Hoje vou fugir do que costumeiramente faço ao escrever sobre um Grande Prêmio de Fórmula 1 alguns minutos após o término da corrida. Vou dedicar este espaço à vergonha que foi a disputa entre Fernando Alonso e Felipe Massa, sob a tutela da Ferrari, em Hockenheim, Alemanha.
Depois de uma boa largada, o brasileiro pulou para ponta da prova. Após a parada nos boxes para troca de pneus, momento em que Felipe passou a usar os compostos mais duros, o rendimento da Ferrari de Massa caiu. Ainda assim, com talento, ele conseguiu ficar à frente do espanhol.
Num dado momento da disputa na pista alemã, Fernando Alonso, pelo rádio, disse “ridícula é esta situação”. Entendo que o espanhol, que sempre se mostrou um grande chorão mimado, tenha se referido a estar atrás de Felipe. Durante algumas voltas, Alonso até foi mais rápido do que Massa, mas como diz o velho ditado: chegar é uma coisa, passar é outra.
O que ele queria? Que Felipe abrisse caminho para a vitória espanhola? Bem, até foi isso que aconteceu, mas só ocorreu após uma ordem, ou melhor, uma informação vinda da equipe do cavalinho repugnante, digo, rampante.
Na fatídica volta 49, o engenheiro Robert Smedley entrou em contato, via rádio, com Felipe e disse: “Fernando é mais rápido. Você confirma que entendeu?” Só não entende quem não quer... Massa tirou o pé e deixou o espanhol passar para primeiro, numa manobra escancaradamente sem vergonha.
Mais uma vez a Ferrari fere gravemente o princípio da competição no esporte a motor, que é a disputa na pista. Não me venham dizer que Vettel e Webber jogaram fora a corrida na Turquia por causa de uma disputa doméstica na Red Bull. Neste mesmo GP, a McLaren deu show de esportividade, ao deixar Hamilton e Button duelarem pela liderança da corrida; o resultado foi a dobradinha da escuderia de Woking. Este Grande Prêmio da Alemanha foi a dobradinha da vergonha, um verdadeiro déjà vu do mesmo time no GP da Áustria de 2002.
A desculpa (esfarrapada) poderia ser a posição dos pilotos no mundial, que tinha Alonso em quinto, a 31 pontos do oitavo colocado, que era o Massa até antes da corrida em Hockenheim. Obviamente, o time vermelho da vergonha não irá assumir que deu uma ordem a Felipe para deixar Alonso passar para primeiro.
Para quem tem memória fraca, vale lembrar que Fernando bateu em Felipe nas primeiras curvas da penúltima corrida, em Silverstone, prejudicando radicalmente o desempenho do brasileiro no GP inglês, que foi obrigado a parar nos boxes por causa de um pneu furado. Ainda nesta temporada, quem não se lembra da manobra legal e nada ética de Alonso ao passar Felipe metros antes da entrada dos boxes.
Depois da bandeirada, um cara-de-pau Alonso saltou da Ferrari e, aqui, sim, ridiculamente, fingiu estar com dores nas costas e foi cumprimentar seu “companheiro” Felipe Massa. O brasileiro saiu do cockpit e, frio igual a um iceberg, aceitou um tímido abraço do espanhol.
Longe de mim querer passar uma ideia de, como diria o inesquecível jornalista Nélson Rodrigues, complexo de vira-latas. Mas não vejo graça esportiva em uma vitória desta forma. O
COCKPIT já escreveu aqui, bem antes desta temporada começar, que Fernando Alonso tem um talento único, mas é um piloto mimado e chorão. O espanhol não admite ter um companheiro de equipe que dispute posições na pista com ele. Durante toda carreira na F1, Alonso sempre teve pilotos que serviram do bom e do melhor para ele. Até chegar na Ferrari, Fernando só teve um piloto que competiu de verdade com ele; em 2007, Lewis Hamilton dividia os boxes da McLaren com o espanhol e deu no que deu.
Infelizmente, sabemos que na F1 de hoje, os pilotos são obrigados a cumprir determinações de suas equipes. Para ser bem direto, só aceito este tipo de condição no momento em que um título mundial está em jogo, o que não é o caso. Uma possível desobediência de um piloto poderá custar seu emprego no time. Cabe, aí, cada piloto avaliar o que vale a pena. Vale deixar um companheiro de equipe passar para ganhar? Vale bater propositalmente para deixar um companheiro ganhar. Ops! Nestes dois casos, Fernando Alonso estava envolvido. Quanta coincidência...
Sempre tento me fiscalizar para não deixar meu lado saudosista aflorar, principalmente aqui no
COCKPIT. Mas é inevitável não lembrar o tricampeão Nélson Piquet. Certa vez, o ex-piloto foi questionado se deixaria um companheiro de escuderia passar para vencer uma corrida. Numa resposta, que é digna de quem o conhece, Nelsão disse: “Tem certas coisas que a gente não precisa ouvir. Nestas horas, o rádio de comunicação pode ter problemas. E aí você passa a não escutar perfeitamente as ordens da equipe”. Quanta diferença...
Voltando à corrida, veja como ficou a classificação do Grande Prêmio da Alemanha, em Hockenheim:
1. Fernando Alonso (Ferrari)
2. Felipe Massa (Ferrari)
3. Sebastian Vettel (RBR-Renault)
4. Lewis Hamilton (McLaren-Mercedes)
5. Jenson Button (McLaren-Mercedes)
6. Mark Webber (RBR-Renault)
7. Robert Kubica (Renault)
8. Nico Rosberg (Mercedes)
9. Michael Schumacher (Mercedes)
10. Vitaly Petrov (Renault)
11. Kamui Kobayashi (Sauber-Ferrari)
12. Rubens Barrichello (Williams-Cosworth)
13. Nico Hulkenberg (Williams-Cosworth)
14. Pedro de La Rosa (Sauber-Ferrari)
15. Jaime Alguersuari (STR-Ferrari)
16. Vitantonio Liuzzi (Force India-Mercedes)
17. Adrian Sutil (Force India-Mercedes)
18. Timo Glock (Virgin-Cosworth)
19. Bruno Senna (Hispania-Cosworth)
Abandonaram:
20. Heikki Kovalainen (Lotus-Cosworth)
21. Lucas di Grassi (Virgin-Cosworth)
22. Sakon Yamamoto (Hispania-Cosworth)
23. Jarno Trulli (Lotus-Cosworth)
24. Sebatien Buemi (STR-Ferrari)