A sapatada do século
A sapatada, por sinal, deve constar obrigatoriamente na biografia do presidente. Ilustra a decadência política de um governante que, durante um bom período, comportou-se como o legislador do mundo, o condutor da chamada Pax Americana. Quem se lembra da declaração arrogante de invasão do Iraque transmitida pela teve em 2003 se deliciou com a cena histriônica de um homem com poder de icinerar o mundo tendo de usar da agilidade para desviar-se de sapatos - aliás atirados com impressionante pontaria pelo repórter. Também vale comparar o mesmo Bush que anunciou o projeto do Grande Oriente Médio, ou a visão particular de uma região redesenhada à luz dos princípios dos neocons cristãos que o cercavam, com o sorriso sem graça de quem tenta reduzir um incidente como esse a algo insignificante.
Não foi e não é. Além do princípio da ofensa em si, do qual Bush parece desconhecer, os sapatos atirados respondem à manutenção das carências impostas à população, à segregação representada pela fortificada Zona Verde e seus exércitos de mercenários, à falta de transparência em relação à aplicação das verbas de reconstrução - maquiadas pelo Pentágono, conforme relatório divulgado pelo NYT. Cada sapato atirado sobre o presidente carregou o peso de todas as mortes inúteis e mal explicadas em meio à população civil, da cínica apuração do massacre provocado por mercenários da Blackwater em Bagdá em um tribunal americano e de outras manifestações imperiais. Lembro bem de uma família, morta nos primeiros meses da ocupação, perto de Mosul, quando se aproximavam de uma barreira militar: o soldado ordenou que parassem fazendo um gesto com a mão espalmada. Por ignorância e arrogância não sabia que em árabe o gesto tem o significado oposto. Pai, mãe, filhos e filhas foram fuzilados no carro e o soldado protegido, absolvido e condecorado. A sapatada em Bush honrou a memória dos inocentes.
Ainda em relação ao jornalista iraquiano, o gesto gerou tensão em Bagdá. Embora signifique absoluto desprezo pela pessoa, não significa um ataque à sua integridade física. O homem está preso, sob acusação de ter atacado o cidadão mais poderoso do planeta. Com base em que leis será julgado? Como uma conspiração contra o presidente dos EUA ou como uma briga entre vizinhos que se odeiam? O que valerá mais, o código dos procônsules da ocupação - é uma ironia dizer que a soberania iraquiana hoje é completa. Na verdade é parcial e depende dos interesses americanos - ou o código de conduta comportamental dos´povos árabes? Aliás, sobre esse assunto vale acompanhar uma série em exibição no canal de tv a cabo HBO: Generation Kill é pródiga em cenas de violência, mas tem a vantagem de mostrar soldados descrentes da própria utilidade. Em um dos capítulos recentes, ordenam um bombardeio a um complexo de casas no qual podiam ver crianças brincando. A suposição é a de que os homens, que os teriam atacado, se esconderam atrás delas para evitar uma retaliação. Ninguém se preocupou em checar a informação. A bomba liquidou o assunto. Sem remorsos, mas sem convicção alguma sobre o que é certo e o que é errado ali.