Como sempre vestindo um terno extremamente elegante, Gay Talese chegou à coletiva de imprensa como se estivesse com pressa. Foi logo perguntando quem estava no comando e pediu logo para que fizessem a primeira pergunta. Mas foi logo avisando, para mostrar mais uma vez que não queria perder tempo:
- Por favor, só me perguntem aquilo que vocês achem que eu sou capaz de perguntar.
Assim que começou a primeira falar, porém, os relógios pararam. Ninguém se importou com as respostas quilométricas do autor, que se esqueceu completamente do tempo. Cada pergunta ganhou uma resposta de meia-hora, somando uma hora e meia de coletiva. Falando aos colegas, a impressão é que Talese dava um aula de jornalismo para os poucos privilegiados no local. Entre os ensinamentos, a premissa old school, que ele não cansou de repetir:
- Não adianta dar google nas coisas. É preciso estar presente nos lugares.
Falando sobre seus métodos de pesquisa, o autor se empolgou contando todo o processo inacabado para uma reportagem sobre a China antiga e moderna, que começou em sua casa, ao assistir uma partida entre de futebol feminino entre as seleções da China e dos EUA. Talese se interessou especificamente por uma jogadora chinesa que errou o pênalti decisivo para seu país, fazendo dela o leitmotiv para entender as mudanças sociais e culturais do país. Obcecado pela história - que acabou entrando em seu livro
Vida de escritor, recém lançado no Brasil - foi até a China por conta própria para falar com ela, já que nenhum editor queria a reportagem.
Lá, trocou apenas algumas palavras com a jogadora, mas, assim como acontecera antes com Frank Sinatra e com Mohammed Ali, isso não foi problema. Talese persistiu, ficou seis meses no país, conversando com a mãe e a avó da jogadora, e analisando assim três gerações de uma mesma família.
- Muitas vezes visualizamos uma história, mas não se pode prever - explicou. - Tudo pode mudar no local, outros focos para a história podem aparecer. Mas isso só acontece quando temois paciência e perseverança, e vamos até onde tudo acontece. Eu poderia ter mandado um jornalista qualquer ter me mandado por e-mail um dossiê sobre a jogadora, mas não é assim que se faz. É preciso ir até lá. Não necessariamente para falar com o personagem em questão, mas com as pequenas pessoas ao seu redor.
Ele ainda explicou por que anda sempre elegante.
- Um repórter é como um vendedor - compara. - Bate na porta do personagem esperando um convite para entrar, e ouvir a sua história. O que decide se essa porta vai se abrir ou não é sua apresentação. Boas maneiras e boas roupas são essenciais para convencer.