Fomos à The Brandery, em Barcelona, para conhecer a feira de moda mais importante do Sul da Europa. E os espanhóis querem que brasileiros invadam a praia
Desde os anos 70, as touradas vêm perdendo força na região da Catalunha, onde fica localizada a cidade de Barcelona. Os jovens não se interessam pelo tema, os órgãos que lutam pela defesa dos animais fazem terrorismo e os catalães reafirmam a rejeição às touradas como uma forma de se diferenciar do resto da Espanha. A arena de touradas, localizada na Praça de Espanha, por exemplo, fechou seus portões para se transformar em um shopping. Sinal de que a moda, para os moradores, é mais importante do que as imbecis guerras contra os pobres touros. A luta para adequar a arena a um centro de compras é hercúlea. Para se ter uma ideia, a estrutura, que tem capacidade para 20 mil pessoas, foi erguida por macacos hidráulicos para que os engenheiros pudessem construir um estacionamento subterrâneo.
Se a perda do palco de touradas não surtiu nenhum sentimento ruim nos barceloneses, a perda de uma das feiras de moda mais importantes da Europa, a Bread & Butter – que rolou em Barcelona por alguns anos e, em 2009, voltou para Berlim, onde começou – foi um dos golpes mais duros na economia da cidade. Orgulhosos de serem catalães e guerreiros na defesa de sua relevância frente ao mundo, os barceloneses se levantaram, sacudiram a poeira e começaram a ensaiar a volta por cima, em julho do ano passado, quando rolou a primeira edição da The Brandery, feira de moda urbana de Barcelona, que já nasceu bombada. A segunda edição foi realizada semana passada e mostrou que o povo não vai brincar em serviço no objetivo de transformar a feira de moda em uma das principais do mundo. Dobraram os expositores, totalizando, agora, 200 marcas de toda a Europa – principalmente de Portugal, Espanha, França e Itália – apresentando suas novidades para o Inverno 2011. Pére Camprubí, o dono do projeto e quem responde pelas ações futuras da The Brandery, ainda acredita ser só o começo e anseia por muito mais. “Queremos nos consolidar como a feira mais importante do Sul da Europa. Cumprimos com nosso objetivo de qualidade e resultados que fixamos, que é o de nos convertermos no centro de intercâmbio entre marcas, compradores e revendedores de referência do mercado dessa região europeia. O Sul, afinal, é onde se concentra o maior volume de negócio para as empresas que participam da The Brandery”, explicou Pére.
Pére Camprubí, o dono do projeto
O empresário, aliás, vê com ótimos – e desejosos – olhos o mercado brasileiro de moda. “Não há outra região do mundo – fora da Europa, claro – que se assemelhe mais ao nosso público-alvo. Trazer marcas brasileiras já para a próxima edição, em junho, virou uma questão de honra”, sentenciou Pére, que não está usando figura de linguagem quando categoriza a afirmação acima. Para esta edição, que se encerrou dia 29 de janeiro, ele fez uma primeira aproximação que não resultou em um intercâmbio efetivo, mas um início de relacionamento que pretende que se concretize já para a edição de Verão 2011. “Estamos dispostos até a bancar a vinda das marcas brasileiras interessadas. Há a intenção de criar um espaço dedicado ao Brasil... Ou seja, facilitar de todas as formas a vinda das grifes que se interessarem por fazer negócios com a região que mais cresce na Europa: o Sul”, animou-se o espanhol.
A ideia de ter um Pavilhão Brasil na feira seria bastante plausível já que a The Brandery – que se estende por 2 pavilhões na região chamada de Feria de Barcelona, aos pés do Mont Montjüic e tendo como pano de fundo o lindo Palácio do Museu da Catalunha – já se divide em áreas temáticas. Os cerca de 200 expositores eram distribuídos em seis setores – com direito a a mapa de localização. The Cathedral, onde ficavam as marcas com foco no design, os criadores mais autorais; o 080, onde se localizavam os novíssimos talentos da moda espanhola, cujos desfiles eram transmitidos em telões localizados em pontos nevrálgicos da cidade; The Loft, para as labels mais fashionistas; The Warehouse, especializada em jeanswear; e o The Stadium, habitat das marcas de streetwear, calçados e bonés. Era ali também que rolavam as apresentações de streetdance e as acrobacias kamikazes dos skatistas e bikers. Estes, aliás, se apresentavam com as roupas de algumas das brands da feira. Em um dos dias, por exemplo, os mocinhos das bicicletas faziam seus números vestindo nada mais do que cuecas garimpadas nos estandes das marcas da região do The Stadium. Situação um tanto quanto surreal, já que, do lado de fora dos pavilhões, o frio era congelante e até uma pista de patinação no gelo foi montada para os mais animados.
Dançarinos na The Brandery
Mas nem só a compras e apresentações artísticas se resumia a feira. No espaço batizado Laundry, experts em comportamento dos consumidores, fashionistas e professores de marketing davam palestras e reuniam quem queria pensar a moda, além de só fazer ou só comprar. Isabel Mesa, gerente regional para Espanha e Portugal do WGSN, um dos mais importantes centros de estudo de tendências do mundo, foi uma das que discursaram sobre o assunto. “A The Brandery é exatamente como uma feira moderna e a moda contemporânea deve ser. Útil, pois é prática, vai direto ao ponto, sem enrolações; emotiva, pois desperta sensações; e inventiva”, disse Isabel. Mas, em termos práticos, Isabel também exemplificou quais serão os hits da temporada de Inverno 2011. “Peças-chave são os biker looks, visual que remete aos esportes, como beisebol, e aos uniformes dos trabalhadores dos anos 40, quando pensamos nas roupas para os homens. Jaquetinhas em náilon, camisas oversized, contrapondo com o aspecto mais justo dos bodies dos anos 90, as calças de joggings em versão mais chique e as carrot pants são os pontos altos para as mulheres. As calças mais trendies para os meninos serão as no estilo cargo. Ou seja: utilitárias e com muitos bolsos”, enumerou.
No dia seguinte, no Laundry, José Luis Neno, professor-titular de Marketing na Universidade IESE, fez uma palestra mais pragmática, falando sobre um dos temas da The Brandery nesta temporada: a criação de um New Deal para a moda, tal qual o proposto por Franklin D. Roosevelt, à época da grande depressão de 1929. “A classe média estabelecida da Europa não tem mais como crescer. Está estagnada. São as dos países emergentes que vão sustentar o crescimento do mundo. Quando se vai mal aqui, se vai bem em algum outro lugar. É por isso que precisamos repensar o modo de se vender e de se comprar. Para completar esse cenário, a Espanha passa por um momento de altos índices de desemprego e quando não há emprego, não há compra”, disse em tom alarmista o professor. “A Espanha é o país que mais tem lojas no mundo em termos relativos. Para atrair os consumidores e nos mantermos fortes é necessário que o preço médio dos produtos caia. E é o que vem acontecendo”.

The Cathedral, uma das áreas temáticas da feira
O New Deal da The Brandery passa por esse princípio e vai além. Todos os envolvidos na feira dividiam a visão de que, além das roupas, é preciso apostar na criação de uma marca, na definição de um estilo forte, identificável e que desperte o tal desejo que fará com que os consumidores saiam de suas casas para comprar. “É hora de olhar as pessoas antes das roupas, e entender que a vida na cidade e a forma como as peças interagem nesse ambiente é que vão definir a compra”, explicou Daniel Córdoba Mendiola, autor do livro Coolhunting e um dos participantes da The Brandery.
The Wharehouse, outra área temática
Barcelona é definitivamente um dos centros propulsores de design e da moda europeia. Claro que não estamos falando da moda engomada e, de certa forma, excludente da França ou Itália. Pode-se sentir nas ruas uma energia criativa. E esse é um outro ponto decisivo do New Deal da The Brandery: a importância de ela se realizar em Barcelona. A feira se apropriou e se integrou à cidade, que é uma marca internacional e catalisadora de atenções. Essencial para transformar a feira em uma plataforma de lançamento e polo atrativo. A parceria com a Prefeitura da Cidade também é um ponto relevante no projeto da The Brandery. No primeiro dia do evento, por exemplo, o prefeito de Barcelona, Jordi Hereu, fez questão de marcar presença. “É um projeto pessoal transformar a cidade em uma referência internacional de feiras de moda contemporânea”, explicou o alcaide, que fez questão de conferir todos os espaços. Só não se arriscou a calçar os patins e dar uma voltinha na pista de gelo.
O prefeito de Barcelona, Jordi Hereu
Se, do lado de fora, os termômetros marcavam 5ºC, nas máquinas registradoras dos expositores e dos 15 mil compradores que passaram pela The Brandery, nos três dias de feira, a temperatura atingia índices capazes de alarmar os cientistas mais temorosos em relação ao aquecimento global.