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08/07/2010 - 17:50 | Enviado por: marceloambrosio
O título em inglês faz referência ao vídeo de 40 minutos que narra a horrpiliante execução de mais de 15 civis iraquianos pela tripulação de um helicóptero americano em Bagdá. Quem procurar no YouTube poderá ve-lo no site Wikileaks em duas versões, a compacta e a completa. Quando recebi esse vídeo, há uns três meses, fiquei estarrecido com as cenas. Hoje, com os ventos da era Obama soprando as cinzas da Pax Americana de Bush, acompanhar uma demonstração de selvageria, indiferença com o próximo e brutalidade como essa é algo de impressionar. Como também foi a decisão do comando do exército americano de punir o autor do vazamento para a imprensa e não os oficiais que praticaram tais atos. Na avaliação dos militares, quem comandou a chacina não fez nada de errado, apenas seguiu as chamadas "Rules of Engagement". Agiram autorizados por um superior - e isso fica comprovado na cena. O que choca mais, além da impunidade da matança, é a comprovação que mesmo em um governo em tese com disposição mais democrática e menos hegemônica que o de Bush, o esprit de corps dos militares prevaleceu sobre o valor da vida iraquiana.
Dois dos mortos eram jornalistas iraquianos que estavam trabalhando para a agência Reuters. Acho até que já comentei sobre este caso aqui. Mal treinada ou obcecada por um inimigo que - tal qual no Vietnã - se confunde com a população, o comandante do helicóptero e seu artilheiro identificam um grupo de civis que conversava com a equipe como insurgentes. A câmera fotográfica é identificada como uma arma. Depois de alguma insistência, o comando dá a ordem e começa a matança. O fotógrafo da Reuters tenta escapar mas é caçado pelo artilheiro até cair morto. Já o repórter, depois de algum tempo imóvel, acorda e tenta a todo custo se levantar. Uma van que se aproxima tenta socorre-lo. Desta vez, não há nada que possa ser confundido. Duas crianças estão no banco dianteiro do veículo. Novamente o comando dá a ordem de atirar e todos são fuzilados. Guiados pelo helicóptero, jipes com marines chegam ao local para examinar os mortos. Um dos soldados descobre que uma das crianças dentro do carro ainda está vida e pede para que a levem correndo para o hospital na Zona Verde. Enquanto caminha para o seu veículo, o oficial no rádio dá ordem para que a menina seja levada a um hosital iraquiano, cuja precariedade é conhecida. Lógico, já que na base dos EUA o caso abriria uma investigaçao praticamente imediata.
A decisão do comando do exército é ruim para a imagem dos EUA de Obama. Tinha mais a ver com a figura carrancuda do vice de Bush, Dick Cheney, este sim, uma das criaturas mais sinistras que já se viu na face da terra. Pior do que punir quem evitou que aqueles quinze mortos fossem computados pelos soldados como inimigos abatidos, é ter a ideia de que tais crimes não merecem punição. As regras de engajamento em combate, ainda mais em uma situação de área civil, na qual nenhuma das pessoas enquadradas como alvo fez qualquer ameaça contra o helicóptero, não foram cumpridas. Se tivessem sido, não haveria uma fuzilaria, mas uma vigilância em cima de sinais de hostilidade. O jornalista da Reuters foi atingido quando estava falando no celular. Se ameaçava os soldados com algo, era com a sua palavra.
São casos assim que alimentam a comparação com o Vietnã. A missão no Iraque, que já era espúria antes de ser iniciada, terminou quando a tripulação executou pessoas inocentes sem uma real noção do que procurava combater. Isso é um sinal de que, como no Sudeste Asiático, as tropas de Washington continuam não conseguindo reconhecer rebeldes infiltrados entre os civis com quem convivem. E aí, todos se transformam em inimigos em potencial. E são condenados por isso. No conflito encerrado nos anos 70, os americanos deixaram a região com o gosto da primeira derrota militar de grande porte das forças de seu país. Decisões como processar quem vazou a informação só comprova que, embora tenha um discurso menos beligerante, Obama permanece reefém dos seus militares em casos dessa natureza.
21/06/2010 - 00:07 | Enviado por: marceloambrosio
À primeira vista, o título é tão promissor quanto as credenciais do autor. Reflexões sobre um século esquecido: 1901-2000 chega antecedido pelo impacto do excepcional Pós-guerra, no qual o historiador britânico Tony Judt conseguiu, com rara felicidade, descrever a segunda metade do século mais violento de que se tem notícia com fluidez, naturalidade e coerência. O novo trabalho evoca ao leitor a possibilidade de uma nova leitura dos mesmos fatos e consequências, os quais transformaram profundamente as sociedades. O estilo direto de Judt, sem maneirismos úteis para os que privilegiam forma e conteúdo, encanta já no prefácio.
Mas a questão do livro é filosófica. Embora seja apresentado como um caleidoscópio no qual podemos observar o mundo sob diferentes e nunca repetidos desenhos, há nele uma pequena armadilha: o volume, com quase 500 páginas, é o resultado da compilação de 24 ensaios escritos por Judt entre 1995 e 2006 para publicações respeitáveis e díspares em termos de público alvo como o New York Review of Books, o Ha´aretz e a revista Foreign Affairs.
O lançamento do livro envolve um pouco o drama pessoal do autor, diagnosticado em 2008 com esclerose amiotrófica lateral, uma doença degenerativa. Assim, não deixa de ser importante poder depurar o pensamento de um historiador objetivo a partir da condensação do pensamento costurado no elemento comum do cenário histórico, social, político, internacional, da época.
E mais: é a visão de um período riquíssimo – mesmo negativamente – organizada em torno da trajetória de nomes como Albert Camus (o intelectual com raízes argelinas e seu sofrimento interior de colonizado na França), Hannah Arendt (por sua clarividência em delimitar o mal dentro de cada um e a soma desse todo, por exemplo, no nazismo), ou ainda Arthur Koestler (“mais importante intelectual anticomunista na segunda metade do século 20”) e Eric Hobsbawn (por sua vinculação cega ao marxismo). Nem todos os ensaios são favoráveis aos homenageados. O dedicado a Louis Althusser, por exemplo, não esconde o espanto pela aceitação de ideias que ele, Judt, considera despropositadas. Há mais: Kissinger, João Paulo II, a Guerra dos Seis Dias, e por aí vai.
No fundo, a compilação é bem intencionada por conseguir demonstrar que uma década depois do encerramento do século, aqueles 100 anos parecem ter sido relegados ao esquecimento, em uma amnésia acelerada pela tecnologia e pelo conforto. A questão é se a constatação é válida, a conclusão nascida da reunião de textos que não foram escritos originalmente com esse fim não passa muita verossimilhança. Dizer que o mundo hoje perdeu o interesse pelo debate em torno do bem maior ou do ativismo social, reproduzido nos ensaios, é fácil. Mas não há como concordar muito com a conclusão de que a leitura nos levaria de volta em uma espécie de resgate atemporal. Isso seria atribuir aos escritos um significado que, em sua gênese e separadamente, jamais puderam ter.
Tony Judt é um historiador crítico e detalhista. Ressalvando a intenção perigosa de uma análise de conjunto, seus textos explicam o século de forma independente, desconhecendo a necessidade de uma conclusão. Como autor, o britânico tem e exerce esse direito. Assim como o leitor, do outro lado, tem o direito de se incomodar por não alcançar a mesma conclusão. O melhor título é mesmo o do prefácio, “O mundo que perdemos”. Mas é preciso acreditar que isso pode ter sido em prol de uma boa causa. Agarrar-se a certas lembranças nem sempre é saudável.
18/06/2010 - 15:59 | Enviado por: marceloambrosio
A pressão internacional está, ao que tudo indica, surtindo efeito sobre o governo israelense. Isolado pela confusão no ataque ao Mavi Marmara em águas internacionais, Benjamin Netanyahu decidiu aliviar as restrições impostas às mercadorias que podem ingressar em Gaza. Em um cenário tão adverso, não deixa de ser uma fresta de esperança. Ainda falta muito, é verdade: tenho acompanhado os informes oficiais que recebo a respeito do volume de mercadorias entregues à população palestina e, se em um momento parecem representar um volume expressivo, em outro me dou conta de que é preciso muito mais ainda para atender às necessidades mais prementes - uma proporção estimada em 20 vezes mais do que é entregue. Vejo também que o critério de entrega depende muito do que pode ser feito com o material. Neste caso, salta aos olhos o veto à distribuição de cimento e vergalhões de ferro, necessários à reconstrução de boa parte da infraestrutura urbana de Gaza destruídos pelas tropas e pela aviação israelense na última invasão, no início do ano passado. Há um caso, por exemplo, de um hospital que não pode funcionar porque o elevador que transportaria os pacientes ao centro cirúrgico foi vetado pelas autoridades militares israelenses.
O medo de que o material caia em mãos do Hamas não é infundado. Mas fico imaginando o que os militantes barbudos xiitas poderiam fazer com a caixa de Pikachus de pelúcia que retiraram do Mavi Marmara. Ou com a carga de cadeiras de rodas que estava a bordo - quanto a isso nunca se pode subestimar a criatividade de quem consegue transformar qualquer coisa em bomba. Outro informe do governo israelense deixava claro que o Mavi Marmara, de bandeira turca, não levava em seus porões ajuda humanitária aos habitantes de Gaza. Na verdade o texto do comunicado distorce o seu próprio conteúdo. Ao justificar a ação de pirataria internacional com base em uma ação preventiva, as autoridades afirmam que o conteúdo dos porões estava mal acondicionado e não poderia ser sequer aproveitado pelos seus destinatários. O argumento insinua que o lote, na realidade, servia apenas como uma espécie de justificativa para a tentativa de rompimento do bloqueio por parte dos ativistas internacionais. Que a carga real estaria nos outros navios, que desistiram de desafiar o bloqueio e aceitaram parar no porto de Ashdod. Deixo o benefício da dúvida, ressalvando que, mesmo assim, a decisão de desafiar uma medida sem qualquer respaldo legal como esse bloqueio é legítima.
É possível que o abrandamento do bloqueio traga mais benefícios e reduza a tensão na região. Foi uma enorme estupidez a ação de invasão ao navio, porque além de truculenta - os nove mortos eram turcos e esse risco tinha de ter sido levado em consideração - ela retirou a legitimidade da argumentação em torno do controle do Hamas sobre o material que é doado à população palestina. Acho o grupo xiita tão ruim quanto Netanyahu e seu ministro-trapalhão, Liberman, mas os líderes árabes ali parecem ter uma noção melhor do jogo político que podem fazer apenas representando uma ameaça, não a executando em termos reais. Quando decidiu chutar as leis - que como integrante da ONU é obrigado a obedecer - Israel tentou um gesto de impacto para atender ao seu público interno - no qual inclui, pelo poder do lobby, as poderosas organizações sionistas americanas - porém sem medir o alcance do estrago quanto aos seus relacionamentos internacionais. O confronto funcionou como uma bela peça de marketing para o Hamas muito mais que uma defesa da segurança nacional em seu caráter simbólico. Bastaria terem permitido a transferência da carga, sob supervisão de pessoas como os dois integrantes da comissão criada para apurar o incidente, no limite das águas terrritoriais para barcos palestinos que estaria tudo resolvido, ao menos em tese.
Nessas horas lembro sempre da frase que Ho Chi Minh costumava dizer aos americanos que cobravam dele o custo em vidas humanas e equipamento de sua campanha contra os EUA. "Não importa quantos homens eu perca e quantos vocês percam. A questão é que eu vou ganhar essa guerra e vocês vão perder". No fundo, o que o Hamas faz é aplicar essa velha tática dos manuais sessentistas, drenando recursos valiosos do inimigo que fariam falta na infraestrutura, nas escolas, em várias outras áreas, e evitando choques diretos que, como foi visto, não trazem nenhum ganho político ao grupo. O Hamas não é confiável, mas pior do que lidar com um adversário assim é mante-lo em regime de isolamento absoluto, pois caem das diferenças entre radicais e moderados dentro do movimento e surgem condições para aventuras beligerantes que só fazem piorar o quadro político geral. Em vez de ver a ONU como inimiga mortal, Israel bem que poderia usar o organismo para isolar-se, aí sim, das manobras dos xiitas tanto quanto dos seus patrocinadores iranianos.
PS: fiquei sem tempo de escrever, mas não quero deixar passar em branco. Deplorei totalmente a manipulação feita pela agência Reuters em uma das fotos tiradas durante o confronto no Mavi Marmara. A que foi distribuída tinha um dos ativistas segurando uma faca ao lado do soldado israelense caído. Nas que a imprensa recebeu essa informação fora apagada. É um absurdo que isso tenha acontecido, porque o fato de um dos ativistas estar portando uma faca era perfeitamente compreensível diante da situação. Podia ser considerado uma prova de que os turcos não eram tão pacifistas quanto queriam parecer, mas seria menos ingênuo e antiético do que apagar parte da cena.
07/06/2010 - 00:38 | Enviado por: marceloambrosio
Acompanhei o desenrolar da viagem do MV Raquel Corrie, integrante da flotilha da paz, a Gaza. Como era de se esperar, o navio batizado em homenagem a uma pacifista americana atropelada propositadamente e morta por um buldozer do exército israelense não pode chegar ao seu destino. Ainda em águas internacionais, foi abordado por soldados de Israel, que invadiram a embarcação, detiveram seus tripulantes e apresaram o barco, repetindo o ato de pirataria na semana passada, levando- ao porto de Ashdod. Lá, a carga com ajuda humanitária foi desembarcada, analisada e apreendida. O regime de Netaniyahu e Liberman quer impedir que o Hamas tire proveito dessa ajuda humanitária - e é ingenuidade achar que a organização árabe não usa essa tática. Os dois antagonistas se equivalem pelo aspecto moral. Um pelo método, outro pelo princípio.
Hoje li que Netanyahu rejeitou o pedido de uma investigação internacional a respeito dos incidentes que culminaram com a morte de 9 tripulantes turcos e o desaparecimento de outros seis, todos do MV Marmara, que também integravam a flotilha da paz. Iara Lee, a cineasta brasileira que integrava a tripulação de "terroristas", como o racista Liberman classificou todos a bordo, contou que os militares israelenses que invadiram seu navio atiraram em ativistas feridos. Ouvi isso em seu depoimento à Globo, mas não vi repercussão dessa acusação. Também não se falou muito desses que desapareceram. É uma pena, porque isso torna ainda mais grave tanto o episódio sob o ponto de vista do direito internacional quanto da sua aplicação penal.
Os piratas fardados da IDF mereciam estar no banco dos réus no Tribunal Penal Internacional, fazendo companhia ao pirata somali capturado pelos americanos em uma operação de resgate no Chifre da África. O fato de o regime de Israel rejeitar uma investigação independente, que seria conduzida por um perito irlandês em direito marítimo, é a melhor atribuição de culpa para a formação das responsabilidades. Quem não deve, não precisa temer, mas nesse caso, as autoridades israelenses assinaram uma confissão de culpa, contrariando todo o esforço de relações públicas e defesa conduzido na semana passada.
Eu mesmo recebi, de diferentes fontes e várias vezes por dia, emails para ajudar a "explicar" os incidentes sob a ótica de quem cometeu o delito. Um deles, inclusive, rogava para que judeus de todas as listas dessem page views a vídeos oficiais postados no YouTube, já que o site iria retirar do ar, "por falta de acessos", as imagens que traduziam a versão de Israel. Se ninguém queria ver tais imagens, é porque elas não acrescentariam credibilidade à explicação para a selvageria.
O direito de defesa é importante, devo ressaltar. E justamente dado o esforço das embaixadas, federações, de certos blogueiros engajados, deveria conduzir à formação de provas para que os israelenses chegassem à essa investigação de forma a poderem sustentar a sua versão. Como os EUA estariam na comissão também, Israel já saberia de antemão que nenhuma medida mais concreta de reprovação sairia desse inquérito. No máximo, os militares envolvidos seriam acusados e encaminhados a uma corte interna para julgamento.
Ainda acho que a repulsa dentro de Israel ao que aconteceu acabará funcionando para ajudar a reprimir a fúria corsária do governo mais truculento, inábil, racista e inconsequente que o Knesset já formou. Rogo para que os israelenses que protestaram veementemente - vi a capa do Haaretz nos dias seguintes ao ataque - continuem a exercer tal pressão. É preciso expurgar o país dos Netanyahus, Baraks, Olmerts e Libermans da vida.
31/05/2010 - 12:10 | Enviado por: marceloambrosio
Não há justificativa para o ato de selvageria cometido por militares israelenses contra o comboio marinho de ajuda humanitária que estava seguindo para a Faixa de Gaza. A ação foi um ato de corsários - piratas a serviço de um governo, em uma definição simplista do termo - não interessados em moedas de ouro, mas em impor, pela força, um estado cada vez mais isolado em seu próprio rancor. Israel foi uma criação da ONU para encerrar a diáspora judaica em um momento em que o mundo se descobria diante do horror dos seis milhões de executados em câmaras de gás nazistas pela Shoah (o Holocausto). A culpa pela omissão da Europa diante dos horrores ajudou a consolidar a ideia de que era importante libertar o povo judeu dando-lhes um país para morar. Um pleito justíssimo que o Brasil, com Oswaldo Aranha, ajudou a tornar realidade.
Hoje, ao ver as imagens gravadas pela rede Al Jazeera do ataque não pude conter o espanto e a indignação. A impunidade absoluta e o cinismo hipócrita que percorrem a espinha dorsal do estado israelense hoje firmaram o pacto de consciência que transformou todo soldado israelense em um assassino em potencial. Não pela índole, o que seria uma generalização injusta com os muitos cidadãos daquele país que reprovam esse comportamento paranóico e agressivo, mas pela doutrina. Os comandos que invadiram um navio turco em águas internacionais são a síntese do brand que Israel - e isso vem da progressiva depuração do ideal de Teodor Herzl - faz força para passar ao mundo, como uma mensagem permanente. Em um noticiário que andou ocupado pelo acordo entre Brasil, Turquia e Irã, claramente reprovado pela aliança EUA-Israel, o ataque dessa segunda-feira é uma espécie de resposta ao mundo. Mais que isso, foi uma cusparada. A justificativa que recebi em um comunicado pela internet é a de que os soldados reagiram a um ataque com "facas e revólveres". Ainda que fosse, não seria o caso? O navio turco foi invadido por tropas que não tinham qualquer mandato para tal. Eu teria reagido da mesma forma.
É curioso acompanhar as repercussões do ataque. Principalmente dos Estados Unidos: duas vezes humilhado pelo governo de Benjamin Netaniyahu, o presidente Barack Obama não pode correr o risco de ver, pela terceira vez, seu único aliado incondicional no Oriente Médio o ridicularizar. Assim, a primeira observação de um porta-voz da Casa Branca foi a de lamentar o ocorrido, porém, em vez da habitual condescendência dada a permanente ameaça dos vizinhos que consta invariavelmente de qualquer comunicado sobre incidentes na região, desta vez o porta-voz disse que "os EUA estavam tentando compreender o ocorrido". Quando se fala compreender entende-se montar uma estratégia de relações públicas que possa reverter o repúdio mundial e, ao mesmo tempo, conter qualquer tentativa de apuração do ocorrido no âmbito da ONU. Mas a batalha será pesada.
O maior erro desse ataque, além da operação em si, com dez mortos, é o fato de que Israel atirou no próprio pé. A Turquia está no Conselho de Segurança como membro temporário e é um importante aliado que o governo de Tel Aviv possui na região. O comércio entre os dois países é intenso apesar de a população turca, majoritariamente muçulmana, não ser muito simpática aos atos israelenses. Hoje, o embaixador israelense em Ancara foi chamado a dar explicações e o governo turco emitiu comunicados com termos duríssimos. Se há um país hoje que pode ser classificado como "rogue nation", é Israel.
31/05/2010 - 00:13 | Enviado por: marceloambrosio
A qualificação dada pelo ministro Celso Amorim como “infantil”, à ideia de um estremecimento nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos é a percepção do diplomata. Quem lida no intrincado meandro desse jogo, no qual aparências muitas vezes significam mais que palavras, estremecimento é algo muito pior e mais complicado. Na estável ligação entre governos americanos outras rusgas dessa natureza já ocorreram. Esta, no entanto, é mais profunda, como uma discussão que azeda a conversa por algum tempo, embora os dois lados saibam que a amizade não foi quebrada. Assim, se por um lado a diplomacia crê que é infantilidade acreditar em um arranhão, a sociedade brasileira acaba tendo uma visão mais realista desse choque. O poder de liderança americano, nesse caso, não só foi posto em xeque pelo Brasil, como desmoralizado não por um eventual resultado favorável do acordo, mas pelo fato de ter sido a diplomacia de um país do BRIC a responsável pela fresta de diálogo em um ambiente opaco e refratário a mais conversas – ideal para aventuras belicistas com início definido e encerramento imprevisível.
A reação de soberba da secretária de estado Hillary Clinton, e a própria irritação de Amorim ao sair da última reunião com ela antes da ida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã mostram que não é de todo incoerente crer que, daqui para a frente, a conversa entre Washington e Brasília será em outro tom. Para começar, não se pode chancelar como infantilidade a atitude diante do fato de que o presidente dos EUA, Barack Obama, chancelara o acordo e o texto obtido por Lula e Tayyip Erdogan junto ao instável Mahmoud Ahmadinejad contemplava essas sugestões.
Pensando assim, percebe-se que o clube das potências criou para si um modelo de gerenciamento das crises que não considera o direito ao uso da energia nuclear para fins pacíficos. E que ao exigir para si o monopólio dessa matriz como uma concessão aos outros países nada mais faz do que reapresentar o velho padrão colonialista vestido com um figurino mais digital e disfarçado de ambientalismo responsável. A promessa de Obama de lutar por um mundo sem armas nucleares virou um sofisma. Faltou, na frase, usar a palavra “outras”.
O Brasil não precisa, na realidade, de um assento no Conselho de Segurança da ONU. Luta por isso sabendo que tem direito de criticar o modelo do pós-guerra embolorado por rearranjos internacionais e pelo pragmatismo econômico que esgarçou as blindagens ideológicas. Tem plena noção que os EUA e as outras potências vão bloquear esse caminho por terem influência a perder. Não importa que jamais aconteça, o desgaste para manter o privilégio relativiza o poder de influência desses atores. O Brasil já tem o seu lugar garantido.