PAULO BORGES, O HOMEM QUE FAZ O MOINHO DA MODA BRASILEIRA GIRAR, ANALISA AS RECENTES EDIÇÕES DAS SEMANAS DE MODA CARIOCA E PAULISTANA. E FALA TAMBÉM DE SEU ‘LIFESTYLE
Paulo Borges saúda a 16ª edição do Fashion Rio, no PÍer Mauá, com ‘background‘ do navio-escola da marinha francesa Jeanne D’Arc, em sua última viagem pelo mundo, depois de 30 anos de atividade
Ele é o homem mais ocupado da moda nacional – está à frente de cinco edições anuais de semanas fashion (duas do Fashion Rio, duas da SPFW + um Rio Summer), mas, mesmo assim, tem tempo para tudo. Para namorar, para falar com o filho, Henrique, ao telefone – o menino passa férias na Bahia com o irmão de Paulo –, estar presente em todas as salas de desfiles, backstages e nos quatro cantos do prédio da Bienal e, ainda, dar entrevista à coluna. Entre os desfiles de Simone Nunes e Fábia Bercseck, na terça-feira, conseguimos sequestrar Paulo para um papinho rápido.
Pontos altos do Fashion Rio
Foi uma decisão acertada iniciar os desfiles no fim da tarde. Da imprensa aos modelos, todos elogiaram. Assim dava para evitar o pico de temperatura. O calor não é o vilão. Vivemos em um país quente por natureza, mas não precisamos submeter os profissionais envolvidos a essas temperaturas loucas. Outro aspecto positivo é ter a moda no centro das atenções. Antes, o Fashion Rio era muito conhecido pela celebridade-modelo e pelos atores da primeira fila. Com a entrada de novos nomes no line up, a pauta voltou a ser a moda e não mais o entorno do evento. O Rio- à-Pôrter, o salão de negócios que criamos para o Fashion Rio, ficou efetivamente integrado à proposta. Deixou de ser paralelo ou na diagonal e vendeu muito. Foram mais de R$ 500 milhões movimentados em três dias de funcionamento. Um show à parte foi ver o Fashion Rio em plena atividade, enquanto o Cais do Porto operava normalmente, com transatlânticos entrando e saindo. É a prova de que os eventos na região portuária podem funcionar com o porto vivo. E um dos legados mais bacanas foi o Fashion Rio ter contribuído para a restauração de mais uma parte dos antigos armazéns. Restauramos o Armazém 4 e o anexo, e mais o 5 e o 6. É o evento colaborando com a cidade e a cidade cuidando do evento. Os governantes também estão investindo muito na área.
Pontos baixos do Fashion Rio
O problema com o ar condicionado no primeiro dia. O que é arcondicionado? É uma equação entre a engenharia do local e a temperatura externa. Nós calculamos uma temperatura alta nesta época do ano e reservamos uma potência de refrigeração para isso, mas não contávamos com aquele calor indescritível. Da noite para o dia, tivemos de fazer adaptações. Não havia mais aparelhos para alugar na cidade e mandamos desinstalar três que já estavam prontos para operar aqui, na Bienal, em São Paulo, e levar para o Rio. Outro aspecto que pode ser repensado é o horário dos eventos. O Rio Pret-à-Pôrter pode, tranquilamente, funcionar até meia-noite. Se os desfiles terminassem às 22h, haveria maior oportunidade de giro para o público. Percebi que, a essa hora, o povo ainda estava no pique como se fossem 19h. A data na qual o Fashion Rio foi realizado, nessa temporada, também foi sofrível. Não dá para sair das festas e entrar em uma semana de moda. A ideia é que a próxima maratona fashion de Inverno aconteça a partir do dia 15 de janeiro. E, já para a próxima edição, quero mais agitos culturais fora dos galpões. Mais exposições, mais restaurantes e mais entretenimento para que a linearidade do trajeto não incomode tanto. Com mais distrações pelo caminho, os fashionistas vão sentir menos as distâncias a serem percorridas.
Tecnologia à flor da pele: os muitos telões espalhados pela 28ª edição da SPFW, no prédio da Bienal, são prova do esforço para informatizar e facilitar, cada vez mais, o trabalho de quem participa da semana de moda
O homem que tudo vê
Uma vez me perguntaram por que eu ainda ia a todas as salas e backstages antes dos desfiles. Garanto que não é por vaidade ou por ser controlador, mas sempre temos alguns ajustes a fazer. Hoje, por exemplo, em um dos desfiles, o operador de luz estava deixando as pessoas saírem no escuro. Eu estava lá e fui pessoalmente à cabine reclamar do procedimento. É perigoso. Gosto de sentir o clima das pessoas, o que está funcionando, o que não está rolando e o que estão achando. É importante esse feedback, por isso faço questão de estar em todos os lugares.
Internet
Tenho Iphone, recebo e respondo e-mails por telefone, tenho Ipod, laptop, todos os gadgets, mas não uso por prazer. A utilização é para o trabalho e para me informar do que está acontecendo no mundo. Não sou escravo da tecnologia. Gosto do olho no olho, de conversar, de sentir a emoção das pessoas.
Blogs
Sempre abrimos espaço para as novas mídias na SPFW. Dizer que não credenciamos blogueiros é uma injustiça, pois, desde o início da onda, escolhemos alguns deles para acompanhar tudo. Mas há blogs e blooogs. Muita gente acha que é só ter um computador e uma língua afiada para ser considerado um crítico de moda. Priorizamos os veículos que têm importância e o segmento para o qual falam. Até tentamos trazer para a SPFW a Tavi Gevinson, um sucesso de apenas 13 anos, mas a mãe proíbe viagens que atrapalhem seus estudos. Aí, não rolou.
Rio de Janeiro
Descobri que o trânsito do Rio é tão caótico quanto o de São Paulo ou o de Salvador. O problema é do sistema viário das metrópoles, não temos como fugir. Adoro o Zazá Bistrô, em Ipanema, é quase a minha cozinha na cidade. Fiquei muito próximo da Bethy Lagardère e estamos sempre juntos quando coincide de chegarmos ao Rio na mesma época. Adoro subir Santa Teresa também, um dos lugares mais legais da cidade. Sempre me perguntam se eu comprarei uma casa no Rio e eu respondo com outro questionamento: se eu posso morar no Copacabana Palace, durante as minhas temporadas, para que procurar um apê? Não há lugar melhor para se viver do que no Copacabana Palace, não é? E o mais importante sobre a cidade é sentir que eu fui adotado pelos cariocas, que perceberam que não existe essa disputa bairrista. Quero contribuir da melhor maneira e todos estão me ajudando nesse processo.
Sonho
Meu sonho é que a moda brasileira seja reconhecida como uma das melhores do mundo e que seja também uma referência para outras. É um processo que, no meu sonho, vai durar uns 30 anos. Estamos no 15º ano desse desejo, portanto, no meio do caminho. Perigoso é não olhar para frente e não sonhar.