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Futebol, beijo e poesia

"Brigam Espanha e Holanda / Pelos direitos do mar / Brigam Espanha e Holanda / Porque não sabem que o mar / É de quem o sabe amar", diz trecho de poema de Leila Diniz que me veio imediatamente à mente durante a final da Copa da África.
Versos que podem ser ouvidos no memorável disco "Clube da esquina", de Milton Nascimento (sim, quando foi lançado era disco, e não CD).

Antigos inimigos encararam um confronto diferente sob uma aura secular. Uma guerra bela, de realezas que atravessaram os tempos, e que, depois do golpe final de Iniesta, foi coroada da forma mais singela: um beijo do príncipe na princesa.

O herói Casillas - aliviado, eufórico e realizado - roubou a cena surpreendendo a namorada Sara Carbonero.

O mundo todo assistiu.

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Era o final perfeito de uma Copa do Mundo que mais pareceu um conto épico.

Aquele beijo me lembra outra cena emblemática.
O flagrante histórico de Alfred Eisenstaedt do beijo do marinheiro na enfermeira, após o fim da Segunda Gerra.

Acabava a batalha, era tempo de amar.

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Sim, esporte também pode proporcionar cenas de poesia pura.
É só prestar atenção.

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Uma Seleção repleta de garra e angústia

Na primeira participação do Brasil na Copa da África, a expressão de Dunga me chamou especialmente a atenção. Não eram apenas nervosismo e ansiedade o que a gente via. Era angústia, uma tensão quase melancólica. Era a expressão de alguém que andava com um copo cheio até a borda de uma carga pesada, ainda sem nome.

É natural que os sentimentos de um comandante sejam assimilados por seus comandados.

E durante a Copa, a Seleção jogava com uma estranha tensão ao redor. Não era apenas foco, concentração. Era aquela mesma angústia que, no calor do jogo, virava explosão e destempero.

Esta é a única fórmula capaz de explicar a mudança tão radical de comportamento de um time do primeiro para o segundo tempo, como aconteceu contra a Holanda.

Da força, habilidade, soberania, o time passou para a insegurança, o desencontro, o desequilíbrio.

E apenas um lance foi capaz transformar a Seleção, como num passe de mágica. O Brasil mostrou de forma clara que, assim como vontade, comprometimento e dedicação, os jogadores também estavam carregados de angústia, pronta para explodir e bagunçar os nervos de forma irreversível.

Faltava uma pitada de serenidade.

Não é fácil encontrar a fórmula de um campeão. Não se pode ter coração demais. Também é preciso frieza. Não se pode ter ímpeto demais - a cautela e a ponderação são fundamentais. A paixão às vezes cega, mas a indiferença é igualmente fatal.

Um grande campeão é como um vinho raro. Tem as melhores uvas, é envelhecido no melhor barril, na temperatura ideal, com a técnica mais perfeita, mas precisa contar também com o imponderável, o destino, uma conjunção de fatores que ninguém é capaz de prever.

Com o Brasil, não aconteceu.

O brinde fica para a próxima.

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Dunga, a imprensa e os leitores

O episódio que tem ofuscado até mesmo o dia a dia da Seleção Brasileira na África do Sul (até porque são rarísssimas as notícias que vazam da concentração brasileira) merece um pouco mais de atenção.

E um segundo olhar.

Tão impressionante quanto a reação raivosa de Dunga com o jornalista durante a coletiva é a avalanche de comentários de leitores apoiando e incentivando o técnico da Seleção.

Aqui mesmo no JBOnline, leitores aprovam - até o momento com 52% - o fato de Dunga ter chamado o jornalista de "cagão", e boa parte dos comentários mostra um sentimento tão ou mais raivoso quanto o do próprio Dunga.

Em blogs e nas mais variadas formas de manifestação na internet, uma significativa maioria de leitores apoia com veemência o técnico.

Acho que é hora de a imprensa refletir. E este episódio é uma chance de ouro para isso.

Por que tantos se identificaram de forma tão intensa com Dunga?
O que a imprensa representa para estes leitores?
Como eles enxergam o jornalismo?

Particularmente, acho que Dunga se excedeu. Foi grosseiro. Agiu como se estivesse em campo, provocando o adversário, o inimigo, o rival a ser batido. A imprensa e Dunga têm uma longa e conturbada história. Mas não é isso o realmente relevante em todo este episódio.

O relevante, para mim, é a imensa onda de apoio que se formou, e o que isso significa.

Pelo que vejo, é isso que boa parte dos leitores querem dizer. E dizem de forma muito clara.

Dunga, a imprensa e os leitores representam muito mais do que um embate numa coletiva.

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O estranho fascínio da Seleção Brasileira

É comum que os grandes campeões, aqueles que têm a supremacia em determinada modalidade esportiva, ganhe torcida contrária nas competições. O desejo coletivo, na esmagadora maioria das vezes, é que os fortes sejam surpreendidos, os fracos tenham a oportunidade de se sobressair e a ordem seja deliciosamente invertida. Nada mais saboroso do que ver a frustração daquele que se acha superior a todos.

Nesta sexta-feira, abertura da Copa, um simples e significativo exemplo: quando a África do Sul marcou seu gol, minha vizinhança inteira deixou bem claro para quem torcia. "Áfricaaaaaaaa!!!", ouvi de minha janela. E lá no fundo, concordei.

Mas com a Seleção Brasileira acontece um estranho fenômeno. É a maior campeã, favorita nas bolsas de aposta, recordista de títulos, possui os maiores jogadores da história, mas ainda sim tem a simpatia do mundo. Com o Brasil, a regra se inverte. O mais forte no esporte mais popular do mundo também é o mais querido pela maioria das torcidas de fora.

Não consigo ver paralelo em mais nenhum outro esporte.

Não foi gostoso ver a Argentina (a Argentina, hein!) surpreender os invencíveis EUA na final olímpica do basquete em Atenas? Não é legal ver um desconhecido desbancar feras como Tiger Woods, ou ver as poderosas Alemanha ou Rússia chegarem atrás nas piscinas? Quando um novato elimina o mito Federer, no tênis, não dá um prazerzinho?

Mas por que o poderoso Brasil é a segunda seleção de quase todo mundo?

Aí entram em campo questões sociais, econômicas, culturais, históricas que, no nosso caso, caminham em ordem inversa do sucesso no esporte.

Brasil consegue ser Davi e Golias ao mesmo tempo. O fraco que é forte, e o forte que é frágil.

Quem resiste?

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Vencer é um ato de criação

Construir uma vitória não é fácil. Um grande feito não surge de uma hora para outra. É preciso ser desejado, planejado, gerado e, enfim, criado. Sim, vencer é, acima de tudo, um ato de criação.

Chegar em primeiro, marcar o gol decisivo é apenas o ponto final de uma difícil e inigualável estrada. Muitos atletas passam a vida gerando uma grande conquista.
E o que é gerar uma conquista?

Ah, que tema infinito. Posso afirmar com convicção que este deve ser um dos caminhos mais ambíguos que se pode experimentar.

Imagine-se desejando algo muito, muito difícil. Algo que requer sacrifício, talvez os maiores que um ser humano seja capaz de suportar. Horas, dias, anos. Entrega absoluta. Um salto no escuro num trampolim desconhecido. É preciso oprimir o medo, mas não deixar de senti-lo. Sofrer, mas sem deixar de ter entusiasmo. É imprescindível acreditar, mas nunca se deixar levar pela soberba. Criar uma conquista é talvez um dos maiores aprendizados. Mas sem dúvida, o mais recompensador de todos eles.

Criar uma conquista é chegar perto do milagre de criar a vida.

Em que outro lugar no mundo encontramos paralelos tão semelhantes? Desejo, luta, sacrifício e entrega incondicional. Mães e atletas transitam por universos irmãos. Nada tão amado quanto um triunfo, filho do encontro mágico entre a raça e o talento.

Sim, este texto é uma homenagem ao Dia das Mães. E claro, é inspirado no incrível amor com que a minha - Joy - trilhou o caminho de suas vitórias - Rachel, Priscilla, Miriam e eu, Deborah.

Numa de minhas aventuras esportivas, me surpreendi com minha mãe na reta final, com um saquinho de uvas para que eu recompusesse as forças. Mas foi o longo abraço que me encheu de energia.

Na festa de entrega dos troféus, projetaram num telão um clip com imagens da competição, ao som pulsante de um rock pesado. Na última foto, um inesperado toque de poesia: era a imagem de minha mãe me abraçando com força e orgulho, tomando todo o salão.

Era a minha linha de chegada.

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O dia em que a russa mágica parou

Há poucas coisas que podem parar um atleta de alto nível. Dor, exaustão, monotonia de treinos não estão nesta categoria. Mas uma coisa, em alguns casos, pode derrotá-lo: a cabeça. Num nível olímpico, é isto que separa um campeão do resto.

Na nata do esporte, dificilmente vai haver um que treine mais que outros. Ali há um grupo seleto, homogêneo. Na hora H, o que vai decidir quem vai para o alto do pódio ou não é exatamente a cabeça.

Não tenho dúvidas de que foi por isso que Daiane dos Santos e Diego Hypólito perderam em finais olímpicas. A primeira, que era indiscutivelmente a melhor do mundo naquela ocasião, entrou ansiosa demais. Estava a um passo de um feito histórico, com todo um país nas costas. Jogou energia demais no salto e pisou fora do espaço permitido. O problema do segundo não foi a ansiedade, foi ter “baixado a guarda” antes da hora. Ele, que como Daiane também era o melhor do mundo na ocasião, fez tudo certo. Tão certo que, ao vislumbrar o ouro no pescoço na última pirueta, perdeu a concentração. Um milésimo de segundo e tudo foi por água abaixo.

Há momentos em que até mesmo quem está muito, mas muito acima dos outros, é traído pela cabeça. Sábado, foi assim.

O mito do salto com vara, Yelena Isinbayeva, sucumbiu. Duas vezes campeã olímpica e recordista mundial, a russa pediu tempo das competições. Ela, que não tem adversárias no mundo, vinha de recentes desempenhos fracos, e anunciou que estava dando uma pausa nas provas.
Isinbayeva tem 27 anos. Terá tempo para botar tudo no lugar e voltar mais forte ainda. Não duvidem. Mas encontrou um adversário inesperado pela frente.

A cabeça, que faz com que as coisas não funcionem mesmo quando você é melhor que os outros, está em forma e treinou de forma adequada.

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Aliás, quando isso não acontece, em outras proporções, em nossas vidas?

Na Olimpíada de Atenas, vi uma cena inesquecível. Isinbayeva já tinha garantido o ouro e a única coisa que a motivava na competição era tentar bater o recorde mundial (que aliás, era dela mesma). Já era tarde da noite, todas as demais competições no estádio tinham acabado, mas o público não arredava o pé para ver o show da russa mágica. E não se decepcionou. Na pista , ela conversou consigo mesma - como se estivesse só no mundo -, mirou o sarrafo, correu e saltou 4,91m, para então soltar um sorriso antes mesmo de chegar ao colchão.

O estádio veio abaixo.

Para ser um grande campeão é preciso reconhecer quando não é possível vencer.
Parar é também saber usar a cabeça.

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