09/11: Esperança com os pés no chão
Os ecos do discurso da vitória ainda podem ser ouvidos aqui e ali nos Estados Unidos. Mas para o novo presidente, Barack Obama, o relógio já começou a contar ao contrário. A cada dia, a expectativa daqueles que o elegeram aumenta na mesma proporção da responsabilidade diante de uma nação em crise. Quem vota deposita na urna uma carga de anseios nunca proporcional à capacidade de realização daquele em quem confiou seu destino. No caso de Obama, no entanto, esse peso é muito superior ao que outros presidentes receberam ao tomarem posse do Salão Oval. O senador democrata precisa, para começar, agir rapidamente, enquanto congrega todas as forças ao seu lado. Interna e externamente é preciso fazer o país inteiro se adaptar às novas circunstâncias. Saem a arrogância e o unilateralismo como pilares de decisão, substituídos compulsoriamente por uma ação rápida e pragmática. Há uma conferência internacional à vista para se discutir as saídas dessa crise. É a primeira chance.
Obama deu sinais de que está muito ciente da gravidade do momento, e que esse ambiente de comoção festiva em torno de sua posse precisa ser efêmero para ser lembrado como um instante de felicidade nacional e não como um começo de embriaguez coletiva. Entre alguns gestos iniciais, por exemplo, estão o de anunciar rapidamente os nomes de sua equipe e o de estudar uma mudança nos cerimoniais de poder, abrindo mão de salamaleques como cumprimentos coletivos, em prol de um mergulho de cabeça no trabalho. Assim, a agenda presidencial, que sempre é comprometida com os cumprimentos ao longo dos primeiros 100 dias, terá tais eventos suprimidos. O próprio Obama deu o tom do que será sua gestão ao dizer que pretende ver essa avaliação apenas quando se completarem mil dias de governo. A necessidade de controlar as enormes expectativas criadas pelos eleitores foi o tema principal no day after da vitória tanto na maioria dos grandes jornais americanos quanto entre os maiores estrategistas de campanha. Sinal de que há pessoas com sensatez e perspicácia. É fundamental reduzir o nível de ansiedade, sobretudo em torno da possibilidade de reverter rapidamente as políticas de Bush, que, na visão do eleitor, levaram o país ao estado atual.
No staff do novo presidente, esta é uma das – senão a mais – primordial tarefa nesse momento. Até janeiro, quando vier a posse, será preciso montar uma máquina que consiga transformar o desencanto, tanto quanto o excesso de esperança, em uma percepção tangível do que se pode e deve fazer no momento. Para reforçar que as promessas de campanha serão cumpridas, é bom procurar no discurso de Chicago as palavras que ecos de júbilo podem ter abafado: ao enumerar as razões pelas quais acreditava terem os americanos abraçado a sua candidatura, Obama deixou bastante claro que tais desejos – principalmente aqueles que tocam diretamente o cotidiano dos eleitores, como a expansão do atendimento de saúde e do seguro social, por exemplo – poderão levar um longo tempo para se concretizarem.
Um caminho para manter a proa firme é sempre ter em mente que a diferença entre declarar o que se pretende fazer e botar a mão na massa pode significar tudo. Na imprensa americana, a lembrança da armadilha que capturou Bill Clinton em 1992 foi citada. Como não agiu naquilo que prometera, Clinton perdeu o Congresso dois anos depois. Obama parece consciente de tudo isso. Esperança sim, mas com os dois pés no chão.
Obama deu sinais de que está muito ciente da gravidade do momento, e que esse ambiente de comoção festiva em torno de sua posse precisa ser efêmero para ser lembrado como um instante de felicidade nacional e não como um começo de embriaguez coletiva. Entre alguns gestos iniciais, por exemplo, estão o de anunciar rapidamente os nomes de sua equipe e o de estudar uma mudança nos cerimoniais de poder, abrindo mão de salamaleques como cumprimentos coletivos, em prol de um mergulho de cabeça no trabalho. Assim, a agenda presidencial, que sempre é comprometida com os cumprimentos ao longo dos primeiros 100 dias, terá tais eventos suprimidos. O próprio Obama deu o tom do que será sua gestão ao dizer que pretende ver essa avaliação apenas quando se completarem mil dias de governo. A necessidade de controlar as enormes expectativas criadas pelos eleitores foi o tema principal no day after da vitória tanto na maioria dos grandes jornais americanos quanto entre os maiores estrategistas de campanha. Sinal de que há pessoas com sensatez e perspicácia. É fundamental reduzir o nível de ansiedade, sobretudo em torno da possibilidade de reverter rapidamente as políticas de Bush, que, na visão do eleitor, levaram o país ao estado atual.
No staff do novo presidente, esta é uma das – senão a mais – primordial tarefa nesse momento. Até janeiro, quando vier a posse, será preciso montar uma máquina que consiga transformar o desencanto, tanto quanto o excesso de esperança, em uma percepção tangível do que se pode e deve fazer no momento. Para reforçar que as promessas de campanha serão cumpridas, é bom procurar no discurso de Chicago as palavras que ecos de júbilo podem ter abafado: ao enumerar as razões pelas quais acreditava terem os americanos abraçado a sua candidatura, Obama deixou bastante claro que tais desejos – principalmente aqueles que tocam diretamente o cotidiano dos eleitores, como a expansão do atendimento de saúde e do seguro social, por exemplo – poderão levar um longo tempo para se concretizarem.
Um caminho para manter a proa firme é sempre ter em mente que a diferença entre declarar o que se pretende fazer e botar a mão na massa pode significar tudo. Na imprensa americana, a lembrança da armadilha que capturou Bill Clinton em 1992 foi citada. Como não agiu naquilo que prometera, Clinton perdeu o Congresso dois anos depois. Obama parece consciente de tudo isso. Esperança sim, mas com os dois pés no chão.
06/11: Um dia historico
Observar o discurso de Barack Obama após o anúncio de que havia se tornado o 44º presidente dos Estados Unidos e o primeiro negro a chegar ao posto de homem mais poderoso do planeta foi um bom sinal do que será essa nova era. Primeiro, a impressionante altivez de um cidadão que teve de superar todas as adversidades de uma infância difícil e as dificuldades impostas pela segregaçao racial para chegar onde chegou. Sem as expressões dúbias e pouco convincentes do presidente George Bush, o senador democrata falou à nação com calma e segurança. Avisou aos que tentam atacar a América, que irá derrotá-los, sem tecer falsas promessas ou resvalar para o messianismo. Havia 240 mil pessoas em pé escutando o que o novo presidente tinha a dizer. A cada declaração, repetiam o mantra que norteou a campanha, como se fosse uma espécie de salmo para a nova era: "sim nós podemos". O slogan é muito feliz por trazer algo que os americanos perderam ao longo do governo Bush, a certeza de que vale a pena marchar com união. Tambem analisei a posição do corpo, parecia relaxado no palanque, como se a consagração da maior vitória significasse apenas um desafio a mais a quem tantas vezes precisou superar a dificuldade.
George Bush sai do governo e entra para a história como um desastre em forma de gente. Sua impressionante falta de condição intelectual para o cargo pode ser vista em uma das cenas mais patéticas e representativas do que foram esses oito anos de mandato. Poucos instantes de avisar que invadiria unilateralmente o Iraque, à revelia da ONU, as cãmeras de tv que filmariam o pronunciamento o capturaram fazendo caretas e brincando com os assessores. Um homem que vai mandar outros morrerem em seu nome na guerra tinha de ser internado quando as cenas foram ao ar em todos os telejornais. Ainda assim. o americano comum, inebriado pelo discurso baseado no medo, no terror, no belicismo, nas ameaças e coerções, deu o crédito a quem julgo que iria protege-lo. Como resultado, há mais de 4 mil cruzes novas no cemiterio dos veteranos de guerra em Arlington, sem falar num contingente dez vezes maior de mutilados que não engrossam as estatisticas de baixas. Números esses, aliás, maquiados: uma vez que o indice de letalidade era alto no país árabe, os militares americanos passaram a desconsideram como mortes em combate aqueles soldados que faleciam no hospital.
Obama tem o dever de tirar os EUA do Iraque. Se há uma guerra ainda a ser vencida, e essa é legítima, é pelos corações e mentes do Afeganistão. Lá, há mandato e uma aliança internacional ameaçada pelo extremismo islâmico e pelo altamente rentável comércio da papoula e do ópio. Ou alguém ainda acredita que os talibãs lutam por uma questão de filosofia política e dogmática. Curiosamente, no passado não tinham nenhuma simpatia pelo plantio da fonte da heoína. Mas as alianças de ocasião são despidas de qualquer hipocrisia. Os talibãs 2.0 agora não rejeitam a internet nem preferem andar em lombo de mula em vez de usar motos potentes para se deslocar rapidamente. São pessoas que sairam do espectro simplorio de 2001 para um modelo mais organizado em 2008.
A festa geral por BArack Obama só não pode gerar expectativas demais, que não possam ser alcançadas. Imagino que Obama, pela forma como construiu sua carreira, não se deixará capturar pela armadilha do messianismo. Tem mais preparo que Bush, é menos influenciável, demonstrou enorme independencia durante a condução da campanha, e não tem um pai ex-presidente para ceder um grupo de amigos influentes e ricos com quem possa dividir o fardo de governar. O presidente negro virou ídolo no mundo todo antes mesmo de começar a governar - basta lembrar do impressionante comicio que realizou na Alemanha, quando sequer liderava. A hora da mudança chegou.
George Bush sai do governo e entra para a história como um desastre em forma de gente. Sua impressionante falta de condição intelectual para o cargo pode ser vista em uma das cenas mais patéticas e representativas do que foram esses oito anos de mandato. Poucos instantes de avisar que invadiria unilateralmente o Iraque, à revelia da ONU, as cãmeras de tv que filmariam o pronunciamento o capturaram fazendo caretas e brincando com os assessores. Um homem que vai mandar outros morrerem em seu nome na guerra tinha de ser internado quando as cenas foram ao ar em todos os telejornais. Ainda assim. o americano comum, inebriado pelo discurso baseado no medo, no terror, no belicismo, nas ameaças e coerções, deu o crédito a quem julgo que iria protege-lo. Como resultado, há mais de 4 mil cruzes novas no cemiterio dos veteranos de guerra em Arlington, sem falar num contingente dez vezes maior de mutilados que não engrossam as estatisticas de baixas. Números esses, aliás, maquiados: uma vez que o indice de letalidade era alto no país árabe, os militares americanos passaram a desconsideram como mortes em combate aqueles soldados que faleciam no hospital.
Obama tem o dever de tirar os EUA do Iraque. Se há uma guerra ainda a ser vencida, e essa é legítima, é pelos corações e mentes do Afeganistão. Lá, há mandato e uma aliança internacional ameaçada pelo extremismo islâmico e pelo altamente rentável comércio da papoula e do ópio. Ou alguém ainda acredita que os talibãs lutam por uma questão de filosofia política e dogmática. Curiosamente, no passado não tinham nenhuma simpatia pelo plantio da fonte da heoína. Mas as alianças de ocasião são despidas de qualquer hipocrisia. Os talibãs 2.0 agora não rejeitam a internet nem preferem andar em lombo de mula em vez de usar motos potentes para se deslocar rapidamente. São pessoas que sairam do espectro simplorio de 2001 para um modelo mais organizado em 2008.
A festa geral por BArack Obama só não pode gerar expectativas demais, que não possam ser alcançadas. Imagino que Obama, pela forma como construiu sua carreira, não se deixará capturar pela armadilha do messianismo. Tem mais preparo que Bush, é menos influenciável, demonstrou enorme independencia durante a condução da campanha, e não tem um pai ex-presidente para ceder um grupo de amigos influentes e ricos com quem possa dividir o fardo de governar. O presidente negro virou ídolo no mundo todo antes mesmo de começar a governar - basta lembrar do impressionante comicio que realizou na Alemanha, quando sequer liderava. A hora da mudança chegou.
19/10: Obama e McCain
Faz tempo não posto nada sobre a campanha americana. Também pudera, depois da hecatombe causada pela crise nos mercados financeiros não restou pedra sobre pedra na idéia original que os marqueteiros de republicanos e democratas tinham de como conduzir as estrategias. Hoje, sinceramente, acredito que a confusão abateu McCain em pleno vôo. As pesquisas indicam uma grande dianteira para Obama, mas em um país onde o processo eleitoral é tão estapafúrdio a vantagem pode e deve ser relativizada. Mesmo assim, os republicanos ganharam uma âncora para arrastar a sua candidatura para o fundo, que é a necessidade da historica revisão das regras de atuação nos mercados feita para conter a sangria na economia. Se alguém olhar com um certo distanciamento o que foi feito pelo Tesouro para garantir a liquidez do país verá que várias máximas do liberalismo de mercado foram demolidas em nome da sobrevivência. Afinal, alguém poderia imaginar que o governo, ou seja os contribuintes, algum dia estatizaria o prejuízo das instituições que quebraram?
Não me sai da cabeça que a estrategia de McCain foi a de tentar antecipar o debate, associando a discussão a questões externas ao mesmo tempo em que tentava atrair o rival para a responsabilidade do momento. Questões nacionais acima das partidárias, imaginou certamente. Vale lembrar que um dia antes de o presidente Bush ter feito o discurso no qual advertia que a economia americana corria riscos sérios, McCain havia interrompido a própria campanha para retornar a Washington e trabalhar por uma solução para a crise. Os democratas perceberam a manobra e contra atacaram em grande estilo: Obama não parou de fazer a campanha e, depois, Nancy Pelosi torpedeou o acordo que liberava os US$ 700 bi para as instituiçoes em crise. A negativa foi uma explosão cataclísmica nas bolsas americanas e de todo o mundo, e decuplicou os prejuízos gerais com a crise. De um dia para o outro, milhões de dólares desapareceram como fumaça.
Acompanhei por alto os dois debates que os candidatos travaram depois de deflagrada a crise financeira. Foram ambos decepcionantes, e deixei isso registrado num dos editoriais do JB que escrevi. Esperava-se dos dois candidatos ao cargo que já foi o do homem mais poderoso da terra (Bush era, mas seus erros liquidaram o poderio da chamada PAX AMericana) pudessem ou quizessem falar mais abertamente sobre as falências, sobre o aumento do nivel de desemprego, sobre a queda de quase 4% na produção industrial americana em um só ano, sobre a quebra de confiança no sistema como um todo, que obrigou os bancos centtrais europeus ao mesmo dispendio de recursos para conter a sangrua, sem falar na inédita combinação para um corte na taxa de juros em conjunto. Os europeus, mais uma vez, perceberam que não podem mais sustentar um modelo econômico no qual a participação da economia americana, que por filosofia é quase completamente sem regulamentação, é tão essencial.
Voltando à campanha americana, McCain e Obama se especializaram em trocar acusações sobre a paternidade da crise. Mas ate agora não produziram quase nada que possa ser lido pelo mercado como algum sinal de alívio para o futuro. Continuam discutindo a América como se esta ainda fosse a anterior à que não tinha a crise do subprime - as hipotecas de risco - que gerou a explosão atual. Particularmente considero ambos fracos demais como estadistas, apesar do carisma de Obama o preceder em todo lugar. Presidentes precisam ser objetivos. ISso, até agora, nenhum deles foi. Quem vota quer um atestado de capacidade não de tecer diagnósticos sobre o que aconteceu, mas de encontrar novos caminhos para superar. Ainda estao devendo e muito.
Não me sai da cabeça que a estrategia de McCain foi a de tentar antecipar o debate, associando a discussão a questões externas ao mesmo tempo em que tentava atrair o rival para a responsabilidade do momento. Questões nacionais acima das partidárias, imaginou certamente. Vale lembrar que um dia antes de o presidente Bush ter feito o discurso no qual advertia que a economia americana corria riscos sérios, McCain havia interrompido a própria campanha para retornar a Washington e trabalhar por uma solução para a crise. Os democratas perceberam a manobra e contra atacaram em grande estilo: Obama não parou de fazer a campanha e, depois, Nancy Pelosi torpedeou o acordo que liberava os US$ 700 bi para as instituiçoes em crise. A negativa foi uma explosão cataclísmica nas bolsas americanas e de todo o mundo, e decuplicou os prejuízos gerais com a crise. De um dia para o outro, milhões de dólares desapareceram como fumaça.
Acompanhei por alto os dois debates que os candidatos travaram depois de deflagrada a crise financeira. Foram ambos decepcionantes, e deixei isso registrado num dos editoriais do JB que escrevi. Esperava-se dos dois candidatos ao cargo que já foi o do homem mais poderoso da terra (Bush era, mas seus erros liquidaram o poderio da chamada PAX AMericana) pudessem ou quizessem falar mais abertamente sobre as falências, sobre o aumento do nivel de desemprego, sobre a queda de quase 4% na produção industrial americana em um só ano, sobre a quebra de confiança no sistema como um todo, que obrigou os bancos centtrais europeus ao mesmo dispendio de recursos para conter a sangrua, sem falar na inédita combinação para um corte na taxa de juros em conjunto. Os europeus, mais uma vez, perceberam que não podem mais sustentar um modelo econômico no qual a participação da economia americana, que por filosofia é quase completamente sem regulamentação, é tão essencial.
Voltando à campanha americana, McCain e Obama se especializaram em trocar acusações sobre a paternidade da crise. Mas ate agora não produziram quase nada que possa ser lido pelo mercado como algum sinal de alívio para o futuro. Continuam discutindo a América como se esta ainda fosse a anterior à que não tinha a crise do subprime - as hipotecas de risco - que gerou a explosão atual. Particularmente considero ambos fracos demais como estadistas, apesar do carisma de Obama o preceder em todo lugar. Presidentes precisam ser objetivos. ISso, até agora, nenhum deles foi. Quem vota quer um atestado de capacidade não de tecer diagnósticos sobre o que aconteceu, mas de encontrar novos caminhos para superar. Ainda estao devendo e muito.
05/09: Talibãs
Vi há algumas semanas uma reportagem produzida por um stringer (aqui chamamos de frila) europeu no Afeganistão e exibida no excelente programa Reporters, da BBC. No documentário, o jornalista acompanhou patrulhas aliadas em missões por áreas de alto risco no Waziristão, a área tribal fronteiriça entre Paquistão e Afeganistão. Assistiu a escaramuças entre comandos e suspeitos de atuarem como vigias da milícia talibã. Viu como os soldados são tratados nas aldeias e a sensação de insegurança, de combate aberto, que os acompanha nas missões. Até aí, nada demais. A diferença é que o mesmo repórter retornou aos locais depois, acompanhado de gente local. E pode ver o que os soldados temem: que os guerrilheiros formaram uma frente ampla, criando alianças tribais baseadas na conveniencia e no discurso politizado. Estão bem armados e abastecidos, deslocam-se em longas colunas de motocicletas, o que garante rapidez - mas não silêncio ou invisibilidade diante dos aviões espiões.
A escalada de combates recentes no país indica algumas mudanças graves no quadro afegão. Primeiro, que o controle do Estado legal, representado por Cabul, continua mais tênue do que nunca. Segundo, que a reorganizaçao das milicias seria resultado de uma migração de combatentes vindos do Iraque. Há muito se falava que os extremistas islâmicos haviam transformado o país de Saddam em um campo de treinamento de guerrilha permanente. As ações estariam concentradas na provincia de Al Anbar, facilitadas pela enorme região desértica - que torna difíceis os esforços de vigilância - tanto quanto pela fronteira com a Síria, por onde entrariam homens e armas no país. Recentemente, a passagem do controle da provincia do exército americano para o iraquiano, e o baixo número de incidentes recentes evidenciaram que os extremistas haviam deixado a região. É importante lembrar que, há dois anos, a área foi objeto de violentas batalhas e algumas pequenas cidades chegaram a ser ocupadas por representantes do califado da Al Qaeda.
Voltando ao Afeganistão, hoje o furor internacional diante de fotos de talibãs usando uniformes dos soldados franceses mortos em uma emboscada é o assunto do dia. E não são soldados comuns, todos os 10 mortos e os mais de 20 feridos no ataque pertenciam a unidades de elite da Legião Estrangeira, altamente preparada e motivada para a guerra. Quando o inimigo se sente à vontade para se deixar fotografar com despojos de guerra, é sinal que não está temeroso do aparato tecnológico que enfrenta do outro lado.
A escalada de combates recentes no país indica algumas mudanças graves no quadro afegão. Primeiro, que o controle do Estado legal, representado por Cabul, continua mais tênue do que nunca. Segundo, que a reorganizaçao das milicias seria resultado de uma migração de combatentes vindos do Iraque. Há muito se falava que os extremistas islâmicos haviam transformado o país de Saddam em um campo de treinamento de guerrilha permanente. As ações estariam concentradas na provincia de Al Anbar, facilitadas pela enorme região desértica - que torna difíceis os esforços de vigilância - tanto quanto pela fronteira com a Síria, por onde entrariam homens e armas no país. Recentemente, a passagem do controle da provincia do exército americano para o iraquiano, e o baixo número de incidentes recentes evidenciaram que os extremistas haviam deixado a região. É importante lembrar que, há dois anos, a área foi objeto de violentas batalhas e algumas pequenas cidades chegaram a ser ocupadas por representantes do califado da Al Qaeda.
Voltando ao Afeganistão, hoje o furor internacional diante de fotos de talibãs usando uniformes dos soldados franceses mortos em uma emboscada é o assunto do dia. E não são soldados comuns, todos os 10 mortos e os mais de 20 feridos no ataque pertenciam a unidades de elite da Legião Estrangeira, altamente preparada e motivada para a guerra. Quando o inimigo se sente à vontade para se deixar fotografar com despojos de guerra, é sinal que não está temeroso do aparato tecnológico que enfrenta do outro lado.
09/08: A guerra na Ossétia do Sul
Quer algo tão deslocado quanto uma guerra separatista em pleno século 21? A discussão em torno dessa guerra na Ossétia do Sul, entre Rússia e Geórgia, é um momentum político embolorado que, na prática, se insere em outra discussão: o crescente afastamento entre EUA e URSS. Enquanto foi presidente, Vladimir Putin jamais hesitou em demonstrar poder, e foi acompanhado plenamente por George Bush. Ambos, porém, estão em trajetória descente no ponto de vista do mandato, mas com perfis bastante diferentes quando se discute o poder pura e simples. O russo elegeu o sucessor, Medvedev, mas o controla. Bush, ao contrário, se despede da Casa Branca impedido de fazer campanha para John McCain, dada a deterioração econômica americana agravada por cinco anos de forte pressão em custos da máquina militar.
Voltando à discussão sobre a primeira guerra oficial - entre dois estados e exércitos consolidados e estabelecidos, não os conflitos assimétricos que se tornaram a tônica do pós 11 de setembro - a eclodir no Século 21, o diapasão que vibra nas repúblicas que foram satélites russos é a independência. A Ossétia do Sul quer se desligar da Georgia para ser autônoma. Se olharmos para o argumento com óculos do século 20, veríamos justiça nesse anseio. Com o ciclo de desenvolvimento econômico pós-URSS, no entanto, muito se questionou sobre a vantagem de ser um país independente do ponto de vista de fronteira, mas totalmente dependente em termos econômicos. No pragmatismo implantado com a musculatura do liberalismo eufórico (vide Francis Fukuyama, no célebre ensaio O Fim da História, que hoje em parte renega), o poder transformador do desenvolvimento econômico traria mais felicidade do que um nacionalismo com a bandeira rota e cheia de buracos.
Os habitantes da Ossétia do Sul são eminentemente russos. Querem, portanto, que a eventual república independente, cujas fronteiras estarão quase 100% cercadas pela Georgia, esteja vinculada mais a Moscou do que a Tbilisi. É justo, mas economicamente, claro, uma equação perfeita para os planos de Putin. Pensando de forma prática, o governo da Georgia poderia perfeitamente então entregar o pais. Ok, se é isso que querem, a porta da rua é serventia da casa. O buraco é mais embaixo, literalmente. Desde que a Georgia conquistou sua independência em uma revolução com certa dose de violência, o país se afastou da órbita de Moscou, atraído pela oferta de dólares americanos e pelo interesse das maiores companhias petrolíferas do mundo em torno daquilo que é o fator estratégico dessa guerra: as instalações de transporte e refino do gás que mantém 80% da Europa aquecida no inverno.
Ontem, vi na tevê que o ataque da Georgia aos separatistas, que não reconhece, gerou uma pesada retaliação russa. E adivinhem quais foram os primeiros alvos da aviação de Putin? As instalações de refino do país vizinho e inimigo. Foi a resposta do Kremlim não só ao desafio de Tbilisi, mas o troco pela mudança de lado após a troca de regime - já ensaiado anteriormente quando Putin mandou cortar o fornecimento de gás para a Geórgia em um dos invernos mais rigorosos das últimas décadas. Para reforçar, é importante dizer que Moscou tinha em território da Geórgia uma de suas maiores estruturas militares para o caso de uma guerra contra a Otan. A eleição de governantes pró-Ocidente forçou Vladimir Putin a recolher esses efetivos. Agora, eles estão de volta.
Também pesou na decisão do confronto a questão da oportunidade. Os russos estão há tempos avisando aos EUA que não aceitariam a instalação de baterias do chamado escudo antimísseis em território polonês e mesmo na Geórgia. Bush, mesmo ciente de que o peso internacional de seu cargo foi consideravelmente reduzido pelos erros de condução no Iraque e no Afeganistão, manteve a pressão em torno da montagem desse sistema, que na prática reduz a necessidade de se manter tropas estacionadas na Alemanha, por exemplo, como persuasão a uma eventual aventura bélica dos russos em direção ao Atlântico. Um fato entra nesse raciocínio, que é a eventual desativação da base aérea de Landstuhl, na Alemanha, a maior que os americanos possuem no continente.
Em suma, a guerra é apresentada como um conflito separatista. Não é. Briga-se ali pelo gás, pelos gasodutos que transportam o produto, por influência geopolítica e por um modelo de convivência entre as superpotências que ficou para trás tanto quanto as imagens cordiais dos encontros do presidente americano com seu colega russo em Crawford, Texas. Putin, ao contrário de outros políticos russos poderosos do passado, não almeja a conquista de territórios. Mas estabeleceu um modelo de governo pelo qual o resgate da imagem simbólica da Rússia enquanto a segunda potência do planeta se torna indispensável para que as graves distorções internas possam ser tratadas com rude eficácia. De quebra, mantém alguma capacidade de pressão sobre a China, hoje o verdadeiro gigante. Putin não quer um Estado stalinista, mas moldou o stalinismo ao seu modelo de capitalismo à la KGB. Quem o enfrentou, como o ex-espião Alexander Litvnenko, dissolvido em vida por uma dose letal de radiação, ou a jornalista investigativa Anna Politkovskaia, baleada na porta de casa, foi silenciado.
Post scriptum: registre-se a incapacidade de o Conselho de Segurança agir para impedir tanto a escalada de tensões quanto a própria ação bélica em si. Assim que a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, Moscou pediu uma reunião de emergência para discutir o assunto e forçar os maiores aliados de Tbilsi, os EUA, a exercerem pressão contra a ofensiva. Porém, tanto americanos quanto outros possíveis interessados se abstiveram de participar da crise. É um sinal de que, apesar de horrível, o cenário de violência deverá ficar contido apenas na região.
Voltando à discussão sobre a primeira guerra oficial - entre dois estados e exércitos consolidados e estabelecidos, não os conflitos assimétricos que se tornaram a tônica do pós 11 de setembro - a eclodir no Século 21, o diapasão que vibra nas repúblicas que foram satélites russos é a independência. A Ossétia do Sul quer se desligar da Georgia para ser autônoma. Se olharmos para o argumento com óculos do século 20, veríamos justiça nesse anseio. Com o ciclo de desenvolvimento econômico pós-URSS, no entanto, muito se questionou sobre a vantagem de ser um país independente do ponto de vista de fronteira, mas totalmente dependente em termos econômicos. No pragmatismo implantado com a musculatura do liberalismo eufórico (vide Francis Fukuyama, no célebre ensaio O Fim da História, que hoje em parte renega), o poder transformador do desenvolvimento econômico traria mais felicidade do que um nacionalismo com a bandeira rota e cheia de buracos.
Os habitantes da Ossétia do Sul são eminentemente russos. Querem, portanto, que a eventual república independente, cujas fronteiras estarão quase 100% cercadas pela Georgia, esteja vinculada mais a Moscou do que a Tbilisi. É justo, mas economicamente, claro, uma equação perfeita para os planos de Putin. Pensando de forma prática, o governo da Georgia poderia perfeitamente então entregar o pais. Ok, se é isso que querem, a porta da rua é serventia da casa. O buraco é mais embaixo, literalmente. Desde que a Georgia conquistou sua independência em uma revolução com certa dose de violência, o país se afastou da órbita de Moscou, atraído pela oferta de dólares americanos e pelo interesse das maiores companhias petrolíferas do mundo em torno daquilo que é o fator estratégico dessa guerra: as instalações de transporte e refino do gás que mantém 80% da Europa aquecida no inverno.
Ontem, vi na tevê que o ataque da Georgia aos separatistas, que não reconhece, gerou uma pesada retaliação russa. E adivinhem quais foram os primeiros alvos da aviação de Putin? As instalações de refino do país vizinho e inimigo. Foi a resposta do Kremlim não só ao desafio de Tbilisi, mas o troco pela mudança de lado após a troca de regime - já ensaiado anteriormente quando Putin mandou cortar o fornecimento de gás para a Geórgia em um dos invernos mais rigorosos das últimas décadas. Para reforçar, é importante dizer que Moscou tinha em território da Geórgia uma de suas maiores estruturas militares para o caso de uma guerra contra a Otan. A eleição de governantes pró-Ocidente forçou Vladimir Putin a recolher esses efetivos. Agora, eles estão de volta.
Também pesou na decisão do confronto a questão da oportunidade. Os russos estão há tempos avisando aos EUA que não aceitariam a instalação de baterias do chamado escudo antimísseis em território polonês e mesmo na Geórgia. Bush, mesmo ciente de que o peso internacional de seu cargo foi consideravelmente reduzido pelos erros de condução no Iraque e no Afeganistão, manteve a pressão em torno da montagem desse sistema, que na prática reduz a necessidade de se manter tropas estacionadas na Alemanha, por exemplo, como persuasão a uma eventual aventura bélica dos russos em direção ao Atlântico. Um fato entra nesse raciocínio, que é a eventual desativação da base aérea de Landstuhl, na Alemanha, a maior que os americanos possuem no continente.
Em suma, a guerra é apresentada como um conflito separatista. Não é. Briga-se ali pelo gás, pelos gasodutos que transportam o produto, por influência geopolítica e por um modelo de convivência entre as superpotências que ficou para trás tanto quanto as imagens cordiais dos encontros do presidente americano com seu colega russo em Crawford, Texas. Putin, ao contrário de outros políticos russos poderosos do passado, não almeja a conquista de territórios. Mas estabeleceu um modelo de governo pelo qual o resgate da imagem simbólica da Rússia enquanto a segunda potência do planeta se torna indispensável para que as graves distorções internas possam ser tratadas com rude eficácia. De quebra, mantém alguma capacidade de pressão sobre a China, hoje o verdadeiro gigante. Putin não quer um Estado stalinista, mas moldou o stalinismo ao seu modelo de capitalismo à la KGB. Quem o enfrentou, como o ex-espião Alexander Litvnenko, dissolvido em vida por uma dose letal de radiação, ou a jornalista investigativa Anna Politkovskaia, baleada na porta de casa, foi silenciado.
Post scriptum: registre-se a incapacidade de o Conselho de Segurança agir para impedir tanto a escalada de tensões quanto a própria ação bélica em si. Assim que a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, Moscou pediu uma reunião de emergência para discutir o assunto e forçar os maiores aliados de Tbilsi, os EUA, a exercerem pressão contra a ofensiva. Porém, tanto americanos quanto outros possíveis interessados se abstiveram de participar da crise. É um sinal de que, apesar de horrível, o cenário de violência deverá ficar contido apenas na região.
01/08: O homem do anthrax
Um desfecho trágico impediu que chegasse a público uma das peças jurídicas mais importantes da era pós 11 de setembro. Poucos dias antes de ser formalmente acusado pelo departamento de Justiça dos ataques terroristas com esporos de anthrax que aterrorizaram a América e mataram cinco pessoas, Bruce Ivins, um dos mais renomados especialistas em guerra biológica dos EUA, cometeu suicídio ingerindo uma dose maciça de tylenol combinado com codeína. Ivins, que tinha 62 anos, trabalhou por 18 nas instalações da USAMRIID (U.S. Army Medical Research Institute of Infectious Diseases) em Fort Detrick, Maryland. Ele e um companheiro eram os maiores conhecedores das formas de disseminação dos esporos por via aérea e seu último trabalho, publicado no dia 7 de julho, era justamente a respeito de formas de combater eventuais contaminações por inalação. A morte deixa para sempre um dos muitos mistérios desse caso, uma vez que os ataques nunca foram assumidos por ninguém ou nenhuma organização. Sua motivação é desconhecida e assim continuará.
Quando ocorreram os ataques, Ivins e um parceiro Steven Hatfill, receberam toda a suspeição das primeiras investigações. (Este último acabou liberado recentemente, mas foi exonerado do cargo em Fort Detrick. Saiu de bolsos cheios, com uma indenização de quase US$ 6 milhões obtida pelo fato de as autoridades terem violado seus direitos fundamentais ao abrirem certas evidências para a imprensa antes de o juiz se pronunciar). O processo caminhou e entrou em hibernação depois de sucessivos depoimentos e negativas por parte dos dois acusados. Uma decisão do diretor do FBI, Robert Muller, mudou o quadro. Muller trocou o comando da investigação e determinou que todas as provas e evidências fossem revistas - afinal, com o fim do governo Bush se aproximando, não seria bom para a biografia política de seus integrantes que essa página continuasse aberta. Os peritos analisaram as amostras de anthrax recolhidas na correspondência de dois senadores. Ao todo 17 pessoas foram contaminadas nos ataques, através de correspondência enviada a parlamentares no Capitólio e a jornalistas em Nova York e Miami. Os casos mais graves foram com os carteiros, que entregaram a correspondência.
Não está muito claro - o FBI não revela, na verdade - que novas evidências teriam inocentado Hatfill e deixado Ivins na linha de tiro. Mas a suspeita foi levantada depois que o cientista confessou ter feito pesquisas não autorizadas de rastreamento da substância dentro das instalações do laboratório. A justificativa, segundo ele, era a de que uma colega de trabalho temia ter sido contaminada. De acordo com o testemunho de Ivins, a presença dos esporos de anthrax foi detectada na mesa, no teclado e no monitor do computador da funcionária. Os mesmos testes não autorizados foram feitos em outros pontos do complexo, inclusive do lado externo, e tiveram resultado posivito. Aos agentes, Ivins informou que decidira conduzir a verificação por temor de que as amostras de correspondência enviadas a NY e Miami, que voltaram ao laboratório para serem periciadas, tivessem sido mal empacotadas. Lembro que, na época, análises microscópicas demonstraram que o anthrax enviado pelo correio era de um tipo que havia sido manipulado em laboratório para se tornar mais potente e letal em caso de inalação. E apenas em Fort Detrick havia pessoal e equipamento capaz de produzir tal cepa.
Mas sabe-se que o comando do laboratório já havia determinado que ele se aposentasse compulsoriamente em setembro e proibira seu acesso a todas as instalações mais sensíveis, onde são conduzidas pesquisas estrategicas, nas instalações de Fort Detrick. Nos outros locais, como o seu próprio escritório, o cientista só podia entrar acompanhado de agentes de segurança. De acordo com parentes, desde que seu nome começou a ser vinculado aos ataques, meses depois das primeiras cartas chegarem aos destinatários, Ivins passou a ter sinais de depressão. No laboratório, recebeu orientação para que procurasse um psiquiatra e tratamento médico. A decisão da Justiça de pronuncia-lo, liberando Hatfill e deixando-o como o único responsável pelas ameaças, foi demais segundo seus parentes. O pesquisador tinha se formado em Cincinatti e morava, com a mulher, em uma casa a poucos metros do portão principal do centro de pesquisas.
De tudo isso, fica uma importante observação. O episódio traumatizou os EUA em um período de histeria anti-árabe, já às vésperas da invasão do Afeganistão. Mas em nenhum momento pode continuar a ser associado às questões que motivam o terrorismo islâmico em sua cruzada contra o Ocidente. Foi uma atitude interna, de um cidadão local, contra os seus conterrâneos e contra o seu sistema político e o poder da mídia. Há, apesar disso, quem ainda procure tal vinculação agora. A lembrança de que Ivins era filho de um microbiologista nascido e criado no Líbano é um exemplo claro desse sentimento. Tal qual o Unabomber e tantos outros malucos, o homem do anthrax entra para a galeria dos criminosos seriais - não se pode falar em acidente, porque as correspondências eram claramente um veículo de entrega dos esporos às vítimas selecionadas. Se era ou não Ivins, agora pouco importa: o suicídio apenas reforça as suspeitas, reduzindo a responsabilidade do FBI de comprovar as acusações.
Quando ocorreram os ataques, Ivins e um parceiro Steven Hatfill, receberam toda a suspeição das primeiras investigações. (Este último acabou liberado recentemente, mas foi exonerado do cargo em Fort Detrick. Saiu de bolsos cheios, com uma indenização de quase US$ 6 milhões obtida pelo fato de as autoridades terem violado seus direitos fundamentais ao abrirem certas evidências para a imprensa antes de o juiz se pronunciar). O processo caminhou e entrou em hibernação depois de sucessivos depoimentos e negativas por parte dos dois acusados. Uma decisão do diretor do FBI, Robert Muller, mudou o quadro. Muller trocou o comando da investigação e determinou que todas as provas e evidências fossem revistas - afinal, com o fim do governo Bush se aproximando, não seria bom para a biografia política de seus integrantes que essa página continuasse aberta. Os peritos analisaram as amostras de anthrax recolhidas na correspondência de dois senadores. Ao todo 17 pessoas foram contaminadas nos ataques, através de correspondência enviada a parlamentares no Capitólio e a jornalistas em Nova York e Miami. Os casos mais graves foram com os carteiros, que entregaram a correspondência.
Não está muito claro - o FBI não revela, na verdade - que novas evidências teriam inocentado Hatfill e deixado Ivins na linha de tiro. Mas a suspeita foi levantada depois que o cientista confessou ter feito pesquisas não autorizadas de rastreamento da substância dentro das instalações do laboratório. A justificativa, segundo ele, era a de que uma colega de trabalho temia ter sido contaminada. De acordo com o testemunho de Ivins, a presença dos esporos de anthrax foi detectada na mesa, no teclado e no monitor do computador da funcionária. Os mesmos testes não autorizados foram feitos em outros pontos do complexo, inclusive do lado externo, e tiveram resultado posivito. Aos agentes, Ivins informou que decidira conduzir a verificação por temor de que as amostras de correspondência enviadas a NY e Miami, que voltaram ao laboratório para serem periciadas, tivessem sido mal empacotadas. Lembro que, na época, análises microscópicas demonstraram que o anthrax enviado pelo correio era de um tipo que havia sido manipulado em laboratório para se tornar mais potente e letal em caso de inalação. E apenas em Fort Detrick havia pessoal e equipamento capaz de produzir tal cepa.
Mas sabe-se que o comando do laboratório já havia determinado que ele se aposentasse compulsoriamente em setembro e proibira seu acesso a todas as instalações mais sensíveis, onde são conduzidas pesquisas estrategicas, nas instalações de Fort Detrick. Nos outros locais, como o seu próprio escritório, o cientista só podia entrar acompanhado de agentes de segurança. De acordo com parentes, desde que seu nome começou a ser vinculado aos ataques, meses depois das primeiras cartas chegarem aos destinatários, Ivins passou a ter sinais de depressão. No laboratório, recebeu orientação para que procurasse um psiquiatra e tratamento médico. A decisão da Justiça de pronuncia-lo, liberando Hatfill e deixando-o como o único responsável pelas ameaças, foi demais segundo seus parentes. O pesquisador tinha se formado em Cincinatti e morava, com a mulher, em uma casa a poucos metros do portão principal do centro de pesquisas.
De tudo isso, fica uma importante observação. O episódio traumatizou os EUA em um período de histeria anti-árabe, já às vésperas da invasão do Afeganistão. Mas em nenhum momento pode continuar a ser associado às questões que motivam o terrorismo islâmico em sua cruzada contra o Ocidente. Foi uma atitude interna, de um cidadão local, contra os seus conterrâneos e contra o seu sistema político e o poder da mídia. Há, apesar disso, quem ainda procure tal vinculação agora. A lembrança de que Ivins era filho de um microbiologista nascido e criado no Líbano é um exemplo claro desse sentimento. Tal qual o Unabomber e tantos outros malucos, o homem do anthrax entra para a galeria dos criminosos seriais - não se pode falar em acidente, porque as correspondências eram claramente um veículo de entrega dos esporos às vítimas selecionadas. Se era ou não Ivins, agora pouco importa: o suicídio apenas reforça as suspeitas, reduzindo a responsabilidade do FBI de comprovar as acusações.
23/07: Delenda Karadzic
Surpreendente não é a forma como o açougueiro dos Bálcãs, Radovan Karadzic, foi preso em Belgrado. Impressionante é o fato de que tenha conseguido sobreviver trabalhando como médico alternativo, em um consultório da cidade. Chegou até a aparecer em um debate na televisão e a escrever artigos científicos. A trajetória bate com a de outro médico e açougueiro famoso, Joseph Mengele, cujo fim foi morrer afogado em uma praia de Bertioga, São Paulo. Este também exerceu a profissão de médico sem despertar qualquer suspeita sobre sua real identidade. Lembro que Mengele só foi descoberto graças à revelação de que um de seus seguranças no Brasil, Franz Wagner, comandou uma reunião de nazistas em Penedo, no Estado do Rio, nos anos 80. Lembro de ter acompanhado pelo JB a cobertura desse fato, um furo do meu colega Ubirajara Loureiro. Com a prisão de Wagner, se não estou enganado, chegou-se ao destino final de Mengele.
Com Karadzic não foi muito diferente. A promotora-chefe do Tribunal Penal Internacional, a italiana Carla Del Ponte, lutava há anos contra a má vontade dos governos sérvios em prender um líder nacionalista com inúmeros seguidores internos. Belgrado temia que a entrega de Karadzic ao Ocidente ressuscitaria o ódio racial que incendiou os Bálcãs nos anos 90. Pura desculpa de quem não tinha coragem política para romper com as estruturas do passado, já que se alimentava ainda, delas. Karadzic foi intensamente protegido por um círculo que inclui políticos fiéis, militares envolvidos com genocídio e por uma igreja ultranacionalista que lhe abriu as portas de inúmeros mosteiros como esconderijo. Ao obter a nova identidade, de médico alternativo, o psiquiatra que ordenou o massacre de Srebrenica (pelo menos sete mil muçulmanos executados) e Gorazde acreditava ter sepultado o próprio currículo. Para ele, que se diz inocente, o que é do passado pertence ao passado.
Karadzic nunca agiu sozinho. Falta prender ainda Radko Mladic, o sanguinário general que comandou o cerco brutal a Sarajevo e mandou pessoalmente os pelotões de extermínio agirem ignorando a presença de capacetes azuis holandeses na Bósnia. Limpeza étnica era a senha para que os sérvo-bósnios agissem contra a população muçulmana. As tropas ditas regulares de Mladic contavam, entre outras unidades, com a presença de mercenários arregimentados junto ao crime organizado. Os Tigres Negros (se não estou enganado o nome é esse) eram liderados por um lunático psicopata, que acabaria assassinado em um tiroteio suspeito em Belgrado após a guerra. Ficaram conhecidos por combaterem usando lenços negros sobre a cabeça e pela política sistemática de pilhar tudo que fosse de valor nas casas, estuprar todas as mulheres que encontravam diante dos maridos, pais e irmãos, e, em seguida executar a todos. Karadzic sabia disso tudo e nada fez, considerava um efeito colateral pequeno diante da possibilidade de expulsar ou exterminar a todos os muçulmanos na região. Acabou até ajudando a treinar alguns dos terroristas da atualidade, já que entre os islâmicos havia muita gente oriunda do Afeganistão e do Paquistão, que fora até lá para defender o povo do massacre. A história, ali, deixa o embrião da Al Qaeda no lado do Bem.
Vale ressaltar que Radovan Karadzic não caiu porque a investigação apertou o cerco. Foi preso por ter perdido o apoio de que gozava dentro do estado sérvio. Hoje, mais de dez anos depois dos crimes que cometeu, muitos dos que ocupam cargos pblicos não se sentem mais obrigados a obedecer a um ideário nacionalista que só atrasos trouxe à Sérvia. O recado da União Européia, condicionando uma eventual entrada no bloco dos sérvios à prisão dos dois ilustres genocidas europeus pós Hitler, funcionou com um poderoso estímulo. Como se pode ver, não aconteceu absolutamente nada. O país continua lá e se livrou de parte do fardo de sangue que o oprimia. Ainda está faltando pegar Mladic, mas esta é uma prisão que considero mais complicada. Sendo homem de armas, o general não vive sozinho - a própria Carla del Ponte já declarou ter informações de que há uma especie de guarda pretoriana em torno do militar. O problema é maior quando se sabe que uma eventual captura poderia abrir a caixa de Pandora para muitos dos altos quadros militares do governo sérvio de hoje. Pode ser gente que nem tenha relação direta com o genocídio, mas que é culpada por omissão.
Podemos esperar mais tempo. Um dia Mladic também cairá. Mesmo que não pareça tão histriônico quanto seu chefe direto, será o acerto de contas de que a civilização tanto espera.
Com Karadzic não foi muito diferente. A promotora-chefe do Tribunal Penal Internacional, a italiana Carla Del Ponte, lutava há anos contra a má vontade dos governos sérvios em prender um líder nacionalista com inúmeros seguidores internos. Belgrado temia que a entrega de Karadzic ao Ocidente ressuscitaria o ódio racial que incendiou os Bálcãs nos anos 90. Pura desculpa de quem não tinha coragem política para romper com as estruturas do passado, já que se alimentava ainda, delas. Karadzic foi intensamente protegido por um círculo que inclui políticos fiéis, militares envolvidos com genocídio e por uma igreja ultranacionalista que lhe abriu as portas de inúmeros mosteiros como esconderijo. Ao obter a nova identidade, de médico alternativo, o psiquiatra que ordenou o massacre de Srebrenica (pelo menos sete mil muçulmanos executados) e Gorazde acreditava ter sepultado o próprio currículo. Para ele, que se diz inocente, o que é do passado pertence ao passado.
Karadzic nunca agiu sozinho. Falta prender ainda Radko Mladic, o sanguinário general que comandou o cerco brutal a Sarajevo e mandou pessoalmente os pelotões de extermínio agirem ignorando a presença de capacetes azuis holandeses na Bósnia. Limpeza étnica era a senha para que os sérvo-bósnios agissem contra a população muçulmana. As tropas ditas regulares de Mladic contavam, entre outras unidades, com a presença de mercenários arregimentados junto ao crime organizado. Os Tigres Negros (se não estou enganado o nome é esse) eram liderados por um lunático psicopata, que acabaria assassinado em um tiroteio suspeito em Belgrado após a guerra. Ficaram conhecidos por combaterem usando lenços negros sobre a cabeça e pela política sistemática de pilhar tudo que fosse de valor nas casas, estuprar todas as mulheres que encontravam diante dos maridos, pais e irmãos, e, em seguida executar a todos. Karadzic sabia disso tudo e nada fez, considerava um efeito colateral pequeno diante da possibilidade de expulsar ou exterminar a todos os muçulmanos na região. Acabou até ajudando a treinar alguns dos terroristas da atualidade, já que entre os islâmicos havia muita gente oriunda do Afeganistão e do Paquistão, que fora até lá para defender o povo do massacre. A história, ali, deixa o embrião da Al Qaeda no lado do Bem.
Vale ressaltar que Radovan Karadzic não caiu porque a investigação apertou o cerco. Foi preso por ter perdido o apoio de que gozava dentro do estado sérvio. Hoje, mais de dez anos depois dos crimes que cometeu, muitos dos que ocupam cargos pblicos não se sentem mais obrigados a obedecer a um ideário nacionalista que só atrasos trouxe à Sérvia. O recado da União Européia, condicionando uma eventual entrada no bloco dos sérvios à prisão dos dois ilustres genocidas europeus pós Hitler, funcionou com um poderoso estímulo. Como se pode ver, não aconteceu absolutamente nada. O país continua lá e se livrou de parte do fardo de sangue que o oprimia. Ainda está faltando pegar Mladic, mas esta é uma prisão que considero mais complicada. Sendo homem de armas, o general não vive sozinho - a própria Carla del Ponte já declarou ter informações de que há uma especie de guarda pretoriana em torno do militar. O problema é maior quando se sabe que uma eventual captura poderia abrir a caixa de Pandora para muitos dos altos quadros militares do governo sérvio de hoje. Pode ser gente que nem tenha relação direta com o genocídio, mas que é culpada por omissão.
Podemos esperar mais tempo. Um dia Mladic também cairá. Mesmo que não pareça tão histriônico quanto seu chefe direto, será o acerto de contas de que a civilização tanto espera.
09/07: Mugabe, o ditador querido
Deixei a poeira assentar para falar de Robert Mugabe. Era muita ingenuidade acreditar que o ditador que há quase 30 anos controla todos os meios de produção do Zimbábue iria entregar o osso. O ódio que traz dos britânicos tem lá suas justificativas e é por ele que se explica a manobra que a imprensa inglesa interpretou, a meu ver, de forma superficial. Quando se reuniu, na véspera da votação, comos generais do Estado Maior, Mugabe teria afirmado que perdera a eleição e que estaria disposto a entregar o poder. Os militares, então, o teriam convencido a continuar garantindo que dariam suporte necessário para que a candidatura saisse vitoriosa.
Lembro de ter publicado aqui um artigo sobre o aniversário de 80 anos do ditador, no qual contava como um país paupérrimo importou de tudo, de talheres ao açúcar, passando pelos garçons, para uma recepção de gala em um estádio de futebol fechado aos habitantes do país. Na ocasião, chamou a atenção do autor do texto o fato de que Mugabe estava ao lado da vice, casada com o general que comanda todo o aparato de segurança. Poderoso, veio deste último a ordem de reprimir com violência toda e qualquer intenção dos eleitores em se manifestarem contra a continuidade do governo nas urnas.
Diante do descalabro que se viu na votação, a reação internacional era prevista. Mas será completamente inócua. Mugabe é um ídolo entre seus pares. Aqueles que, em público, fecham coro com os países ocidentais contra a continuidade dessa ditadura sanguinária, em particular o idolatram. Consideram que o presidente é um dos últimos de uma linhagem de guerrilheiros que enfrentaram as potências coloniais - a Grã Bretanha sobretudo - e que hoje são obrigados a continuarem lutando contra elas. Mugabe se inclui na mesma fileira onde esteve Jonas Savimbi, Fodai Sankhor e Charles Taylor, só para citar três nomes. A fome e a miséria, por esse raciocínio, não são resultado das práticas corruptas, mas do garrote imposto por países ricos interessados na manutenção das relações econômicas do passado. É uma questão de torcer a realidade.
Na reunião da Comunidade Africana, recentemente, um repórter britânico foi agredido por seguranças de Mugabe quando tentava entrevista-lo. O ditador também partiu para a agressão antes de ser contido. Perto dali, na cena, o anfitrião Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, observava tudo impassível. Quando o jornalista cobrou do sul-africano uma atitude em relação à fraude e à violência no Zimbábue, Mbeki deu um sorriso amarelo e apressou o passo. Ele também quer que o ditador continue onde está. Ficou aliviado com a derrota da oposição por temer que partidários de Mugabe iniciassem uma verdadeira guerra civil, gerando uma multidão de refugiados.
Lembro de ter publicado aqui um artigo sobre o aniversário de 80 anos do ditador, no qual contava como um país paupérrimo importou de tudo, de talheres ao açúcar, passando pelos garçons, para uma recepção de gala em um estádio de futebol fechado aos habitantes do país. Na ocasião, chamou a atenção do autor do texto o fato de que Mugabe estava ao lado da vice, casada com o general que comanda todo o aparato de segurança. Poderoso, veio deste último a ordem de reprimir com violência toda e qualquer intenção dos eleitores em se manifestarem contra a continuidade do governo nas urnas.
Diante do descalabro que se viu na votação, a reação internacional era prevista. Mas será completamente inócua. Mugabe é um ídolo entre seus pares. Aqueles que, em público, fecham coro com os países ocidentais contra a continuidade dessa ditadura sanguinária, em particular o idolatram. Consideram que o presidente é um dos últimos de uma linhagem de guerrilheiros que enfrentaram as potências coloniais - a Grã Bretanha sobretudo - e que hoje são obrigados a continuarem lutando contra elas. Mugabe se inclui na mesma fileira onde esteve Jonas Savimbi, Fodai Sankhor e Charles Taylor, só para citar três nomes. A fome e a miséria, por esse raciocínio, não são resultado das práticas corruptas, mas do garrote imposto por países ricos interessados na manutenção das relações econômicas do passado. É uma questão de torcer a realidade.
Na reunião da Comunidade Africana, recentemente, um repórter britânico foi agredido por seguranças de Mugabe quando tentava entrevista-lo. O ditador também partiu para a agressão antes de ser contido. Perto dali, na cena, o anfitrião Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, observava tudo impassível. Quando o jornalista cobrou do sul-africano uma atitude em relação à fraude e à violência no Zimbábue, Mbeki deu um sorriso amarelo e apressou o passo. Ele também quer que o ditador continue onde está. Ficou aliviado com a derrota da oposição por temer que partidários de Mugabe iniciassem uma verdadeira guerra civil, gerando uma multidão de refugiados.
A Comissão Baleeira Internacional (CBI) formou um grupo de 24 países para evitar o fracasso de sua 60a Assembléia Anual, após o profundo desacordo dos delegados em temas-chave, como a caça científica e a criação de um santuário no Atlântico Sul.
"Foi estabelecido um grupo de trabalho com 24 países que irá se reunir para tentar avançar nesse tema. Foi feita uma lista de temas essenciais que devem ser tratados", informou à ANSA o comissário da delegação brasileira, José Truda Palazzo.
O grupo se reuniu hoje ao final da assembléia, integrada, entre outros, por cinco países latino-americanos pró-conservação: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica e México, e também por Japão, Noruega e Islândia, as principais nações favoráveis à caça de baleias.
O grupo foi encarregado de analisar o futuro do organismo internacional, dar uma saída de emergência à crise e avançar nos temas essenciais que dividem o fórum, tendo sua primeira reunião formal marcada para setembro, provavelmente na Flórida.
Um dos temas-chave a serem abordados será o da criação de santuários, proposta principal do bloco pró-conservação, integrado por 13 países latino-americanos.
Outro tema conflitante é o da caça costeira e científica, apoiada pelo Japão e que, segundo Truda Palazzo, é o maior obstáculo e divergência na Comissão.
A crise na assembléia teve início ontem quando a Dinamarca rompeu o acordo de não propiciar votações em temas de confrontação e propôs aumentar em dez exemplares a cota anual de caça de baleias jorobadas na Groenlândia.
A proposta foi rejeitada pela assembléia, onde houve discussões verbais e acusações de países favoráveis à caça, principalmente do Caribe, que taxaram os pró-conservação de imperialistas e despreocupados com a segurança alimentar. (ANSA)
"Foi estabelecido um grupo de trabalho com 24 países que irá se reunir para tentar avançar nesse tema. Foi feita uma lista de temas essenciais que devem ser tratados", informou à ANSA o comissário da delegação brasileira, José Truda Palazzo.
O grupo se reuniu hoje ao final da assembléia, integrada, entre outros, por cinco países latino-americanos pró-conservação: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica e México, e também por Japão, Noruega e Islândia, as principais nações favoráveis à caça de baleias.
O grupo foi encarregado de analisar o futuro do organismo internacional, dar uma saída de emergência à crise e avançar nos temas essenciais que dividem o fórum, tendo sua primeira reunião formal marcada para setembro, provavelmente na Flórida.
Um dos temas-chave a serem abordados será o da criação de santuários, proposta principal do bloco pró-conservação, integrado por 13 países latino-americanos.
Outro tema conflitante é o da caça costeira e científica, apoiada pelo Japão e que, segundo Truda Palazzo, é o maior obstáculo e divergência na Comissão.
A crise na assembléia teve início ontem quando a Dinamarca rompeu o acordo de não propiciar votações em temas de confrontação e propôs aumentar em dez exemplares a cota anual de caça de baleias jorobadas na Groenlândia.
A proposta foi rejeitada pela assembléia, onde houve discussões verbais e acusações de países favoráveis à caça, principalmente do Caribe, que taxaram os pró-conservação de imperialistas e despreocupados com a segurança alimentar. (ANSA)
25/06: O sequestro de Milão
Diversos funcionários da Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais (Digos), durante a reconstituição do seqüestro do imã Abu Omar, explicaram como chegaram às identidades dos 26 agentes da CIA (serviço de inteligência norte-americano), acusados de terem participado do rapto.
Os investigadores compararam chamadas telefônicas, checaram hotéis de muitas cidades italianas (principalmente Milão, onde ocorreu o seqüestro), fizeram pesquisas minuciosas e apreensões que levaram à certeza de que o rapto foi obra da CIA e do Sismi (Serviço para Informações e Segurança Militar), então dirigido pelo general Nicolò Pollari, acusado no processo junto ao ex-chefe da unidade antiterrorista do serviço secreto militar, Marco Mancini, e de outros agentes do Sismi.
A próxima audiência foi marcada para dia 9 de julho, quando deve ser ouvido o último agente da Digos.
O seqüestro do clérigo, em fevereiro de 2003, fez parte dos chamados "vôos da CIA", que consistiram em prisões secretas de supostos terroristas, que foram transferidos para outros países, onde foram presos e torturados.
Após ser seqüestrado em Milão, Abu Omar foi enviado ao Egito, onde foi preso e torturado, como ele mesmo denunciou várias vezes. (ANSA)
Os investigadores compararam chamadas telefônicas, checaram hotéis de muitas cidades italianas (principalmente Milão, onde ocorreu o seqüestro), fizeram pesquisas minuciosas e apreensões que levaram à certeza de que o rapto foi obra da CIA e do Sismi (Serviço para Informações e Segurança Militar), então dirigido pelo general Nicolò Pollari, acusado no processo junto ao ex-chefe da unidade antiterrorista do serviço secreto militar, Marco Mancini, e de outros agentes do Sismi.
A próxima audiência foi marcada para dia 9 de julho, quando deve ser ouvido o último agente da Digos.
O seqüestro do clérigo, em fevereiro de 2003, fez parte dos chamados "vôos da CIA", que consistiram em prisões secretas de supostos terroristas, que foram transferidos para outros países, onde foram presos e torturados.
Após ser seqüestrado em Milão, Abu Omar foi enviado ao Egito, onde foi preso e torturado, como ele mesmo denunciou várias vezes. (ANSA)




