RSS Feeds

A sapatada do século

Na cultura islâmica, atirar o sapato em uma pessoa é o grau mais alto de ofensa que se pode proferir ao outro. Quando o jornalista iraquiano atirou os dois pés do sapato em George Bush ontem, em Bagdá, mostrou que para muitos cidadãos daquele país o presidente americano merece tratamento pior que o de um cão sarnento. Olhando para o retrospecto de Bush em sua aventura libertária, há muito o que reclamar, embora nos tempos recentes a situação no país tenha avançado no sentido de uma pacificação relativa (é bem verdade que obtida graças à uma pressão dos iranianos em cima de Moqtada Al Sadr, líder da milícia xiita que domina uma área tão populosa quanto miserável da capital iraquiana).

A sapatada, por sinal, deve constar obrigatoriamente na biografia do presidente. Ilustra a decadência política de um governante que, durante um bom período, comportou-se como o legislador do mundo, o condutor da chamada Pax Americana. Quem se lembra da declaração arrogante de invasão do Iraque transmitida pela teve em 2003 se deliciou com a cena histriônica de um homem com poder de icinerar o mundo tendo de usar da agilidade para desviar-se de sapatos - aliás atirados com impressionante pontaria pelo repórter. Também vale comparar o mesmo Bush que anunciou o projeto do Grande Oriente Médio, ou a visão particular de uma região redesenhada à luz dos princípios dos neocons cristãos que o cercavam, com o sorriso sem graça de quem tenta reduzir um incidente como esse a algo insignificante.

Não foi e não é. Além do princípio da ofensa em si, do qual Bush parece desconhecer, os sapatos atirados respondem à manutenção das carências impostas à população, à segregação representada pela fortificada Zona Verde e seus exércitos de mercenários, à falta de transparência em relação à aplicação das verbas de reconstrução - maquiadas pelo Pentágono, conforme relatório divulgado pelo NYT. Cada sapato atirado sobre o presidente carregou o peso de todas as mortes inúteis e mal explicadas em meio à população civil, da cínica apuração do massacre provocado por mercenários da Blackwater em Bagdá em um tribunal americano e de outras manifestações imperiais. Lembro bem de uma família, morta nos primeiros meses da ocupação, perto de Mosul, quando se aproximavam de uma barreira militar: o soldado ordenou que parassem fazendo um gesto com a mão espalmada. Por ignorância e arrogância não sabia que em árabe o gesto tem o significado oposto. Pai, mãe, filhos e filhas foram fuzilados no carro e o soldado protegido, absolvido e condecorado. A sapatada em Bush honrou a memória dos inocentes.

Ainda em relação ao jornalista iraquiano, o gesto gerou tensão em Bagdá. Embora signifique absoluto desprezo pela pessoa, não significa um ataque à sua integridade física. O homem está preso, sob acusação de ter atacado o cidadão mais poderoso do planeta. Com base em que leis será julgado? Como uma conspiração contra o presidente dos EUA ou como uma briga entre vizinhos que se odeiam? O que valerá mais, o código dos procônsules da ocupação - é uma ironia dizer que a soberania iraquiana hoje é completa. Na verdade é parcial e depende dos interesses americanos - ou o código de conduta comportamental dos´povos árabes? Aliás, sobre esse assunto vale acompanhar uma série em exibição no canal de tv a cabo HBO: Generation Kill é pródiga em cenas de violência, mas tem a vantagem de mostrar soldados descrentes da própria utilidade. Em um dos capítulos recentes, ordenam um bombardeio a um complexo de casas no qual podiam ver crianças brincando. A suposição é a de que os homens, que os teriam atacado, se esconderam atrás delas para evitar uma retaliação. Ninguém se preocupou em checar a informação. A bomba liquidou o assunto. Sem remorsos, mas sem convicção alguma sobre o que é certo e o que é errado ali.

« anterior próximo »

Comentários


Comentários

cleyde enviou em 16/12/2008 as 00:19:

O jornalista da "sapatada" pode esperar ate o dia da posse do novo presidente dos EEUU,Baraca Obama, e ser solto,pois o "crime que cometeu"(sapatada) ja nao vai mais pesar,pois o dignatario atacado ja nao sera mais o : Homem Mais Importante do Planeta: e sim um ex-importante...assim quem que vai querer defender o Bush????

buggy enviou em 16/12/2008 as 12:12:

Esse par de sapatos deve ser multiplicado por bilhões de pares de sapato do mundo inteiro...dá-lhe seu fdp.

André Shoemacher enviou em 17/12/2008 as 08:57:

E para que você e os leitores não fiquem com inveja do artilheiro de sapatos, não deixem de ir à página http://bushbash.flashgressive.de/ onde poderão atirar os seus na cara do próprio.

Plinio Marcos Moreira da Rocha enviou em 28/12/2008 as 04:02:

O mais importante não foi ogesto ISOLADAMENTE, uma vez que, representou a revolta pelo significado dado por bush à sua visita, bem como, ao significado das palavras proferidas pelo Jornalista, quando das "sapatadas"... Uma vez que, tais palavras, tem o condão de serem mais "VIOLENTAS" que as próprias "sapatadas", por mais significativas que sejam.... Em meu entendimento, acredito que o MUNDO esta mais propenso a definir bush como CRIMINOSO DE GUERRA do que um pseudo-herói das liberdades. Quando então, reafirmo minha crença de que o documento "bush é Responsável por Crimes contra a Humanidade" , http://www.scribd.com/doc/2184771/bush-e-Responsavel-por-Crimes-contra-a-Humanidade , esta mais perto de ser uma REALIDADE, do que nunca... Abraços, Plinio Marcos

Nelson da Cunha enviou em 30/12/2008 as 11:06:

"George Bush ontem, em Bagdá, mostrou que para muitos cidadãos daquele país o presidente americano merece tratamento pior que o de um cão sarnento." Ora, o cão é um animal amigo e leal. O quesito amor e bondade, o cão é muito superior a maioria dos humanos. Deste modo, um cão sarnento merece tratamento veterinario, não merece ser comparado ao monstro asqueroso do Bush.


Comentar

:

:
: