Martin Haselböck e sua
Wiener Akademie tem se destacado no cenário internacional por resgatar obras desconhecidas dos repertórios barroco e clássico, ou por imprimir vitalidade musical, através de seus instrumentos de época, a composições mais usuais do mesmo período, abrangendo o início do romantismo germânico.
Foi essa inerente musicalidade, desenvolvida tanto no âmbito sinfônico quanto sacro e operístico, que a
Wiener Akademie e Haselböck demonstraram no concerto da última segunda, realizado pela
Série Dell’Arte de Concertos Internacionais.
Com a participação do premiado
Chorus Sine Nomine, também austríaco, e de quatro jovens e talentosíssimos cantores, como a soprano polonesa Aleksandra Zamojska, a mezzo-soprano Ida Aldrian, o tenor Bernhard Berchtold e o barítono Christian Hilz, orquestra e maestro interpretaram duas pérolas do repertório sacro, a
Missa no. 2, em sol maior, D.167, do vienense Franz Schubert, e o
Stabat Mater, de Joseph Haydn, nome fundamental do período clássico.

Martin Haselböck
Na obra de Schubert, composta em 1815, Haselböck extraiu da
Wiener Akademie uma interpretação extremamente clara e articulada, enfatizando a diferença de climas e as expressões contrastantes das seis partes desta delicada
Missa Brevis. O destaque absoluto coube à sonoridade perfeita, homogênea e transparente do
Chorus Sine Nomine, crucial a uma performance irretocável desta pequena jóia schubertiana. As pequenas intervenções solistas contribuíram para a alta qualidade da execução, em especial o fraseado sensível da soprano Zamojska. A entrada de sua voz, ao mesmo tempo cheia e cristalina, repleta de emoção interiorizada, no
Kyrie, foi um dos momentos mais emocionantes da noite. O
canon para os três solistas, desenvolvido por Schubert no
Benedictus, ganhou um equilíbrio ideal nas vozes perfeitamente timbradas e entrelaçadas de Zamojska, do tenor Berchtold e do barítono Hilz.
Encerrando a primeira parte, o violinista ucraniano Ilia Korol,
spalla da orquestra, foi o solista da graciosa e rara
konzertstück, para violino e cordas, D.345, também de Schubert. A peça curta, dividida em um
Adagio inicial e um
Allegro extremamente brilhante e melódico, obteve da formação uma leitura vigorosa, que realçou o acentuado caráter rítmico e as nuances do diálogo entre o tutti e o solista. Korol exibiu um excelente domínio técnico, dominando com bravura as passagens de virtuosismo da partitura, embora sem demonstrar aquela riqueza sonora última que se espera de um grande solista ao violino.

Martin Haselböck rege a Wiener Akademie
O
Stabat Mater, composto em 1767 por Joseph Haydn, uma das obras-primas do repertório sacro clássico, preencheu de ricos matizes harmônicos e introspecção profunda o Teatro João Caetano na segunda parte do concerto.
Dividida em treze partes, a equação aqui se inverte, com participação proeminente dos cantores solistas em árias de grande beleza e sobriedade. Aleksandra Zamojska confirmou a sua imensa musicalidade, delineando com sua voz belíssima momentos de fervor e espiritualidade, como em
Quis non posset e no duo com o tenor em
Sancta Mater.
Bernhard Berchtold demonstrou porque é um dos tenores mais requisitados da atualidade para a interpretação dos oratórios de Bach e óperas de Mozart. Seu timbre claro, nuançado, sensível às exigências do texto e demonstrativo de sua vivência como camerista, foi o veículo ideal para a interpretação de árias pungentes como o
Vidit suum dulcem natum ou o
Stabat Mater dolorosa, em diálogo com o coro.

Wiener Akademie
A jovem Ida Aldrian, mezzo-soprano, empregou seu timbre escuro, porém delicado, para acentuar, com inteligência musical, o caráter suplicante em passagens de maior gravidade, como as árias
O quam tristes e
Fac me vere.
O barítono Christian Hilz, normalmente um ótimo intérprete, traiu o seu estado de saúde (parecia gripado, ou algo similar, e tossia bastante). Sua voz não conseguiu emitir os graves com o peso necessário para dar vida a momentos como
Pro peccatis suae gentis, ou manter as qualidades de timbre nos grandes saltos de
Flamnis orci ne succendar.
Martin Haselböck e orquestra, em seu elemento, iluminaram os diversos estados de espírito da obra, da contrição ao desespero, do ardor à serenidade final. Cordas e sopros em equilíbrio, secundados por um coro em sua melhor forma, foram essenciais à revelação dos ricos e inusitados detalhes harmônicos da partitura do mestre Haydn.