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As duas faces de Cuba

A história prega essas peças Por uma infeliz coincidência, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Cuba acabou manchada pela morte do dissidente político Orlando Zapata Tamayo. Assim, guayaberas e sorrisos nas fotos ao lado da liderança da ilha estarão para sempre associadas a um episódio que explicita a falta de liberdade no país e o silêncio brasileiro quando se trata do assunto. Após três meses de greve de fome na prisão, Zapata não resistiu. Nas palavras do presidente Raúl Castro, a culpa pela morte é dos Estados Unidos e não há tortura em Cuba. As duas afirmações não parecem conectadas com a realidade em torno do falecimento de um operário e bombeiro hidráulico cujo maior crime foi o de discordar. E de se manter fiel, até o fim, ao princípio em que acreditava, ainda que o recurso encontrado tenha sido tão extremo. Se estava preso, qual era a vinculação com a América capaz de embasar sua culpa?

O dissidente, considerado preso de consciência pela Anistia Internacional, estava em uma prisão e com a piora do quadro de saúde foi levado para uma UTI. Segundo um companheiro, a transferência – necessária pelo fato de o hospital da cadeia não estar aparelhado – só foi feita quando a situação se tornara irreversível. À medida em que a notícia corria pelo país e pelo mundo, recrudescia a ação do aparato de segurança, prendendo dissidentes que tentavam velar Tamayo. A cidade onde o enterro se daria, Holguín, ficou isolada, como se o impacto negativo pudesse ser confinado entre postos de controle e a ação do serviço secreto cubano.

É o outro lado da moeda oficial, aquela visível nas fotos das praias belíssimas de Varadero, ou do belo calçadão do Malecón. Há algumas semanas, turistas brasileiros que visitavam a ilha, como tantos outros atraídos pelo marketing da revolução, se surpreenderam ao ver que ícones como as farmácias populares estão sofrendo com falta de medicamentos. A informação chegou ao jornal depois de publicada uma reportagem contando que pacientes de um hospital para doentes mentais haviam morrido de hipotermia, uma reportagem do JB na qual se evidenciava a necessidade de algum tipo de abertura. É importante que o mundo saiba porque Orlando Zapata Tamayo recorreu a um recurso tão definitivo para expor sua luta.

O regime cubano deveria olhar seus dissidentes como aliados, não inimigos. Salvo raríssimas exceções, nenhum deles se arrisca publicamente a enfrentar o regime sonhando em restaurar o ambiente corrompido e americanizado da época de Fulgencio Batista. Da mesma forma, a maioria esmagadora não se imagina vivendo em uma Havana na qual a cidade símbolo de um sonho socialista aparece remoldada pelo estilo kitsch exagerado dos anticastristas neoliberais baseados em Miami. Estes são tão perigosos quanto os radicais que apostam em manter pessoas como Zapata amordaçadas pela força. Quem desafia a gerontocracia simbolizada pela transmissão de poder de Fidel Castro para seu irmão, Raúl, quer que o próprio regime encontre a saída para uma existência mais arejada, por isso mesmo mais segura e preparada para o futuro, especialmente para o futuro com os EUA e seu anacrônico bloqueio ainda nos calcanhares. Tal qual a ação decidida no caso de Honduras, o Brasil, sobretudo pelo carisma do presidente Lula, poderia estimular a liderança cubana a rever sua posição e esvaziar seus cárceres políticos. Seria um ótimo sinal para os cubanos e para o mundo, sem falar que daria sentido ao sacrifício questionável de Orlando Zapata Tamayo.

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AOS LEITORES

Em função de alguns comentários recebidos, um esclarecimento. Todas as mensagens enviadas ao blog são lidas e avaliadas pelo colunista. A maioria esmagadora vai para o site. A demora é em função do fato de as atualizações não serem diárias, e sim, quase sempre, semanais.

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As Malvinas e o perigo da guerra

Não é compreensível , à luz do atual estágio das Relações Internacionais, a decisão da Grã-Bretanha de insistir na pesquisa e exploração de petróleo no litoral em torno do arquipélago das Malvinas. A região é um dos pontos de disputa geográfica mais complicados do planeta, talvez o único sobre o qual exista realmente algum risco de nova confrontação. Este é, evidentemente um cenário extremo e indesejado, principalmente para o povo argentino, cuja derrota na guerra de 1982 ainda é uma ferida aberta. O governo do primeiro-ministro Gordon Brown, às voltas com campanha eleitoral, encontrou nesse tipo de questão um porto seguro para afastar o debate político de problemas internos, como por exemplo o desemprego, a crise econômica e a perda crescente de prestígio político daquele que já foi um império poderoso. É uma receita clássica desviar o foco do debate de forma a manter os temas delicados e comprometedores longe das páginas dos jornais.

As Malvinas foram ocupadas pelos britânicos em 1833. Para a Argentina, uma situação que os foros internacionais já deveriam ter resolvido, por vias pacíficas. O problema é que, pela mesma razão - embora, claro, com proporções muito diferentes – a ditadura do general Leopoldo Galtieri encontrou na invasão militar uma maneira de incendiar o nacionalismo dos argentinos e voltar o calor dessa chama para uma questão externa. Assim, a guerra suja, os desaparecidos, os sequestros políticos não continuariam a incomodar autoridades. Não por acaso, o símbolo dessa aventura desastrosa foi o capitão da marinha Alfedo Astiz, o anjo louro. Líder de um comando de forças especiais, ocupou uma das ilhas para acabar se rendendo ao primeiro ataque do inimigo. Astiz deveria ser o herói do regime, mas era um dos carrascos e torturadores mais eficientes e implacáveis. Hoje reencontrou o julgamento da história depois que a proteção legal foi derrubada no país. E frequenta o banco dos réus em seu papel verdadeiro.

A histriônica tentativa dos generais deu aos britânicos a certeza pétrea de que jamais as ilhas serão devolvidas. A descoberta de petróleo na região multiplicou seu interesse e despertou no Reino Unido o interesse pela solução de um problema histórico, a carência de fontes de energia. A exploração do Mar do Norte ajuda muito, mas as potencialidades no Atlântico Sul, impulsionadas pela descoberta do pré-sal brasileiro, tornaram todas as ilhas pontos estratégicos.

Ainda assim, é preciso manter a prudência e os pés no chão nesse debate. Enviar equipamento de pesquisa e exploração e autorizar essa operação, à revelia de decisões e recomendações da ONU é manifestar um desprezo à instituição criada justamente para equilibrar a vocação hegemônica com o direito à auto-afirmação. É esse o argumento aplicado pela presidente da Argentina Cristina Kirchner, ao cobrar tratamentos iguais a todos os países ligados ao princípio das Nações Unidas.

Antes que as brocas comecem a perfurar o solo sob o mar, criando um fato consumado para o qual existem reações possíveis de todos os níveis - algumas imprevisíveis - argentinos e britânicos precisam discutir seriamente a questão. Ter as ilhas de volta é, depois da guerra de 1982, virtualmente impossível. Então pelo menos que se faça um acordo no qual os dois lados saiam ganhando com a riqueza do subsolo. A paz agradece.

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Um livro definitivo sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão

Já li muita coisa sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão. Enquanto esta última ainda é um livro aberto, no qual cada lado vem reescrevendo as páginas diariamente, na terra de Saddam o tempo já nos permite algumas divagações conclusivas. Se for para mergulhar a esse ponto, então Guerra sem fim, do repórter americano Dexter Filkins, deve ser uma leitura obrigatória para ambos os cenários.

Verdadeiro, vertiginoso, crítico sem ser maniqueísta, intenso, o texto de Filkins transmite o gosto de fel imposto aos combatentes pela adrenalina da batalha. Ao contrário de muitos de seus colegas que criaram versões heróicas para a campanha que manchou a história dos EUA, estamos diante de uma rara demonstração de isenção profissional. Detalhe: não há frieza, pelo contrário. Ninguém encontrará nessas páginas discussões estéreis sobre a necessidade ou não da guerra. Sobram medo e dor.

Dexter Filkins é um frontman nato. Isso significa ler capítulos eletrizantes como aqueles em que descreve a batalha de Falluja, cidade do triângulo sunita que chegou a estar em poder de um califado islâmico associado à rede Al Qaeda – liderada no país à época pelo sanguinário Abu Musab Al Zarqawi. Ao lado do parceiro de cobertura, um fotógrafo australiano, o repórter produz relatos do episódio mais sangrento do conflito, aos quais a assepsia ordenada pelo governo Bush à cobertura não alcançou sucesso. Corremos com o autor por entre as vielas poeirentas, sentimos e ouvimos as balas dos mujaheddins sibilando sobre sua cabeça, atingindo paredes e matando pessoas. Isso é o Iraque.

Por esse viés “participativo”, há uma legitimação da morte jamais vista, mas um elemento essencial em qualquer relato de guerra desde a antiguidade. Aqui os marines morrem, sangram, tem maxilares arrancados por balas, pernas destruídas em explosões, cabeças abertas em horríveis ferimentos, trocam tiros com inimigos que não veem, frustram-se por não entender contra o que ou contra quem lutam. Erram e acertam. Em tempo: no livro os marines também matam, e muito, sobretudo rebeldes dispostos a morrer pela fé. É fácil nos sentirmos atônitos diante do desfecho de muitos desses episódios.

Dexter Filkins não glorifica nem os marines como heróis libertadores do Iraque, nem seus inimigos como arautos da resistência. São soldados profissionais lutando pela sobrevivência em uma guerra que jamais compreenderam. Nesse livro, a estatística militar, sempre dando ar impessoal às baixas inimigas, cede lugar a nomes, descrições, perfis. A Al Qaeda tem rosto. E ele costuma ser tão comum que se torna dissimulado.

Risco, aliás, é um elemento chave na narrativa, tanto quanto a ironia – como no comunicado da rede terrorista enquadrando duas células que foram “ao martírio” nos mesmos alvos e reivindicavam, ambas, a glória. Capturado pelos guerrilheiros xiitas em Najaf, Dexter e o fotógrafo escaparam de um tribunal islâmico por milagre. Mas o texto não espuma de ódio por isso. Em várias entrevistas, o repórter expõe nos personagens os elementos que tornam o Iraque o maelstrom da civilização ( rodamoinho mítico que os nórdicos acreditavam sugar barcos no Mar do Norte).

Tudo é engolido pelo nonsense, da relação com os americanos à tentativa de se comprender os desvãos do pensamento árabe, tão saturado de violência. E, a maior ironia: convidado por Ahmad Chalabi – vigarista que quase virou premier do Iraque – a acompanhá-lo a Teerã, Filkins descreve a visita ao espetacular museu de arte contemporânea mantido com o acervo tomado a Farah Diba, mulher do deposto xá Reza Pahlevi. Uma das obras mais admiradas pelos partidários de Ahmadinejad é de Marc Chagall. Que era judeu. Vai entender.

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Afeganistão - O talibã dá as cartas

impressionante não só as imagens como a própria magnitude do ataque dos talibãs ao coração do governo afegão, em Cabul. Ao ver as cenas, e a própria situação em si, não pude deixar de traçar um paralelo com a ofensiva do TET, em 1968, quando o Viet Minh infiltrou centenas de homens na capital do Vietnã do Sul, Saigon, para um ataque surpresa. Embora os livros falem que os objetivos militares naquela época não foram alcançados pelos vietcongs, ou seja, nenhuma posição importante foi ocupada, o simples fato de que inimigos conseguiram chegar em carros comuns e invadir a embaixada dos Estados Unidos já é uma importante vitória em si mesma. Os atacantes foram todos mortos ou capturados, é verdade, mas para as páginas da história o que conta não é isso, sobretudo depois de tantos anos: é o fato de que a operação expôs um grau de vulnerabilidade do regime sul-vietnamita que até então o Ocidente não era capaz de pressupor. Os aliados dos EUA na ocasião imaginavam a presença militar maciça como uma espécie de muralha. A Ofensiva do TET revelou que a muralha, vista de perto era um monte de pedras cheias de buracos e passagens.

O que aconteceu em Cabul reforça a sensação de que a guerra no Afeganistão, a verdadeira guerra ao terror islâmico, não caminha como os estrategistas planejavam. O fato de os talibãs terem conseguido desfechar um ataque direto e pesado, na capital, contra o presidente Hamid Karzai deixa claro que o pesadelo do Sudeste Asiático, em termos históricos pode ter um paralelo no século 21. Além de o Afeganistão ser um país desde tempos imemoriais inconquistável, tal ousadia demarca uma divisão indigesta no front; que deixa de ser as províncias hostis do Baluquistão, na região tribal fronteiriça com o Paquistão, para se disseminar dentro da própria capital. Se antes das operações de combate mais efetivas a milícia fundamentalista dominava o interior do país, deixando a capital sob controle da OTAN, agora temos a certeza de que a OTAN está cercada de inimigos invisíveis por todos os lados. O tamanho da infiltração em Cabul ainda não pode ser medido, mas é evidente que é maior do que a capacidade das tropas ocidentais de utilizarem seu aparato tecnológico para reduzi-la. O soldado da coalizão já olha para o policial afegão ao seu lado sem saber se o sujeito é aliado ou inimigo. Como ocorria com os sul-vietnamitas.

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Caso Sean: etnocentrismo ou complexo de inferioridade?

Peço desculpas aos leitores que postaram comentários a respeito do artigo sobre o caso Sean e o marketing. Por uma falha no meu sistema aqui os comentários não foram para o ar, dando a entender que são retidos. Acabei de publicar todos com grande satisfação, sobretudo pela pluralidade das análises. Continuo com a firme convicção de que David Goldman tem o direito de criar seu filho biológico, tanto quanto a obrigação de reconhecer quea mãe do menino, mesmo o tendo sequestrado, não teve o direito cassado ainda que post-mortem. Porisso é importante que a decisão final estabeleça o espaço de cada um muito claramente. Sean veio para o Brasil contra a vontade do pai, mas era inegavelmente feliz com a família da mãe. Se o será com o pai é uma incógnita que a campanha organizada por David junto à mídia dos EUA deixou espertamente de abordar.

Também reafirmo a minha crítica quanto à forma colonialista, ou imperialista, para usar um termo gasto mas adequado, como a imprensa americana costuma tratar episódios dessa natureza. Citei o caso dos dois pilotos americanos responsáveis pela queda do Boeing da Gol por ter lembrado da campanha montada por redes de tevê de Atlantic City, onde ambos viviam, em torno do "resgate" de dois "heróis" nacionais mantidos em cativeiro em um estranho e selvagem país da América do Sul. Quem leu o artigo desrespeitoso e irônico escrito pelo repórter do The New York Times que os acompanhava a bordo - e que mentiu em juízo no Brasil - sabe bem do que estou falando.

Joe Lepore e Jean Paul Paladino não estavam presos no Rio, como os jornais e as tevês fizeram questão de martelar por 45 dias, mas ficaram confinados no melhor hotel da praia de Copacabana por decisão do proprio consulado, que "temia por sua segurança". É esse o comportamento que funciona como gasolina na fogueira. Ninguém atacaria os dois pilotos na rua por considera-los cúmplices na morte de 199 pessoas inocentes. Este não é um país de selvagens. Eles seriam tratados como protagonistas de um dos mais tristes e lamentáveis episódios da aviação brasileira e deveriam ter continuado, como estavam à disposição da Justiça brasileira enquanto o processo criminal - que acabou arquivado - estivesse correndo. Não eram, não são, e nunca serão heróis. Tiveram um privilégio resultante da pressão oficial sobre a leniente chancelaria brasileiram, privilégio esse que permitiu a dois sujeitos diretamente envolvidos em quase 200 mortes escaparem de um indiciamento correto por homicídio culposo. Isso jamais foi citado na tevê americana. Tanto nesse caso quanto no de Sean, a justiça local pouco importa.

Vale lembrar que o problema de David Goldman é parecido, embora com background diferente. Ninguém envolve o Departamento de Estado em uma polêmica de nível internacional dessa se não convence os diplomatas de que o cidadão americano é refém e se encontra em tamanho perigo que vale a pena arriscar até arranhar relações estáveis com outros governos em nome de uma intervenção inoportuna e inconveniente, uma vez que a Justiça de cada país é soberana. É uma questão de escala dos problemas; Brasil e EUA tem contenciosos muito mais sérios e delicados para serem discutidos no nível da secretária de Estado do que a disputa da guarda de uma criança. Mas Hillary Clinton também enxergou ganhos políticos domésticos nesse envolvimento, então que se dane o fato de se intrometer onde não há espaço para tanto.

Sean, aliás, é cidadão brasileiro também. Mas isso não faz nenhuma diferença para os aliados de David na carriére ou nas redações. O que valeu no caso foi o bom e velho etnocentrismo que transforma cada americano fora de suas fronteiras em um herói independentemente do que esteja ocorrendo à sua volta, ou do direito do outro lado. David Goldman montou um site no qual pedia ajuda para recuperar o filho. Fechou negócio com a NBC em troca do jatinho e da entrevista exclusiva. Agora está processando a família materna do próprio filho para recuperar o que gastou com o processo, sempre batendo na tecla de que o menino foi "salvo" de um destino menor do que o merecido a todos os que nascem em solo americano. Como empreendedor, segue o espírito dos "founding fathers". Vai acabar rico.


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