"Pois que o amor e a afeição com facilidade cegam os olhos do entendimento". Dom Quixote
A primeira parte de Don Quijote de la Mancha, o trabalho mais famoso de Miguel de Cervantes, foi publicada em 9 de maio de 1605. No mesmo ano, a obra ganhou seis edições, fato muito raro para a época.A segunda parte só seria publicada dez anos mais tarde.
Don Quijote é um cavaleiro andante que, influenciado pela literatura de contos sobre a cavalaria medieval, vive diversas aventuras pelo interior da Espanha, sempre acompanhado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Dono de um rico imagiário, o fidalgo mergulha em seus delírios, tomado muitas vezes como um louco. Mas é um herói lírico, de sentimentos nobres e puros, típico da época, sempre em busca de provar o seu amor pela amada Dulcinéia Del Toboso. E encanta os leitores, ao despertar simpatia e fé.
É uma das obras mais conhecidas da literatura mundial, que atravessou os séculos e permanece como uma das leituras mais influentes na cultura ocidental.
Miguel de Cervantes
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 29 de setembro de 1547 na pequena Alcalá de Henares, cidade perto de Madri, numa família da baixa nobreza. Só aos 58 anos, após uma vida de toda sorte de atividades - lutou em combates, foi cobrador de impostos do governo, trabalhou como serviçal para um cardeal - lançou-se na literatura com a publicação da primeira parte de Don Quijote de la Mancha, o que o grande público considera o momento maior de sua obra.
Romancista, dramaturgo e poeta, revolucionou a literatura ao utilizar recursos como a ironia e o humor, consagrando-se o autor mais famoso da Espanha.
"Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre". Paulo Freire
O pedagogo Paulo Freire, 65 anos, morreu de infarto em São Paulo, no Hospital Albert Eistein, onde estava internado. Freire criou um método revolucionário de alfabetização de adultos em 1962 e deixou a essência de suas ideias no livro Pedagogia do oprimido(1968). Perseguido pela ditadura militar, passou 10 anos no exílio e voltou ao Brasil em 1979.
Paulo Freire nasceu no dia 19 de setembro de 1921, em Recife. Apesar de ter nascido no seio da classe média, desde cedo, Paulo vivenciou a pobreza e a fome, decorrentes principalmente da Grande Depressão (1929). Talvez tenha sido essa experiência a mola propulsora de tanta dedicação aos projetos desenvolvidos em prol dos menos favorecidos. Por esse empenho Paulo Freire tornou-se uma inspiração para gerações de pedagogos, cientistas sociais, teólogos e militantes políticos.
A sua prática didática foi uma contribuição ímpar para a sociedade. Fundamentou-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, criando sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído.
No dia 13 de abril de 2012, através da Lei nº 12.612, Paulo Freire foi reconhecido como patrono da educação brasileira.
Um guardião da utopia
por Milton Santos
Não é lugar comum. De Paulo Freire, pode-se dizer que morreu como viveu. Isto é, fazendo projetos. Estava agora fazendo as malas para oferecer seu magistério na Universidade de Harvard, nos Estado Unidos, quando a morte o acolheu.
Sua vida, depois do longo exílio a que o levou o regime autoritário, dividia-se entre o serviço do seu próprio país, o Brasil, e a pregação que fazia no estrangeiro, onde suas obras eram estimadas no seu justo valor. Não se dirá que o Brasil não o apreciasse, mas era do estrangeiro que lhe chegavam estima e aplauso.
Paulo Freire era sobretudo um notável filósofo da educação, com aquela marca que caracteriza os grandes do seu ramo: um pensamento ancorado na realidade profunda dos povos, marcado pela busca de soluções que levem a um futuro melhor.
Na fase das grandes utopias, o seu discurso foi certamente aquele que mais profundamente tocou a emoção e o espírito das pessoas que, em todo o mundo, viam na educação um caminho redentor. Se livro Pedagogia do oprimido revela sua preocupação fundamental: ensinar àqueles que a sociedade colocou lá embaixo, na base da pirâmide, a melhor via para superar os riscos da assimilação pelo entorno ideológico.
Sua proposta era carregada de otimismo e de fé, quando ele definia a escola popular e democrática como o lugar em que se podia ensinar e aprender com alegria, e a sua noção de processo participativo incluía a liberdade para criar. Tratava-se de uma postulação fundada na construção sistemática do pensamento pedagógico libertário, quando valorizava os projetos teóricos-práticos, recusando, ao mesmo tempo, os discursos vazios e as práticas sem fundamento conceitual. Esse é o sentido do seu último livro, A pedagogia da autonomia, condição que a seu ver faz parte da própria natureza da educação.
Todo o seu labor no Brasil, na América Latina, na África e nos Estados Unidos era marcado por esse otimismo e essa fé, qualidades que nunca o abandonaram, porque alicerçadas numa vida que foi uma lição de generosidade e de caráter. Sem isso, aliás, é impossível ter fé e agir pensando que um futuro é sempre possível, quando somos movidos pela vontade limpa de construir coisas fundamentais para a humanidade.
Jornal do Brasil, sábado, 3 de maio de 1997 - página 2
No dia 30 de abril de 1988, quando deixava a Rede Globo para estrear um programa de entrevistas no SBT, o humorista Jô Soares publicou no Jornal do Brasil o artigo: Agora, falando sério.
"Em 1947, os grandes produtores de Hollywood se reuniram no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, e resolveram que artistas com tendências políticas em desacordo com seu ideário não trabalhariam mais em filmes. Surgia a "LISTA NEGRA" e a conseqüente caça às bruxas. Em pouco tempo, não somente radicais ou liberais eram perseguidos. Qualquer artista que desagradasse aos chefes de estúdio era listado e não conseguia mais trabalho.
Com um impecável senso de oportunidade, a TV Globo escolheu exatamente o momento da Constituinte no Brasil para inaugurar sua "LISTA NEGRA". Quem sair da emissora, sem ter sido mandado embora, corre o risco de não poder mais trabalhar em comerciais, sob a ameaça de que estes não serão lá veiculados. Como a rede detém quase que o monopólio do mercado, os anunciantes não ousam nem pensar em artistas que possam desagradá-la.
Neste ponto, alguém pode achar que eu estou falando por interesse pessoal. Garanto que não. Não falo pelo fato de os meus comerciais não poderem ser exibidos, nem pelo fato mais recente, das chamadas pagas do meu novo espetáculo no Scala 2 “O Gordo ao vivo!” terem sido proibidas. Sou um artista muito bem remunerado e meus espetáculos têm outros meios de divulgação. Graças a Deus, meus shows de humor já lotavam teatros antes que eu fosse para a Globo. Que as chamadas de “O Gordo ao vivo!” não passariam na emissora, eu já sabia desde outubro, pelo próprio Boni, que me disse, em sua sala, quando fui me despedir: – Já mandei tirar todos os seus comerciais do ar. Chamadas do seu novo show no Scala 2, também esquece, e estou vendo como te proibir de usar a palavra ‘gordo’. Claro que esta última ameaça ficou meio difícil de cumprir. A megalomania ainda não é lei fora da Globo.
Logo, não é por isso que escrevo, pela primeira vez, sobre este assunto. Saí da Globo, onde conservo grandes amigos, com a maior lisura, e nunca me aproveitei deste espaço em causa própria. Escrevo, isto sim, porque atores que trabalham no meu programa, como Eliezer Motta, como Nina de Pádua, foram vetados em comerciais. As agências foram informadas, não oficialmente, é claro, como acontece em todas as "LISTAS NEGRAS", que suas participações não seriam aceitas.
É triste, nesse momento, em que se escreve diariamente a Democracia no Congresso, uma empresa que é concessão do Estado cerceie impunemente o artista brasileiro, de um modo geral já tão mal remunerado.
Finalmente, eu gostaria de dizer que Silvio Santos foi tremendamente injusto quando chamou Boni, numa entrevista, de “office-boy de luxo”. Nenhum office-boy consegue guardar tanto rancor no coração". Jornal do Brasil, 30 de abril de 1988
O mesmo seria lido por ele, ao vivo, no dia seguinte, durante a entrega do Prêmio Imprensa.