Arquivo de June 2011

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Um ano sem Saramago

O escritor português José Saramago morreu no dia 18 de junho de 2010. Hoje entre os eventos por conta de um ano de sua morte foi lançado em Portugal o dvd José e pilar, o documentário é aguardado com grande expectativa pelos seus admiradores no Brasil.

Suas cinzas foram depositadas hoje, às 11h, junto a uma oliveira que veio da Azinhaga e a um banco de jardim no Campo das Cebolas, em frente à Casa dos Bicos, futura sede da Fundação José Saramago, em Lisboa.

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"O viajante está feliz.

Nunca na vida teve tão pouca pressa.

Senta-se na beira de um destes túmulos,

afaga com as pontas dos dedos a superfície da água,

tão fria e tão viva, e, por um momento,

acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo.

É uma ilusão que o assalta de longe em longe,

não lho levem a mal."

(José Saramago)

Um ensaio sobre o tempo, o amor e a palavra


Não me cobrem imparcialidade, não me impeçam de ser passional. Assisti José e Pilar e me esqueci em algum canto daquela palavra. Há um vento constante na ilha de Lanzarote. Há uma montanha à espreita a observar o vento. Há um velho escritor português a contemplar a montanha enquanto esta o aguarda.

José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, não se limita a documentar o cotidiano do escritor José Saramago e sua companheira Pilar Del Rio, como aponta sua proposta. Essa função alça vôos e constrói uma ode à pessoa humana, preocupação constante na vida do autor português: saber e dizer o homem em sua mais expressiva condição de humanidade.

Um documentário com ares de ficção que ganha um contorno suave proposto por imagens de fragmentos biográficos, de uma rotina por vezes exaustiva e em seguida providencial em toda sua poesia. A ilha de Saramago e Pilar, a biblioteca de Saramago e Pilar, os amigos, as viagens, os compromissos, a vida, o amor.

As expressões e impressões espontâneas que o diretor capta, só são possíveis por conta de uma longa contemplação ao casal. A força e a energia de Pilar se rendem ao poeta e pensador justo. O escritor Nobel de literatura se dobra à feminista objetiva e terna. Só mesmo com tamanha cumplicidade da câmera com o casal seria possível o registro não se tornar banal.

José e Pilar se manifesta para além da imagem e arrebata, principalmente, pela palavra. A palavra é que norteia a narrativa, a palavra é que constrói toda a emoção do discurso do filme, é nela, o que há de melhor em Saramago, que o documentário se sustenta. A palavra repleta de paradoxo que Saramago devolve como resposta às questões mais absurdas nas inúmeras entrevistas. O verbo que se pronuncia como o primeiro na bíblia, assim se apresenta durante a história de Saramago em seus últimos anos de vida e a verve de Pilar ao defender sua condição quando tentam transformá-la em sombra. À palavra!
Texto postado por ocasião do Festival do Rio2010

Quem ainda não assistiu, tem a oportunidade:


Reapresentação

JOSÉ E PILAR (José e Pilar) - De Miguel Gonçalves Mendes. Documentário. A relação entre o escritor português José Saramargo, prêmio Nobel de literatura em 1998, com sua esposa, a jornalista Pilar Del Rio, através do cotidiano do casal. 2h05. Brasil/Portugal/Espanha, 2010. 12 anos.

Zona Sul: Cine Joia: 16h.

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