Após anos de sonhos, investimentos e concretizações, a moda brasileira está a um passo de tornar-se, oficialmente, cultura em nosso país. Diante da tão esperada mudança, Paulo Borges registrou, em vídeo, para o site FFW as entrevistas que comandou com os três candidatos que lideram as pesquisas à Presidência da República. Na passarela:
Dilma Rousseff (PT),
Marina Silva (PV) e
José Serra (PSDB) e a importância da moda nacional em projetos governamentais.
Moda brasileira e projeção mundial
Dilma Rousseff: Acredito que o país espelha cada momento histórico pelo qual passa. Hoje, temos uma imagem no exterior que reflete a nossa identidade e as nossas conquistas. O Brasil deu um passo grande no sentido de ser respeitado não apenas por ter tido um crescimento econômico elevado. Hoje, somos capazes de agregar várias percepções internamente e, se queremos construir uma imagem no exterior, temos que, antes, construir uma imagem aqui.
Marina Silva: Acho que o Brasil tem de ter a marca do seu próprio olhar e da sua própria escuta. Sempre repito a frase de Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”. O mundo procura sempre aquilo que lhe é semelhante, mas nós somos um planeta com uma diversidade cultural fantástica. Se nós nos transformamos em uma mesmice perdemos a possibilidade da troca. O Brasil é uma potência cultural, social e ambiental. Quando estava no Ministério do Meio Ambiente, percebi que podíamos criar o que chamávamos de etnogrifes, buscando nossas raízes mais profundas. Por exemplo, o que os índios, a cultura negra, a diversidade que veio com os europeus têm para mostrar ao mundo? E fazê-lo sem uma posição xenófoba. Trabalhar com a ideia de que o mundo também pode se inspirar na gente.
José Serra: Primeiro, temos de ser um governo preocupado com a produção. Pode parecer banal dizer isso, mas na prática, é como as coisas funcionam. Hoje, por exemplo, temos políticas tributárias e cambiais que desfavorecem o desenvolvimento da produção interna, a agregação de valor, a exportação e favorecem a importação. Por isso, para moda, e vários outros setores, é preciso que se tenha uma política econômica mais fraterna. Quero uma política mais favorável à produção local.
Centralização e investimentos
DR: Acho que algumas coisas têm de ser combinadas para a formalização das empresas. A desoneração tributária é muito importante, o 'super simples' é um passo. Para fazer financiamentos, você tem de utilizar todas as instituições que financiam as empresas no Brasil. Se for a longo prazo, inovação, recorre-se ao BNDES. Se for para capital de juros, recorre-se ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica. Você tem de estruturar esse ministério, colocando dentro dele, ou ligado a ele, os órgãos que atuam, hoje, com a pequena empresa. Para o BNDES é preciso que se dê status de inovação ao design e à gestão da marca. É preciso destacar o fato de que uma coleção, ou o lançamento de um produto, pode ser inovador. A meu ver, quem vai ter de financiar serão os mesmos órgãos que financiam, hoje, qualquer empresa no Brasil. O financiamento à moda tem de ser legitimado. E isso só pode ser feito através dos canais onde se concentra o dinheiro. E, aos poucos, o setor privado financeiro vai notar a importância, notar que uma pequena empresa de design pode ser extremamente lucrativa. É preciso uma política específica de financiamento e de inovação. O fato de ser pequena não significa que uma empresa não possa concorrer no mercado internacional. É possível entrar se você tiver redes de suporte à sua comercialização. O país tem de estruturar pontos de venda, os quais você possa compartilhar. Nós estamos engatinhando na política de pequena e médias empresas. Não imaginamos o potencial que temos.
MS: Para que haja um centro é preciso uma base, um entorno e que cada um de nós busque essa centralidade. O mundo é multicêntrico. Cada vez mais vamos precisar de uma relação em coautoria, na qual o teu fazer sustenta o meu fazer. O Estado deve mobilizar setores que possam, juntos, conseguir os melhores recursos para elevar a moda. Penso em parceria com o BNDES, com o Banco do Brasil, com o setor financeiro e com as medidas corretas que possam, inclusive, diminuir os juros. Precisamos também entender a moda como um espaço de criação, de entretenimento, conhecimento, tecnologia e inovação, não como um supérfluo passageiro, mas como algo que está criando identidade para o nosso país.
JS: Acho que tínhamos de aproveitar três modalidades de crédito. Uma delas, que é bem pequenininha, e muito usada em SP, é o Banco do Povo. Temos também o crédito que tem mais vocação para chegar aos produtores já de certo porte, que é o dado pelos bancos estaduais de desenvolvimento. Em SP, recorremos à Nossa Caixa Desenvolvimento. Ela, como outros bancos, pode também repassar linhas de apoio. O BNDES e o Banco do Nordeste englobam a terceira modalidade de crédito. Ambos deveriam ser usados para desenvolver linhas junto ao ministério que cuida de políticas industriais e, sobretudo, junto ao setor. Se você disponibiliza R$ 5 bilhões para uma grande empresa comprar outra, você não está agregando nenhum valor. É preciso uma organização a nível nacional, estadual e municipal e do ponto de vista dos ministérios e secretarias que cuidam destas áreas. Deveriam ser criados parques tecnológicos para o design e a moda. Já trabalhamos com parques tecnológicos em SP, que funcionam como incubadoras de talentos. Alí estão pessoas pesquisando e visando um interesse comum entre as empresas.
Produção e mercado externo
DR: Temos uma série de instituições ocupadas em lançar produtos nacionais lá fora. A Apex é um exemplo. Além disso, abrimos um braço do BNDES para o exterior. Se eleita, eu vou ser como o Lula, uma espécie de caixeiro-viajante. Usar marcas brasileiras e não ficar encantada com as estrangeiras.
MS: Acho que dois movimentos precisam ser feitos: consolidação do setor e a promoção. É muito bom saber, por exemplo, que alguém sonhou em promover um evento como a SPFW que, 15 anos depois, ainda é um sucesso e continua apostando em um novo caminho para a moda brasileira. Uma forma de desqualificar quem sonha é achar que não somos capazes de realizar, mas eu nunca vi nada grandioso que não tenha na origem um sonho. E essas pessoas que sonham são capazes de antecipar o futuro. Eu chamo esse tipo de movimento de núcleos vivos da sociedade. Agora, temos de apostar no financiamento, na promoção, na consolidação, na formação, na busca dos espaços corretos para que a moda brasileira, cada vez mais, se firme como este lugar de criatividade e de exportação de sonho, beleza, riqueza e diversidade brasileira.
JS: Não existe uma fórmula. O que tem de ser feito é um trabalho conjunto e de maneira efetiva para que o poder público reconheça a moda como um setor importante para o Brasil. Não da boca para fora, mas na prática e que envolva toda política industrial, econômica e a política de inovação. E também nas práticas comerciais, claro. Os eventos têm uma importância crucial, pois eles aproximam comercialmente e, mais do que isso, eles difundem as criações. Eles tornam as criações um produto que acaba sendo agregado de forma coletiva, na medida que, quem consome ou assiste, cria identidade com aquilo.
Fim da desqualificação do produto nacional
DR: Vou citar uma fase do Lula: ‘primeiro vou fazer o necessário, depois vou fazer o possível, e depois, quando menos esperarem, eu estarei fazendo o impossível, sem saber que era impossível’. O Brasil tem de parar com essa mania de que tudo o que vem de fora é melhor. A alma de um país é a sua cultura e a moda entra exatamente na questão de valorizar a criação brasileira. Dentro de todo esse desenvolvimento econômico, que já começou, a moda vai crescer muito e fazer diferença. Seremos tão importantes quanto os grandes centros europeus.
MS: Temos de sair da visão do estado provedor e gosto da palavra parceria. O Estado deve mobilizar setores que possam, juntos, conseguir os melhores recursos para elevar a moda. Quero sair da velha visão de política de fazer para... para a nova política de fazer com. Que cada um faça a sua parte, porque é uma corrida de 4x4. Quem está com o bastão, na mão deve olhar para a moda, para a agricultura, para a indústria, para o turismo e dizer: “eu vou fazer a minha parte!” Esse trabalho de parceria, de coautoria, é o que eu quero.
JS: Devemos nos livrar do complexo de Carmen Miranda, através do qual, só valorizamos aquilo que venceu na América, no exterior. Esse é o tipo de complexo que o Brasil não deveria ter. Se tem algo que não nos falta é criatividade. E eu acho que precisamos ter um governo aberto para isso. Necessitamos passar a comemorar as grandes conquistas internas e sermos capazes de traduzir isso em acolhida, em ouvido, em atenção e em políticas concretas, sejam as tradicionais, sejam as novas, para que o setor possa decolar. A moda é uma das áreas nas quais eu tenho mais esperanças de que sejamos capazes de ocupar uma posição de liderança mundial. E que isso aconteça não para ganharmos uma corrida, mas para criarmos emprego, qualidade e melhor padrão de vida para as pessoas. E ganhar culturalmente.