30 de novembro de 1980 – Morre Cartola, o Poeta do Amor

Aos 72 anos de idade morreu Cartola, um dos mais importantes compositores da Música Popular Brasileira, definido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade como o homem que “se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada”. O romântico boêmio lutou contra um câncer durante dois anos, tendo como fiel companheira a esposa Dona Zica, que permaneceu ao seu lado por todo o tempo. Um casamento de 26 anos.
“Semente de amor sei que sou desde nascença”... Este verso – cantado por Cartola num de seus mais inspirados sambas e saudado com entusiasmo por ilustres membros da Academia Brasileira de Letras – tem a força e o sentido de uma autodefinição: Cartola foi, a vida inteira, um romântico. A semente que ele plantou ao nascer de fato o transformou num poeta cujos temas – a mulher, as flores, o samba, os amigos, Deus – estão permanentemente impregnados de amor.
O poeta silenciou. Com ele, desapareceu não apenas o grande compositor das escolas de samba, mas também um dos mais ricos e fascinantes personagens da MPB. “Divino Cartola”, definia-se ele com orgulho quando encantava os amigos ao cantar Não Faz, Amor ou Divina Dama, em bares da Zona Sul. Antes de morrer, o compositor destacou três músicas que julgava mais importantes em sua obra e pelas quais gostaria de ser lembrado: As Rosas não Falam, O Mundo é um Moinho e O Inverno de Meu Tempo.

Cartola cresceu no Catete. De família pobre, mudou-se para um barraco no Morro da Mangueira. O cenário da Mangueira, em 1919, estava muito longe de ser a beleza de que o samba fala, mas, mesmo assim, despertou no menino Angenor de Oliveira (seu nome de batismo) um inexplicável fascínio. Mais tarde explicaria o “amor a primeira vista” pelo sentimento de liberdade que o morro lhe evocava. Ali, tudo o encantava. Lá, fez amigos eternos, como o também compositor Carlos Cachaça, cuja parceria resultou em belíssimos sambas.
A paixão pelo estilo musical, aliás, fez aqueles jovens fundarem, na década de 1920, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Partiu de Cartola a escolha das marcantes cores da escola: verde e rosa.
Em 1931, já amigo de Noel Rosa, seu nome – Cartola da Mangueira – era conhecido nas rodas de samba da cidade. Seu nome e suas composições começavam a fazer sucesso num cenário próspero, em que eram lançados no meio musical Francisco Alves, Mário Reis, Ismael Silva, Orestes Barbosa e Lupicínio Rodrigues.
Em 1948, Cartola era um cantor premiado e seu samba, escrito a quatro mãos com Carlos Cachaça, Vale do São Francisco, impulsionou a vitória da Mangueira no desfile das escolas de samba daquele ano. Cartola dividia-se entre o morro e a cidade. Entre o barracão e os estúdios de rádio.
O mestre eternizava-se no coração do Brasil. Apesar de ter passado dez anos no anonimato, por conta de uma meningite que apagara sua memória, em 1957, já casado com Dona Zira, voltava a falar de rosas no cenário da boemia carioca, do qual não sairia mais.

Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim”
(Cartola: ‘As Rosas Não Falam’)
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