RSS Feeds

Aqui é Meu Lugar - (This Must Be the Place)


Estranhamento é a palavra que mais pode resumir o filme Aqui é Meu lugar, do italiano Paolo Sorrentino. E digo isso explorando desde o sentido mais restrito que a palavra possa ter, ao mais complexo, observado enquanto conceito pelo formalismo russo.

Numa sinopse bem objetiva podemos dizer que Cheyenne (Sean Penn), um ex-astro do Rock cinquentão, divide sua vida entre um cotidiano pacato em sua mansão, em Dunlin na Irlanda, com a esposa e uns poucos e peculiares amigos com quem trava alguns diálogos bem bizarros, durante suas saídas ao shopping e caminhadas. Até que sua rotina é quebrada pela notícia de que seu pai está morrendo, a quem não encontra há mais de 30 anos, o fazendo viajar para os Estados Unidos e reencontrar parte de sua memória.

Até aí nada de estranho. Não fosse o olhar que estamos doutrinados a lançar sobre as coisas. A aparência e o comportamento de Cheyenne fogem totalmente dos padrões “normais”. A figura do personagem de Penn nos leva de imediato a uma avaliação, que julga muito mais do que qualquer outra coisa e acaba por nos colocar diante de uma situação de conflito com a gente mesmo: aceitar aquele homem exótico ao extremo como o mocinho de uma narrativa dramática ou rir da imagem patética e encará-la como uma comédia absurda.


Esse dilema não dura muito, o ator Sean Penn mesmo com todo o aparato cênico, tanto visual como comportamental, que seu personagem carrega, não permite que sua atuação se perca no estereotipo maluco beleza. O que o faz lento, maquiado, triste, nos dá a idéia exata de que tudo não passa de vestígios de um Cheyenne que fez por onde marcar no corpo sua trajetória de vida.

O diretor, Paolo Sorrentino, que também assinou o roteiro dialoga com a complexa teia de ser um humano. Enquanto menciona uma vida de ressentimento de um homem que passa seu tempo em busca do soldado nazista que o teria torturado, o pai. Nos apresenta também um melancólico ser que parece não se perdoar pelas próprias escolhas, caminhando num mar de reminiscências, tentando se redimir de si próprio. Este o filho, Cheyenne, carregando sua vida como a mala de rodinhas que o acompanha durante o filme.

Como boa parte da história se apresenta como um road movie, traz as características típicas do gênero: estrada, pessoas, histórias e redenção. O olhar europeu sobre a América atual, presente durante a viagem de volta do roqueiro aposentado, é mais um elemento explorado pela direção. O diretor deixa claro que sua observação desse universo americano não passa da janela do carro.

O filme é, no mínimo curioso, uma proposta a se permitir ao estranho mundo de Cheyenne. E romper com os limites de olhar o outro.

« anterior próximo »

Comentários


Não há comentários

Comentar

:

:
: