16 de março de 1998 – Vaticano pede perdão ao povo hebraico

No dia 16 de março de 1998, o Vaticano apresentou à mídia internacional o texto Nós recordamos: uma reflexão sobre o ‘Shoah’. Com pouco mais de 14 páginas, o texto era dirigido aos fiéis católicos de todo o mundo, e tinha como intuito ser um pedido de desculpas ao povo hebraico pelos terríveis sofrimentos que lhe foram impostos na Segunda Guerra Mundial, ao tempo em que tentava defender as atitudes do papa Pio XII, acusado por muitos historiadores de não ter denunciado com maior energia as perseguições aos judeus por parte do nazismo alemão e do fascismo italiano, que culminaram no Holocausto. O texto levou mais de onze anos para ficar pronto, tendo sido encomendado pelo papa João Paulo II, que era o pontifície na data de publicação do documento.
Muitos vaticanistas italianos reconheceram que o documento era de grande importância para o futuro, embora aguado e tímido quanto ao passado. “A relação da Igreja com o povo judeu é diferente da que ela compartilha com qualquer outra religião. Não é somente uma questão de retornar ao passado. O futuro comum de judeus e cristãos exige que nós recordemos, porque não existe futuro sem memória. A própria história é memória futuri ”, vinha escrito em uma parte da reflexão.
Embora admita a existência entre os católicos de preconceitos antijudaicos, nascidos de uma interpretação errônea do Novo Testamento, o texto distingue esse tipo de sentimento do anti-semitismo. Assim, o documento expõe que o nazismo não foi contrário apenas ao judaísmo, mas também ao cristianismo, sendo que uma corrente significativa do mesmo rejeitava Deus e queria submeter a religião ao Estado nazista. Insistindo nessa tese, a autocrítica da Igreja absolveu o Papa Pio XII das graves acusações de não ter tido maiores esforços para impedir o Holocausto.
“Pio XII também condenou o racismo nazista de modo solene, em 1937, iniciativa que provocou ataques e sanções contra membros do clero alemão. Em 1938, dirigindo-se a um grupo de peregrinos belgas, o papa falou: ‘O anti-semitismo é inaceitável. Espiritualmente somos todos semitas’”. A Reflexão sobre o Shoah, porém, preferiu ignorar os silêncios e as omissões do mesmo papa diante dos insistentes apelos que recebeu – entre 1942 e 1944 – dos governos da Polônia, França e Bélgica sobre as perseguições ao judeus praticadas na Alemanha e na Itália.



