Apesar de ser estudada em universidades do mundo inteiro, o nome Clarice Lispector ainda soa estranho em muitos países. Como nos Estados Unidos. Quando a biografia de Benjamin Moser,
Clarice, (cujo título em inglês é Why this world) foi lançada nos EUA, em agosto deste ano, a maioria das resenhas sobre o livro tratavam a escritora como "uma grande descoberta". Em entrevista ao blog do Ideias&Livros, Moser conta que sua missão é tornar Clarice Lispector mais conhecida no mundo.
JB: Como surgiu o interesse por Clarice Lispector?
Benjamin Moser: Deparei-me com Clarice pela primeira vez na Brown University há 15 anos. Essa universidade tinha o melhor departamento de língua portuguesa dos Estados Unidos.
JB: E a ideia de escrever uma biografia?
A ideia de fazer alguma coisa para torná-la mais conhecida sempre foi uma ambição minha. Não sabia se seria uma biografia, mas sempre esperei que alguém fizesse alguma coisa. Os anos passaram e ninguém fez nada. Então pensei: "Por que não eu?". Agora tenho viajado pelo mundo para falar sobre ela e tentar deixar as pessoas ansiosas para ler Clarice. A julgar pelas reações positivas, pelo menos nos países de língua inglesa, acho que estou perto do meu objetivo.
JB: Quais foram as dificuldades do trabalho de campo no Brasil?
Morei no Brasil por alguns anos e eu já falava português, claro. Seria impossível escrever uma biografia como esta sem dominar essa ferramenta básica. Trabalhar no Brasil foi muito divertido, principalmente pelas pessoas que conheci que falavam de Clarice e compartilhavam suas memórias e também a cultura brasileira em torno da figura de Clarice Lispector.
JB: Como foi seu encontro com Tania Lispector, irmã de Clarice?
Tania era uma mulher muito charmosa. Sempre bem-vestida e elegante, Tania tinha uma mente afiada e me recebeu muitas vezes para longas conversas. Logo nos tornamos amigos. Só fico muito triste por Tania não estar viva para ver este livro publicado. Ela sempre apoiou a ideia de alguém fora do Brasil escrever uma biografia de sua irmã.
JB: O que você traz de novo sobre Clarice nesta biografia?
Acredito que uma das principais novidades foi descrever as terríveis circunstâncias pelas quais Clarice e sua família passaram na Europa, um aspecto pouco conhecido de sua vida. Eles foram forçados a deixar seu país. Clarice é frequentemente mencionada como uma escritora de classe média em um contexto de imigração, mas nenhum escritor brasileiro veio de um cenário tão miserável. É muito importante perceber que eles não eram imigrantes, mas refugiados.
JB: Você pode identificar traços comuns entre Clarice e Guimarães Rosa, dois grandes escritores brasileiros do século 20?
Clarice disse sobre Guimarães Rosa: “Este era exatamente um escritor para qualquer país.”. Acho que o mesmo pode ser dito de Clarice: escritores que procuram o universal em sua experiência particular.
JB: Clarice sempre foi classificada, de bruxa à dona de casa. Como você identifica Clarice Lispector?
Clarice Lispector é uma das melhores escritoras do século 20, uma mulher que expôs sua alma tão completamente que pessoas ao redor do mundo podem se identificar com ela e amá-la.