RETROSPECTIVA 2009
Uma das iniciativas mais revolucionárias da ópera mundial chegou ao Brasil por iniciativa da MovieMobz. As transmissões digitais, em alta definição, do mais importante teatro lírico americano, o Metropolitan Opera de Nova York, alcançaram diversas cidades brasileiras com sucesso extraordinário. O projeto MET Ópera nos Cinemas apresentou, nas salas do país, desde a sua transmissão inicial em janeiro deste ano, obras emblemáticas com os maiores intérpretes da atualidade, em novas produções ou em montagens consagradas.
A diva do momento, a estupenda soprano russa Anna Netrebko, encarnou a Lucia di Lammermoor, de Donizetti, em uma performance magistral na produção de Mary Zimmermann. Em La Sonambula, de Bellini, as vozes inacreditáveis, e o perfeito timing cômico, de Natalie Dessay e Juan Diego Flórez eletrizaram as platéias brasileiras e internacionais. Na Cinderela (Cenerentola) de Rossini, brilhou a voz (e beleza fulgurante) da mezzo-soprano Elina Garanca.
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Anna Netrebko e o barítono Mariusz Kwiecien na Lucia di Lammermoor do MET
O coreógrafo Mark Morris montou um instigante Orfeo ed Euridice, de Gluck, com a voz suntuosa da mezzo Stephanie Blythe e outra grande sensação da atualidade, a soprano australiana Danielle de Niese.
De Puccini, Angela Gheorghiu e Roberto Alagna viveram os protagonistas na pouco encenada (e bela!) La Rondine, a arte interpretativa de Patricia Racette deu voz à pungente Madama Butterfly (na produção de Anthony Minghella) e, abrindo a nova temporada 2009-2010, Karita Mattila viveu uma Tosca de alta intensidade dramática na controversa (e vaiada!) montagem de Luc Bondy. A grande soprano finlandesa encontrou partners à altura no barítono George Gagnidze e no tenor argentino Marcelo Álvarez, que brindou o centenário do Theatro Municipal carioca no concerto realizado ao ar livre, na Cinelândia, em julho, com a soprano Sumi Jo.

Marcelo Álvarez: na Tosca do MET (com Karita Mattila) e no concerto do centenário do Theatro Municipal carioca.
PELO BRASIL:
A grande efeméride de 2009 foi o cinquentenário de morte de maior compositor brasileiro, Heitor Villa-Lobos, homenageado nas séries de música clássica e nas temporadas de todas as principais orquestras do país, culminando com a 47ª edição do grande festival dedicado à sua obra, em novembro. A data de nascimento do maestro carioca, 5 de março, já celebrada em nível estadual, foi decretada pelo presidente da República como Dia Nacional da Música Clássica.

Heitor Villa-Lobos
O Ano da França no Brasil moldou a programação musical no Brasil. Compositores pouco tocados no país foram redescobertos e apareceram como nunca.
Após uma conturbada demissão de seu cargo de diretor artístico da OSESP após doze anos, o maestro John Neschling foi substituído interinamente pelo francês Yan-Pascal Tortelier. As alterações da programação não tiraram o brilho da temporada, que teve inúmeros pontos altos, como as apresentações semi-encenadas das óperas Falstaff, de Verdi, e O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss (com a ótima Anne Schwanewilms!) e os concertos dedicados à obra inquietante da compositora russa Sofia Gubaidulina. Outros intérpretes notáveis somaram sua arte à da OSESP, como o pianista Alexandre Tharaud, o maestro Louis Langrée, a percussionista Evelyn Glennie e as sopranos Maria Bayo e Juliane Banse.

Yan-Pascal Tortelier rege a OSESP
O Quarteto Radamés Gnatalli se firma como um dos melhores grupos camerísticos brasileiros. Além de uma excursão com concertos didáticos pelo Norte e Nordeste, o grupo realizou um verdadeiro tour-de-force ao executar a integral dos quartetos de cordas de Villa-Lobos.
Um ano de reconhecimento para o talento da pianista brasileira Sonia Rubinsky, que amealhou o Prêmio Carlos Gomes por seu álbum dedicado às sonatas de Scarlatti e o Grammy Latino por sua gravação integral das obras para piano solo de Villa-Lobos.

Sonia Rubinsky
O compositor e maestro Marlos Nobre comemorou seus 70 anos de vida, 50 deles dedicados à música, com uma agenda intensa de celebrações e estréias de obras, como o seu concerto para percussão e orquestra no.2, executado pela OSESP.
NO RIO:
A cena musical internacional celebrou em grande estilo os 200 anos de nascimento de Félix Mendelssohn, os 200 anos de morte de Joseph Haydn, os 250 anos da morte de Georg Friedrich Händel e os 350 anos do nascimento de Henry Purcell. No Rio, a grande homenagem a Händel foi em abril, pelo Mozarteum Brasileiro, através da apresentação dramatúrgico-musical Händel Gala, com a orquestra barroca alemã Elbipolis e o Coro da Academia de Música de Schleswig-Holstein, regidos por Rolf Beck.

Georg Friedrich Händel
Com o Theatro Municipal fechado no ano de seu centenário, a Sala Cecília Meireles abrigou quase toda a programação musical erudita carioca neste ano, mas também realizou seus próprios ciclos com excelência e originalidade. O essencial ciclo Claudio Santoro homenageou um de nossos maiores compositores em seus 20 anos de morte e o ciclo Contrapontos Vienenses estabeleceu um diálogo musical interessante entre compositores da Segunda Escola Vienense e de gerações anteriores, como Mozart e Beethoven. Marcando o ano Händel e Haydn, a Sala trouxe a excepcional mezzo-soprano Vivica Genaux para um concerto apoteótico com a orquestra alemã Concerto Köln. Outros concertos internacionais da Sala nos ofereceram momentos musicais de tirar o fôlego, como os da fenomenal violinista virtuose americana Hilary Hahn, do ensemble vocal francês Soli-Tutti e de um dos melhores quartetos do planeta, o Emerson String Quartet.

Vivica Genaux
A Orquestra Sinfônica Brasileira continua a sua trajetória de ascensão sob a direção do maestro Roberto Minczuk. Sua temporada 2009 foi uma das mais ricas em programação e qualidade musical, trazendo expoentes internacionais como o violinista Joshua Bell e as pianistas Maria João Pires e Anna Vinnitskaya, que realizou um dos melhores concertos de 2009 no Rio. Com a OSB, a soprano francesa Michelle Canniccioni cantou a aguardada estreia carioca de Olhos de Capitu, obra de João Guilherme Ripper baseada em Machado de Assis. Com a OSB, o pianista Ivo Pogorelich protagonizou o concerto mais polêmico do ano. E em parceria com a Fundação Eva Klabin, a OSB inaugurou uma ótima série de música de câmara na casa-museu da Lagoa.

Michelle Canniccioni
Mesmo com o Theatro Municipal fechado, a Dell’Arte inovou, mantendo o alto padrão artístico que a consagra, há mais de duas décadas, como a maior produtora de concertos internacionais do país. A Série Pianíssimo, no primeiro semestre, trouxe à Sala Cecília Meireles pianistas do quilate dos brasileiros Jean-Louis Steuerman e Eliane Rodrigues ou dos russos Vadim Rudenko e Nikolai Lugansky que, com a Sinfonietta Dell’Arte organizada especialmente para a ocasião, interpretaram os dois concertos para piano do mestre Chopin. Os concertos do segundo semestre possibilitaram alguns dos momentos musicais mais extraordinários do Rio em 2009, como a performance espiritual do pianista Arcadi Volodos e a noite mágica de lieder com a voz soberana da contralto Nathalie Stutzmann. Raridades de Schubert e Haydn foram ouvidas com veemência e autenticidade pela Wiener Akademie, regida por Martin Häselbock.

Nathalie Stutzmann
A Orquestra Petrobrás Sinfônica, dirigida por Isaac Karabtchevsky, realizou uma temporada inventiva e de fôlego, culminando com a performance antológica do tenor Marcos Paulo como O Anão, na estreia latino-americana da ópera homônima de Zemlinsky.
O histórico Quarteto da Guanabara retornou à cena musical brasileira, com nova formação, em um auspicioso concerto de estreia.
O incansável maestro Ricardo Rocha e sua Cia. Bachiana Brasileira abraçaram obras de grande escopo, como o oratório Elias, de Mendelssohn (em primeira execução completa no Rio), e a Missa Pastoril do Pe.José Maurício Nunes Garcia, com resultados musicais surpreendentes.
A Série Música nas Igrejas concentrou a sua atividade de concertos em dois grandes momentos do ano. Celebrando a Páscoa, trouxe o cravista Olivier Beaumont e uniu os violoncelistas Antonio Meneses e Alberto Kanji à cravista Rosana Lanzelotte, curadora do projeto, para um belo recital de sonatas do século 18. Em novembro, a programação marcou o ano Villa-Lobos com concertos em igrejas históricas do país.

Rosana Lanzelotte e Antonio Meneses
O Instituto de Cultura e Arte Organística manteve a qualidade (e regularidade) de sua programação trazendo alguns nomes de destaque do órgão internacional para sua agenda de recitais.
A música brasileira de concerto vai muito bem, como atestam a quantidade e a qualidade de estréias de novas obras na 18ªBienal de Música Brasileira Contemporânea, ou em projetos menores, porém de igual vigor, como o Panorama da música brasileira para violão, coordenado por Nícolas de Souza Barros na UNIRIO.
Em uma Folle Journée dedicada a Mozart em quatro dias de concertos ininterruptos, sobressaiu a musicalidade ímpar do Quarteto Ysaÿe.

Quatour Ysaÿe
A Rádio MEC FM, um verdadeiro símbolo de resistência cultural em nosso país, celebrou, em seus programas, a arte de grandes intérpretes brasileiros como os pianistas Nelson Freire, Jacques Klein e Heitor Alimonda. Comemorando o centenário do Theatro Municipal, o produtor Lauro Gomes resgatou as principais gravações com as grandes vozes, nacionais e internacionais, que eternizaram o palco carioca em seus tempos áureos de temporadas operísticas regulares. O programa Sala de Concerto promoveu a tardia estreia carioca de uma das grandes cantores brasileiras da atualidade, a paraense Adriane Queiroz, radicada em Berlim.
O primeiro concurso internacional de piano no Rio de Janeiro em 36 anos prestou homenagem a Jacques Klein. Patrocinado pelo BNDES e organizado por Lilian Barretto e Luiz Fernando Benedini, ex-alunos de Klein, o concurso premiou o ucraniano Sasha Grynyuk.

Jacques Klein em frente ao Theatro Municipal do Rio
Música é Vida, a mais nova associação cultural do Rio de Janeiro, inaugurou sua série especialíssima de vídeoconcertos comentados no auditório multimídia da loja Modern Sound, em Copacabana. Em dois encontros mensais, foram apreciadas e discutidas de obras maiores do repertório sinfônico, camerístico e vocal a composições pouco conhecidas e injustamente negligenciadas.
O belo projeto musical e social do Instituto da Ópera, coordenado pelo barítono Nelson Portella, produziu um coro infantil e recitais esmerados como o dedicado à Canção brasileira de Câmara.
Pequenas séries com grandes objetivos, como Toda Palavra é Música (no CCBB), Guitarríssimo, UNIRIO Musical, Pátio Musical e Música no Fórum (completando 10 anos de atividades musicais) realizaram concertos que enriqueceram a vida cultural carioca.
A jovem Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, fruto mais maduro do projeto Música nas Escolas, apresentou um crescimento exponencial em repertório e número de concertos. É a grande prova de que a arte, e a música em particular, transformam vidas e conceitos.

Isaac Karabtchevsky rege a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa - foto de Valdinei Ferreira
MÚSICA NO MUSEU:
Música no Museu, a maior série musical brasileira, fecha o ano de 2009 com um novo recorde: a realização de 534 concertos gratuitos, um terço deles com jovens instrumentistas. O grande sucesso de dois novos festivais promovidos pela série, o I Pianestival (mostra internacional de pianistas amadores) e o I Festival de Flauta, Oboé e Fagote, veio se somar ao já consagrado RioHarp Festival, que nesta quarta edição inseriu o Rio definitivamente no circuito internacional das harpas. O concerto de encerramento, com o compositor Michel Legrand e a harpista Catherine Michel, foi o ponto alto da série neste ano.

Michel Legrand e Catherine Michel no RioHarp Festival
Os concertos internacionais chegaram aos EUA, Portugal, Espanha, França e Marrocos, apresentando intérpretes brasileiros como os pianistas João Carlos Assis Brasil e Carol Murta Ribeiro, o violonista Paulo Pedrassoli e a percussionista Karla Bach.
Patrocinada pela Light, pela Cemig e pelo BNDES, a Série Música no Museu repetiu projetos projetos bem-sucedidos de anos anteriores, como a Mostra de Música Antiga, o III Encontro de Empreendedorismo na Área Musical e o II Concurso Jovens Talentos. No certame, a comissão julgadora presidida pelo nonagenário maestro Alceo Bocchino premiou o jovem pianista Lucas Thomazinho.
PELO MUNDO:
A maior orquestra do mundo, a Filarmônica de Berlim, do maestro britânico Simon Rattle, protagonizou outra grande inovação de mídia e inaugurou seu Digital Concert Hall, com transmissões de concertos de sua rica temporada via web.

Sir Simon Rattle rege a Filarmônica de Berlim
Também pela internet, a revista britânica Gramophone disponibilizou integralmente todos os seus arquivos para leitura online, desde a primeira publicação, em abril de 1923.
Apesar da crise mundial solapando os EUA, as temporadas líricas norte-americanas surpreenderam pela vitalidade e diversidade. A Ópera de San Francisco recebeu seu novo diretor, maestro Nicola Luisotti, enquanto que Los Angeles desponta como o um dos principais centros de ópera e música sinfônica no país. O prodígio venezuelano, maestro Gustavo Dudamel, assumiu o pódio da orquestra (podemos vislumbrar a melhor da América em pouco tempo?) enquanto que Placido Domingo empresta todo o seu prestígio na direção da Ópera da cidade californiana, repetindo o êxito obtido em Washington. A primeira produção do Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, em Los Angeles atesta a envergadura de sua temporada.

Placido Domingo no concerto de gala do MET
Onipresente, Placido Domingo dominou a cena lírica mundial mais uma vez. Celebrou seus 40 anos de MET com um concerto de gala (que também festejou os 125 anos do teatro), abraçou o repertório para barítono (com o Simon Boccanegra, de Verdi) e foi o primeiro ganhador (1 milhão de dólares) do maior prêmio da música clássica mundial, atribuído pela Fundação Birgit Nilsson, da legendária soprano sueca morta em 2005, aos 87 anos.

Placido Domingo
O site de vídeos You Tube organizou a primeira orquestra sinfônica do planeta com músicos selecionados virtualmente. O concerto inaugural da YouTube Symphony, regida pelo maestro Michael Tilson Thomas, aconteceu em abril no Carnegie Hall.



















































