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Minotauro cai, mas Wanderlei Silva ressurge no UFC 110




Os brasileiros que ficaram acordados para assistir o UFC 110 ontem foram dormir com sentimentos divididos. Apesar da vitória de Wanderlei Silva sobre Michael Bisping ter levantado os ânimos, a queda de Minotauro em menos de três minutos perante Cain Velasquez deixou uma porção de espectadores no mínimo surpresos com o resultado final do primeiro evento da organização realizado na Austrália.

O experiente Minotauro vinha com ligeiro favoritismo. Conhecido pelo queixo duro e a habilidade de tomar golpes e se reerguer no último segundo - daí o apelido de Rocky Balboa -, o brasileiro não cai fácil. Aliás, praticamente não cai. Prova disso é que este foi apenas o segundo nocaute de Minota em uma carreira de quase 40 lutas - sendo que, no primeiro, para Frank Mir, ele estava contundido e se recuperando de uma infecção grave. Foi absolvido de culpa. Porém, ontem, vimos um Minotauro saudável e preparado sendo nocauteado. Isso, além de pegar a todos de surpresa, expôs uma tendência no octógono. Com adversários cada vez mais fortes e rápidos, os lutadores não podem mais se dar ao luxo de entrar na cara e na coragem e adotar a estratégia suicida - porém empolgante - de "fazer o rival cansar de tanto bater".

Como na maioria dos esportes, a profissionalização do MMA está inevitavelmente aumentando o nível técnico dos lutadores e, com isso, diminuindo as margens para atuações de garra e coração. Sem duvidar da inegável técnica do Minotauro, o finalizador mais eficiente do UFC e exímio boxeador, mas a coragem de confiar em seu queixo está se provando cada vez mais perigosa no octógono. Frank Mir passou pela mesma provação no UFC 110, quando se equivocou achando que poderia aguentar umas surras para depois finalizar. Essa estratégia, agora, é falha. Se, por um lado, isso pode sinalizar o crescimento do MMA como um esporte legítimo, por outro pode significar que teremos que nos habituar a cada vez menos reviravoltas heróicas e performances cinematográficas no octógono. Deixarão saudades.

O incrível é que o duríssimo adversário não pareceu problemático para o americano de ascendência mexicana Cain Velasquez, que não deu nem tempo para a luta ir para o chão. Mérito todo dele. O lutador selou sua oitava vitória com um belíssimo e certeiro cruzado, e já está gerando burburinho sobre uma possível disputa de cinturão. Conhecido pelo wrestling, vigor e os golpes certeiros e pesados, Cain fez jus à fama de perigoso. Demonstrando bastante desenvoltura para um peso pesado, ele surpreendeu até com uns chutes altos, raros entre sua categoria de peso. Graças à performance, levou o prêmio de nocaute da noite. (Veja o vídeo aqui)

Como o gentleman que é, Minotauro reconheceu os méritos do rival, dando um verdadeiro show de espírito esportivo, como sempre.

"Estou muito triste, mas ele teve socos mais rápidos e mereceu vencer. Cain é muito bom lutador e já não é mais novidade. É um dos melhores da atualidade. Não fiquei surpreso com essa apresentação. Sabia do que ele era capaz. Só tenho agora de agradecer a todos que vierem aqui me ver e me apoiaram", disse, segundos após a derrota.

Ver Minotauro perdendo é triste por diversos motivos. Inteligente e carismático, Minota é um dos maiores ícones do MMA, e foi em boa parte graças a ele que a imagem negativa dos lutadores começou a mudar. A relação de Minotauro com o público brasileiro há muito se tornou afetiva e, para alguns, vê-lo caindo é como assistir a Rocky Balboa sendo derrotado por Ivan Drago ao final de Rocky IV. Parece anti-natural. Porém, o velho clichê da "caixinha de surpresas" se aplica igualmente ao mundo das lutas e, agora, é esperar pelo retorno triunfal do brazuca. O sonho de retomar o cinturão ficou mais longe - mas ainda está lá.


Se o público brasileiro viu de seus mais queridos ícones cair, pôde ver outro ressurgir. Wanderlei Silva, ou "Wand", trouxe de volta os lampejos de brilhantismo que o transformaram em um ídolo do Pride (extinto campeonato japonês de MMA). Vindo de uma fase ruim, após duas derrotas no UFC, Wanderlei retornou mais em forma e "bonito" do que nunca - suas próprias palavras, não minhas - e derrotou Michael Bisping por pontos. Em uma luta movimentada, Bisping chegou a assustar com algumas quedas, mas Silva conseguiu escapar todas as vezes. As explosões do brasileiro ao final de cada round levantavam a plateia australiana, que gritava "Silva, Silva". Um dos lutadores mais queridos no mundo, Wand é até personagem de videogame e garoto-propaganda no Japão, onde se sagrou campeão pelo Pride.

A vitória foi por decisão unânime, mas por pouco os juízes não precisariam nem entrar em ação. Bisping foi salvo pelo gongo duas vezes. No segundo round, Wand encaixou uma guilhotina no inglês, que chegou a levantar o braço para bater, mas o tempo acabou logo em seguiad. Já no fim do terceiro round, Wand acertou um cruzado certeiro de direita que deixou o adversário completamente atordado e, se o sino não tivesse tocado sinalizando o final do combate, a luta teria acabado ali mesmo com um nocaute. Independente da forma, Wanderlei mostrou a que veio. Bisping, por outro lado, não pareceu concordar muito com a decisão, e chegou a postar em seu twitter: "luta difícil, mas eu achei que tivesse ganhado os rounds 1 e 2. Não tenho nenhuma marca em mim". Tire suas próprias conclusões com o vídeo da luta

No primeiro combate principal da noite, o veterano Mirko Cro Cop abriu mão dos famosos chutes e apostou nos punhos para derrotar o australiano Anthony Perosh por nocaute técnico. Uma cotovelada de Cro Cop abriu um corte na testa de Perosh, e o sangramento não pôde ser estancado pelos médicos. Mirko vinha de uma derrota feia para Junior Cigano dos Santos, e por um tempo rolaram boatos de sua aposentadoria. Mas por enquanto, pelo menos, Cro Cop parece bem inteiro, e ainda declarou: "acredito que eu pertenço ao topo da divisão dos pesos pesados".

As outras duas lutas da noite contrariaram o favoritismo. Durante o segundo combate, o excêntrico Keith Jardine foi nocauteado por Ryan Bader. Apesar de ter sido o segundo nocaute seguido de Jardine (o outro foi pelas mãos de Thiago Silva), ele vinha como favorito. Já Joe Stevenson, vencedor de uma das edições do reality "The Ultimate Fighter", chegou esbanjando confiança - mas não correspondeu. Foi surpreendido pelo chão apurado do australiano George Sotiropoulos e perdeu na decisão dos jurados.

Resultados:

Card principal:

Cain Velásquez vence Rodrigo Minotauro Nogueira com nocaute aos 2 minutos e 20 segundos do primeiro round;
Wanderlei Silva vence Michael Bisping na decisão unânime dos juízes;
George Sotiropoulos vence Joe Stevenson na decisão unânime dos juízes;
Ryan Bader vence Keith Jardine com nocaute aos 2 minutos e 10 segundos do terceiro round;
Mirko Cro Cop vence Anthony Perosh com nocaute técnico (corte) aos cinco minutos do segundo round.


Card preliminar:>

Krzysztof Soszynski vence Stephan Bonnar com nocaute técnico (corte) a 1 minuto e 4 segundos do terceiro round;
Chris Lytle vence Brian Foster com finalização (chave de perna) a 1 minuto e 40 segundos do primeiro round;
CB Dollaway venceu Goran Reljic na decisão unânime dos juízes;
James Te Huna vence Igor Pokrajac com nocaute técnico aos 3 minutos e 26 segundos do terceiro round.

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Demian Maia tem, enfim, a merecida chance de brigar pelo cinturão

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Foi um período de reviravoltas na carreira de Demian Maia. Aos 32 anos, o paulista foi do céu ao inferno no octógono. Felizmente, agora está no céu de novo. Após uma vitória sobre Dan Miller no UFC 109, o lutador foi chamado para substituir Vítor Belfort na disputa pelo cinturão contra Anderson Silva, no dia 10 de abril, em Abu Dhabi. Um reconhecimento que poderia ter vindo bem antes. Demian chegou ao UFC de maneira devastadora. Usou seu jiu jitsu impecável (é cinco vezes campeão mundial) para finalizar cinco adversários em seguida. E fez tão bem que quatro destas finalizações foram premiadas. Depois desta belíssima sequência, Demian já aguardava um convite da organização para disputar o cinturão. Até que, em uma luta quase aberracional, foi nocauteado em 21 segundos por Nate Marquardt. Um lamentável azar que abalou a credibilidade em suas habilidades em pé - já que as no solo sempre foram incontestáveis.

Como todo bom atleta, o racional Demian decidiu não deixar um mau dia entrar no caminho. Voltou a treinar, investiu pesado no boxe, e retornou ao octógono com uma trocação surpreendemente eficaz. Pela primeira vez, ganhou por decisão dos jurados e lembrou aos críticos dos motivos pelos quais era temido na categoria. De volta à trilha de vitórias, Demian ainda assim não esperava por uma chance de disputar o título dos médios. Alguns dias antes de saber da luta, Demian conversou com o JB, admitindo que teria que "fazer um barulho" se quisesse a chance. Coerente, lembrou que a categoria dos médios estava uma "bagunça", e que esperaria por sua vez, sem perder o foco em seus treinos. O sonho do cinturão, naquela hora, parecia distante. Porém, talvez um pouco culpada depois do incidente contra Nate Marquardt, a sorte decidiu dar uma mãozinha para o lutador.

Após a saída de Belfort, a organização cotava Chael Sonnen para disputar, mas, machucado após uma luta, Sonnen não aceitou o convite. Curiosidade: a luta havia sido contra Nate Marquardt. Um curioso golpe do destino: o mesmo lutador que prejudicou as chances de Demian no título foi responsável pelos ferimentos que tiraram Sonnen de cena.

Agora, Demian tem a justíssima chance de reinvidicar o cinturão, na luta anunciada como "o encontro entre o melhor lutador de chão e o melhor lutador de pé do MMA". Mas pelo que pudemos ver, já podemos esperar muito mais que chão do obstinado e coerente Maia. Nesta exclusiva para o JB, ele fala sobre o sonho do cinturão, a mudança de estilo em sua última luta e critica o "complexo de vira-lata" no mundo dos esportes no Brasil.

Como você soube que iria disputar o cinturão?

Fiquei sabendo na sexta, antes de anunciarem. Meu empresário ligou e perguntou se eu queria lutar. Aí disse que claro que lutaria, com certeza. Isso foi no começo de noite da sexta, e eu só não podia falar pra ninguém até anunciarem. No mesmo dia, anunciaram oficialmente.

Alguns dias antes, nós tínhamos conversado e você não tinha previsão de lutar pelo cinturão. Você ficou surpreso?

Eu estava esperando convite quando ganhei do Chael Sonnen no ano passado. Aí, achei que ia vir, tava esperando, mas lese falaram que ainda não sabiam, porque ia depender da luta entre o Anderson e o Thales Leites. Como a luta foi meio morna, acabaram me colocando contra o Nate, que foi quando eu perdi. Para a disputa do cinturão, o Vítor Belfort se machucou e Sonnen era a segunda opção deles, mas ele tava machucado por causa da última luta, então eu era próxima opção. Foi um pouco surpreendente.

Você lutará em abril logo depois de ter lutado em fevereiro? Não é um intervalo muito pequeno?

Não é o ideal, o ideal é um pouco mais. Vou lutar de novo depois de nove semanas. Mas, com planejamento bem feito, não é tempo ruim. O bom é que não estou vindo zerado, estou preparado e treinado. Vou só deixar o ritmo cair um pouco pra não chegar no pico antes. É uma ciência delicada, o atleta tem que deixar corpo cair de rendimento pra ir subindo e chegar bem para a luta, sem passar do pico.

Com quem você vai treinar? Vai treinar com o Dórea de novo?

Vou também, ele será um dos técnicos. Vou treinar com todo mundo que possa ajudar, só não vou treinar com Minotauro e Minotouro porque eles também são muito amigos do Anderson e seria uma situação difícil pra eles. Não quero colocá-los em uma posição delicada, vou treinar com profissionalismo.

E qual é o sentimento de ter sido escolhido para essa chance?

Foi um sonho. Eu sempre quis lutar pelo título. E a disputa chegou num bom momento. Talvez um ano atrás eu fosse menos experiente, mas agora passei por lutas importantes. A chance veio na hora certa.

E a estratégia, já tem uma?

No mundo da luta, a gente até bola estratégia, mas, na verdade, na hora são dois organismos vivos que mudam o tempo todo. Tudo muda. Ou seja, a estratégia é uma linha de planejamento muito variável.

A sua última luta, contra o Dan Miller, foi uma surpresa para todos. Você trocou muito, fez ground and pound, e parecia bem confortável. Era parte da sua estratégia, ficar na trocação?

Foi ao mesmo tempo uma estratégia, e ao mesmo tempo força das circunstâncias. Eu pensei fazer uma luta menos agressiva, mais estratégica, porque quero testar a paciência de buscar a hora certa, não só ir pra cima pra acabar a luta logo. O lutador tem que ter dois tipos de jogo. Eu me senti bem em pé e fiz um boxe mais defensivo, como o do Lyoto Machida. Como estava me sentindo seguro, botei ele pra baixo. Como ele ficou em pé, não fiquei me matando para botar ele embaixo e decidi arriscar um pouquinho. Consegui acertar um bons socos e pensei "no terceiro round, vou garantir e botar pra baixo e, se der espaço, vou finalizar". Acho que valeu a pena, porque foi uma experiência pela qual eu precisava passar.

Qual foi a importância dessa luta pra sua carreira?

Apesar de não ter sido “exciting”, foi muito importante. Quero ser campeão do peso, tenho que me testar de tudo quanto é maneira. Desta vez, deu certo, joguei na segurança, e, pela primeira vez, ganhei uma luta por pontos. Foi uma evolução, porque eu não tinha essa segurança. Agora eu consigo me virar em pé sem me arriscar tanto, lutar numa distância. Foi impagável no sentido de experiência pessoal de luta.

Você acha que a vitória te redimiu após a derrota para o Nate Marquardt?

Redimiu, sim. Mas, na verdade, eu não tinha nada a provar. Vinha de onze vitórias e uma derrota, vim para fazer mais uma luta. Graças a deus, fui campeão, e sempre ganhei muito mais do que perdi.

Como foi o seu treinamento para essa luta?

Eu conversei com o Minotauro e pensei “po, tenho vontade de treinar luta olímpica e boxe em Cuba”. Ele falou que ia me levar, mas, na última hora, não deu pra ir e eu fui para a Bahia. Fiquei duas semanas direto e quase um mês e meio indo e voltando de lá. Foi excelente, valeu pela imersão. É como aprender uma língua, sabe? Lá era só boxe, só com boxeador, e ainda com a Champion, a melhor equipe do Brasil. Para mim, ajudou muito.

Como foi sua entrada no MMA? Foi uma transição natural do jiu jitsu?


Eu sempre fiz lutas. Praticava judô quando era criança, fiz karatê, kung fu e jiu jitsu com 19 anos. Aí eu fui ganhando títulos. Nunca fui uma pessoa violenta, mas, como gosto de me testar, fui descobrir o vale tudo. Vi meu primeiro vale-tudo em 91, 92, no Ibirapuera, com pessoas como Ralf, Renzo (Gracie) e Marcelo Bering. Aí pensei “quero fazer isso, quero me testar nisso”, desde aquela época. Desde a faixa branca, eu já queria fazer vale-tudo. Na minha primeira luta profissional, eu tinha 23 anos. Depois, passei vários anos só lutando jiu jitsu, e só fui voltar a lutar em 2005, quando competi em Abu Dhabi, em jiu jitsu sem kimono. Em 2005, também ganhei um vale-tudo na Finlândia. Em 2007, lutei meu primeiro vale-tudo nos EUA, o Gracie Fighting, duas semanas depois de Abu Dhabi. Apesar de ter acabado de sair de uma luta, era uma oportunidade boa, uma bolsa boa e uma chance de ingressar no mercado norte-americano, então arrisquei.

Você tem um ídolo no esporte?

Meu ídolo é Rickson Gracie, mas também existem duas estrelas do Brasil, muito carismáticas, que abriram as portas para todos agora: o Minotauro e o Wanderlei Silva. São duas pessoas que admiro muito.

E a má fama dos lutadores, tem justificativa?

Não tem nenhum lutador ruim fora do ringue. O problema é que, no exterior, tem muito a mídia em cima o tempo todo. Se a pessoa não tiver cabeça boa, fica “se achando”. Lá fora ou no Japão, quando tem evento, até eu, quando estou para lutar, não consigo passar no hotel! Nos dia da pesagem e da luta, o lutador tem que botar capuz no lobby do hotel, porque, se alguém descobre, pára todo mundo. Esse assédio todo acaba deixando a pessoa meio arrogante se ela tiver a cabeça fraca. Mas agressividade? Esse tipo de coisa eu não conheço.

Nós temos dois campeões brasileiros no UFC e vários nos maiores rankings mundiais, mas ainda assim o esporte não é tão difundido no Brasil. Como você avalia esse crescimento?

No Brasil, a gente tem complexo de vira-lata. Tudo que é nosso não tem valor, o negócio são os gringos. A gente criou o jiu jitsu brasileiro, todos são brasileiros, mas ninguém “tá nem aí”. Jiu jitsu não tem cobertura nenhuma. Agora está começando a aparecer, porque está dando um dinheiro, e está começando a ser visto. Nos EUA, a cultura do esporte é muito mais forte que aqui. Aqui, você abre o caderno de esporte é só futebol. Não tem cultura de esporte, a pessoa não aprende a gostar de outras coisas. Apesar do pessoal relacionar muito com a violência, acho que está saindo esse estigma. Inclusive, eu acho que vale-tudo ainda não explodiu aqui, menos por causa da violência, mas mais por causa da cultura de esporte. Um exemplo é o vôlei, que não tem violência nenhuma, mas pouca gente assiste.

Agora, os duelo brazuca: quem você acha que vai vencer a revanche entre Lyoto e Shogun?

Vai depender de quem fez a reformulação melhor, vai depender de quem percebeu melhor os erros, quem teve mais a sensibilidade treinar em cima disso. É difícil por causa disso, não dá pra saber quem percebeu mais no último confronto.

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Sem marra, Paulo Thiago tem versatilidade e estratégia a seu lado no octógono

Paulo Thiago comemora vitória sobre Mike Swick

Policial do BOPE e lutador de MMA nas horas vagas. Para um observador desatento, os dois elementos seriam a receita perfeita para um cara, perdoem-me o vocabulário de Sessão da Tarde, “durão”. Mas Paulo Thiago está aí para provar o velho - e sempre na moda – clichê de que as aparências enganam. Centrado e modesto, o brasiliense de 29 anos pode até intimidar quando veste o uniforme ou entra no octógono, mas parece deixar a agressividade por ali mesmo. Em franca ascensão no UFC, Paulo Thiago é mais um (bom) exemplo de que a imagem-estereótipo do lutador turrão já está dando seus últimos suspiros.

Após finalizar Mike Swick no último sábado, Paulo deu mais um passo rumo ao cinturão dos meios-médios. Apesar de evitar especulações sobre uma disputa de título, o lutador vem se tornando uma das maiores promessas para conquistar o cinturão - que parece muito bem acomodado na estante de George St. Pierre. Apesar do card no UFC ainda meio tímido – três vitórias e uma derrota -, Paulo Thiago já coloca medo nos adversários. Tanto por sua técnica quanto pela ocupação de policial do BOPE. A profissão, aliás, cria toda uma mística extra, já que, no fértil imaginário norte-americano, Paulo Thiago deve sair diariamente à rua (ou selva) para lutar contra as milhares de legiões de bandidos armados que tomaram o país de assalto.

O card de Paulo Thiago condiz com seu estilo de luta. São três vitórias: uma por finalização, uma por decisão e uma por nocaute. Versado no jiu jitsu e na trocação, o policial tem ao seu lado o fator-surpresa: ninguém sabe onde diabos ele vai tentar terminar a luta. Estratégico, ele vai com o momento: nocauteia, finaliza ou vai para a decisão com igual facilidade, tudo a gosto do freguês. Aliás, “surpresa” descreve sua trajetória no UFC: estreou contra Josh Koscheck, rankeado quinto melhor da categoria. “Azarão” não chega a descrever a posição desfavorável de Paulo neste primeiro combate. Quando todos tinham certeza que aquele brasileiro franzino ia perder feio, eis que ele nocauteia o adversário em pouco mais de três minutos.

Quanto aos comentários de que a luta não passou de um “golpe de sorte”, Paulo declarou: “a sorte acompanha quem treina”. Sendo assim, sorte não deve ser problema para o lutador, que treina seis horas por dia, seis vezes por semana.

Nesta entrevista exclusiva, Paulo Thiago fala sobre o Bope, o "vício" em treinos, o crescimento (lento) do MMA no Brasil e arrisca um palpite no confronto Silva x Belfort:

A luta contra o Mike Swick era pra ser, inicialmente, uma revanche contra o Koscheck. Como você lidou com essa mudança de adversários?
Foi tranquilo. Eu já estava treinando pra pegar um cara duro, então um substituiu bem o outro. Quando soube, ainda tinha mais ou menos um mês para a luta, e eu ainda estava terminando a parte de preparação física para depois começar a parte técnica, que é estudada em cima do adversário. Ou seja, deu tempo de adequar meu jogo.

Seu treinamento com o Anderson Silva antes da luta ajudou?

Ajudou bastante. O Anderson é um cara muito inteligente, muito experiente, vários anos na frente de todo mundo. Apesar do pouco tempo (duas semanas), aprendi pra caramba, deu para pegar muita coisa.

Você parece igualmente confortável lutando em pé ou no chão. Você tem alguma preferência?
Me sinto bem nas duas. Depende da luta e do adversário.

Como você concilia seu dia a dia no BOPE de Brasília com seus treinos?
É tranquilo, porque os meus comandantes apoiam. Eles dão todas as facilidades para treinar, desde que não atrapalhe no serviço. É tranquilo até porque o pessoal é todo fã de MMA, então eles até torcem junto.

Dana White falou, logo depois da sua vitória, que você ficava mais tranquilo na luta porque sua profissão dá “nervos de aço”. Você concorda? Ser policial ajuda na hora de entrar no octagon?
O policial militar passa por um treinamento psicológico bem forte, então talvez ajude sim. Acho que me sinto mais tranquilo na hora da luta.

E a emoção, é maior no octógono ou na hora de uma operação?

Os dois são bem emocionantes, mas a diferença é que a luta é mais divertida. Para mim, o momento da luta é muito bom, como uma festa, porque você treinou muito tempo para estar ali. Na rua também é emocionante, mas é muito mais tenso.

E se você tivesse que escolher entre os dois, ser policial ou lutador?
Não tenho vontade de largar a polícia, então, enquanto der, vou ficar com os dois. Não vai atrapalhar. Pretendo me aposentar na polícia.

Você começou desde cedo no mundo das lutas, com o judô aos cinco anos. Mas como você entrou no MMA?
Eu treinava muito boxe e já tinha lutas de boxe e jiu jitsu. Aí, quando apareceu uma oportunidade de lutar em Brasília, eu fui e me amarrei. Depois, fiquei sendo atleta de MMA. Parei de lutar só de vez em quando e comecei a me dedicar totalmente à luta. Já são cinco anos de vale tudo.

E como você, com tão pouco tempo de MMA, conseguiu lidar com a pressão de chegar no UFC, um evento tão grande, e lutando contra lutadores Top, como o Josh Koschec, que era quinto no ranking na época?
Foi emocionante ali, claro. Mas eu já estava num ritmo de luta bom, já tinha feito cinco lutas naquele mesmo ano. Ou seja, não senti tanto o baque e fiquei tranqüilo! Acho que, como eu estava mais solto, não senti tanto.

Você parece hesitante em falar sobre uma disputa de cinturão, mas já se imagina enfrentando o campeão St. Pierre?
Não penso muito ainda nisso, não. Eu penso no próximo adversário, se ele ainda for o campeão, aí na época eu vou estudar. Não dá para pensar num lutador antes da hora, atrapalha.

Você é conhecido por se recuperar rápido. Sai de uma luta, e vai direto pro treino. Como você consegue essa recuperação tão rápida: treinamento, condicionamento físico, boa genética ou todas as anteriores?
Talvez seja sorte. Talvez seja porque eu sou viciado em treino *risos*. Não consigo ficar parado: alguma coisinha eu tenho que fazer pra não ficar em casa.

Como é seu treinamento normalmente?
Treino de segunda a sábado, seis horas por dia, são três treinos de duas horas. As lutas são muay thai, boxe e jiu jitsu.

Nós temos dois campeões brasileiros no UFC e vários nos maiores rankings mundiais, mas ainda assim o esporte não é tão difundido no Brasil. Como você avalia o crescimento do esporte no país?

Sinto que está crescendo, mas acho que o ritmo está o meio lento. Acho que ainda deve ter algum jeito de empresários e promotores darem passos mais largos. O Brasil é um dos maiores exportadores de lutadores e, mesmo assim, está bem atrasado em relação ao MMA. O pessoal que organiza, que corre atrás, tem que pensar em uma maneira de aumentar. Até mesmo no setor de mídia e propaganda, deveria haver divulgação do esporte, pra ver se o Brasil dá um salto.

Agora, os duelos brazucas: você arrisca um palpite para o vencedor do duelo entre Anderson Silva e o Vítor Belfort?
Hum... Os dois são muito perigosos, mas acho que, pelo ritmo, o Anderson é favorito. Ele está mais confiante, mais solto dentro do octógono.

E a revanche entre Lyoto e Shogun?
Po, cara, difícil, né? Não sei, os dois lutaram, foi praticamente empate, não dá pra saber.

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