessos e o dom de iludir – é perfeitamente compreensível. Todo político tem o dever de prestar contas à população (accountability) e o direito ao credit claiming, ou seja, de reivindicar para si o crédito de suas realizações (e não de ficções, por pressuposto). Graças a esses mecanismos, os eleitores aprimoram suas escolhas nas melhores democracias.
Paradoxalmente, o fato de as inaugurações terem se tornado o centro do debate – deste jeito atropelado, mal ajambrado – pode estar trabalhando contra as intenções dos políticos e do marketing. É possível que os custos, em razão da veiculação das notícias negativas, sejam maiores que os benefícios esperados. Ou que o saldo fique neutralizado. Pelo caminho, oposição e governo têm se abastecido de munição uma contra a outra.
Outro ponto interessante, que reforça o argumento de que a inauguração de muitas e diferentes obras não é uma garantia de dividendos eleitorais, tem a ver com o caráter fragmentado, pulverizado da empreitada. Pesquisa realizada recentemente pelo governo mostra que a maioria dos cidadãos (51,8%) desconhece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da candidatura dilmista. E mesmo entre os que conhecem, 70,2% dos entrevistados não souberam citar uma obra sequer do PAC. Programa menos badalado, porém com mais foco – ataca o problema do déficit habitacional – o Minha Casa, Minha Vida é bem mais conhecido (70,6%). É curioso e mais um indício de que o cacoete das obras, disseminado na política local, não necessariamente funciona eleitoralmente no âmbito nacional.

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