Momentos felizes
Leia resenha do livro Em caso de felicidade, de David Foenkinos, escrita por Rafael Rodrigues
Diz-se que a felicidade pura não existe, que o máximo que podemos ter são momentos felizes. Tal premissa está tão impregnada em nós que chegamos a estranhar quando muitas coisas boas acontecem sucessivamente, durante um bom tempo. Quando isso ocorre, é comum pensarmos que, dentro em breve, algo de muito grave ou ruim vai acontecer, como se para compensar o período de boas novas - o que seria uma inversão do ditado “depois da tempestade, a bonança”.
O romance Em caso de felicidade (Rocco, tradução de Bernardo Ajzenberg), segundo livro do escritor francês David Foenkinos publicado no Brasil, parte desse pressuposto. Numa das primeiras páginas o narrador diz: “Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida,seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de algum veículo. Mas quem nos protegerá da felicidade?”.
Mas o livro não é nem pretende ser um tratado romanesco sobre a felicidade. Longe disso. Se existe uma coisa que David Foenkinos não é, é pretensioso. Ao menos não aparenta ser. Suas histórias são simples e têm como objetivo principal entreter o leitor – se provocar uma ou outra reflexão, um tanto melhor, um escritor não pode se isentar disso. Mas a impressão que se tem ao ler seus livros é a de que ele deseja fazer com que esqueçamos um pouco as numerosas notícias desagradáveis dos noticiários e tenhamos alguns momentos de diversão e riso.
Seu primeiro romance publicado aqui, O potencial erótico de minha mulher, segue este mesmo caminho. Sua história pode ser resumida assim: Hector, um homem viciado em colecionar o que quer que seja, depois de passar por uma crise e tentar cometer suicídio, recupera-se, volta a ter uma vida normal, apaixona-se e se casa. Sua vida correria normalmente não fosse por um motivo: ele passa a colecionar os momentos em que sua esposa limpa os vidros da casa. É de um acontecimento banal e improvável que o protagonista perde o equilíbrio e retoma sua “mania” de coleção.
É o que também acontece neste Em caso de felicidade. Os problemas de Jean-Jacques, protagonista do romance, têm início de maneira pouco comum. Ele, um homem casado, que tem um bom emprego e uma linda filha, curvou-se à rotina. “Permitiu” que seus dias se tornassem mecânicos e que a paixão dos tempos de namoro e início de casamento por sua esposa arrefecesse. A contratação de Sonia, uma nova e sensual estagiária, era tudo o que faltava para Jean-Jacques pensar em cometer adultério. E ele não havia pensado seriamente nisso até Sonia se colocar no limiar entre sua sala e a ante-sala, onde ela ficava. Foi ali, com ela ocupando o lugar que deveria ser da porta fechada, que Jean-Jacques decidiu tentar conquistá-la: “Sua maneira de não entrar na sala criava quase que um clima de adultério. Ela tinha com as portas uma relação das mais eróticas.”
Jean-Jacques não vê outra saída senão ter um caso extraconjugal com Sonia. Sua esposa, Claire, não demora a perceber certas atitudes diferentes no marido e concluir que é muito provável que ele esteja lhe traindo. Para confirmar e ter provas de suas suspeitas, contrata um detetive particular para segui-lo. Em pouco tempo o adultério de Jean-Jacques é confirmado e Claire o deixa, transformando a vida do casal e também a de seus pais – os de Jean-Jacques morreram já há alguns anos – um casal à moda antiga que tem mais problemas adormecidos e segredos do que se pode suspeitar. A partida repentina de Claire deixa seu marido sem rumo, atinge em cheio sua mãe – que vê a filha tomando uma atitude que ela não teve coragem de tomar décadas atrás – e também seu pai, que é acometido por um medo enorme de ser abandonado pela esposa.
Sozinho, Jean-Jacques começa a pensar que a esposa o estava traindo, afinal, que motivo ela teria para deixá-lo? Mas isso porque ele não imagina que a esposa saiba do seu caso extraconjugal. É quando ele resolve colocar um detetive particular para investigar Claire. O que se vê a partir daí é uma comédia de erros, encontros e desencontros que só seria possível surgir da mente de Foenkinos. Uma história original, mas, talvez justamente por isso, nem tanto (em O potencial erótico de minha mulher ele diz “tudo que é original, é tudo menos original”), que termina de maneira se não surpreendente, ao menos pouco convencional.
No meio de toda essa comédia romântica, algumas frases do narrador são dignas de nota e grifo, como “Há pessoas formidáveis que encontramos no momento errado em nossa vida” ou “O que estimula todos os nossos avanços tecnológicos é o adultério: criou-se a internet, o celular, criaram-se as mensagens por telefone unicamente para que todos os casais possam viver com facilidade as suas vidas paralelas. (...) Está tão minado o terreno da fidelidade que a questão, para os casais, não mais é saber se o outro o trai mas sim com quem o outro o trai.”.
Brincando com o meio corporativo, quando diz que, após os atentados de 11 de Setembro os chefões das empresas, até então acomodados nos últimos andares dos grandes edifícios, resolveram ocupar os primeiros andares e deixar o topo para a “arraia-miúda”, e com as situações vividas por qualquer casal, como aquele terrível momento em que se está jantando com a parceira e surge do nada um vendedor de flores – ela quer que você compre as flores ou achará brega você fazer isso? – além de fazer constantes referências ao cinema – principalmente a Asas do desejo, de Wim Wenders – David Foenkinos dá à literatura uma bela, tocante e divertida obra que vai de encontro à sisudez, à seriedade e às pretensões exacerbadas dos jovens escritores contemporâneos. Pode-se dizer que Em caso de felicidade proporciona, por que não?, bons momentos de felicidade, e boas lembranças também. É um livro para ter sempre por perto, e reler sempre que ela, a felicidade, estiver nos dando uns dias de folga.