Sabor de nobreza no Vale do Loire
Por Ricardo Gonzalez, da França
Durante três dias, fizemos um inesquecível passeio turístico por luxuosos
castelos do Vale do Loire, na França, que serviram de moradia para boa parte
da realeza do século 19

Pelo menos na França, nobreza tem sabor, tradição tem aroma. E é o vinho que
dá as ordens aos nossos sentidos. E que fique claro que tais conclusões não
foram tiradas após algum possível excesso na degustação. A sensação é
permanente durante todo o circuito Grandes Etapes Françaises, o qual o Jornal
do Brasil foi convidado a percorrer para a divulgação de um inesquecível
roteiro turístico por luxuosos castelos no Vale do Loire, que serviram de
moradia para boa parte da nobreza do século 19 – e que hoje viraram hotéis de
alto luxo pelas mãos da família Traversac. Durante praticamente três dias,
fomos a sete castelos, e a organização do evento ainda arrumou tempo para
visitas à catedral de Notre Dame, na cidade de
Chartres, e à casa onde viveu Leonardo da Vinci em seus últimos anos de vida.
O início da maratona cultural começou no Château D’Esclimont, o mais próximo
de Paris, entre Versalhes e Chartres. Pode até não ser o mais bonito do
passeio, mas foi o primeiro. E o primeiro castelo a gente nunca esquece. “Il
a dit que...”, começa a “traduzir” as explicações do gerente do Château a
brasileira Rosana de Oliveira, que além de auxiliar turistas chiques do
Brasil, canta na noite francesa. “Em português, Rosana”, pede um dos
visitantes, sem conter o riso. Radicada há quase 20 anos no Vale do Loire, a
paulista incorporou o idioma francês e agora já se confunde quando tem de
fazer traduções. “Com o Plano Collor, decidi tentar a sorte na França. Hoje
estou muito feliz aqui”, diz Rosana, esforçando-se para não entrar na pilha
dos conterrâneos brasileiros com sua confusão de idiomas.
Após o jantar, hora de dormir. Nessa hora, começo a entrar no clima do século
16, quando a família La Rochefoucauld construiu o local. O quarto – cuja cama
fica num andar superior onde se chega por uma pequena escada circular – tem
até TV, mas preferi, pelo menos naquela noite, não ficar sabendo o que se
passava no mundo. Ia quebrar o clima. Preferi o silêncio do belíssimo luar, o
conforto da cama grande e macia, e a sensação momentânea da nobreza – que se
aguçava ao lembrar que, não fosse eu um convidado, estaria desembolsando 300
euros (cerca de R$ 820) por aquela experiência.
Vinte mil vinhos
Nasce o próximo dia do rali cultural. Após um desjejum que emociona qualquer
apreciador de queijos como eu, seguimos para o centro do Vale do Loire.
Depois de uma hora atravessando intermináveis campos de trigo, cuja extensão
até o horizonte faziam-me marejar de sono, uma parada em Chartres, na maior
catedral gótica da Europa, Notre Dame, erguida no distante ano de 1020. Nela
constatamos que nem a religião está livre do contágio com ele, o vinho (leia
quadro).
Hora do almoço e a caravana da tradição francesa segue para o Château Le
Choiseul, que serviu de residência a um dos ministros do rei Luis XV, Etienne
François Duc de Choiseul – hoje vizinha de uma das mansões do Stone Mick
Jagger. A vista do restaurante, para o rio Loire, já alimenta qualquer alma.
Mas o estômago não quer saber disso e, para quem gosta de peixe, o paraíso
está próximo. Quem, como eu, não é chegado a alimentos marinhos não tem como
se desesperar. Aprecia-se o vinho, os acompanhamentos, as maravilhosas
sobremesas, e deixa-se o peixinho (de água doce, pescado no Loire) de lado –
até porque ali é até elegante não raspar o prato.

A próxima etapa do roteiro é, digamos, uma troca da realeza pela dura
realidade: vamos a pé por cerca de 800 metros – em subida – à Maison Du Clos
Lucé, onde o gênio Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos (leia quadro).
Chegamos à ultima e mais glamourosa parada do dia, o Château D’Artigny. Uma
cama real era o maior desejo de todos. Mas antes, um jantar à luz de velas,
com traje esporte fino. Luxo influenciado certamente por quem construiu o
château, o famoso criador de perfumes François Coty. No cardápio, peixe. Bem,
antes que eu começasse a torcer o nariz, avisam-me que há aves da região de
Touraine como opção. Bacana. Melhor ainda são 20 mil opções (isso mesmo, 20
mil) de vinhos, entre eles os da vizinhas vinícolas Vauvray e Bourgueil. A
ostentação do D’Artigny inclui ainda uma coleção de destilados antigos, como
um Armagnac de 1886. Trés chic.
Sinuquinha
O último dia começa com uma aula de história antiga no castelo de
Azay-le-Rideau. Com vários donos desde 1510, o local chama mais a atenção
pelas curiosidades. O Azay teve a primeira construção de escadarias verticais
na França, o que revolucionou a arquitetura local – até sua construção, as
escadas eram sempre circulares, os famosos “caracóis”.
Outra curiosidade que me foi muito cara, como apreciador de uma boa sinuca,
foi deparar-me com a famosa mesa verdinha com bolas e caçapas, na sala de
estar do castelo. A guia espanhola matou minha curiosidade sobre a origem do
jogo. “O aristocrata Charles de Biencourt, cuja família viveu um dos momentos
de maior esplendor da localidade, gostava muito de jogar golfe. Mas dobrar
repetidamente a coluna passou a lhe provocar dores. Por recomendação médica,
para poder jogar em pé, encomendou ao marceneiro real uma miniatura em
madeira de um campo de golfe (as caçapas seriam os buracos). Por isso a mesa
é verde, imitar o campo.
O almoço do dia é no Château Domaine de Beauvois, em Tours, um alimento
inesquecível para o espírito, por estar no coração de um silencioso parque
florestal com 140 hectares, de frente para o lago Briffaut. Se o D’Artigny é
o sonho de consumo do luxo, o Beauvois é uma bênção para quem quer descansar
e curtir a natureza.
O último castelo incluído no nosso roteiro foi o mais rico para os que têm a
imaginação fértil e gostam de boas histórias para uma noite de lua cheia. O
castelo Le Prieuré foi o primeiro ser comprado e restaurado por René
Traversac, o criador das “Grandes Etapes”, nos anos 50. No século 10, foi
doado aos monges beneditinos e é a partir daí que começam as histórias de
terror. Os monges construíram um cemitério ao lado de uma pequena casa anexa
ao castelo, onde enterravam seus mortos – e onde estão hoje os restos do
próprio René Traversac. A tal casinha virou o quarto 17 do hotel. E aí, é
claro, o “chambre 17” virou mal-assombrado, com direito a protagonizar o
livro “Os mistérios do quarto 17”, vendido na recepção, com histórias
mirabolantes de fantasmas locais. Eu adoro muito tudo isso, queria dormir lá,
mas Sandro Montanheri, outro integrante do grupo, teve mais sorte.
No dia seguinte, desjejum e expectativa se Sandro teria sobrevivido aos
espíritos. “Nenhum deles me visitou. Mas confesso que fiquei com um pouco de
medo” contou, provocando risos.
Voltamos cedo a Paris. Agora, os campos de trigo pareceram menores, porque
olhos e mentes estavam repletos de lembranças eternas da inoculação maciça de
requinte, tradição, nobreza e luxo do roteiro dos castelos. Ainda tivemos a
noite e o dia seguinte livres na capital francesa antes da volta ao Brasil. E
aí, quem diria, depois de três dias no Vale do Loire, ficou a impressão de
que estava faltando glamour a Paris...
PODE FALTAR TUDO, MENOS O VINHO
Bebida é tão sagrada que está nos vitrais de Notre Dame
O que veio primeiro o ovo ou a galinha? A pergunta, trocando os personagens,
foi feita à mesa do primeiro castelo por nosso grupo: o vinho determina o
prato ou o prato determina o vinho? Várias versões entre os gerentes do
Château D’Esclimont, mas também pouco importava a resposta. O fato é que
sempre haverá vinho à mesa nos castelos, e o prato principal terá de combinar
com a nobre bebida. Não se passam seis horas no Vale do Loire sem que haja
algum tipo de contato com os melhores vinhos do planeta. Mesmo na catedral,
em Chartres, a bebida se mistura à fé. São cerca de 170 vitrais que, além de
reproduzirem as histórias católicas, remontam o cotidiano do século 13. E
nelas, não há uma única em que não esteja o taberneiro servindo o vinho, ou o
produtor esmagando as uvas com os pés para fazer a sagrada bebida. É uma
história que não tem fim, e que leva marcas como a Romanéé-Conti a ser
disputada, dólar a dólar, por xeques, príncipes e milionários pelo mundo
afora.
QUANDO A MONA LISA ANDOU DE BURRO
Quase tão emocionante quanto chegar perto da cama onde dormia Leonardo da
Vinci nos três últimos anos de sua vida é ver a dedicação de Jean Saint-Brir,
diretor do museu Clos Lucé, ao contar aos visitantes as façanhas do
visionário artista. “Quando o rei Francisco I o convidou para viver na
França, Da Vinci atravessou o longo trajeto montado num burro, com obras como
a Mona Lisa na bagagem. Imaginem se ele sofresse algum acidente, ou se essas
obras se perdessem com uma chuva ou uma intempérie...”, comenta Saint-Brir,
fã declarado do italiano.
No Clos Lucé, nos arredores dos castelos do Loire, além de passear pelos
cômodos da casa de Da Vinci, o visitante vê réplicas
de suas principais pinturas e também maquetes de suas visionárias engenhocas,
que serviram de base para o mundo
ficar mais moderno. Leonardo Da Vinci morreu
no Clos Lucé em 2 de maio de 1519.
PARA QUEM BUSCA A ARTE DE VIVER
O engenheiro francês René Traversac foi o artífice do que viria a se
transformar nas Grandes Etapes. Na metade dos anos 50, procurava um local com
o que chamava de “atmosfera e charme de uma arte de viver”. Em 1956, adquiriu
o Château Le Prieure, reformando-o sem alterar os conceitos estéticos do
período em que foi erguido – hoje seus restos mortais estão no cemitério ao
lado do château. O negócio fez sucesso e propiciou à família a compra dos
outros 10 castelos, transformados em hotéis. “Não somos um destino
massificado como Paris ou
Nova York, mas somos altamente qualificados e a procura tem aumentado a cada
temporada. Hoje, as Grandes Etapes recebem em torno de 25 mil visitantes por
ano”, lembra Charles Dornoy, diretor comercial e de marketing da Grandes
Etapes.
Durante três dias, fizemos um inesquecível passeio turístico por luxuosos
castelos do Vale do Loire, na França, que serviram de moradia para boa parte
da realeza do século 19

Pelo menos na França, nobreza tem sabor, tradição tem aroma. E é o vinho que
dá as ordens aos nossos sentidos. E que fique claro que tais conclusões não
foram tiradas após algum possível excesso na degustação. A sensação é
permanente durante todo o circuito Grandes Etapes Françaises, o qual o Jornal
do Brasil foi convidado a percorrer para a divulgação de um inesquecível
roteiro turístico por luxuosos castelos no Vale do Loire, que serviram de
moradia para boa parte da nobreza do século 19 – e que hoje viraram hotéis de
alto luxo pelas mãos da família Traversac. Durante praticamente três dias,
fomos a sete castelos, e a organização do evento ainda arrumou tempo para
visitas à catedral de Notre Dame, na cidade de
Chartres, e à casa onde viveu Leonardo da Vinci em seus últimos anos de vida.
O início da maratona cultural começou no Château D’Esclimont, o mais próximo
de Paris, entre Versalhes e Chartres. Pode até não ser o mais bonito do
passeio, mas foi o primeiro. E o primeiro castelo a gente nunca esquece. “Il
a dit que...”, começa a “traduzir” as explicações do gerente do Château a
brasileira Rosana de Oliveira, que além de auxiliar turistas chiques do
Brasil, canta na noite francesa. “Em português, Rosana”, pede um dos
visitantes, sem conter o riso. Radicada há quase 20 anos no Vale do Loire, a
paulista incorporou o idioma francês e agora já se confunde quando tem de
fazer traduções. “Com o Plano Collor, decidi tentar a sorte na França. Hoje
estou muito feliz aqui”, diz Rosana, esforçando-se para não entrar na pilha
dos conterrâneos brasileiros com sua confusão de idiomas.
Após o jantar, hora de dormir. Nessa hora, começo a entrar no clima do século
16, quando a família La Rochefoucauld construiu o local. O quarto – cuja cama
fica num andar superior onde se chega por uma pequena escada circular – tem
até TV, mas preferi, pelo menos naquela noite, não ficar sabendo o que se
passava no mundo. Ia quebrar o clima. Preferi o silêncio do belíssimo luar, o
conforto da cama grande e macia, e a sensação momentânea da nobreza – que se
aguçava ao lembrar que, não fosse eu um convidado, estaria desembolsando 300
euros (cerca de R$ 820) por aquela experiência.
Vinte mil vinhos
Nasce o próximo dia do rali cultural. Após um desjejum que emociona qualquer
apreciador de queijos como eu, seguimos para o centro do Vale do Loire.
Depois de uma hora atravessando intermináveis campos de trigo, cuja extensão
até o horizonte faziam-me marejar de sono, uma parada em Chartres, na maior
catedral gótica da Europa, Notre Dame, erguida no distante ano de 1020. Nela
constatamos que nem a religião está livre do contágio com ele, o vinho (leia
quadro).
Hora do almoço e a caravana da tradição francesa segue para o Château Le
Choiseul, que serviu de residência a um dos ministros do rei Luis XV, Etienne
François Duc de Choiseul – hoje vizinha de uma das mansões do Stone Mick
Jagger. A vista do restaurante, para o rio Loire, já alimenta qualquer alma.
Mas o estômago não quer saber disso e, para quem gosta de peixe, o paraíso
está próximo. Quem, como eu, não é chegado a alimentos marinhos não tem como
se desesperar. Aprecia-se o vinho, os acompanhamentos, as maravilhosas
sobremesas, e deixa-se o peixinho (de água doce, pescado no Loire) de lado –
até porque ali é até elegante não raspar o prato.

A próxima etapa do roteiro é, digamos, uma troca da realeza pela dura
realidade: vamos a pé por cerca de 800 metros – em subida – à Maison Du Clos
Lucé, onde o gênio Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos (leia quadro).
Chegamos à ultima e mais glamourosa parada do dia, o Château D’Artigny. Uma
cama real era o maior desejo de todos. Mas antes, um jantar à luz de velas,
com traje esporte fino. Luxo influenciado certamente por quem construiu o
château, o famoso criador de perfumes François Coty. No cardápio, peixe. Bem,
antes que eu começasse a torcer o nariz, avisam-me que há aves da região de
Touraine como opção. Bacana. Melhor ainda são 20 mil opções (isso mesmo, 20
mil) de vinhos, entre eles os da vizinhas vinícolas Vauvray e Bourgueil. A
ostentação do D’Artigny inclui ainda uma coleção de destilados antigos, como
um Armagnac de 1886. Trés chic.
Sinuquinha
O último dia começa com uma aula de história antiga no castelo de
Azay-le-Rideau. Com vários donos desde 1510, o local chama mais a atenção
pelas curiosidades. O Azay teve a primeira construção de escadarias verticais
na França, o que revolucionou a arquitetura local – até sua construção, as
escadas eram sempre circulares, os famosos “caracóis”.
Outra curiosidade que me foi muito cara, como apreciador de uma boa sinuca,
foi deparar-me com a famosa mesa verdinha com bolas e caçapas, na sala de
estar do castelo. A guia espanhola matou minha curiosidade sobre a origem do
jogo. “O aristocrata Charles de Biencourt, cuja família viveu um dos momentos
de maior esplendor da localidade, gostava muito de jogar golfe. Mas dobrar
repetidamente a coluna passou a lhe provocar dores. Por recomendação médica,
para poder jogar em pé, encomendou ao marceneiro real uma miniatura em
madeira de um campo de golfe (as caçapas seriam os buracos). Por isso a mesa
é verde, imitar o campo.
O almoço do dia é no Château Domaine de Beauvois, em Tours, um alimento
inesquecível para o espírito, por estar no coração de um silencioso parque
florestal com 140 hectares, de frente para o lago Briffaut. Se o D’Artigny é
o sonho de consumo do luxo, o Beauvois é uma bênção para quem quer descansar
e curtir a natureza.
O último castelo incluído no nosso roteiro foi o mais rico para os que têm a
imaginação fértil e gostam de boas histórias para uma noite de lua cheia. O
castelo Le Prieuré foi o primeiro ser comprado e restaurado por René
Traversac, o criador das “Grandes Etapes”, nos anos 50. No século 10, foi
doado aos monges beneditinos e é a partir daí que começam as histórias de
terror. Os monges construíram um cemitério ao lado de uma pequena casa anexa
ao castelo, onde enterravam seus mortos – e onde estão hoje os restos do
próprio René Traversac. A tal casinha virou o quarto 17 do hotel. E aí, é
claro, o “chambre 17” virou mal-assombrado, com direito a protagonizar o
livro “Os mistérios do quarto 17”, vendido na recepção, com histórias
mirabolantes de fantasmas locais. Eu adoro muito tudo isso, queria dormir lá,
mas Sandro Montanheri, outro integrante do grupo, teve mais sorte.
No dia seguinte, desjejum e expectativa se Sandro teria sobrevivido aos
espíritos. “Nenhum deles me visitou. Mas confesso que fiquei com um pouco de
medo” contou, provocando risos.
Voltamos cedo a Paris. Agora, os campos de trigo pareceram menores, porque
olhos e mentes estavam repletos de lembranças eternas da inoculação maciça de
requinte, tradição, nobreza e luxo do roteiro dos castelos. Ainda tivemos a
noite e o dia seguinte livres na capital francesa antes da volta ao Brasil. E
aí, quem diria, depois de três dias no Vale do Loire, ficou a impressão de
que estava faltando glamour a Paris...
PODE FALTAR TUDO, MENOS O VINHO
Bebida é tão sagrada que está nos vitrais de Notre Dame
O que veio primeiro o ovo ou a galinha? A pergunta, trocando os personagens,
foi feita à mesa do primeiro castelo por nosso grupo: o vinho determina o
prato ou o prato determina o vinho? Várias versões entre os gerentes do
Château D’Esclimont, mas também pouco importava a resposta. O fato é que
sempre haverá vinho à mesa nos castelos, e o prato principal terá de combinar
com a nobre bebida. Não se passam seis horas no Vale do Loire sem que haja
algum tipo de contato com os melhores vinhos do planeta. Mesmo na catedral,
em Chartres, a bebida se mistura à fé. São cerca de 170 vitrais que, além de
reproduzirem as histórias católicas, remontam o cotidiano do século 13. E
nelas, não há uma única em que não esteja o taberneiro servindo o vinho, ou o
produtor esmagando as uvas com os pés para fazer a sagrada bebida. É uma
história que não tem fim, e que leva marcas como a Romanéé-Conti a ser
disputada, dólar a dólar, por xeques, príncipes e milionários pelo mundo
afora.
QUANDO A MONA LISA ANDOU DE BURRO
Quase tão emocionante quanto chegar perto da cama onde dormia Leonardo da
Vinci nos três últimos anos de sua vida é ver a dedicação de Jean Saint-Brir,
diretor do museu Clos Lucé, ao contar aos visitantes as façanhas do
visionário artista. “Quando o rei Francisco I o convidou para viver na
França, Da Vinci atravessou o longo trajeto montado num burro, com obras como
a Mona Lisa na bagagem. Imaginem se ele sofresse algum acidente, ou se essas
obras se perdessem com uma chuva ou uma intempérie...”, comenta Saint-Brir,
fã declarado do italiano.
No Clos Lucé, nos arredores dos castelos do Loire, além de passear pelos
cômodos da casa de Da Vinci, o visitante vê réplicas
de suas principais pinturas e também maquetes de suas visionárias engenhocas,
que serviram de base para o mundo
ficar mais moderno. Leonardo Da Vinci morreu
no Clos Lucé em 2 de maio de 1519.
PARA QUEM BUSCA A ARTE DE VIVER
O engenheiro francês René Traversac foi o artífice do que viria a se
transformar nas Grandes Etapes. Na metade dos anos 50, procurava um local com
o que chamava de “atmosfera e charme de uma arte de viver”. Em 1956, adquiriu
o Château Le Prieure, reformando-o sem alterar os conceitos estéticos do
período em que foi erguido – hoje seus restos mortais estão no cemitério ao
lado do château. O negócio fez sucesso e propiciou à família a compra dos
outros 10 castelos, transformados em hotéis. “Não somos um destino
massificado como Paris ou
Nova York, mas somos altamente qualificados e a procura tem aumentado a cada
temporada. Hoje, as Grandes Etapes recebem em torno de 25 mil visitantes por
ano”, lembra Charles Dornoy, diretor comercial e de marketing da Grandes
Etapes.







