Arquivo de July 2012

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Fausto de Sokurov é como dar um pulinho ao inferno

“Deus deixou apenas ao homem o dia e a noite” (Fausto - Goethe)




É dentro de um limite da existência proposto pela ideia de Deus que o diretor Alexandr Sokurov alimenta sua narração cinematográfica em Fausto. No início dos créditos o diretor faz questão de anunciar ser uma livre inspiração na obra de Goethe. E por mais livre que seja essa adaptação, há no filme uma fidelidade constante, repleta de significados, pelo fato de se tratar de um poema dramático. Sokurov não esquece em suas cenas de elevar ao status poético seu dizer nas imagens, impregnando a linguagem visual com traços de luz e tempo que possam residir na poesia, assim como servir de morada. Segundos quase eternos nos transportam para a angústia ou para o prazer das personagens.

Toda a relação estabelecida entre Fausto e Mefistófoles se apresenta diante da necessidade financeira da qual o médico vive no filme de Sokurov. Enquanto no livro, o pacto entre os dois se dá diante de questões mais complexas. No entanto, o tom denso e caótico é mantido e o discurso do bem e do mal vive na esfera da interrogação, enquanto as personagens manifestam cada uma sua própria moral.

Fausto, muito mais cético, no filme, argumenta com Mefistófeles o que é certo, o que é errado, ainda que levado pelo Demo à prática do imoral. Mas quando se vê diante de Marguerite, a bela donzela, e o sentimento pelo qual é acometido, Fausto mostra suas fraquezas. E é por meio da luxúria e do dinheiro que Mefistófelis adentra o Doutor. Todo seu conhecimento científico de nada serve diante da possibilidade de ser feliz, ainda assim, Fausto justifica seus atos como sendo de origem nobre ou delegando ao outro sua responsabilidade.

O diretor, não tendo nenhum compromisso com a fidelidade ao pé da letra a Goethe, concentra seu foco na fixação de Fausto por Marguerite.
Descrições à parte, o filme de Sokurov guarda em si uma experiência muito peculiar aos filmes desse gênero: a inquietação, o mal estar, a desorganização interna com as sensações provocadas por sua estética que é muito próxima do Fausto de Murnau (1888-1931), admitido pelo próprio Sokurov. O que o diretor apresenta na tela nos propicia uma aproximação com o que as artes plásticas fizeram pela arte, seu cinema nos faz sentir e, talvez, padecer de uma certa impotência diante da linguagem cinematográfica, quando não nos permite provar sensorialmente o que sua imagem apresenta.

Há em Fausto de Sokurov um inferno angustiante, sufocador e necessário.




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IRMÃOS COEN - Duas Mentes Brilhantes - 10 a 22 de julho - Caixa Cultural. RJ


É bem verdade que certos filmes dos irmãos Ethan e Joel Coen exigem de nós uma certa dose de indiferença à cenas de violências. No entanto, muitas vezes seus diálogos e sutilezas no trato com a palavra nos recompensam do estrago feito aos estômagos mais sensíveis. Os Coen muito têm feito pelo cinema norte americano, dialogando com o cinema comercial sem cair na mediocridade, o que resulta numa construção de uma plateia que aprecia a ação com pleno exercício dos neurônios. Muitos de seus temas passam pela verve local, num tom irônico, admitem nossos monstros internos e sociais, particularmente a sociedade contremporânea. Até o dia 22 de julho toda a produção de Joel e Ethan será exibida na Caixa Cultural com direito a debate para discutir sua obra. Uma retrospectiva inédita por aqui, que merece atenção.



PROGRAMAÇÃO:

QUA – 11 JULHO

17h – O Amor Custa Caro (100min)
19h – E aí, Meu Irmão Cadê Você? (105min)

QUI – 12 JULHO

16h – Roda da Fortuna (111min)
18:30h – Barton Fink (116min)

SEX– 13 JULHO

14:30 - Um Homem Sério (106 min)
16:30 - Bravura Indômita (110 min)
19h - Queime Depois de Ler (96min)

SAB – 14 JULHO

14h - Barton Fink (116min)
16:30 - Onde os Fracos Não Tem Vez (122min)
19h - Gosto de Sangue (99min)

DOM – 15 JULHO

14h - Roda da Fortuna
16:30 - Um Homem Serio (106 min)
19h - Queime Depois de Ler (96min)

TER – 17 JULHO

16:00 - Bravura Indômita (111min)
18:30 - Onde os Fracos Não Tem Vez (122min)

QUA – 18 JULHO

17h - Gosto de Sangue (99min)
19h – DEBATE: O cinema dos irmãos Coen e a transfiguração dos gêneros cinematográficos


QUI – 19 JULHO

14:30 – Fargo (98min)
16:30 - O Homem que Não Estava Lá (116min)
19h - Matadores de Velhinhas (104min)

SEX– 20 JULHO

14:30 - O Grande Lebowski (117min)
17h - Matadores de Velhinhas (104min)
19h - O Amor Custa Caro (100min)

SAB – 21 JULHO

14:30 – Arizona Nunca Mais (94min)
16:30 - Ajuste Final (115min)
19h - Fargo (98 min)

DOM – 22 JULHO

14h - E aí, Meu Irmão Cadê Você? (105min)
16h15 - O Homem que Não Estava Lá (116min)
18h30 - O Grande Lebowski (117min)

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Para Roma, com Amor (com raiva, com ironia, com sarcasmo, com...)



Qualquer discurso sobre a dúvida que paira sobre uma remota possibilidade de Woody Allen estar deveras repetitivo se tornaria, antes de terminar o primeiro parágrafo, uma enorme falácia. Pois, o mestre Allen não está nem um pouco interessado em inovar, às custas de perder o sabor do seu bom e velho cinema de palavras e gestos.
Em Para Roma, com amor somos novamente brindados por aquela luz maravilhosa que tem acompanhado Woody Allen nesta sua fase guia turístico europeu. A Europa do diretor anda muito mais bela que a outra, a da crise econômica. E quem tem um pouco de amor ao cinema, tem obrigação de visitar esta exposição de citação cinematográfica. Woody Allen faz cinema com a matéria prima mais eficaz para tal: cinema.
Nesta última produção, a deixa é estar em Roma e isto é suficiente para as histórias do filme transpirarem Fellini e cia. Quando fala dos relacionamentos e seus paradoxais sentimentos, o diretor fala de cinema, quando critica, daquela forma mordaz com um riso no canto da boca, a efemeridade e a hipocrisia dessa sociedade, ele também está falando de cinema. Reinventa, cita, se apropria, parafraseia. Eu não sei qual nome ou termo dar a isso, só sei que Woody Allen sopra a poeira do senso crítico do espectador e nos faz descobrir o prazer de rir, sem nos acertar na cabeça, com uma piada mofada numa pegadinha, que de tão apelativa (“O que é tesão? Eu quero ter tesão!!!”) não nos dá outra alternativa a não ser he he he, e aí comeu?
A dedicatória amorosa a Roma traz a cidade que Allen enxerga, que de tão bela e viva é explicitamente assumida como personagem culpada ou responsável pelo o que acontece em seu território. Mas a declaração de amor a Roma nos alcança com tamanha força, pelo respeito quase natural de quem faz cinema pelo exercício de amar, sobretudo à vida, e de se rebelar contra a prática do fim em nome de novos modelos que se apresentam como revolucionários, mas que “na real” estacionam em um confortável e deprimente sofá vermelho, mortos. De sede. De fome. De frigidez.
Woody Allen foi para Europa para fazer cinema pro mundo e neste percurso perdeu o calendário e o mapa geográfico e, a língua variou, mesmo quando optou somente pelo inglês. E isso Mr. Allen fez em Para Roma, disse, pessoalmente, em seu bom inglês americano, ao dar corpo a um personagem demasiado humano, vestido em sua arrogância, enrustindo uma certa pequenez, que a “parada” é universal, transcedental, e coisa e tal.

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