RSS Feeds

O ano que acabou - e muito mal

Para o antropólogo italiano Massimo Canevacci, foi o ano que aguçou a sensualidade, que gerou essa "eróptica" que vivemos hoje. Para o dramaturgo Augusto Boal, foi o "ano em que o fascismo aprisionou o Brasil". Já o historiador Daniel Aarão Reis acredita que suas propostas podem ser retomadas a qualquer momento e em qualquer lugar, basta exercitar o que o ano tinha de mais interessante: a imaginação.

Porém, ninguém duvida que 1968 é provocador, polêmico, contraditório e, até hoje, um enigma. Porque, 40 anos depois, ainda é impossível compreender plenamente todos os acontecimentos e mudanças atrelados aos seus perturbadores quatro dígitos. Pois a edição do Idéias deste sábado, especial, é toda dedicada a ele: o ano mais significativo do século passado. O que inclui entrevista com Zuenir Ventura (prestes a lançar novo livro sobre 68), artigo de Franklin Martins e depoimento de Sergio Paulo Rouanet.

****************


Para dar um gostinho, segue a entrevista que fizemos com o sociólogo Michel Misse - que não apenas estava lá, como viu e viveu tudo intensamente:

No seu depoimento para o livro do Evandro Teixeira (1968 Destinos 2000), você comenta que a Passeata dos 100 Mil foi o momento crucial para o seu envolvimento político. Você havia acabado de chegar de uma cidade do interior, e se deparava com aquilo tudo... O que foi 1968, aos olhos daquele garoto recém-chegado do interior?

Eu já participava do movimento estudantil em minha cidade (Cachoeiro de Itapemirim, ES), nos meus 14, 15 anos: tínhamos um jornalzinho, eu escrevia regularmente uma coluna no principal jornal da cidade, o Correio do Sul. No entanto, foi ao chegar ao Rio, em 1967, para fazer o “científico” (como era então chamado o último ciclo do curso secundário), que me deparei com a vigorosa retomada do movimento estudantil no Rio, com base na denúncia dos acordos MEC-Usaid para a reforma universitária no Brasil. Aos poucos, fui compreendendo a gravidade política da situação nacional e a necessidade de uma reação civil ao desmantelamento das instituições que resistiam ao regime. Aproximei-me cada vez mais da esquerda, lia a Revista Civilização Brasileira, o Correio da Manhã com seu magnífico Segundo Caderno, os livros editados (e vendidos a granel, quase a preço de custo, nas livrarias) por editoras como a Civilização Brasileira e a Paz e Terra, trincheiras intelectuais contra a ditadura. A passeata dos 100 mil foi o coroamento dessa minha formação política e, como no personagem de Flaubert, de minha “educação sentimental”. Companheirismo, idealismo, um sentido de autenticidade em nossas idéias, a mudança dos costumes - cabelos grandes, o vanguardismo nas artes, a liberação sexual, o Cinema Novo, os Mutantes, tudo o mais. 1968 não foi só a passeata dos 100 mil, embora esta tenha representado, do ponto de vista político, o auge da reação civil à ditadura. Em escala mundial, as manifestações de 1968 carregavam uma primeira consciência da importância da juventude na cultura e no processo político. Eu fazia uma revista no Instituto La-Fayette, na Tijuca, onde cursava o secundário, que se chamava Cultura Jovem. O escritor Arthur Poerner lançava seu livro O Poder Jovem, lido por toda a nossa geração. Antes não havia o “jovem”, havia o “moço”, a “mocidade”, inteiramente subordinada à valorização do modelo adulto maduro. Estava-se a criar, sem que percebêssemos, a hegemonia da “juventude” nos estilos de vida adulta, que permanece até hoje. O rock, a calça jeans, os cabelos longos, o corpo sensual, uma certa androginia, o fim da virgindade feminina como condição-tabu para o casamento, tudo isso associava-se à reação contra a caretice do regime, mesmo para quem não era politizado ou de esquerda. O mundo jamais voltou a ser o mesmo, nesse aspecto. Nenhum de nós – que vivemos essa mudança – pode subestimá-la quando comparamos os costumes de hoje com os da nossa infância, nos anos 50.

Agora preciso te pedir um exercício de imaginação. E se 1968 não tivesse acontecido? E se não tivesse acontecido a Passeata, o AI-5, aquilo tudo? Como seria o Brasil hoje?

É um difícil exercício de imaginação contra-factual. Max Weber, o grande sociólogo, dizia que se os gregos tivessem perdido a batalha de Maratona, a civilização helenística teria se antecipado em mais de um século. Eles a ganharam, mas algum tempo depois foi um macedônio, Alexandre, quem levou a Grécia ao Oriente – e o cruzamento civilizacional aconteceu de qualquer modo. Mas teria sido igual num caso e noutro? Acho que não. Sem a passeata dos 100 mil, haveria ainda assim ampliação da luta contra a ditadura, a Frente Ampla (com Jango, Juscelino e Lacerda) se consolidaria etc. O resultado é inimaginável, embora a linha dura já estivesse controlando o regime e dificilmente ela largaria o poder naquele momento em favor das tendências mais liberalizantes. O AI-5 não resultou da passeata dos 100 mil, ele já estava na manga da camisa dos militares desde o cancelamento das eleições de 1965. Buscava-se o pretexto, e ele poderia ser encontrado em outra parte – mas a história não é unilateral, os acontecimentos se relacionam, se provocam mutuamente, produzem afinidades de sentido que fortalecem identidades opostas e levam à luta. Foi o que aconteceu. Se é impensável um Brasil sem a passeata dos 100 mil e sem o AI-5, mais impensável ainda é o Brasil de hoje sem esse passado. Mas certamente estaríamos melhor, sem as duas décadas de ditadura militar. Nenhuma ditadura até hoje, em nenhuma parte, deixou herança mais positiva que negativa para as gerações que lhe sucederam.

A mobilização estudantil que 1968 representa seria possível hoje? Por quê?

Não pode mais ser a mesma coisa. Havia uma ditadura e havia uma reação democrática ao regime. Depois, nos estertores do regime, aconteceram mobilizações de massa ainda maiores, jamais vistas em nossa história, por ocasião da campanha pelas Diretas e pela Constituinte. Hoje vivemos numa democracia, são poucos os motivos políticos que podem mobilizar tanta gente num mesmo lugar, embora não seja impossível. O movimento pelo impedimento de Collor provou isso, mas o sentido já era outro. O mundo também mudou muito, a mobilização tem outros meios, como a internet. Mas é claro que a força pela mudança vai buscar sempre seus motivos: hoje talvez a grande manifestação de massas no Brasil seja a representada pelas Paradas de Orgulho Gay, que acontecem em muitas cidades, reunindo milhões de pessoas. É uma mistura de desfile, de festa e de luta por direitos, muito diferente na forma das passeatas de 1968, mas sua herdeira direta. Temos hoje uma multiplicidade de manifestações, com menos gente em cada caso, mas muito mais espalhada pelo país, em luta por direitos e contra arbitrariedades políticas e por reformas profundas na estrutura agrária, por exemplo. Há hoje mais manifestações que naquela época, evidentemente, pois vivemos num país democrático que não reprime a manifestação do pensamento. Mas tendem a ser mais pulverizadas, mais específicas em seus motivos, e também mais abrangentes em suas múltiplas localizações no território brasileiro.

« anterior próximo »

Comentários


Comentários

C. S. Soares enviou em 28/04/2008 as 18:33:

Ótima entrevista. Ótimo blog. Parabéns! C. S. Soares http://blog.pontolit.com.br


Comentar

:

:
: