Uma grande fila, composta em sua maioria por homens de meia idade, se formava na porta do cine Palácio por volta das 20h desta sexta-feira, para a exibição do documentário Rainhas, estréia na direção de longas-metragens dos cineastas Ricardo Bruno e Fernanda Tornaghi, presentes na sessão. O filme, selecionado para a mostra Mundo Gay do festival, mostra os bastidores do concurso Miss Brasil Gay, que todos os anos mobilizam milhares de jovens no país.

A história é contada com foco no cabeleireiro Fábio Mota, que saiu da distante Porto Velho, capital de Rondônia, para vir para o Rio, onde ganhou o concurso Miss Rio de Janeiro Gay, sua porta de entrada para a competição mostrada no filme. Para participar dos concursos, Fábio passa por uma transformação, quando assume a identidade de Michelle Honda. Com vestido de Miss, e uma faixa com o título do filme, Fábio, ou Michelle, não escondeu a emoção antes do início da sessão e contou das dificuldades para a realização deste projeto.

- Tudo neste filme foi muito difícil. Começamos a filmar em 2004, sem nenhum incentivo ou patrocínio, contando apenas com o apoio de nossas famílias e de nossos amigos. Agradeço a todos da equipe – afirmou o transformista para em seguida passar a palavra para a diretora do filme, Fernanda Tornaghi.

Sorridente, mas visivelmente nervosa, Fernanda preferiu não falar muito.

- A gente na verdade não bolou nada para dizer neste momento. Vamos deixar vocês todos verem o nosso filme. Estou morrendo de vergonha, este é o nosso primeiro filme – finalizou Fernanda para, em seguida, dar início a exibição.

Logo no início, o filme mostra que o concurso é praticamente igual ao concurso Miss Brasil tradicional, afinal a única diferença é que os participantes são homens e não mulheres. Além disso, para participar é preciso ter a anatomia natural: nenhum dos rapazes competidores tem implantes de silicone para simular seios ou quadris femininos, a silhueta feminina é construída a partir de espumas colocadas sob o vestido e sutiãs com enchimentos, por exemplo.

Os participantes, que também são os principais entrevistados no filme, fazem questão de frisar que são transformistas e não travestis, inclusive muitos têm empregos diurnos onde trabalham com suas identidades masculinas.

A estrutura do documentário tenta desvendar as motivações que levaram estes jovens a se tornarem transformistas. Enquanto alguns classificam como fuga da realidade, um momento que eles podem ser outras pessoas, mulheres, participantes de concursos de Miss, outros dizem que se sentiam rejeitados pela sociedade por serem homossexuais e encontraram no transformismo uma forma de ser aceito. Fábio, o personagem principal do filme, diz que se sente feliz com suas duas dentidades, e classifica Michelle Honda como seu alter ego.

Além das entrevistas com a Misses participantes, a família e amigos de Fábio, o documentário também é construído por imagens de arquivo dos concursos brasileiros de Miss tradicionais, das décadas de 60 e 70, que muitos entrevistados classificam como a época de ouro dos concursos. Com uma estrutura simples, Rainhas é um filme de tema inusitado, que leva o espectador a conhecer o universo dos transformistas, com todos os seus dramas e dificuldades, que contribuiu para promover a igualdade entre indivíduos em uma mesma sociedade.