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Verdade e ficção: os limites entre jornalismo e literatura


"É mais fácil falar a verdade com a ficção do que com o jornalismo", declara o cineasta Jorge Furtado que esteve presente no segundo dia da 13ª Jornada Nacional de Literatura em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A mesa se propunha a discutir as relações entre jornalismo, cinema e internet, e para o diretor do premiado O homem que copiava e Saneamento básico: o filme, o que há em comum entre essse meios de comunicação é o fato de sempre carregar em seu discurso "uma dose de simulação", a diferença é que quando se faz um documentário ou uma reportagem se pretende alcançar uma verdade. "Se um sujeito está na TV de terno em um negócio que se chama jornal, eu tendo, claro, a acreditar que aquilo é verdade", afirma.

Como na ficção essa pretensão não existe, Furtado acha que com a literatura é possível conhecer a realidade em um nível mais profundo. "Não se pode detalhar todo o sentimento de um personagem através do jornalismo. É impossível, por exemplo, captar todo o sofrimento de Virginia Woolf, no livro As Horas, de Michael Cunninghan com apenas uma reportagem. Há coisas inconfessáveis que só a ficção pode traduzir", conclui arrancando aplausos da plateia.

Já o jornalista Fernando Molica acredita que tudo pode ser matéria-prima para a ficção, diferente do jornalismo que, a princípio, deve-se ater aos fatos. "Enquanto o jornal destaca o evidente, a ficção se aproxima do que não está claro", explica. Quando escreveu seu primeiro romance Notícias do Mirandão em 2002, o jornalista conta que seu trabalho a partir do constante contato com a escrita o ajudou a compor o romance. "Ser jornalista ajuda a escrever, pelo costume em lidar com texto, mas antes de ser escritor, é preciso ser um bom leitor."

Apesar de alguns escritores como Truman Capote e Gay Talease romperem, em certo sentido, os limites entre jornalismo e literatura, o escritor Sérgio Leo, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura 2008 por Mentiras do Rio, tentou esquematizar algumas diferenças: "A reportagem precisa lidar com o que é, já a literatura, com o que pode ser, por isso a literatura pode chegar aonde as provas não conseguem", disse ratificando Jorge Furtado na precisão da literatura em expressar a realidade. Para Sérgio a maneira de contar é fundamental. "A linguagem jornalística vale-se de frases prontas, é mais operacional, mas a literatura consiste na busca de traduzir as coisas do mundo de uma forma original", comenta.

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