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Um livro definitivo sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão

Já li muita coisa sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão. Enquanto esta última ainda é um livro aberto, no qual cada lado vem reescrevendo as páginas diariamente, na terra de Saddam o tempo já nos permite algumas divagações conclusivas. Se for para mergulhar a esse ponto, então Guerra sem fim, do repórter americano Dexter Filkins, deve ser uma leitura obrigatória para ambos os cenários.

Verdadeiro, vertiginoso, crítico sem ser maniqueísta, intenso, o texto de Filkins transmite o gosto de fel imposto aos combatentes pela adrenalina da batalha. Ao contrário de muitos de seus colegas que criaram versões heróicas para a campanha que manchou a história dos EUA, estamos diante de uma rara demonstração de isenção profissional. Detalhe: não há frieza, pelo contrário. Ninguém encontrará nessas páginas discussões estéreis sobre a necessidade ou não da guerra. Sobram medo e dor.

Dexter Filkins é um frontman nato. Isso significa ler capítulos eletrizantes como aqueles em que descreve a batalha de Falluja, cidade do triângulo sunita que chegou a estar em poder de um califado islâmico associado à rede Al Qaeda – liderada no país à época pelo sanguinário Abu Musab Al Zarqawi. Ao lado do parceiro de cobertura, um fotógrafo australiano, o repórter produz relatos do episódio mais sangrento do conflito, aos quais a assepsia ordenada pelo governo Bush à cobertura não alcançou sucesso. Corremos com o autor por entre as vielas poeirentas, sentimos e ouvimos as balas dos mujaheddins sibilando sobre sua cabeça, atingindo paredes e matando pessoas. Isso é o Iraque.

Por esse viés “participativo”, há uma legitimação da morte jamais vista, mas um elemento essencial em qualquer relato de guerra desde a antiguidade. Aqui os marines morrem, sangram, tem maxilares arrancados por balas, pernas destruídas em explosões, cabeças abertas em horríveis ferimentos, trocam tiros com inimigos que não veem, frustram-se por não entender contra o que ou contra quem lutam. Erram e acertam. Em tempo: no livro os marines também matam, e muito, sobretudo rebeldes dispostos a morrer pela fé. É fácil nos sentirmos atônitos diante do desfecho de muitos desses episódios.

Dexter Filkins não glorifica nem os marines como heróis libertadores do Iraque, nem seus inimigos como arautos da resistência. São soldados profissionais lutando pela sobrevivência em uma guerra que jamais compreenderam. Nesse livro, a estatística militar, sempre dando ar impessoal às baixas inimigas, cede lugar a nomes, descrições, perfis. A Al Qaeda tem rosto. E ele costuma ser tão comum que se torna dissimulado.

Risco, aliás, é um elemento chave na narrativa, tanto quanto a ironia – como no comunicado da rede terrorista enquadrando duas células que foram “ao martírio” nos mesmos alvos e reivindicavam, ambas, a glória. Capturado pelos guerrilheiros xiitas em Najaf, Dexter e o fotógrafo escaparam de um tribunal islâmico por milagre. Mas o texto não espuma de ódio por isso. Em várias entrevistas, o repórter expõe nos personagens os elementos que tornam o Iraque o maelstrom da civilização ( rodamoinho mítico que os nórdicos acreditavam sugar barcos no Mar do Norte).

Tudo é engolido pelo nonsense, da relação com os americanos à tentativa de se comprender os desvãos do pensamento árabe, tão saturado de violência. E, a maior ironia: convidado por Ahmad Chalabi – vigarista que quase virou premier do Iraque – a acompanhá-lo a Teerã, Filkins descreve a visita ao espetacular museu de arte contemporânea mantido com o acervo tomado a Farah Diba, mulher do deposto xá Reza Pahlevi. Uma das obras mais admiradas pelos partidários de Ahmadinejad é de Marc Chagall. Que era judeu. Vai entender.

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Afeganistão - O talibã dá as cartas

impressionante não só as imagens como a própria magnitude do ataque dos talibãs ao coração do governo afegão, em Cabul. Ao ver as cenas, e a própria situação em si, não pude deixar de traçar um paralelo com a ofensiva do TET, em 1968, quando o Viet Minh infiltrou centenas de homens na capital do Vietnã do Sul, Saigon, para um ataque surpresa. Embora os livros falem que os objetivos militares naquela época não foram alcançados pelos vietcongs, ou seja, nenhuma posição importante foi ocupada, o simples fato de que inimigos conseguiram chegar em carros comuns e invadir a embaixada dos Estados Unidos já é uma importante vitória em si mesma. Os atacantes foram todos mortos ou capturados, é verdade, mas para as páginas da história o que conta não é isso, sobretudo depois de tantos anos: é o fato de que a operação expôs um grau de vulnerabilidade do regime sul-vietnamita que até então o Ocidente não era capaz de pressupor. Os aliados dos EUA na ocasião imaginavam a presença militar maciça como uma espécie de muralha. A Ofensiva do TET revelou que a muralha, vista de perto era um monte de pedras cheias de buracos e passagens.

O que aconteceu em Cabul reforça a sensação de que a guerra no Afeganistão, a verdadeira guerra ao terror islâmico, não caminha como os estrategistas planejavam. O fato de os talibãs terem conseguido desfechar um ataque direto e pesado, na capital, contra o presidente Hamid Karzai deixa claro que o pesadelo do Sudeste Asiático, em termos históricos pode ter um paralelo no século 21. Além de o Afeganistão ser um país desde tempos imemoriais inconquistável, tal ousadia demarca uma divisão indigesta no front; que deixa de ser as províncias hostis do Baluquistão, na região tribal fronteiriça com o Paquistão, para se disseminar dentro da própria capital. Se antes das operações de combate mais efetivas a milícia fundamentalista dominava o interior do país, deixando a capital sob controle da OTAN, agora temos a certeza de que a OTAN está cercada de inimigos invisíveis por todos os lados. O tamanho da infiltração em Cabul ainda não pode ser medido, mas é evidente que é maior do que a capacidade das tropas ocidentais de utilizarem seu aparato tecnológico para reduzi-la. O soldado da coalizão já olha para o policial afegão ao seu lado sem saber se o sujeito é aliado ou inimigo. Como ocorria com os sul-vietnamitas.

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Caso Sean: etnocentrismo ou complexo de inferioridade?

Peço desculpas aos leitores que postaram comentários a respeito do artigo sobre o caso Sean e o marketing. Por uma falha no meu sistema aqui os comentários não foram para o ar, dando a entender que são retidos. Acabei de publicar todos com grande satisfação, sobretudo pela pluralidade das análises. Continuo com a firme convicção de que David Goldman tem o direito de criar seu filho biológico, tanto quanto a obrigação de reconhecer quea mãe do menino, mesmo o tendo sequestrado, não teve o direito cassado ainda que post-mortem. Porisso é importante que a decisão final estabeleça o espaço de cada um muito claramente. Sean veio para o Brasil contra a vontade do pai, mas era inegavelmente feliz com a família da mãe. Se o será com o pai é uma incógnita que a campanha organizada por David junto à mídia dos EUA deixou espertamente de abordar.

Também reafirmo a minha crítica quanto à forma colonialista, ou imperialista, para usar um termo gasto mas adequado, como a imprensa americana costuma tratar episódios dessa natureza. Citei o caso dos dois pilotos americanos responsáveis pela queda do Boeing da Gol por ter lembrado da campanha montada por redes de tevê de Atlantic City, onde ambos viviam, em torno do "resgate" de dois "heróis" nacionais mantidos em cativeiro em um estranho e selvagem país da América do Sul. Quem leu o artigo desrespeitoso e irônico escrito pelo repórter do The New York Times que os acompanhava a bordo - e que mentiu em juízo no Brasil - sabe bem do que estou falando.

Joe Lepore e Jean Paul Paladino não estavam presos no Rio, como os jornais e as tevês fizeram questão de martelar por 45 dias, mas ficaram confinados no melhor hotel da praia de Copacabana por decisão do proprio consulado, que "temia por sua segurança". É esse o comportamento que funciona como gasolina na fogueira. Ninguém atacaria os dois pilotos na rua por considera-los cúmplices na morte de 199 pessoas inocentes. Este não é um país de selvagens. Eles seriam tratados como protagonistas de um dos mais tristes e lamentáveis episódios da aviação brasileira e deveriam ter continuado, como estavam à disposição da Justiça brasileira enquanto o processo criminal - que acabou arquivado - estivesse correndo. Não eram, não são, e nunca serão heróis. Tiveram um privilégio resultante da pressão oficial sobre a leniente chancelaria brasileiram, privilégio esse que permitiu a dois sujeitos diretamente envolvidos em quase 200 mortes escaparem de um indiciamento correto por homicídio culposo. Isso jamais foi citado na tevê americana. Tanto nesse caso quanto no de Sean, a justiça local pouco importa.

Vale lembrar que o problema de David Goldman é parecido, embora com background diferente. Ninguém envolve o Departamento de Estado em uma polêmica de nível internacional dessa se não convence os diplomatas de que o cidadão americano é refém e se encontra em tamanho perigo que vale a pena arriscar até arranhar relações estáveis com outros governos em nome de uma intervenção inoportuna e inconveniente, uma vez que a Justiça de cada país é soberana. É uma questão de escala dos problemas; Brasil e EUA tem contenciosos muito mais sérios e delicados para serem discutidos no nível da secretária de Estado do que a disputa da guarda de uma criança. Mas Hillary Clinton também enxergou ganhos políticos domésticos nesse envolvimento, então que se dane o fato de se intrometer onde não há espaço para tanto.

Sean, aliás, é cidadão brasileiro também. Mas isso não faz nenhuma diferença para os aliados de David na carriére ou nas redações. O que valeu no caso foi o bom e velho etnocentrismo que transforma cada americano fora de suas fronteiras em um herói independentemente do que esteja ocorrendo à sua volta, ou do direito do outro lado. David Goldman montou um site no qual pedia ajuda para recuperar o filho. Fechou negócio com a NBC em troca do jatinho e da entrevista exclusiva. Agora está processando a família materna do próprio filho para recuperar o que gastou com o processo, sempre batendo na tecla de que o menino foi "salvo" de um destino menor do que o merecido a todos os que nascem em solo americano. Como empreendedor, segue o espírito dos "founding fathers". Vai acabar rico.


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Os marqueteiros do caso Sean

Foi curioso ouvir o governo americano se queixar da superexposição do menino Sean Goldman, quando este foi devolvido ao pai biológico, David, no Consulado dos Estados Unidos no Rio, recusando o acesso protegido pela garagem. Ontem, dia de Natal, as emissoras do país dedicaram tempo à cobertura de uma vitória da sociedade americana em sua saga calvinista de impor-se ao resto do mundo. Já se viu esse filme antes.

Independentemente de qualquer presunção de Justiça, o cidadão brasileiro lembra bem da campanha na mídia e do comportamento irônico dos pilotos Joe Lepore e Jean Paul Paladino: responsáveis diretos pela queda de um Boeing que deixou quase 200 mortos em Mato Grosso em 2006, ambos foram liberados depois de enorme pressão oficial. De volta aos EUA foram tratados e se assumiram em emissoras de televisão dos EUA como heróis que haviam escapado de um cativeiro ilegal em um país selvagem ao sul dos trópicos.

É preciso separar bem o joio do trigo. David Goldman tem um direito consagrado sobre seu filho, a despeito das razões que teriam levado a mãe do menino a fugir dos EUA. Por outro lado, a avó paterna e o padrasto também adquiriram um espaço afetivo importantíssimo e essencial especialmente quando o menino ganhou uma irmã, Chiara, e perdeu a mãe. O problema é que esse tipo de relação não supera a biológica. A decisão do STF, embora de uma truculência sem par – a exposição a esse nível de estresse na véspera do Natal é um trauma –, é uma afirmação da lei.

As autoridades americanas, no entanto, não levaram em consideração que David transformou o próprio filho em um produto vendável ao circo da mídia. Também soube muito bem como fazer de um difícil caso de direito de família internacional um problema diplomático com o qual altas autoridades daqui se viram constrangidas a lidar. Montou na internet uma campanha cujo principal apelo de marketing era uma sutil negação ao fato de que Sean também tem uma família brasileira, e que poderia ser feliz aqui eventualmente. Para o americano comum, tanto quanto para a secretária de Estado Hillary Clinton, não fazia qualquer diferença se a questão estava sendo discutida no âmbito judicial, mas o resgate de um inocente cidadão mantido refém contra a sua vontade. Como também não importava a forma como o caso foi “vendido” para a mídia, embrulhado em uma roupagem de marketing primorosa. Foi o mesmo comportamento no caso de Lepore e Paladino.

Das lições que esse episódio deixa, a primeira emana da frieza quase desumana com a qual o Supremo Tribunal Federal determinou o epílogo da disputa. Juízes julgam pela letra da lei, e o fizeram deixando a emoção de lado, porém com pressa tal que permitiu que cidadãos brasileiros passem a considerar a mais alta corte suscetível a pressões da diplomacia. A segunda é a de que a imprensa brasileira tem um comportamento menos bairrista e mais profissional que a americana em episódios assim. O leitor daqui acompanhou a cobertura. Os de lá uma campanha. Tanto é que Goldman e seu filho voltaram aos EUA em um jato fretado pela rede de televisão NBC, um épico retorno. Faltaram só o hino e os marines na chegada.

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O abacaxi hondurenho

O envolvimento do governo brasileiro na questão política de Honduras há muito deixou de ser parte de uma ação de diplomacia política para integrar o rol daquelas crônicas sobre a América Latina tão apreciadas por autores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, só para citar dois mais conhecidos. O que se apresentou como um golpe de Estado, um soluço seiscentista em uma América Latina mais acomodada na democracia, agora virou uma novela. O enredo tem todas as condições para se transformar em um daqueles dramas cinematográficos, especialmente por causa da apresentação visual de seu protagonista. Aliás, dadas as circunstâncias mais recentes, o termo novela mexicana nunca foi tão adequado.

É bom, quando se observa uma cena política como o imbróglio em Honduras, que a análise não perca de vista o seu compromisso com a coerência, sobretudo quando o assunto a ser debatido carece justamente desse item. Ora, se o presidente deposto Manuel Zelaya aceitou deixar Honduras, então porque havia decidido desafiar as forças do presidente golpista, Roberto Micheletti, e mudar-se, com mala e cuia – mais da primeira do que da segunda – para a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa? Zelaya disse ter concordado com a sua segunda partida, mas não na forma de asilado político e, muito menos, encarnando a figura de presidente deposto. Porém, pensando bem, presidente deposto, após tanto tempo decorrido do golpe, é efetivamente o que ele é. Como já se disse aqui, o maior aliado do governo golpista é o tempo. Cada dia a mais com o ex-presidente no abrigo brasileiro, mais tênue fica a indignação geral em torno das condições de sua queda. O hondurenho que precisa arrumar comida para a mesa da família não tem tempo mais para ficar protestando a favor ou contra a permanência de uma autoridade cujos atos administrativos estão cada dia mais dissolvidos na rarefeita memória cotidiana.

É estranho também observar o novo impasse no país depois de tantas negociações, idas e vindas, ameaças e discursos, inclusive de presidentes de outras nações. Brasil e Estados Unidos, por exemplo, descobriram em Honduras as arestas de um relacionamento entre os presidentes Lula e Obama que parecia correr às mil maravilhas. Enquanto o primeiro atuou abertamente no sentido de isolar o regime de Micheletti e repor Zelaya de volta ao cargo, a Casa Branca preferia esquivar-se de um compromisso direto que acabasse auxiliando, por tabela, o principal adversário por trás de toda a crise, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Golpe por golpe, os americanos sempre optarão por ficar do lado mais liberal.

Sobra uma questão crônica. A embaixada brasileira em Tegucigalpa não é um hotel que possa servir de moradia indefinidamente a um presidente deposto que, ao retornar ao país, sabia que comprava uma briga séria. Depois de tanto tempo, o hóspede vira morador, começa a impor hábitos aos colegas de habitação e o que era uma representação de um país vai virando uma casa com ares de república estudantil – basta ver a foto de Zelaya com o violão e o eterno chapéu para compreender a imagem. Como é o erário brasileiro que sustenta todas as representações diplomáticas no mundo, a conta dessa hospedagem é paga pelo contribuinte. Sem direito a despejo.

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De soldados e professores

Ainda repercute a decisão do presidente Barack Obama de enviar mais 30 mil soldados para a guerra no Afeganistão. Há quem levante críticas a essa opção militarista lembrando que armas demais não trazem necessariamente uma paz duradoura – é o exemplo do que ocorre nos Bálcãs, onde esse sentimento só vigora pela presença militar. É aquela ilusão de vitória que transforma o fim do conflito em um banho-maria caro e pouco expressivo em termos de consolidação democrática. A Escola de Reconstrução de Pós-Conflito das Nações Unidas, baseada em Viena, trabalha com um modelo muito fechado desse tipo de situação. Ali, estados ou proto-estados como é o caso da Somália, costumam ser enquadrados em padrões pré-determinados, os quais servirão como estrutura guia aos técnicos enviados com a árdua tarefa de reconstruir. A questão é que nem sempre tais modelos são adaptáveis às circunstâncias.

A discussão em torno do Afeganistão, pelo menos nos moldes atuais, é relativamente superficial. E precisaria ser mais aprofundada do ponto de vista histórico para que a compreensão do que esse país significa possa ser mais clara e duradoura. Um dos maiores conhecedores do Oriente Médio e suas idiossincracias, o veterano jornalista e escritor britânico Robert Fisk definiu muito bem a situação afegã em seu detalhado “A Grande Guerra pela Civilização”, já lançado no Brasil. Filho e neto de militares britânicos que estiveram de alguma forma ligados ao país, Fisk afirma que a epopéia afegã é uma sucessão de ciclos, invasões, ocupações e retiradas desde tempos imemoriais. E que nenhuma das eventuais potências ocupantes logrou conseguir quebrar a espinha da resistência tribal, sobretudo da maioria pashtun, a ceder seu modo de vida a um modelo ocidental.

Pouco depois de ter tomado posse, Barack Obama anunciou com pompa e circunstância um investimento de US$ 200 milhões em escolas que seriam construídas com a ajuda americana ao longo da porosa e hostil fronteira com o Paquistão, região na qual vicejam notórias simpatias pelos fundamentalistas talibãs e responsável pela formação de quadros importantes da rede Al Qaeda de Osama Bin Laden. Olhando esse argumento de longe, pode-se acreditar que é uma medida bem intencionada e correta. A questão é, como analisa Fisk, transferir o que está no papel para as montanhas pedregosas e inóspitas afegãs. O que não falta nas áreas tribais é escola, o problema é o que ensinam às crianças. Impor o modelo de educação ocidental como caminho para a democracia seria o melhor meio, como defende o colunista do The New York Times, Nicholas Kristoff? É evidente que não.

A dificuldade parece ser a própria essência do papel da ONU – que atua no Afeganistão com base no mandato da Aliança Militar do Atlântico Norte (Otan) – incapaz de regionalizar os princípios. Assim, desde a queda dos talibãs em 2003, há uma insistência de solidificar o modelo de democracia participativa com parlamento, algo que em um país com divisões tribais tão arraigadas é de difícil capilarização. Quem mora em Cabul até pode ter passado a acreditar que votar na Loya Jyrga (a assembléia) é a melhor forma de construir o futuro. Mas o sujeito que empurra suas cabras pelas montanhas como fez seu pai e fizeram todos os seus antepassados tem outra visão de mundo. O Ocidente precisa compreendê-lo também se quiser que haja alguma paz permanente na região.

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