Confesso que não dormi bem naquela noite de 2001, na véspera da publicação de minha primeira reportagem – pequena, mas com um grande esforço de apuração – no grande
Jornal do Brasil. Mal o dia raiou e desci à banca de uma rua de Icaraí, em Niterói, onde morava à ocasião, e comprei o exemplar. Estava lá na página 2 no rodapé, num box bem delineado e com charge do ilustre Liberati. Que estreia!, pensei. Comemorei muito. Eu e uma amiga. Brindamos taças de proseco. Apesar de feliz com a conquista, com a confiança dos editores, foi uma celebração não a mim, mas uma homenagem pessoal minha ao nobre jornal.
Creio que, desde a minha estreia em 2000, naquelas madrugadas de agosto cobrindo as Olimpíadas de Sidney pelo
JB Online, nada em mim mudou. Comemoro até hoje cada publicação minha – e também as grandes reportagens dos colegas, ou artigos dos mestres – como uma conquista diária e saborosa. Como se eu sentisse a cada dia aquele proseco a descer a garganta e conquistar o coração, esse que palpita a cada segundo pelo desafio de uma pauta diária, pela publicação da notinha na coluna no dia seguinte, ou da reportagem especial, pela dica dos mais velhos ou pela energia passada pelos novatos; esse coração bate a cada segundo ao publicar algo no online e saber que dali a notícia ganhará milhares, talvez milhões de leitores em poucos minutos. Nada muda para um coração de um jornalista.
Sou ainda aquele jovem estreante, a cada dia, com a preocupação de uma tarefa a ser alcançada, mas com a certeza de uma missão cumprida – seja a cada toque, a cada artigo, a cada matéria, a cada coluna. Esta, aliás, uma surpresa do destino. O
Informe JB, a mais tradicional coluna de poder do país, desde dezembro de 2007 sob minha tutela, foi um presente que ainda saboreio. Através dos acertos, dos furos, dos erros com os quais aprendo, do contato com gente simples e poderosa. Foi atraavés do
Informe que percebi o quanto o
JB ainda é valoroso para a sociedade, na paciência de, a cada canto deste país que visito, ouvir com atenção os relatos dos jovens e adultos que respeitam o jornal. Essa é a nossa grande satisfação, o prêmio saboroso de cada dia: o respeito do leitor.
Em praticamente 10 anos de jornal – fiquei ausente 2004 e 2005, embora não distante – protagonizei, em editorias variadas, principalmente em País, a função do repórter apaixonado pela notícia, encantando pela publicação, mas fundamentalmente responsável pela apuração e redação.
Contaria aqui casos numerosos, tristes, felizes e cômicos. Mas me lembro especialmente de dois deles que me marcaram. Ainda no primeiro ano de
JB (ah, aquele prédio da Avenida Brasil, 500), atendi a um telefonema de um homem desesperado. Era um taxista que não encontrava lugar em maternidades ou hospitais públicos para a mulher fazer o parto do filho.
Mobilizei-me na apuração, perdi meu almoço, comi um pão aquele dia. Mas ao fim da noite, com algumas postagens no JB Online e cobranças na Assessoria da Prefeitura, o motorista e mulher já estavam alojados e bem tratados. Dois dias depois, minha chefe, Cristina Konder, recebia a ligação de agradecimento do taxista. O filho nascera. O
JB havia ajudado, de certa forma, no parto. Voltei feliz para casa. Muito.
E, outra história, fruto do acaso, foi a deste navio na foto de João Paulo Engelbrecht, menção honrosa em prêmio no Rio. Dia de batismo do navio off-shore num estaleiro da Ilha do Governador. Depois de fogos, bandinha, champanha no casco, a carreira que faria o gigante descer à água travou. Já passavam das 17h e a maré recuava, quando um dos operários, numa atitude desesperada, tentou empurrar sozinho a embarcação de nada menos que seis mil toneladas. Todos assistiam, perplexos, ao esforço em vão. Não se sabe como, por obra divina ou do próprio mecanismo, de tanto o homem tentar, a carreira destravou e o navio foi ao mar, para euforia do povo. E mais foguetório.
No dia seguinte, só o
JB e o
Jornal do Commercio emplacaram nas primeiras páginas a foto emblemática. Titulei a matéria à altura daquele herói:
Hércules dos Mares, no dia 21 de julho de 2001.
Aquele homem sem camisa, triste, suado, sujo, sumiu esbaforido e exausto em meio à multidão. Uma pena, gostaria de conhecê-lo. Fica a ele a minha homenagem. Ele me ensinou, na função de repórter, a lutar. Independente do tamanho do desafio.