Estou acompanhando a situação no Irã com grande interesse. Na verdade, ela é uma demonstração cabal de como a mídia, e nós jornalistas, deixamos de ter o monopólio de contar as versões que, como tijolos, constroem a estrada da história. Estamos vendo um país em turbulência e sendo informados do que acontece, apesar de todo o aparato de segurança posto em ação para impedir que as notícias vazem. Twitter, blogs, e outras formas de comunicação estão sendo monitorados, mas ainda assim assisti há pouco na CNN a exibição de vídeos feitos por celulares de manifestantes anônimos. O uso dos servidores Proxy foi o caminho encontrado para burlar a repressão sem que o regime possa rastrear, até onde sei. A esses novos colegas de profissão só tenho a agradecer, pois estão sendo responsáveis pela quebra de um princípio que todo jornalista sempre gostou de culturar, o de que a imprensa é o quarto poder. Fico imaginando se as coisas tivessem sido assim no Massacre da Paz Celestial se o governo chinês teria conseguido abafar completamente a oposição como acabou fazendo. Havia internet na época, mas não a possibilidade de cada um, com um celular com câmera e banda larga, ser capaz de construir a leitura daquilo que as novas gerações compreenderão como o processo que as levou até a aquele ponto.
O papel da mídia é tão relativo que no caso do Irã os canais a cabo passaram a arriscar algum tipo de previsão, mesmo quando o quadro mostra que mudanças em um país onde a teocracia religiosa controla as forças armadas, são impossíveis sem que haja uma quebra de confiança entre esses dois entes poderosos. Como bem disse Thomas Hobbes, tem poder quem domina o monopólio sobre os meios de violência. Hoje, mesmo com a oposição fortalecida pelo tamanho da fraude eleitoral no Irã, quem tem o monopólio da violência são os aiatolás. A novidade nesse paradigma histórico está no fato de que a capilarização dessa oposição, quando vista de longe, emerge como um corpo com superfície sólida o suficiente para enfrentar o Leviatã xiita, quando não é verdade. Num dos quadros em debate na CNN, o título era sugestivo: "Is Iran collapsing?". A pergunta é uma curiosa armadilha semântica e expõe tanto a superficialidade das análises em torno da politica iraniana, quanto o desejo manifesto de os países ocidentais, especialmente os dois sobre os quais a rivalidade é mais acirrada (Grã-Bretanha e EUA), de que Ahmadinejad, Ali Khomenei e outros fundamentalistas desaparecessem como força política.
Em cima desse mote, a programação da rede americana exibiu um debate com vários especialistas analisando os sinais de que poderia estar começando uma desestabilização do regime capaz de trazer o país persa não de volta à esfera de influência a que pertenceu por séculos no passado, mas pelo menos a uma situação de islamismo mais moderado. Obviamente ninguem conseguiu chegar a qualquer conclusão aceitável. Até porque não existe nenhuma a essa altura. E por mais que muita gente torça para que isso aconteça, dificilmente Ahmadinejad cairá enquanto tiver o apoio do Conselho Supremo da Revolução Islâmica, o colegiado de aiatolás que dirige, na prática, as macroquestões do Estado. O que se vê hoje, apesar de todo o empenho dos milhares de cidadãos repórteres, é a história sendo construída pelo seu próprio leitmotiv. Não há sinal econômico de que o regime iraniano esteja enfraquecido, embora o país esteja sob sanções - mas conhecendo seu papel histórico como mercadores não é dificil imaginar que as transações usem os caminhos do contrabando para arrecadarem mais. É assim que a roda da fortuna se move.
A demonstração de coragem dos iranianos comuns que desafiam a repressão violenta nas ruas com seus milhares de celulares precisa ser compreendida de uma forma mais ampla. Não como um sinal de derrocada de um modelo de poder profundamente enraizado nas áreas mais conservadoras e poderosas do país, mas como o primeiro som emitido por alguém que ficou anos amordaçado. Servira para garantir conquistas como a da campanha eleitoral democrática? Acho que não, até porque o regime permitiu que isso ocorresse exatamente para saber qual era o tamanho do descontentamento que as áreas urbanas, mais esclarecidas, alimenta quanto às expectativas de futuro. Á medida que os dias forem passando, a fraude ficará cada vez mais distante e a vida cotidiana voltará a cobrar de cada um o retorno à necessidade de sobreviver. Restará para as próximas gerações aquele que é o grande resultado desse momento: o indelével julgamento da fraude. Jamais, daqui para a frente, se deixará de associar essa turbulenta eleição a uma das mais impressionantes manipulações dos conceitos democráticos que já vimos. Esse é o legado da contrarevolução dos celulares.
O papel da mídia é tão relativo que no caso do Irã os canais a cabo passaram a arriscar algum tipo de previsão, mesmo quando o quadro mostra que mudanças em um país onde a teocracia religiosa controla as forças armadas, são impossíveis sem que haja uma quebra de confiança entre esses dois entes poderosos. Como bem disse Thomas Hobbes, tem poder quem domina o monopólio sobre os meios de violência. Hoje, mesmo com a oposição fortalecida pelo tamanho da fraude eleitoral no Irã, quem tem o monopólio da violência são os aiatolás. A novidade nesse paradigma histórico está no fato de que a capilarização dessa oposição, quando vista de longe, emerge como um corpo com superfície sólida o suficiente para enfrentar o Leviatã xiita, quando não é verdade. Num dos quadros em debate na CNN, o título era sugestivo: "Is Iran collapsing?". A pergunta é uma curiosa armadilha semântica e expõe tanto a superficialidade das análises em torno da politica iraniana, quanto o desejo manifesto de os países ocidentais, especialmente os dois sobre os quais a rivalidade é mais acirrada (Grã-Bretanha e EUA), de que Ahmadinejad, Ali Khomenei e outros fundamentalistas desaparecessem como força política.
Em cima desse mote, a programação da rede americana exibiu um debate com vários especialistas analisando os sinais de que poderia estar começando uma desestabilização do regime capaz de trazer o país persa não de volta à esfera de influência a que pertenceu por séculos no passado, mas pelo menos a uma situação de islamismo mais moderado. Obviamente ninguem conseguiu chegar a qualquer conclusão aceitável. Até porque não existe nenhuma a essa altura. E por mais que muita gente torça para que isso aconteça, dificilmente Ahmadinejad cairá enquanto tiver o apoio do Conselho Supremo da Revolução Islâmica, o colegiado de aiatolás que dirige, na prática, as macroquestões do Estado. O que se vê hoje, apesar de todo o empenho dos milhares de cidadãos repórteres, é a história sendo construída pelo seu próprio leitmotiv. Não há sinal econômico de que o regime iraniano esteja enfraquecido, embora o país esteja sob sanções - mas conhecendo seu papel histórico como mercadores não é dificil imaginar que as transações usem os caminhos do contrabando para arrecadarem mais. É assim que a roda da fortuna se move.
A demonstração de coragem dos iranianos comuns que desafiam a repressão violenta nas ruas com seus milhares de celulares precisa ser compreendida de uma forma mais ampla. Não como um sinal de derrocada de um modelo de poder profundamente enraizado nas áreas mais conservadoras e poderosas do país, mas como o primeiro som emitido por alguém que ficou anos amordaçado. Servira para garantir conquistas como a da campanha eleitoral democrática? Acho que não, até porque o regime permitiu que isso ocorresse exatamente para saber qual era o tamanho do descontentamento que as áreas urbanas, mais esclarecidas, alimenta quanto às expectativas de futuro. Á medida que os dias forem passando, a fraude ficará cada vez mais distante e a vida cotidiana voltará a cobrar de cada um o retorno à necessidade de sobreviver. Restará para as próximas gerações aquele que é o grande resultado desse momento: o indelével julgamento da fraude. Jamais, daqui para a frente, se deixará de associar essa turbulenta eleição a uma das mais impressionantes manipulações dos conceitos democráticos que já vimos. Esse é o legado da contrarevolução dos celulares.
14/06: O golpe de Ahmadinejad
Como estratégia, foi perfeito. O golpe dado por Mahmoud Ahmadinejad junto com os aiatolás radicais do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Irã vai ampliar o controle do regime conservador sobre as áreas mais resistentes ao modelo de estado religioso e controlado à força. Ahmadinejad permitiu que o processo eleitoral corresse solto, inclusive participando de debates na televisão com o candidato de oposição Mir Hosein Mussavi. Quem observou com um pouco mais de atenção pode perceber que o modelo adotado pelo regime iraniano copiou em tudo que era relevante os processos adotados no Ocidente e, em especial, nos EUA. Mais do que um sinal favorável de aproximação diante do novo ocupante da Casa Branca, o que Ahmadinejad queria era fazer passar a imagem de transparência; sabia que se a mídia americana e européia fosse cooptada por um padrão ao qual está acostumada a ver e aceitar, não causaria estranheza nenhuma. Os cenários da TV emulavam noticiários da BBC e os próprios debates seguiram, dentro do possivel, um padrão ocidentalizado.
Foram duas tacadas certeiras. Além de cooptar o Ocidente, os radicais iranianos também fizeram com que a classe média urbana, mais letrada, e avessa aos ditames dos aiatolás, igualmente acreditasse na lisura das intenções. Quem sempre temeu declarar sua opinião se viu de uma hora para outra livre para poder se manifestar e expor seu descontentamento. Tal liberdade era parte do figurino, porque o regime jamais pretendeu abrir mão de seu poder e sabia poder contar com o controle do eleitorado mais conservador que vive distante das influencias trazidas pela internet e por outras formas de romper o bloqueio dos comites de prevenção ao vício, a temida policia religiosa iraniana. O alto comparecimento às urnas na eleição de sexta-feira foi o maior reflexo de como esse objetivo foi alcançado. Além de atrair e iludir como o canto da sereia da mitologia grega, o modelo de democracia pelo voto deu ao aparato de segurança a dimensão exata do tamanho da oposição com a qual vinha tendo de lidar. Se é importante medir isso para seu projeto de poder continuar desafiando outros países muçulmanos pela hegemonia no controle político das nações árabes - como a Arábia Saudita e o Egito - o retrato ficou perfeito.
A única falha no processo veio com a comissão eleitoral. Ali, também estavam vários iludidos, que chegaram a avisar a Moussavi que a apuração começava a apontar uma vantagem da oposição. Podem ter feito isso na ingenuidade, ou como uma última forma de resistir ao que viria logo depois. Para um país de enormes dimensões, no qual a votação foi feita com urnas comuns e cédulas de papel, a proclamação da vitória de Ahmadinejad em apenas quatro horas foi um fenômeno só comparado às eleições de Saddam Hussein - que sempre tinha 99% dos votos válidos. A denuncia da compra de dois milhões de canetas com a mesma tinta usada nas juntas eleitorais por parte do aparato de campanha de Ahmadinejad ganha consistência em função disso - só esse controle rudimentar poderia ter dado aos gerentes do processo a condição de declarar a apuração encerrada tão rápido. A cumplicidade dos aiatolás do Conselho Supremo também ficou estampada com o decreto de Ali Khamenei assegurando a Ahmadinejad que continuaria no cargo. Os protestos de rua então são apenas um estertor de uma sociedade que se viu não só descoberta pela fraude, como sabe que os tempos se tornarão muito mais sombrios a partir de agora para os que se expuseram de forma mais direta e crítica. A caça às bruxas permitirá que os radicais façam uma depuração maior na oposição e que poderá inclusive reduzir a capacidade de outros rivais e dos proprios países ocidentais em algum tipo de infiltração ou espionagem.
O Irã sai dessa eleição chancelado pelo carimbo da democracia pelo voto - como sempre fez Robert Mugabe - ainda que a denúncia de fraude possa tornar essa afirmação duvidosa. Ahmadinejad reage dizendo que as acusações são uma prova de que o ocidente só respeita os resultados que lhe convierem - o que não deixa de ser verdade. Quando Hosni Mubarak permitiu uma eleição presidencial depois de 26 anos no cargo, preparou tudo para não perder o poder para a oposição apoiada pela Irmandade Muçulmana. Ganhou o endosso entusiasmado dos Estados Unidos pelo caráter de renovação que a eleição representava, ainda que o jogo de cartas marcadas fosse claro; nenhuma manifestação da oposição terminou sem que a policia secreta de Mubarak atrapalhasse, muitas vezes com enorme violência. Proclamado o resultado final, Mubarak ganhou o diploma de democrata com o alivio do Ocidente, embora só mesmo os muito ingenuos possam acreditar que tenha mudado o caráter ditatorial de seu governo. O outro exemplo que sustenta o argumento de Ahmadinejad foi o apoio declarado dos EUA de Bush à eleição da Autoridade Palestina, com repasse financeiro ao grupo de Mahmoud Abbas, que acabaria derrotado pelo Hamas.
Outro subproduto desse golpe certeiro está na relação com Israel, que deve continuar sendo o ponto nevrálgico pelo qual Ahmadinejad pretende continuar espicaçando a paciência americana. O radical sabe que não pode enfrentar militarmente nenhum dos dois. Mas continuará ganhando o respeito dos outros radicais enquanto continuar negando o Holocausto e sustentando o revisionismo histórico baseado na negação dos direitos dos judeus concedidos pelas Nações Unidas. Na ótica dos estrategistas radicais, se há algum ente com capacidade de se apresentar como o antagonista da aliança judaico-cristã no Oriente Médio, este é o Irã. E continuará também se aproveitando do fato de o governo israelense estar entregue também a radicais de direita interessados em arrancar vantagens sem fazer qualquer concessão.
Para finalizar, o resultado da reeleição de Ahmadinejad também é a continuação do troco histórico que os iranianos querem dar desde a traição que sofreram por parte dos EUA na derrubada do regime de Mossadegh, nos anos 50. Nunca é demais lembrar que, na época, Mossadegh enfrentava o despotismo dos britânicos, donos da refinaria de Abadan, em busca de melhores condições de desenvolvimento para a população. Agia acreditando piamente que Kermit Roosevelt, sobrinho do presidente Ted Roosevelt e representante diplomático americano em Teerã, o apoiava em sua disputa com Londres. Kermit, na realidade, era da CIA e fora encarregado de montar o golpe para derrubar o primeiro-ministro, em parceria com os ingleses, e instalar o xá Reza Pahlevi no Trono do Pavão. Desde então, essa traição sempre é cobrada: foi assim na ocupação da embaixada americana em Teerã e será assim enquanto os aiatolás estiverem no poder.
Foram duas tacadas certeiras. Além de cooptar o Ocidente, os radicais iranianos também fizeram com que a classe média urbana, mais letrada, e avessa aos ditames dos aiatolás, igualmente acreditasse na lisura das intenções. Quem sempre temeu declarar sua opinião se viu de uma hora para outra livre para poder se manifestar e expor seu descontentamento. Tal liberdade era parte do figurino, porque o regime jamais pretendeu abrir mão de seu poder e sabia poder contar com o controle do eleitorado mais conservador que vive distante das influencias trazidas pela internet e por outras formas de romper o bloqueio dos comites de prevenção ao vício, a temida policia religiosa iraniana. O alto comparecimento às urnas na eleição de sexta-feira foi o maior reflexo de como esse objetivo foi alcançado. Além de atrair e iludir como o canto da sereia da mitologia grega, o modelo de democracia pelo voto deu ao aparato de segurança a dimensão exata do tamanho da oposição com a qual vinha tendo de lidar. Se é importante medir isso para seu projeto de poder continuar desafiando outros países muçulmanos pela hegemonia no controle político das nações árabes - como a Arábia Saudita e o Egito - o retrato ficou perfeito.
A única falha no processo veio com a comissão eleitoral. Ali, também estavam vários iludidos, que chegaram a avisar a Moussavi que a apuração começava a apontar uma vantagem da oposição. Podem ter feito isso na ingenuidade, ou como uma última forma de resistir ao que viria logo depois. Para um país de enormes dimensões, no qual a votação foi feita com urnas comuns e cédulas de papel, a proclamação da vitória de Ahmadinejad em apenas quatro horas foi um fenômeno só comparado às eleições de Saddam Hussein - que sempre tinha 99% dos votos válidos. A denuncia da compra de dois milhões de canetas com a mesma tinta usada nas juntas eleitorais por parte do aparato de campanha de Ahmadinejad ganha consistência em função disso - só esse controle rudimentar poderia ter dado aos gerentes do processo a condição de declarar a apuração encerrada tão rápido. A cumplicidade dos aiatolás do Conselho Supremo também ficou estampada com o decreto de Ali Khamenei assegurando a Ahmadinejad que continuaria no cargo. Os protestos de rua então são apenas um estertor de uma sociedade que se viu não só descoberta pela fraude, como sabe que os tempos se tornarão muito mais sombrios a partir de agora para os que se expuseram de forma mais direta e crítica. A caça às bruxas permitirá que os radicais façam uma depuração maior na oposição e que poderá inclusive reduzir a capacidade de outros rivais e dos proprios países ocidentais em algum tipo de infiltração ou espionagem.
O Irã sai dessa eleição chancelado pelo carimbo da democracia pelo voto - como sempre fez Robert Mugabe - ainda que a denúncia de fraude possa tornar essa afirmação duvidosa. Ahmadinejad reage dizendo que as acusações são uma prova de que o ocidente só respeita os resultados que lhe convierem - o que não deixa de ser verdade. Quando Hosni Mubarak permitiu uma eleição presidencial depois de 26 anos no cargo, preparou tudo para não perder o poder para a oposição apoiada pela Irmandade Muçulmana. Ganhou o endosso entusiasmado dos Estados Unidos pelo caráter de renovação que a eleição representava, ainda que o jogo de cartas marcadas fosse claro; nenhuma manifestação da oposição terminou sem que a policia secreta de Mubarak atrapalhasse, muitas vezes com enorme violência. Proclamado o resultado final, Mubarak ganhou o diploma de democrata com o alivio do Ocidente, embora só mesmo os muito ingenuos possam acreditar que tenha mudado o caráter ditatorial de seu governo. O outro exemplo que sustenta o argumento de Ahmadinejad foi o apoio declarado dos EUA de Bush à eleição da Autoridade Palestina, com repasse financeiro ao grupo de Mahmoud Abbas, que acabaria derrotado pelo Hamas.
Outro subproduto desse golpe certeiro está na relação com Israel, que deve continuar sendo o ponto nevrálgico pelo qual Ahmadinejad pretende continuar espicaçando a paciência americana. O radical sabe que não pode enfrentar militarmente nenhum dos dois. Mas continuará ganhando o respeito dos outros radicais enquanto continuar negando o Holocausto e sustentando o revisionismo histórico baseado na negação dos direitos dos judeus concedidos pelas Nações Unidas. Na ótica dos estrategistas radicais, se há algum ente com capacidade de se apresentar como o antagonista da aliança judaico-cristã no Oriente Médio, este é o Irã. E continuará também se aproveitando do fato de o governo israelense estar entregue também a radicais de direita interessados em arrancar vantagens sem fazer qualquer concessão.
Para finalizar, o resultado da reeleição de Ahmadinejad também é a continuação do troco histórico que os iranianos querem dar desde a traição que sofreram por parte dos EUA na derrubada do regime de Mossadegh, nos anos 50. Nunca é demais lembrar que, na época, Mossadegh enfrentava o despotismo dos britânicos, donos da refinaria de Abadan, em busca de melhores condições de desenvolvimento para a população. Agia acreditando piamente que Kermit Roosevelt, sobrinho do presidente Ted Roosevelt e representante diplomático americano em Teerã, o apoiava em sua disputa com Londres. Kermit, na realidade, era da CIA e fora encarregado de montar o golpe para derrubar o primeiro-ministro, em parceria com os ingleses, e instalar o xá Reza Pahlevi no Trono do Pavão. Desde então, essa traição sempre é cobrada: foi assim na ocupação da embaixada americana em Teerã e será assim enquanto os aiatolás estiverem no poder.
29/05: O Zumbi da Ásia
Alerta militar ao máximo, anúncio do fim do armistício, ampliação do número de lançamento de mísseis de médio e longo alcance, soldados marchando e preparando trincheiras, discursos de beligerância. O enésimo desafio da Coréia do Norte às determinações do Conselho de Segurança das Nações Unidas é um filme velho, repisado e desbotado. Ao longo de décadas, o regime mais retrógrado do planeta vem adotando um comportamento típico dos jogadores de pôquer – aliás, dizem as más línguas, um dos divertimentos favoritos do líder máximo, o ditador Kin Jong Il. Os objetivos desse comportamento que evoca a Guerra Fria sempre foi um só: obter legitimidade e, através dela, arrancar vantagens políticas e estratégicas. Dessa forma o país conseguiu, com a ajuda do cientista paquistanês A.K. Khan, adquirir a tecnologia nuclear para a fabricação de bombas atômicas do tamanho de geladeiras. O que ainda não possuem é o plutônio que as tornas horripilantes mensageiros do Juízo Final.
A relação dos norte-coreanos com as outras potências se dá em ciclos de sístoles e diástoles, distensão e compressão. A cada blefe ou rodada de ameaças, os países que lidam com o problema – EUA, Rússia, China, Japão e Coréia do Sul – o tratam cada um à sua maneira, e de acordo com interesses de ocasião. Habilmente, Kin Jong Il sempre soube se aproximar de quem podia dar maiores vantagens e manter-se longe dos que o ameaçavam. Assim, continuou driblando decisões que ampliam seu isolamento e, consequentemente, os ganhos pessoais que a casta de militares os quais comanda observam com o contrabando. Driblar o embargo funciona mais e melhor do que a negociação aberta. O desafio à Resolução 1718, de 2006, que determinava o congelamento dos testes nucleares no país gerou excelentes oportunidades de arrancar concessões. Por exemplo, a pretensa renúncia ao programa em troca de ajuda econômica, acordada recentemente e simbolizada na implosão de uma torre de resfriamento do reator nuclear. A partir daquele gesto, e em troca do alívio da pressão, os norte-coreanos ganharam o tempo necessário para continuarem com as pesquisas e com os testes que fazem atualmente.
Como sempre, a maior parte do que se descobre em relação a esse regime zumbi é fruto de interpretações de imagens de satélites e aviões espiões. Não há espionagem capaz de sobreviver muito tempo em território tão hostil, mesmo e principalmente a que pode ser conduzida pelos sul-coreanos. De novo, a atual crise tem um componente, este real e assustador: o declínio da saúde de Kin Jong Il é visível e não se pode dizer exatamente quem está conduzindo o país. O tom mais beligerante e as demonstrações de força, sob essa ótica, seriam, de acordo com alguns analistas internacionais, mais um reflexo das disputas de poder entre a gerontocracia militar que cerca o ditador do que a reaplicação de um modus operandi político. Ou seja: a sucessão foi lançada.
Se for isso, a situação é mais perigosa ainda. E requer de todos os envolvidos muita cautela para não acender um estopim armado - inclusive o Brasil, que fez bem em adiar a abertura de uma controversa embaixada no país. Mesmo a China, que tantas vezes usou a Coréia do Norte para duelar com os EUA - uma tática remanescente da Guerra Fria - desta vez não parece confortável com a escalada militar ao lado do seu quintal. Um passo em falso e os chineses acabariam recebendo a rebarba de um conflito sem qualquer razão de ser além das paranóias de Pyongyang.
A relação dos norte-coreanos com as outras potências se dá em ciclos de sístoles e diástoles, distensão e compressão. A cada blefe ou rodada de ameaças, os países que lidam com o problema – EUA, Rússia, China, Japão e Coréia do Sul – o tratam cada um à sua maneira, e de acordo com interesses de ocasião. Habilmente, Kin Jong Il sempre soube se aproximar de quem podia dar maiores vantagens e manter-se longe dos que o ameaçavam. Assim, continuou driblando decisões que ampliam seu isolamento e, consequentemente, os ganhos pessoais que a casta de militares os quais comanda observam com o contrabando. Driblar o embargo funciona mais e melhor do que a negociação aberta. O desafio à Resolução 1718, de 2006, que determinava o congelamento dos testes nucleares no país gerou excelentes oportunidades de arrancar concessões. Por exemplo, a pretensa renúncia ao programa em troca de ajuda econômica, acordada recentemente e simbolizada na implosão de uma torre de resfriamento do reator nuclear. A partir daquele gesto, e em troca do alívio da pressão, os norte-coreanos ganharam o tempo necessário para continuarem com as pesquisas e com os testes que fazem atualmente.
Como sempre, a maior parte do que se descobre em relação a esse regime zumbi é fruto de interpretações de imagens de satélites e aviões espiões. Não há espionagem capaz de sobreviver muito tempo em território tão hostil, mesmo e principalmente a que pode ser conduzida pelos sul-coreanos. De novo, a atual crise tem um componente, este real e assustador: o declínio da saúde de Kin Jong Il é visível e não se pode dizer exatamente quem está conduzindo o país. O tom mais beligerante e as demonstrações de força, sob essa ótica, seriam, de acordo com alguns analistas internacionais, mais um reflexo das disputas de poder entre a gerontocracia militar que cerca o ditador do que a reaplicação de um modus operandi político. Ou seja: a sucessão foi lançada.
Se for isso, a situação é mais perigosa ainda. E requer de todos os envolvidos muita cautela para não acender um estopim armado - inclusive o Brasil, que fez bem em adiar a abertura de uma controversa embaixada no país. Mesmo a China, que tantas vezes usou a Coréia do Norte para duelar com os EUA - uma tática remanescente da Guerra Fria - desta vez não parece confortável com a escalada militar ao lado do seu quintal. Um passo em falso e os chineses acabariam recebendo a rebarba de um conflito sem qualquer razão de ser além das paranóias de Pyongyang.
A surpreendente reviravolta em torno do fechamento da prisão de Guantánamo, onde os Estados Unidos mantém encarcerados acusados de terrorismo, embute um fator importante e pouco considerado. O medo. Logo após a posse, o presidente Barack Obama assinou um decreto pelo qual em um ano as instalações em Cuba – objeto de repúdio mundial e de enorme desgaste para a tradição democrática americana – deveriam ser fechadas. Passada a euforia da vitória, com o governo tendo de lidar com o desgaste dos desafios impostos pela crise, veio o contra-ataque republicano. Como um direto no fígado, o ex-vice-presidente Dick Cheney foi à televisão lançar o motto que a oposição aos democratas repisa a todo momento: a decisão de fechar Guantánamo tornaria a América menos segura. Esse é um argumento poderoso por mexer com algo com o qual governo nenhum pode enfrentar, que é a dificuldade do cidadão em aceitar que sua segurança está garantida pelo Estado. O efeito 11 de Setembro torna tênue essa confiança. Vender medo dá lucro.
O marketing do terror, que tantas vezes foi lembrado como ferramenta útil para que a Casa Branca desviasse a atenção da opinião pública para a crise que se avizinhava, reapareceu muito melhor estruturado dessa vez. E está se revelando mais poderoso para quem saiu do governo com índices de popularidade no fundo do poço. Os republicanos lembraram, ao atacar a forma como o presidente agiu quanto aos presos da Guerra ao Terror, que o fechamento implicaria em trazer para território americano justamente os terroristas que todos gostariam de ver longe. Nas televisões americanas, o partido vem veiculando campanha intensamente publicitária na qual pergunta ao eleitor se gostaria de ter Khalid Sheik Mohammed, o planejador dos ataques a Nova York e Washington, o preso número 1 de Gitmo, como vizinho. É um truque de marqueteiro, já que o responsável pelo primeiro ataque ao World Trade Center, Ramsi Yousef, e o mentor espiritual da Jihad – e de uma série de atentados que ocorreriam em Nova Jersey – o xeque cego egípcio Omar Abdel Rahman, estão encarcerados em penitenciárias de segurança máxima dentro dos EUA.
O impacto da campanha mostra que, bem manipulado, o medo é irresistível – um fenômeno que não é só americano, mas mundial. Os políticos brasileiros conhecem bem essa ferramenta de campanha. Obama não só se viu forçado a recuar na questão da excrescência legal que é Guantánamo, como também mudou de rumo em outras questões que eram pontos-chave de sua campanha e passou a jogar na defensiva em um assunto no qual sempre esteve no ataque. Pelo mesmo motivo – a necessidade de manter o país seguro – suspendeu a divulgação de imagens de prisioneiros sofrendo abusos e tirou o pé do acelerador na questão das punições aos que criaram o arcabouço legal para justificar a tortura imposta como ferramenta de obtenção de informações. Os republicanos faturaram alto com as manobras, haja visto a rejeição quase unânime ao pedido de verba encaminhada pelo presidente ao Congresso – inclusive com o apoio da bancada democrata – especificamente para permitir o fim do cárcere de Cuba. Para quem saiu tão por baixo na eleição, a recuperação do capital político republicano foi impressionante. O retorno que o medo trouxe ressuscitou Dick Cheney e outros integrantes-chave do governo Bush e fez valer cada dólar de investimento.
O marketing do terror, que tantas vezes foi lembrado como ferramenta útil para que a Casa Branca desviasse a atenção da opinião pública para a crise que se avizinhava, reapareceu muito melhor estruturado dessa vez. E está se revelando mais poderoso para quem saiu do governo com índices de popularidade no fundo do poço. Os republicanos lembraram, ao atacar a forma como o presidente agiu quanto aos presos da Guerra ao Terror, que o fechamento implicaria em trazer para território americano justamente os terroristas que todos gostariam de ver longe. Nas televisões americanas, o partido vem veiculando campanha intensamente publicitária na qual pergunta ao eleitor se gostaria de ter Khalid Sheik Mohammed, o planejador dos ataques a Nova York e Washington, o preso número 1 de Gitmo, como vizinho. É um truque de marqueteiro, já que o responsável pelo primeiro ataque ao World Trade Center, Ramsi Yousef, e o mentor espiritual da Jihad – e de uma série de atentados que ocorreriam em Nova Jersey – o xeque cego egípcio Omar Abdel Rahman, estão encarcerados em penitenciárias de segurança máxima dentro dos EUA.
O impacto da campanha mostra que, bem manipulado, o medo é irresistível – um fenômeno que não é só americano, mas mundial. Os políticos brasileiros conhecem bem essa ferramenta de campanha. Obama não só se viu forçado a recuar na questão da excrescência legal que é Guantánamo, como também mudou de rumo em outras questões que eram pontos-chave de sua campanha e passou a jogar na defensiva em um assunto no qual sempre esteve no ataque. Pelo mesmo motivo – a necessidade de manter o país seguro – suspendeu a divulgação de imagens de prisioneiros sofrendo abusos e tirou o pé do acelerador na questão das punições aos que criaram o arcabouço legal para justificar a tortura imposta como ferramenta de obtenção de informações. Os republicanos faturaram alto com as manobras, haja visto a rejeição quase unânime ao pedido de verba encaminhada pelo presidente ao Congresso – inclusive com o apoio da bancada democrata – especificamente para permitir o fim do cárcere de Cuba. Para quem saiu tão por baixo na eleição, a recuperação do capital político republicano foi impressionante. O retorno que o medo trouxe ressuscitou Dick Cheney e outros integrantes-chave do governo Bush e fez valer cada dólar de investimento.
19/05: Obama e os Pais Fundadores
Há muitas formas de explicar a conjunção de fatores que levaram o primeiro negro americano a sentar-se na cadeira mais poderosa do planeta. A maioria associa o fenômeno Obama a causas imediatas como a crise econômica ou o esboroamento moral do arcabouço conservador. Para o escritor britânico Simon Schama, autor do recém-lançado O futuro da América, o quadro é outro: metaforicamente falando, no palanque do juramento gaguejado de janeiro – e mais tarde repetido na Casa Branca – alinhavam-se também os chamados pais fundadores da nação, como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e Alexander Hamilton, presidentes históricos como Abraham Lincoln, e até personagens importantes da luta pelos direitos civis da população negra, como Fanny Lou Hamer.
Jefferson é citado frequentemente e seu Notes on the State of Virginia, de 1787, permeia o tapete tecido por Schama sobre o qual Obama pretende deslizar ao longo do mandato. “A história, ao lhes avaliar o passado, irá lhes garantir o futuro”, diz a frase, logo na abertura, que sintetiza a pesquisa magistral do acadêmico britânico. Assim, para cada gesto na formação do Obama presidente, o desenho precisa ser compreendido por sua origem para ter a perenidade avaliada. A vitória impressionante num complicado sistema eleitoral do caucus é traduzida pelo significado que esse tipo de manifestação representava para os primeiros eleitores, pouco instruídos, mas capazes de exercer o voto com vigor. Foi a mesma sensação percebida pelo autor na seção onde estava Obama.
Schama detalha o fenômeno que a multidão no caucus refletia: o crescimento da participação eleitoral de 2008, atribuído a “uma fuga da armadilha do gerenciamento, da trivialidade e da dominância do dinheiro e da publicidade televisiva”. Se o caminho rejeitou a superficialidade moderna, o historiador foi às raízes, na formação do estado na Guerra da Independência, no abolicionismo da Secessão e, posterior a ela, na dualidade flagrante da percepção militar, no seu isolacionismo recorrente. Para Schama, Obama reabriu o atalho para a história.
É como uma holografia. Para cada ambiente, o livro evoca uma realidade passada e a superpõe como sugestão para o futuro. Sobre a sangrenta aventura do Iraque, a imagem é a da pedra filosofal da prestigiada academia militar de West Point. Jefferson queria formar ali “uma sentinela contra e não a favor do poder marcial, fundada para negar aos Estados Unidos os seus Césares”. Apostava na construção, não no poder absoluto. É o que Obama vem pregando desde a posse.
Descrevendo a saga dos pastores negros em uma América hostil a escravos libertados, Schama os reencontra na campanha pelos direitos civis – “Não fui salvo para fugir”, disse Fred Shuttleworth, reverendo cuja casa no Alabama foi dinamitada pela Ku Klux Klan nos anos 60 – e usa essa ciclotimia para explicitar a legitimidade da herança negra de Obama. Mesmo a associação com o radical Jeremiah Wright é traduzida de forma diferente da destacada pela América branca. “Desejar que a raiva desapareça só serve para ampliar o abismo de incompreensão que existe entre as raças”, declarou o então candidato democrata. O que queria, deixou claro Obama, é que a “recuperação de sofrimentos e triunfos, ao mesmo tempo pessoal e universal, negro e mais que negro”, fosse uma exortação à comunidade moral, à percepção de que a religião pode unir o país muito mais do que mantê-lo dividido. Essa é a lição de personagens como Fanny Lou Hamer, uma negra de Ruleville que enfrentou Lindon Johnson pelo direito de exercer sua fé como manifesto pela cidadania.
O peso da religião no reerguimento dos EUA é cuidadosamente calculado. Um dos mais importantes legados dos pais fundadores foi exatamente o de garantir a separação entre Igreja – e não fé – e Estado. “Os visionários podem proclamar seus sonhos do alto das montanhas, mas não estão livres a impô-los a seus concidadãos”, afirma Schama. A primeira emenda abre espaço ilimitado ao culto, justamente para que nunca seja governada por ele. Quantas vezes, nos últimos oito anos, esse discurso foi então desafiado, com resultados assustadores? Muitas.
Messianismo biruta
O acadêmico recorda o papel do general William Boykin, subsecretário de inteligência ligado a Donald Rumsfeld. Segundo Simon Schama, Boykin dizia que “o Espírito Santo e às vezes Deus em pessoa lhe faziam visitas regulares para instruí-lo sobre estratégia”. Na holografia não há espaço para messianismos birutas, embora personagens histriônicos dessa natureza tenham papel relevante para reforçar a tese jeffersoniana da liberdade. Obama, ao observar tais lições, mostra como o país pode livrar-se dos curandeiros que atrelam a bonança a visões de um paraíso viciado por ideias segregacionistas e superficialistas. A fé e a liberdade fomentam-se mutuamente, afirma Schama, e esse é o segredo por trás da grandeza do país.
A formação da identidade nacional perpassa cada capítulo. Imigração é um tema candente, sendo os EUA um país formado por colonizadores que, sob a promessa de uma vida de fartura, iniciaram a jornada negando o mesmo direito aos que naquela terra já viviam. Schama recorda a importância de Michel Guillaume Crèvecoeur – autor de Letters from an american farmer – como o ponto de inflexão. Crèvecoeur vivera nos EUA e teve de fugir para a França quando a maré da política internacional tornou sua nacionalidade perigosa. O tom idílico e rousseauniano de sua obra impulsionou o sonho dos pioneiros, e a revolta daqueles que não queriam dividir mais o Novo Mundo. É desse conflito que nascem as questões de imigração, tão sérias para os EUA.
Simon Schama insere nesse contexto todas as discussões futuras, incluindo o descolamento da fronteira americana com o México da fronteira cultural e espiritual: a imigração em massa sempre foi compatível tanto com a liberdade quanto com a prosperidade. O que interfere, afirma o historiador, “é o ruído surdo da ansiedade, expressa pela primeira vez desde os pais fundadores, que a ralé poderia devastar a pureza da nação política que tinham criado, realmente nunca desapareceu”.
Nunca mesmo, e a cada campanha eleitoral é essa sombra segregacionista um dos maiores motores da busca por votos. Mas o presidente sabe, e o autor frisa, “que quando a economia americana bate em um recife, os últimos a abandonar o barco são em geral aqueles que os políticos nacionalistas querem jogar do convés”. Obama foi hábil em seus discursos e atos ao considerar todo esforço digno. Quer ser o presidente de um futuro diferente. Simon Schama dá pistas de que pode conseguir.
Jefferson é citado frequentemente e seu Notes on the State of Virginia, de 1787, permeia o tapete tecido por Schama sobre o qual Obama pretende deslizar ao longo do mandato. “A história, ao lhes avaliar o passado, irá lhes garantir o futuro”, diz a frase, logo na abertura, que sintetiza a pesquisa magistral do acadêmico britânico. Assim, para cada gesto na formação do Obama presidente, o desenho precisa ser compreendido por sua origem para ter a perenidade avaliada. A vitória impressionante num complicado sistema eleitoral do caucus é traduzida pelo significado que esse tipo de manifestação representava para os primeiros eleitores, pouco instruídos, mas capazes de exercer o voto com vigor. Foi a mesma sensação percebida pelo autor na seção onde estava Obama.
Schama detalha o fenômeno que a multidão no caucus refletia: o crescimento da participação eleitoral de 2008, atribuído a “uma fuga da armadilha do gerenciamento, da trivialidade e da dominância do dinheiro e da publicidade televisiva”. Se o caminho rejeitou a superficialidade moderna, o historiador foi às raízes, na formação do estado na Guerra da Independência, no abolicionismo da Secessão e, posterior a ela, na dualidade flagrante da percepção militar, no seu isolacionismo recorrente. Para Schama, Obama reabriu o atalho para a história.
É como uma holografia. Para cada ambiente, o livro evoca uma realidade passada e a superpõe como sugestão para o futuro. Sobre a sangrenta aventura do Iraque, a imagem é a da pedra filosofal da prestigiada academia militar de West Point. Jefferson queria formar ali “uma sentinela contra e não a favor do poder marcial, fundada para negar aos Estados Unidos os seus Césares”. Apostava na construção, não no poder absoluto. É o que Obama vem pregando desde a posse.
Descrevendo a saga dos pastores negros em uma América hostil a escravos libertados, Schama os reencontra na campanha pelos direitos civis – “Não fui salvo para fugir”, disse Fred Shuttleworth, reverendo cuja casa no Alabama foi dinamitada pela Ku Klux Klan nos anos 60 – e usa essa ciclotimia para explicitar a legitimidade da herança negra de Obama. Mesmo a associação com o radical Jeremiah Wright é traduzida de forma diferente da destacada pela América branca. “Desejar que a raiva desapareça só serve para ampliar o abismo de incompreensão que existe entre as raças”, declarou o então candidato democrata. O que queria, deixou claro Obama, é que a “recuperação de sofrimentos e triunfos, ao mesmo tempo pessoal e universal, negro e mais que negro”, fosse uma exortação à comunidade moral, à percepção de que a religião pode unir o país muito mais do que mantê-lo dividido. Essa é a lição de personagens como Fanny Lou Hamer, uma negra de Ruleville que enfrentou Lindon Johnson pelo direito de exercer sua fé como manifesto pela cidadania.
O peso da religião no reerguimento dos EUA é cuidadosamente calculado. Um dos mais importantes legados dos pais fundadores foi exatamente o de garantir a separação entre Igreja – e não fé – e Estado. “Os visionários podem proclamar seus sonhos do alto das montanhas, mas não estão livres a impô-los a seus concidadãos”, afirma Schama. A primeira emenda abre espaço ilimitado ao culto, justamente para que nunca seja governada por ele. Quantas vezes, nos últimos oito anos, esse discurso foi então desafiado, com resultados assustadores? Muitas.
Messianismo biruta
O acadêmico recorda o papel do general William Boykin, subsecretário de inteligência ligado a Donald Rumsfeld. Segundo Simon Schama, Boykin dizia que “o Espírito Santo e às vezes Deus em pessoa lhe faziam visitas regulares para instruí-lo sobre estratégia”. Na holografia não há espaço para messianismos birutas, embora personagens histriônicos dessa natureza tenham papel relevante para reforçar a tese jeffersoniana da liberdade. Obama, ao observar tais lições, mostra como o país pode livrar-se dos curandeiros que atrelam a bonança a visões de um paraíso viciado por ideias segregacionistas e superficialistas. A fé e a liberdade fomentam-se mutuamente, afirma Schama, e esse é o segredo por trás da grandeza do país.
A formação da identidade nacional perpassa cada capítulo. Imigração é um tema candente, sendo os EUA um país formado por colonizadores que, sob a promessa de uma vida de fartura, iniciaram a jornada negando o mesmo direito aos que naquela terra já viviam. Schama recorda a importância de Michel Guillaume Crèvecoeur – autor de Letters from an american farmer – como o ponto de inflexão. Crèvecoeur vivera nos EUA e teve de fugir para a França quando a maré da política internacional tornou sua nacionalidade perigosa. O tom idílico e rousseauniano de sua obra impulsionou o sonho dos pioneiros, e a revolta daqueles que não queriam dividir mais o Novo Mundo. É desse conflito que nascem as questões de imigração, tão sérias para os EUA.
Simon Schama insere nesse contexto todas as discussões futuras, incluindo o descolamento da fronteira americana com o México da fronteira cultural e espiritual: a imigração em massa sempre foi compatível tanto com a liberdade quanto com a prosperidade. O que interfere, afirma o historiador, “é o ruído surdo da ansiedade, expressa pela primeira vez desde os pais fundadores, que a ralé poderia devastar a pureza da nação política que tinham criado, realmente nunca desapareceu”.
Nunca mesmo, e a cada campanha eleitoral é essa sombra segregacionista um dos maiores motores da busca por votos. Mas o presidente sabe, e o autor frisa, “que quando a economia americana bate em um recife, os últimos a abandonar o barco são em geral aqueles que os políticos nacionalistas querem jogar do convés”. Obama foi hábil em seus discursos e atos ao considerar todo esforço digno. Quer ser o presidente de um futuro diferente. Simon Schama dá pistas de que pode conseguir.
15/05: Funny Conversation
Recebi isso de um amigo. Não sei se é novo ou antigo, mas dei boas risadas imaginando a cena e divido isso aqui no blog.
---- xxxxx ------
Hu Jintao was named chief of the Communist Party in China.
SCENE: The Oval Office. George Bush and Condolezza Rice.
George: Condi! Nice to see you. What''s happening?
Condi: Sir, I have the report about the new leader of China.
George: Great. Let's hear it.
Condi: Hu is the new leader of China.
George: That's what I want to know.
Condi: That's what I'm telling you.
George: That's what I''m asking you. Who is the new leader of China?
Condi: Yes.
George: I mean the fellow's name.
Condi: Hu.
George: The guy in China.
Condi: Hu.
George: The new leader of China.
Condi: Hu.
George: The Chinese?
Condi: Hu is leading China.
George: Now whaddya? asking me for?
Condi: I'm telling you Hu is leading China.
George: Well, I'm asking you. Who is leading China?
Condi: That''s the man's name.
George: That's whose name?
Condi: Yes.
George: Will you or will you not tell me the name of the new leader of China?
Condi: Yes sir.
George: Yassir? You mean arafat is in China? I thought he was in the Middle East.
Condi: That's correct.
George: Then who is in China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir is in China?
Condi: No, sir.
George: Then who is?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir?
Condi: No, sir.
George: Look, Condi. I need to know the name of the new leader of China. Get me the Secretary General of the U.N. on the phone. I bet he knows.
Condi: Kofi?
George: No, thanks.
Condi: You want Kofi?
George: No.
Condi: You don't want Kofi.
George: No. But now that you mention it, I could use a glass of milk. and then get me the U.N.
Condi: Yes, sir.
George: Not Yassir! The guy at the U.N.
Condi: Kofi?
George: No, milk! Will you please make the call?
Condi: Call who?
George: Who is the guy at the U.N .?
Condi: Hu is the guy in China.
George: Will you stay out of China?!
Condi: Yes, sir.
George: and stay out of the Middle East! Just get me the guy at the U.N!
Condi: Kofi?
George: all right! Light with sugar. Now get on the phone.
(Condi picks up the phone.)
Condi: Rice here.
George: Rice? Good idea. and a couple of egg rolls, too.
---- xxxxx ------
Hu Jintao was named chief of the Communist Party in China.
SCENE: The Oval Office. George Bush and Condolezza Rice.
George: Condi! Nice to see you. What''s happening?
Condi: Sir, I have the report about the new leader of China.
George: Great. Let's hear it.
Condi: Hu is the new leader of China.
George: That's what I want to know.
Condi: That's what I'm telling you.
George: That's what I''m asking you. Who is the new leader of China?
Condi: Yes.
George: I mean the fellow's name.
Condi: Hu.
George: The guy in China.
Condi: Hu.
George: The new leader of China.
Condi: Hu.
George: The Chinese?
Condi: Hu is leading China.
George: Now whaddya? asking me for?
Condi: I'm telling you Hu is leading China.
George: Well, I'm asking you. Who is leading China?
Condi: That''s the man's name.
George: That's whose name?
Condi: Yes.
George: Will you or will you not tell me the name of the new leader of China?
Condi: Yes sir.
George: Yassir? You mean arafat is in China? I thought he was in the Middle East.
Condi: That's correct.
George: Then who is in China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir is in China?
Condi: No, sir.
George: Then who is?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir?
Condi: No, sir.
George: Look, Condi. I need to know the name of the new leader of China. Get me the Secretary General of the U.N. on the phone. I bet he knows.
Condi: Kofi?
George: No, thanks.
Condi: You want Kofi?
George: No.
Condi: You don't want Kofi.
George: No. But now that you mention it, I could use a glass of milk. and then get me the U.N.
Condi: Yes, sir.
George: Not Yassir! The guy at the U.N.
Condi: Kofi?
George: No, milk! Will you please make the call?
Condi: Call who?
George: Who is the guy at the U.N .?
Condi: Hu is the guy in China.
George: Will you stay out of China?!
Condi: Yes, sir.
George: and stay out of the Middle East! Just get me the guy at the U.N!
Condi: Kofi?
George: all right! Light with sugar. Now get on the phone.
(Condi picks up the phone.)
Condi: Rice here.
George: Rice? Good idea. and a couple of egg rolls, too.
06/05: Os crimes de Gaza - culpados
O relatório das Nações Unidas a respeito dos ataques sofridos por suas instalações durante a invasão israelense à Faixa de Gaza, na virada do ano, é sucinto e não deixa margem mais a dúvidas. Dos nove incidentes oficialmente reportados, a investigação conduzida pelo corpo técnico da ONU responsabiliza os militares israelenses em sete. Um dos ataques foi atribuido ao Hamas e o nono não se conseguiu definir de quem era a culpa. Israel imediatamente desacreditou a investigação, dizendo ter conduzido a sua própria e que esta - supresa...- não havia revelado qualquer desvio das chamadas leis internacionais por parte dos seus soldados. A diplomacia de Jerusalém também queixou-se de o relatorio ser, como sempre nesses casos, unilateral, sem considerar que Israel lutava uma "guerra ao terrorismo".
Aplaudo o resultado do relatório, principalmente por deixar claro que algumas das operações executadas contra a ONU foram atos deliberados. A apuração foi conduzida por Ian Martin, ex-diretor da Anistia Internacional. De acordo com termos citados no documento, os militares israelenses "desrespeitaram a imunidade das instalações e do pessoal da ONU e de suas premissas, tendo sido responsáveis por mortes e ferimentos". Um caso no qual não pairou nenhuma dúvida - cuja foto inclusive publiquei aqui no blog - foi o bombardeio ao complexo do comitê da ONU para refugiados (UNRWA) por bombas de fósforo branco, armamento banido pelas convenções internacionais cujo uso configura crime de guerra. Três pessoas ficaram feridas num ato considerado de "grosseira negligência".
A investigação também concluiu que o ataque a uma escola em Jabalia, no qual morteiros mataram mais de 30 pessoas que buscavam abrigo em instalações da ONU, foi obra de militares israelenses - ao contrário das versões que a IDF se apressou em divulgar. A explicação militar é a de que os obuses foram lançados em resposta a ataques de militantes do Hamas que usavam a escola como escudo. As alegações foram derrubadas pela equipe de investigadores da ONU e o relatório afirma que, "apesar das evidências de que as explicações não condiziam com a verdade continuaram a ser sustentadas, não foram adequadamente retiradas e nem objeto de um reconhecimento público da falha".
Em 11 recomendações, o relatório afirma que a ONU deveria buscar o reconhecimento de culpa por parte das autoridades israelenses, alem de abrir processo judicial para recuperar mais de US$ 11 milhões em danos causados pelos militares às instalações da ONU. Mas apesar disso, não pede que as investigaçoes sejam aprofundadas no sentido de encontrar e punir eventuais responsáveis. É uma pena, porque faria bem à civilização que a instituição diz representar nominar pessoas que ordenam ou executam ataques com um tipo de bomba que icinera a pele mesmo depois de horas de atingir a pessoa. Também merece aplausos o fato de o relatório pedir investigações sobre violações das leis internacionais tanto por Israel quanto pelo Hamas em função do lançamento de foguetes contra cidades da Cisjordânia.
A íntegra do inquérito, de 2.800 páginas, continuará distante do público. Apenas dados de 27 paginas do sumário foram abertos hoje. Mas mesmo assim já é um começo. Pelo menos no julgamento da história, aquela horrenda explosao química na escola da ONU já está definida. Seus autores a carregarão na consciência com o peso de um bilhão de dedos os apontando e dizendo: "Vocês são bárbaros".
Aplaudo o resultado do relatório, principalmente por deixar claro que algumas das operações executadas contra a ONU foram atos deliberados. A apuração foi conduzida por Ian Martin, ex-diretor da Anistia Internacional. De acordo com termos citados no documento, os militares israelenses "desrespeitaram a imunidade das instalações e do pessoal da ONU e de suas premissas, tendo sido responsáveis por mortes e ferimentos". Um caso no qual não pairou nenhuma dúvida - cuja foto inclusive publiquei aqui no blog - foi o bombardeio ao complexo do comitê da ONU para refugiados (UNRWA) por bombas de fósforo branco, armamento banido pelas convenções internacionais cujo uso configura crime de guerra. Três pessoas ficaram feridas num ato considerado de "grosseira negligência".
A investigação também concluiu que o ataque a uma escola em Jabalia, no qual morteiros mataram mais de 30 pessoas que buscavam abrigo em instalações da ONU, foi obra de militares israelenses - ao contrário das versões que a IDF se apressou em divulgar. A explicação militar é a de que os obuses foram lançados em resposta a ataques de militantes do Hamas que usavam a escola como escudo. As alegações foram derrubadas pela equipe de investigadores da ONU e o relatório afirma que, "apesar das evidências de que as explicações não condiziam com a verdade continuaram a ser sustentadas, não foram adequadamente retiradas e nem objeto de um reconhecimento público da falha".
Em 11 recomendações, o relatório afirma que a ONU deveria buscar o reconhecimento de culpa por parte das autoridades israelenses, alem de abrir processo judicial para recuperar mais de US$ 11 milhões em danos causados pelos militares às instalações da ONU. Mas apesar disso, não pede que as investigaçoes sejam aprofundadas no sentido de encontrar e punir eventuais responsáveis. É uma pena, porque faria bem à civilização que a instituição diz representar nominar pessoas que ordenam ou executam ataques com um tipo de bomba que icinera a pele mesmo depois de horas de atingir a pessoa. Também merece aplausos o fato de o relatório pedir investigações sobre violações das leis internacionais tanto por Israel quanto pelo Hamas em função do lançamento de foguetes contra cidades da Cisjordânia.
A íntegra do inquérito, de 2.800 páginas, continuará distante do público. Apenas dados de 27 paginas do sumário foram abertos hoje. Mas mesmo assim já é um começo. Pelo menos no julgamento da história, aquela horrenda explosao química na escola da ONU já está definida. Seus autores a carregarão na consciência com o peso de um bilhão de dedos os apontando e dizendo: "Vocês são bárbaros".
28/04: Obama 100 dias
Um dos mais experientes colaboradores do governo Obama em Política Externa, o veterano embaixador Richard Holbrooke define bem a importância do tema no escopo presidencial: a economia sempre é prioridade para os mandatários na Casa Branca, mas o que cada um sonha como legado é a forma como situou o país diante dos desafios mundiais. Com Obama não será diferente: este início de governo, em termos de momentum político, vem sendo comparado ao de Franklin Delano Roosevelt, nos anos 30. Na época, o espectro da crise também impôs o discurso de conciliação nacional e de enfrentamento das dificuldades com esperança. Com popularidade igualmente em alta, o atual presidente imprimiu velocidade na diplomacia, impondo credibilidade e evitando mais perdas.
De forma geral, o eixo da atuação dos EUA, hoje, é um desenvolvimento do Internacionalismo Liberal, modelo oriundo no governo Clinton, ao qual o primeiro presidente negro dos EUA emprestou dinâmica especial. Uma convergência histórica, é verdade, facilita a cristalização da política personalista como marca independente: Obama assume ao término de um ciclo de conservadorismo cujo arcabouçoesfarelou-se – e a crise econômica e moral da América é o maior reflexo dessa rolada ladeira abaixo.
Se no governo Clinton a ênfase foi a de reforçar o papel dos EUA na liderança mundial com uma atuação calcada em acordos bilaterais – foram 270 assinados – e em intervenções humanitárias, no caso de Obama a aposta mudou. A América não pode mais resolver os problemas sozinha, mas se esforça em demonstrar que sua participação na solução deles é essencial, senão imprescindível. Assim, a Casa Branca procurou inicialmente endossar o reforço às instituições para consolidar parcerias a médio prazo e com isso restabelecer uma visão tangível de longo prazo. O apoio à ONU e à OTAN, por exemplo – em completa oposição aos dois governos Bush, haja visto a supremacia da Pax Americana – completa-se com o alinhamento de parceiros e sobretudo oponentes em um diálogo direto e sem meandros.
Irã, Paquistão, Al Qaeda
Esse modelo da Doutrina Obama explica, por exemplo, acenos diretos ao virulento presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que incluíram a volta dos EUA ao grupo que negocia o programa nuclear de Teerã, ou o discurso firme contra os blefes habituais da Coréia do Norte. Ou a mudança de tom no relacionamento gélido com a Rússia – Obama disse ao presidente Medvedev que busca trabalhar antagonismos pelo diálogo e, a assessores, que considera o escudo antimíssil em países da antiga órbita de influência russa uma provocação desnecessária a Moscou. Ou ainda o encontro desarmado com o venezuelano Hugo Chávez na Cúpula das Américas. A admiração pelo presidente Lula igualmente se encaixa nesse figurino e é um reconhecimento da necessidade de recriar parcerias fortes e perenes com a América Latina.
O figurino pragmático permitiu nesses 100 dias que os críticos republicanos, irritados com o revisionismo em relação às violações aos Direitos Humanos pelo aparato de segurança, o classificassem como equivocado e ingênuo, apelidando o presidente de “democrata no estilo Jimmy Carter” – alfinetada dada a atuação desacreditada de Carter nesse sentido. Como avalia bem o historiador Allan Lichtman, inspirado no filósofo Isaiah Berlin, Obama não é um revolucionário, mas um liberal “uma raposa que sabe muitas verdades em vez de ser um rato que prefere saber uma só grande verdade”. Seria o oposto de Ronald Reagan, que advogava um Estado pequeno mas capaz de enfrentar e derrotar a União Soviética. Hoje são muitos alvos, mas a cautela é maior. A inspiração precisa caminhar de mãos dadas com algum realismo.
A guerra ao Terror é um ponto crucial para Obama: ao recolocar o foco sobre a Al Qaeda no Paquistão, o presidente afasta a política americana do modelo intervencionista e messiânico neoconservador que visto no Iraque. Em vez do sonho de moldar um novo Oriente Médio, o engajamento firme no papel da OTAN como mecanismo legítimo de enfrentamento das ameaças não-convencionais recuperou o capital moral erodido e o eixo principal do combate. Além do suporte claro ao Islã moderado, une força militar, cooperação mútua, ajuda econômica e pressão diplomática. Esta semana a secretária de Estado Hillary Clinton advertiu a comunidade internacional sobre a fragilidade paquistanesa como escudo de contenção às ações da Al Qaeda.
A reação foi o primeiro sinal de descontentamento com a aproximação do governo paquistanês com os rebeldes talibãs, marcada por um acordo de trégua na volátil fronteira afegã. A medida ameaça o aporte de verbas para projetos de desenvolvimento econômico que ali reviveria em parte o boom promovido pelos EUA e pela Arábia Saudita quando da guerra para expulsar os soviéticos. Dele vem a estrutura de ensino religioso islâmico wahabbita nas províncias tribais – a gênese globalizada da tribo de Osama bin Laden.
Para completar, os 100 dia de Obama na Casa Branca também sinalizaram um novo tom nas difíceis questões do conflito entre Israel e os palestinos. Nesse caso, o Internacionalismo Liberal do presidente tem diante de si um enorme desafio: a nova liderança israelense, de perfil mais duro, está exigindo muitas discussões internas antes que os dois governos conversem no mais alto nível. O presidente na prática não alterou o status quo anterior, mas moveu-se com extremo cuidado, principalmente em termos retóricos e táticos. O principal passo, nesse caso, foi a disposição de trazer, como contraponto aos falcões israelenses, iranianos e sírios como parte indispensável das discussões para um irrecorrível Estado palestino – outro ato retórico de grande impacto.
De forma geral, o eixo da atuação dos EUA, hoje, é um desenvolvimento do Internacionalismo Liberal, modelo oriundo no governo Clinton, ao qual o primeiro presidente negro dos EUA emprestou dinâmica especial. Uma convergência histórica, é verdade, facilita a cristalização da política personalista como marca independente: Obama assume ao término de um ciclo de conservadorismo cujo arcabouçoesfarelou-se – e a crise econômica e moral da América é o maior reflexo dessa rolada ladeira abaixo.
Se no governo Clinton a ênfase foi a de reforçar o papel dos EUA na liderança mundial com uma atuação calcada em acordos bilaterais – foram 270 assinados – e em intervenções humanitárias, no caso de Obama a aposta mudou. A América não pode mais resolver os problemas sozinha, mas se esforça em demonstrar que sua participação na solução deles é essencial, senão imprescindível. Assim, a Casa Branca procurou inicialmente endossar o reforço às instituições para consolidar parcerias a médio prazo e com isso restabelecer uma visão tangível de longo prazo. O apoio à ONU e à OTAN, por exemplo – em completa oposição aos dois governos Bush, haja visto a supremacia da Pax Americana – completa-se com o alinhamento de parceiros e sobretudo oponentes em um diálogo direto e sem meandros.
Irã, Paquistão, Al Qaeda
Esse modelo da Doutrina Obama explica, por exemplo, acenos diretos ao virulento presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que incluíram a volta dos EUA ao grupo que negocia o programa nuclear de Teerã, ou o discurso firme contra os blefes habituais da Coréia do Norte. Ou a mudança de tom no relacionamento gélido com a Rússia – Obama disse ao presidente Medvedev que busca trabalhar antagonismos pelo diálogo e, a assessores, que considera o escudo antimíssil em países da antiga órbita de influência russa uma provocação desnecessária a Moscou. Ou ainda o encontro desarmado com o venezuelano Hugo Chávez na Cúpula das Américas. A admiração pelo presidente Lula igualmente se encaixa nesse figurino e é um reconhecimento da necessidade de recriar parcerias fortes e perenes com a América Latina.
O figurino pragmático permitiu nesses 100 dias que os críticos republicanos, irritados com o revisionismo em relação às violações aos Direitos Humanos pelo aparato de segurança, o classificassem como equivocado e ingênuo, apelidando o presidente de “democrata no estilo Jimmy Carter” – alfinetada dada a atuação desacreditada de Carter nesse sentido. Como avalia bem o historiador Allan Lichtman, inspirado no filósofo Isaiah Berlin, Obama não é um revolucionário, mas um liberal “uma raposa que sabe muitas verdades em vez de ser um rato que prefere saber uma só grande verdade”. Seria o oposto de Ronald Reagan, que advogava um Estado pequeno mas capaz de enfrentar e derrotar a União Soviética. Hoje são muitos alvos, mas a cautela é maior. A inspiração precisa caminhar de mãos dadas com algum realismo.
A guerra ao Terror é um ponto crucial para Obama: ao recolocar o foco sobre a Al Qaeda no Paquistão, o presidente afasta a política americana do modelo intervencionista e messiânico neoconservador que visto no Iraque. Em vez do sonho de moldar um novo Oriente Médio, o engajamento firme no papel da OTAN como mecanismo legítimo de enfrentamento das ameaças não-convencionais recuperou o capital moral erodido e o eixo principal do combate. Além do suporte claro ao Islã moderado, une força militar, cooperação mútua, ajuda econômica e pressão diplomática. Esta semana a secretária de Estado Hillary Clinton advertiu a comunidade internacional sobre a fragilidade paquistanesa como escudo de contenção às ações da Al Qaeda.
A reação foi o primeiro sinal de descontentamento com a aproximação do governo paquistanês com os rebeldes talibãs, marcada por um acordo de trégua na volátil fronteira afegã. A medida ameaça o aporte de verbas para projetos de desenvolvimento econômico que ali reviveria em parte o boom promovido pelos EUA e pela Arábia Saudita quando da guerra para expulsar os soviéticos. Dele vem a estrutura de ensino religioso islâmico wahabbita nas províncias tribais – a gênese globalizada da tribo de Osama bin Laden.
Para completar, os 100 dia de Obama na Casa Branca também sinalizaram um novo tom nas difíceis questões do conflito entre Israel e os palestinos. Nesse caso, o Internacionalismo Liberal do presidente tem diante de si um enorme desafio: a nova liderança israelense, de perfil mais duro, está exigindo muitas discussões internas antes que os dois governos conversem no mais alto nível. O presidente na prática não alterou o status quo anterior, mas moveu-se com extremo cuidado, principalmente em termos retóricos e táticos. O principal passo, nesse caso, foi a disposição de trazer, como contraponto aos falcões israelenses, iranianos e sírios como parte indispensável das discussões para um irrecorrível Estado palestino – outro ato retórico de grande impacto.
22/04: Memorandos da tortura
Se o clima entre os integrantes do governo Bush e a administração Obama não era bom, estragou de vez com a revelação dos memorandos da tortura, os famosos documentos assinados no departamento da Justiça que deram a sustentação jurídica e institucional à disseminação da tortura como prática entre os interrogadores da CIA. A divulgação pública dessas excrescências legais foi uma decisão corajosa - e a que mais debates despertou dentro do círculo próximo do presidente - mas necessária. Assim como foi também a afirmação de que aqueles que executaram tais torturas não serão submetidos ao escrutínio da lei, apenas os que deram a sua sustentação legal.
Em termos gerais, o que tais documentos continham era de domínio público, e eu mesmo várias vezes comentei aqui a respeito dessa "legislação". Ainda assim, ler a letra fria do que recomendavam os pareceres do subsecretário Jay Bybee e seu assistente John Yoo deixa explica porque a sociedade americana reagiu com tanta repulsa. Dois dos presos mais importantes da Al Qaeda - senão os mais importantes - o iemenita Abu Zubeida (tido como guarda-costas pessoal e motorista de Osama Bin Laden) e o kuwaitiano Khalid Sheik Mohammed (o idealizador e planejador do 11 de setembro) foram submetidos a nada menos que 268 sessões de afogamento, apenas uma das táticas recomendadas por Bybee.
Não vou entrar no mérito de quem são esses dois sujeitos. Zubeida integrava o circulo proximo de Bin Laden e atuou na preparação de muitos ataques. Já Mohammed tem nas costas nao só a morte de 2.300 pessoas em Nova York e Washington, mas a execução brutal do jornalista britânico Daniel Pearl. Merecem todo o rigor da Justiça. Mas a pratica da tortura nao só contra eles, mas contra outros prisioneiros - inclusive e principalmente inocentes presos por engano - transformaram os agentes de Bush e o próprio presidente em patrocinadores do terror. Olhando por um prisma histórico, a revelação dos memorandos igualou o texado e sobretudo o vice, Dick Cheney, a apóstolos da brutalidade como Mao, Stalin e outros - guardadas as devidas proporções. Os dois passaram a se equivaler em termos morais a aquilo que é mais detestável.
A afirmação de Obama abriu uma fenda junto aos republicanos. Cheney, o mais visado por ser o arquiteto e patrocinador principal das ações de contraterrorismo sem limites, foi a público exigir que a CIA liberasse também memorandos que comprovam que a tortura trouxe benefícios claros em termos do aumento de segurança aos Estados Unidos. Tal afirmação é cínica e duvidosa, já que é consenso mundial que confissões obtidas sob tortura não tem validade como instrumento de esclarecimento, apenas são uma tentativa desesperada de interromper o suplicio aplicado pelos interrogadores. Por sorte, a Suprema Corte negou o pedido do ex-vice.
E quanto aos responsáveis pelos memorandos - que estabelecem, por exemplo, a obrigatoriedade de um medico sempre presente às sessões de espancamento e afogamento para evitar que o prisioneiro morra, ou que só há tortura quando esta deriva de dano físico permantente - estes não estão livres. Ao contrário da anistia controversa adotada no Brasil - que sonega aos cidadãos o direito de conhecerem a sua verdadeira história - e da revogação da Lei de Obediência Devida, na Argentina, Obama deixou ao procurador-geral a decisão de processar ou não Bybee, seu sub, o secretário Alberto Gonzales e, porque não, autoridades acima deles como Cheney e Bush. Seria interessante ver como se comportariam numa corte tendo de se defender de advogados contratados por ex-prisioneiros de Guantánamo. Aliás, tal possibilidade não é defendida aqui apenas: um dos editoriais mais impressionantes dos jornais americanos sobre o caso foi publicado pelo The New York Times, e nele o principal diário americano defende um julgamento exemplar para todos (incluiu até Donad Rumsfeld, o secretário de Defesa, que "encomendou" a Gonzales a doutrina jurídica que pudesse reverter a falta de informações angariadas no campo).
De Gonzales pouco se sabe. John Yoo está ensinando leis em uma universidade da Califórnia - dá para imaginar que tipo de advogados ajuda a formar - e Steven Bradbury, outro arquiteto do horror, está desempregado. Mas Bybee, o principal acusado, tem endereço certo e conhecido. Pouco antes de os memorandos serem divulgados, foi empossado como juiz distrital em uma corte de apelações novaiorquina - presente de Bush. Está, portanto, no ambiente correto, só precisa trocar o púlpito de juiz pela cadeira dos réus. Essa hora ainda vai chegar, acredito.
Em termos gerais, o que tais documentos continham era de domínio público, e eu mesmo várias vezes comentei aqui a respeito dessa "legislação". Ainda assim, ler a letra fria do que recomendavam os pareceres do subsecretário Jay Bybee e seu assistente John Yoo deixa explica porque a sociedade americana reagiu com tanta repulsa. Dois dos presos mais importantes da Al Qaeda - senão os mais importantes - o iemenita Abu Zubeida (tido como guarda-costas pessoal e motorista de Osama Bin Laden) e o kuwaitiano Khalid Sheik Mohammed (o idealizador e planejador do 11 de setembro) foram submetidos a nada menos que 268 sessões de afogamento, apenas uma das táticas recomendadas por Bybee.
Não vou entrar no mérito de quem são esses dois sujeitos. Zubeida integrava o circulo proximo de Bin Laden e atuou na preparação de muitos ataques. Já Mohammed tem nas costas nao só a morte de 2.300 pessoas em Nova York e Washington, mas a execução brutal do jornalista britânico Daniel Pearl. Merecem todo o rigor da Justiça. Mas a pratica da tortura nao só contra eles, mas contra outros prisioneiros - inclusive e principalmente inocentes presos por engano - transformaram os agentes de Bush e o próprio presidente em patrocinadores do terror. Olhando por um prisma histórico, a revelação dos memorandos igualou o texado e sobretudo o vice, Dick Cheney, a apóstolos da brutalidade como Mao, Stalin e outros - guardadas as devidas proporções. Os dois passaram a se equivaler em termos morais a aquilo que é mais detestável.
A afirmação de Obama abriu uma fenda junto aos republicanos. Cheney, o mais visado por ser o arquiteto e patrocinador principal das ações de contraterrorismo sem limites, foi a público exigir que a CIA liberasse também memorandos que comprovam que a tortura trouxe benefícios claros em termos do aumento de segurança aos Estados Unidos. Tal afirmação é cínica e duvidosa, já que é consenso mundial que confissões obtidas sob tortura não tem validade como instrumento de esclarecimento, apenas são uma tentativa desesperada de interromper o suplicio aplicado pelos interrogadores. Por sorte, a Suprema Corte negou o pedido do ex-vice.
E quanto aos responsáveis pelos memorandos - que estabelecem, por exemplo, a obrigatoriedade de um medico sempre presente às sessões de espancamento e afogamento para evitar que o prisioneiro morra, ou que só há tortura quando esta deriva de dano físico permantente - estes não estão livres. Ao contrário da anistia controversa adotada no Brasil - que sonega aos cidadãos o direito de conhecerem a sua verdadeira história - e da revogação da Lei de Obediência Devida, na Argentina, Obama deixou ao procurador-geral a decisão de processar ou não Bybee, seu sub, o secretário Alberto Gonzales e, porque não, autoridades acima deles como Cheney e Bush. Seria interessante ver como se comportariam numa corte tendo de se defender de advogados contratados por ex-prisioneiros de Guantánamo. Aliás, tal possibilidade não é defendida aqui apenas: um dos editoriais mais impressionantes dos jornais americanos sobre o caso foi publicado pelo The New York Times, e nele o principal diário americano defende um julgamento exemplar para todos (incluiu até Donad Rumsfeld, o secretário de Defesa, que "encomendou" a Gonzales a doutrina jurídica que pudesse reverter a falta de informações angariadas no campo).
De Gonzales pouco se sabe. John Yoo está ensinando leis em uma universidade da Califórnia - dá para imaginar que tipo de advogados ajuda a formar - e Steven Bradbury, outro arquiteto do horror, está desempregado. Mas Bybee, o principal acusado, tem endereço certo e conhecido. Pouco antes de os memorandos serem divulgados, foi empossado como juiz distrital em uma corte de apelações novaiorquina - presente de Bush. Está, portanto, no ambiente correto, só precisa trocar o púlpito de juiz pela cadeira dos réus. Essa hora ainda vai chegar, acredito.
A declaração foi tão surpreendente que pegou a diplomacia internacional desprevenida. A singela admissão de erros declarada pelo presidente cubano endossa a tese de que homens de Estado às vezes se valem do lado comum de sua existência como fonte de alguma sabedoria. Assumir que os dirigentes do regime cubano são seres humanos que erram passa longe do figurino habitual de justificativas para excessos cometidos na eterna batalha contra o chamado imperialismo capitalista. A declaração de Raúl Castro na Cúpula das Américas, em Trinidad Tobago, foi recebida com relativo endosso pelo governo americano, que a condicionou como janela de diálogo para uma série de iniciativas e aberturas políticas exigidas ao governo de Havana. Não foi um gesto à altura do que havia sido dito por um dirigente de um país conflagrado pelo isolamento de décadas, em especial frente ao avanço da globalização – uma era em que a China já mostrou o caminho para essa abertura sem troca de modelo político.
Enquanto Raúl Castro declarava que Cuba e Estados Unidos poderiam discutir de igual para igual, o presidente Barack Obama deixou claro que há alguns que são mais iguais que os outros. O porta-voz da Casa Branca citou a libertação de prisioneiros políticos na ilha, a maior liberdade de imprensa e de expressão, além do fim da violação de correspondência de pessoas que mandam dinheiro para parentes como indicadores importantes da veracidade de intenções de Castro. A observação, embora soe como uma demonstração de arrogância dos Estados Unidos, é um movimento cuidadoso de forma a pavimentar uma aproximação sem atos de hostilidade ou sabotagem interna. Há uma comunidade importante e poderosa em termos políticos que teria tudo a perder caso o bloqueio econômico ao regime fosse suspenso como resultado de uma conversa iniciada como uma confissão de fraqueza. Os anticastristas radicados em Miami se transformaram em uma força tão representativa internamente que funcionaram por anos como o contraplano aos socialistas cubanos – a invasão da Baía dos Porcos mostrou o tamanho desse movimento. Seriam os tubarões rondando as fundações dessa nova ponte.
É preciso desmontar tal ambiente com extrema cautela, e essa é a razão pela qual os EUA citaram o condicionante sem estabelecê-lo formalmente, embora já tenham afrouxado o laço em situações do cotidiano comum – medidas como o abrandamento das restrições para viagens entre o país e a ilha caribenha, bem como das remessas de dinheiro proibidas pelo presidente George Bush. Permitiu também que companhias como a AT&T possam estabelecer serviços de transmissão de dados ou de telefonia para Cuba. A expressão otimista da secretária de Estado Hillary Clinton segue o modelo da política externa americana na era Obama, que considera a soma de gestos aparentemente superficiais como o pavimento seguro para finalmente acabar com cinco décadas de isolamento.
Aproximar Cuba dos EUA seria um grande acontecimento para o continente e para o encerramento de uma discussão retórica que por todos estes anos serviu, ora para um lado, ora para o outro, como sustentáculo para decisões sempre excludentes. Que o clima ameno do Caribe traga esse resultado histórico para a política internacional. O futuro agradecerá penhorado.
Enquanto Raúl Castro declarava que Cuba e Estados Unidos poderiam discutir de igual para igual, o presidente Barack Obama deixou claro que há alguns que são mais iguais que os outros. O porta-voz da Casa Branca citou a libertação de prisioneiros políticos na ilha, a maior liberdade de imprensa e de expressão, além do fim da violação de correspondência de pessoas que mandam dinheiro para parentes como indicadores importantes da veracidade de intenções de Castro. A observação, embora soe como uma demonstração de arrogância dos Estados Unidos, é um movimento cuidadoso de forma a pavimentar uma aproximação sem atos de hostilidade ou sabotagem interna. Há uma comunidade importante e poderosa em termos políticos que teria tudo a perder caso o bloqueio econômico ao regime fosse suspenso como resultado de uma conversa iniciada como uma confissão de fraqueza. Os anticastristas radicados em Miami se transformaram em uma força tão representativa internamente que funcionaram por anos como o contraplano aos socialistas cubanos – a invasão da Baía dos Porcos mostrou o tamanho desse movimento. Seriam os tubarões rondando as fundações dessa nova ponte.
É preciso desmontar tal ambiente com extrema cautela, e essa é a razão pela qual os EUA citaram o condicionante sem estabelecê-lo formalmente, embora já tenham afrouxado o laço em situações do cotidiano comum – medidas como o abrandamento das restrições para viagens entre o país e a ilha caribenha, bem como das remessas de dinheiro proibidas pelo presidente George Bush. Permitiu também que companhias como a AT&T possam estabelecer serviços de transmissão de dados ou de telefonia para Cuba. A expressão otimista da secretária de Estado Hillary Clinton segue o modelo da política externa americana na era Obama, que considera a soma de gestos aparentemente superficiais como o pavimento seguro para finalmente acabar com cinco décadas de isolamento.
Aproximar Cuba dos EUA seria um grande acontecimento para o continente e para o encerramento de uma discussão retórica que por todos estes anos serviu, ora para um lado, ora para o outro, como sustentáculo para decisões sempre excludentes. Que o clima ameno do Caribe traga esse resultado histórico para a política internacional. O futuro agradecerá penhorado.




