Arquivo de May 2010

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A quem interessar possa

O escritor Marcelo Mirisola anda disparando o seguinte e-mail: "O Memórias da sauna finlandesa ficou de fora da segunda lista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Detalhe: essa lista soma 54 livros! Como é que pode? Creio que excluir um livro como o Memórias de uma lista de 54 livros é algo mais do que esquisito. Nem é o caso de suspeitar da seriedade de um concurso desses. Mas de investigar se houve manipulação e má fé por parte dos organizadores do concurso (que, aliás, são meus desafetos). A pergunta que eu faço nesse email coletivo é a seguinte: quem votou no meu livro? Se essas pessoas se manifestarem, poderemos, além de explicar o inexplicável, valorizar a inclusão dos ótimos livros que continuam na disputa e que eventualmente poderão ser "excluídos" da próxima lista. Abraços a todos, MM".

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Clássicos fora do comum, no Ideias sábado

Frankenstein também entra na lista
Em suas 350 páginas, você não encontrará Cervantes. Nem Shakespeare. Nem Machado de Assis. Quer dizer, consultando o índice onomástico, descobre-se que Cervantes é citado duas vezes e Dom Quixote uma; Shakespeare faz 10 rápidas aparições em cena; e Machado é coadjuvante no verbete dedicado às obras de Eça de Queiroz, mas isto só se sabe lendo a página 249 porque o índice não remete ao nome dele. Trata-se do O prazer de ler os clássicos, livro de ensaios em que Michael Dirda prepara uma lista de clássicos que passam longe do lugar-comum. O Ideias&Livros de amanhã dá a lista para o leitor apaixonado.

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Ugo Fiorovanti Neto reaparece em "Os viúvos", de Mario Prata

Mario Prata levou um beiço. E resolveu se vingar com a arma de que melhor dispõe: a literatura. No caso, a policial: Os viúvos (Leya, 288 páginas, R$ 39,90) é a segunda aventura do do ex-policial federal e agora detetive particular Ugo Fiorovanti Neto, que fez sua aparição em Sete paus, de 2008. Desta vez, Fiora, para os íntimos, terá de desvendar dois sequestros, encontrar a dona de um belo bumbum a pedido do príncipe de Dubai e descobrir que é o louco E.R.N., que foi enganado por um contador ao na hora de pagar a Receita Federal, mesma situação por que passou o escritor. É um livro de suspense. E também de humor, marca de Prata.


Você resolveu, mesmo que em forma de ficção, tomar as dores do brasileiro, o pagador de impostos?

Não tenho tanta pretensão. Mas se alguém da Receita Federal ou do Judiciário brasileiro ler o livro e perceber como estão sendo tratados centenas, talvez milhares de brasileiros enganados por contadores estelionatários, já fico feliz. No Brasil, os contadores, não são responsabilizados por nenhum dos atos por eles cometidos, em nome do contribuinte honesto que o contratou. A Receita Federal não quer saber se você pagou e ele não repassou. A Receita Federal ignora o profissional contador. E o mais grave é que a pessoa lesada por tal profissional não consegue ao menos dizer isso para a Receita. Os computadores mandam a informação para as autoridades (in)competentes, a coisa vai para o promotor que manda para o juiz que manda um oficial da justiça na tua casa querendo levar teu carro e até mesmo a tua garagem. Isso depois de limparem a tua conta bancária com o que eles denominaram – talvez com um certo sarcasmo – “confisco online”. Não respeitam nem salários depositados.

Você teve um sério problema com contadores?

Sim, tive, é claro. E quando descobri que o contador não havia pago absolutamente nada durante três anos – embora a papelada apresentada anualmente parecia estar certa, com carimbos da Receita e tudo, fiquei meio sem saber o que fazer. Todo mundo me dizia para ficar quieto porque em cinco anos prescrevia. Mas isso é sonegação, é crime. E não tenho mais idade para começar a cometer crimes. Então avisei a Receita de todo o faturamento da minha microempresa. Pronto, soltaram os cachorros em cima de mim. Depois que o livro saiu, estou me sentindo um porta-voz. É imensa a quantidade de e-mails que tenho recebido de pessoas roubadas pelos contadores. Pessoas que tiveram que vender casas, carros, tudo, para pagar o que já havia sido pago. E com juros e multas aviltantes, absurdas. É realmente muito desagradável ser tratado como criminoso. Na minha noite de autógrafos uma senhora, vitima como eu, já velhinha, me abraçava e me beijava, agradecendo por eu ter escrito tudo que ela queria dizer e não tinha para quem. Ela perdeu tudo que tinha, inclusive uma previdência privada.

Há uma teoria segundo a qual o leitor de romance policial gosta mais de acompanhar ou reencontrar o detetive a que já está acostumado do que as novas tramas propriamente ditas. Você concorda?

Não. Quanto à primeira parte, sim. É sempre bom reencontrar um detetive já quase teu amigo, íntimo, que você conhece bem, que pode confiar nele. Mas a partir do livro aberto, eu quero saber o que ele vai aprontar. No caso do Fioravanti, ficaria curioso pelas atividades sexuais dele. O cara não perdoa nem filha de namorada. Mas é muito boa gente.

Outra teoria, esta local, diz que é difícil fazer romance de mistério no Brasil porque a nossa polícia não tem tradição nem a devida competência para investigar. É por isso que Fioravanti é um ex-cana ?

Não concordo, de novo. A nossa polícia tem muita competência para investigar. Muita mais do que a gente imagina. Quem não tem competência é o Judiciário para mandar os acusados para a cadeia. É bem diferente, não é? Você sabe que nos altos cargos políticos brasileiros, temos grandes bandidos. Todo mundo sabe disso, não precisa nem investigar. Mas ninguém tem coragem de prender poderosos. A cada três ou quatro anos eles prendem um para impressionar. Mas logo soltam. Falta macho na justiça brasileira. Eles são muitos homens para ferrar com os pequenos, com os fracos, com os indefesos inocentes.

Como é escrever romance policial no Brasil?

Falta espaço na mídia para este tipo de trabalho. Apesar do Borges ter afirmado a sua paixão pelos policiais, apesar do Umberto Eco ter escrito um romance policial maravilhoso (O nome da Rosa), que é uma declaração de amor a Conan Doyle, apesar disso tudo, a mídia prefere livros sobre bruxos, vampiros e cachorros. Temos bons autores de policiais no Brasil.

Como a anterior Sete de paus, a nova aventura do detetive Fioravanti se passa em Florianópolis. Você não tem medo de encher a cidade ainda mais de turista?

Não. Não faço nenhuma apologia da ilha. Tenho mais três história com o Fioravanti. Todas na ilha. Aliás, o Fiora não é manezinho da ilha. Ele nasceu em Lages. Mas sinto um prazer incrível em descrever as cenas por esta cidade que me encanta, me cativa. O estacionamento do CIC (Centro Integrado de Cultura) sempre me pareceu um local perfeito para um seqüestro. Gosto da parte norte, onde moro. E o sul é todo taciturno, ainda não muito explorado. Coloquei o personagem principal – o tal do E.R.N – morando lá, num sítio. Ao escrever a cena eu ouço o barulho do mar e dos galhos. É gostoso escrever assim.

Você certa vez disse que novela de época era difícil de fazer porque não havia telefone. A internet ajuda a escrever romance?

Facilita. Mas com Os viúvos, aconteceu um negócio engraçado. Um personagem sai de Floripa e vai até Assunção, no Paraguai, desovar um carro roubado. Comecei a escrever a viagem dele com a ajuda do velho e bom Google. Mas eu mesmo sentia que estava soando falso. Fui dormir. No dia seguinte peguei meu carro, fui até perto de Assunção e voltei. Queria saber se era fácil entrar e sair do Paraguai pela Ponte da Amizade. Senti vergonha de ver aquilo. O que entra de contrabando por minuto ali, sem pagar impostos, evidentemente... E os caras preocupados comigo, pode?

No prefácio, a escritora Marta Goés afirma que Os viúvos é um filme. Sendo assim, quando irá para as telas? Quem você imagina no papel do detetive Fioravanti e da pitéuzinha Greta Staud?

Um dos problemas do cinema brasileiro é que os diretores não leem livros. Quando leem e adaptam para cinema, sempre dá certo. Basta ver os últimos sucessos do nosso cinema. Todos eles baseados em livros. Quando eles – os diretores – resolvem eles mesmos a criar a história, a gente volta ao cinema “da idéia na cabeça e uma câmera na mão”: uma tragédia grega. Acho que o José Wilker daria um excelente Fioravanti. Ou o Fagundes. E a Gretinha é a cara da Maria Flor. A mãe da Greta, a Til, é a cara da Sonia Braga.

Que policiais, de qualquer época, continuam obrigatórios?

A LPM está lançando os Maigret que faltavam na praça. O Simenon escreveu 76 romances e 38 contos com o personagem. Todos os contos já foram publicados e faltam poucos romances. Estou aguardando os últimos. E queria dar uma dica para as editoras. Há muito tempo não se publica mais no Brasil a dupla francesa Boileau-Narcejac (eternizados no cinema por As diabólicas e Um corpo que cai). Outro que não é publicado há décadas é o Edgar Wallace. Poderia citar também o personagem Arsene Dupin, outro clássico do Maurice Leblanc. Mais, para reedição: Mickey Spillane, aquele autor citadíssimo no filme Marty, dos anos 50. Outro: Emile Gaboriau (O caso Lerouge), o primeiro autor de romances policiais. Sim, não foi o Allan Poe nem o Doyle. Aliás, ambos mamaram no Gaboriau, que escreveu pelo menos meio século antes deles. E não podemos esquecer de outro, também anterior a Sherlock Holmes: Vidock, um dos primeiros chefe de polícia da Sûreté francesa que escreveu suas aventuras.

E quais os lançados ultimamente que valem a pena?

De novidade na praça uma obra prima: A interpretação do assassinato, de Jed Rubenfeld, americano. Gosto muito do cubano Leonardo Padura Fuentes. E a Suécia, que já havia nos revelado Henning Mankell e Stieg Larsson, vem agora com Asa Larsson, que não é parente do precocemente falecido Stieg. É uma bela loira. Mas entra ano, sai ano, o melhor é mesmo (e sempre) Georges Simenon.

O que você achou do Pornopopéia, do Reinaldo Moraes?

O Reinaldo tem o melhor texto brasileiro de hoje.

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A ponte entre Plutarco e Machado

Max Mallmann

Por Alvaro Costa e Silva

O centésimo em Roma, de Max Mallmann, agrada e surpreende: é um bem-humorado romance histórico escrito com base em uma sólida pesquisa, com direito a epígrafes de Plutarco e Machado de Assis. Para se ter uma ideia de quanto o autor é apaixonado e pesquisou o assunto, basta ler as extensas “Notas diversas (ou o quê, quem, onde, quando, por quê e como, mas não nessa ordem” que fecham o volume. O herói é o ambicioso centurião Publius Desiderius Dolens, que, depois de sete anos combatendo bárbaros na Germânia, onde ganhou o epíteto de Carniceiro de Bonna, está de volta às vielas da cidade eterna. Isso em 68 d.C., quando as legiões romanas dominavam o mundo. Nero, o insano, imperava. Nesta entrevista, Max Mallmann fala de seu fascínio pela antiguidade, da pesquisa que realizou para escrever o livro e de como o cinema e a literatura veem a Roma Antiga.

Recentemente o Babelia – suplemento literário do El Pais – deu capa para o que chamou de “Las águilas vuelan alto”, uma matéria que lista uma infinidade de livros sobre a Roma Antiga e tenta explicar por que o tema exerce tanto fascínio. Você tem uma resposta?
Assim como Jacinto Antón, autor da matéria do Babelia, e como os escritores a quem ele entrevistou, também não tenho uma resposta única, ou mesmo muito firme. Arrisco dizer que ainda somos demasiado romanos em nossos costumes, nossas leis, nossas paixões, nossa violência e mesmo em nossa língua, no caso dos falantes de idiomas neolatinos. Talvez a Roma Antiga nos fascine porque é, simultaneamente, muito distante e muito próxima do que nos tornamos.

Em a relação a você, quando começou o fascínio?
Meu fascínio pela antiguidade clássica vem desde sempre, ou quase. Acho que tinha uns 8 ou 9 anos quando terminei de ler todos os volumes do Sítio do Picapau Amarelo, numa edição de capa dura da Brasiliense. As narrativas que mais me fascinaram foram a “História do mundo para as crianças”, “O Minotauro” e “Os 12 trabalhos de Hércules”. Posso dizer, então, que Monteiro Lobato é parcialmente responsável pelo que sou.

Uma das epígrafes de O centésimo em Roma é de Plutarco. Você pesquisou muito? A quantidade de informações que o livro apresenta é espantosa.
Desde 2005, quando comecei a trabalhar n’O centésimo em Roma, eu soube que teria de lidar com um volume monstruoso de informações. O desafio seria tecer com elas uma narrativa que não se tornasse maçante. Espero ter conseguido. Li Plutarco, especialmente as Vidas de Galba e Otho. Li Suetônio, li Tácito, li um pouco de Dion Cássio, outro tanto de Flávio Josefo, algo de Plínio, o Velho e mais um tanto de Cornelius Celsus, e vasculhei historiadores contemporâneos como Paul Veyne, Adrian Goldsworthy e Pierre Grimal, isso para citar apenas os nomes principais da “estante romana” que tenho no quarto. Pesquisei obsessivamente: antes de começar a escrever, durante a escrita e continuo a pesquisar agora, com o livro já nas livrarias. Não consigo e nem quero abandonar meus romanos.

Outra das epígrafes vem de Machado de Assis, que também empresta título à obra. É mais fácil do que se pensa juntar Machado e Roma Antiga?
É bastante fácil. Machado era leitor de Tácito, Suetônio e Plutarco. Em Dom Casmurro, em Memórias póstumas de Brás Cubas e em vários contos, como o Um homem célebre, do qual tirei o título, há menções a esses autores. Assim, a ponte de mil e oitocentos anos que une Plutarco e Machado de Assis nas duas epígrafes de O centésimo em Roma é bem mais curta do que parece.

Que autores clássicos da história romana são seus preferidos?
Tácito, sempre. Sou fã de Tácito. Ele escrevia maravilhosamente bem. Tentei imitá-lo o mais que pude. É uma pena que quase não haja traduções em português das obras de Tácito. Minha edição preferida é em espanhol, com tradução de José Luis Moralejo Alvarez. Também gosto muito de Suetônio, porque ele se ocupava das pequenas maledicências que valem ouro para um ficcionista.

Você gosta das recriações romanceadas: Eu, Claudio, de Robert Graves e outras do tipo?
Gosto. Li Robert Graves, Marguerite Yourcenar e alguns outros, como Theodore H. White e seu César no Rubicão. Até Bertolt Brecht fez sua recriação de Roma, com Os negócios do Senhor Júlio César.

E filmes da velha Hollywood?
Ah, a velha Hollywood! Onde todos os romanos tinham olhos azuis e se sentiam muito à vontade a fazer refeições, cortejar donzelas ou mesmo cochilar usando a couraça das legiões, que podia pesar dez quilos e não era lá muito confortável. E viviam com tanta seriedade os seus melodramas... Não sei dizer se é apesar ou por causa do exagero, mas gosto dos velhos filmes hollywood-romanos. Tenho especial carinho pelo Júlio César do Rex Harrison, que interpretava seu papel com a dor de quem sabia que, antes do final do filme, a Cleópatra Elizabeth Taylor acabaria na cama com o Marco Antônio Richard Burton.

E séries recentes de televisão (leia-se Roma)?
Gostei de Roma, da HBO. A cenografia e o figurino eram perfeitos. E o roteirista e produtor Bruno Heller tomou uma decisão dramatúrgica que funcionou muito bem: as três décadas passadas desde a Guerra das Gálias até o triunfo de Augusto apareceram nas duas temporadas da série como se fossem um período de sete ou oito anos. Num livro, essa aceleração do tempo seria quase uma trapaça, mas na TV ficou ótimo.

A vida de Brian, do Monty Python?
A vida de Brian é um de meus filmes preferidos. Tenho o DVD e volta e meia o revejo. Há uma cena que, além de inesquecível, é exemplificativa do legado romano para a civilização ocidental. Reg, interpretado por John Cleese, é o líder da Frente do Povo da Judeia e, diante do seu grupo de conspiradores, lança a pergunta retórica: os romanos tiraram tudo o que tínhamos, e o que nos deram em troca? Um dos conspiradores, timidamente, ergue o braço e sugere: o aqueduto? Outro cria coragem e fala no saneamento. Mais alguém menciona as estradas. E a irrigação. E a medicina. E a educação. E o vinho. E os banhos. E a ordem pública... Reg, contrariado, tem de reformular a pergunta: Tudo bem. Mas além do saneamento, da medicina, da educação, do vinho, da ordem pública, da irrigação, das estradas e da água potável, o que mais os romanos fizeram por nós? Depois de um breve silêncio, outro conspirador diz: eles trouxeram a paz. Reg fica furioso.

Acaba de sair no Brasil um pequeno romance do escritor catalão Eduardo Mendoza,A assombrosa viagem de Pompônio Flato, cuja ação se desenrola um pouco antes da narrada em seu livro. No de Mendoza, Jesus é um menino. Você já leu este livro? Pois é: os dois tratam a Roma Antiga com humor. Por que a opção?
Não li ainda A assombrosa viagem de Pompônio Flato, mas já o incluí na minha lista de futuras compras. Até onde pude perceber, Eduardo Mendonza, com os romanos dele, é um pouquinho mais simpático ao cristianismo do que eu com os meus... Quanto à opção pelo humor, aconteceu simplesmente porque não vejo outra. Não só na literatura, mas na vida. O humor está presente em tudo o que faço. Até, espero, nesta entrevista.

O centurião Publius Desiderius Dolens, anti-herói do seu romance, é um sofredor como indica seu nome? Ou uma vítima?
O adjetivo dolens significa doloroso, o que tanto pode indicar aquele que sofre quanto aquele que causa o sofrimento. Desiderius Dolens é um pouco das duas coisas. Em seus piores dias, ele certamente se considera uma vítima. Mas, apesar da pouca autoestima, ele se orgulha de, teimosamente, resistir aos maus fados. Ele não é um semideus; é um sobrevivente.

O seu livro dava um filme? Com quem nos papéis principais?
Talvez O centésimo em Roma pudesse dar um filme, sim. Mas não seria uma adaptação fácil. Enquanto escrevo, meus personagens não têm rosto nem voz. Eles são vultos nebulosos feitos de palavras. Se eu fosse pensar num ator para viver Dolens, quem seria? Alguém com uma cara meio esquisita, um olhar forte e algum carisma que o tornasse simpático. E que fosse ao mesmo tempo bom de drama e de comédia. Talvez, quem sabe, alguém parecido com o Ray Milland, com a idade que ele tinha quando fez Farrapo humano, do Billy Wilder, em 1945.

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