Alice Feiring : - "Não há vinhos do Chile que eu beba"
Alice Feiring - Entrevista exclusiva.
Depois de publicar a resenha sobre o livro "A batalha do vinho e do amor ou como salvei o mundo da parkerização" de Alice Feiring, me senti na obrigação de entrevistar a jornalista do New York Times e outros periódicos americanos. A conversa segue o ritmo do livro e não deixa rolha sobre rolha. Aproveitei para pedir uma dicas para os leitores treinarem o paladar, que acredito serão úteis.

Alice não mede palavras e vai direto ao ponto ao ser perguntada.(Foto de Andrew French)
RR - Na entrevista que fiz com David Biraud (ver post de janeiro), melhor sommelier da França em 2009 e candidato francês ao mundial de sommellerie, este afirmou que Robert Parker tinha um "paladar americano". Parker é o típico gosto americano? Podemos dizer que existe um paladar americano?
AF - A América é um país grande, não posso dizer que há um 'paladar americano' mais do que eu posso afirmar que os americanos gostam de refrigerante mais do que em outros países. Posso dizer que há um "paladar de massa", um paladar mediano. Acho que Parker tem o tipo de paladar que tem apelo de massa, facilmente identificável, que significa o maior e mais escuro é o melhor, não muito sensível às nuanças.
"O paladar de Parker tem apelo de massa"
RR - Por outro lado Biraut disse que por causa de Parker alguns produtores estavam realizando a colheita mais tardiamente para obter uvas mais maduras em Bordeaux e que isto era positivo. Qual sua opinião?
AF - Eu não vejo isso como positivo. Eu sinto que os vinhos de Bordeaux estão demasiadamente maduros e como resultado perderam sua complexidade. Claro que o fato de haver poucas propriedades produzindo vinhos orgânicos e o fato de que muitos usam tecnologia em excesso para seus vinhos faz com que não tenham qualquer interesse para mim.
RR - Parker tem algo de positivo para você?
AF -Claro, ele deu origem a muitos novos consumidores de vinho. Ele ajudou a criar o embrião de uma cultura do vinho nos Estados Unidos.
RR - Qual sua opinião sobre vinhos do Chile e Argentina, os principais exportadores para o Brasil?
AF - Fico triste em dizê-lo existem apenas uns dois vinhos que eu encontrei da Argentina que me agradaram. Há dez anos costumavam ser mais. Não há vinhos do Chile que eu beba. Evito-os. Estou certa de que há algumas exceções. Mas eu vejo esses dois grandes países cortejando os vinhos grandes, escuros, de sabores maduros e nenhuma expressão de nuanças.
RR - Somente vinhos naturais (orgânicos e biodinâmicos) podem ser bons?
AF - Isso é um bom ponto para começar. Mas eu acho que os melhores vinhos são a partir de uvas plantadas em solos que são interessantes, complexos, não tem nada acrescentado ou retirado, e feito por alguém com talento! Eu conheci alguns vinhos muito bons que não são a partir de uvas orgânicas ou biodinâmicas, no entanto, eu nunca tive um grande vinho de uvas cultivadas com a agricultura convencional.
RR - Algumas opções de vinhos abaixo de US$20 (menos de 75 reais no Brasil - RR) que você gosta vindo do Loire, Sul da França e Borgonha.
AF - Os de uva gamay e cabernet franc do Loire como o Clos Roche Blanche, em Chinon Domaine Baudry, em Bourgeuil Domaine Guion, quase todos os grandes produtores de Muscadet como Marc Olivier, Bossard e Jo Landrom.
Há alguns bons e baratos de Bordeaux na Côte de Bourg como o Château La Grolet e Côtes de Blaye como o Château Peybonhomme Les Tours. O Domaine de Deux Ânes no Corbières, os vinhos de Eric Texier no Côtes du Rhône, Chermette e Ducroux no Beaujolais. Na Borgonha é mais difícil, mas olhe para as regiões de Maranges ou Côte Chalonnaise (possuem preços mais acessíveis - RR).
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Detalhe da capa do livro de Alice Feiring
RR - Nos dê alguns conselhos para que o iniciante evolua e conheça melhor seu paladar.
AF - Provar é a coisa mais importante. Provar às cegas também ajuda a afiar o paladar. Degustar muito, duas garrafas por dia no mínimo. Chame os amigos para ajudar! É a única maneira de descobrir do que você gosta e saber onde se encontra seu próprio gosto. É o passo mais importante. Além disso, não é preciso muito dinheiro para começar a construir uma adega. Vinhos antigos são um maravilhoso prazer, e a única maneira de fazer com que você tenha alguns é comprar agora para beber mais tarde. Existe uma abundância de vinhos que suportam o envelhecimento e custam menos de US$ 25 (no Brasil menos de 100 reais - RR). Pense em guardar por cinco ou dez anos, ao invés de vinte cinco. Pense em um Cru Beaujolais e nos tintos do Loire. Em vez de Borgonha branco, tente envelhecer alguns Muscadet dos melhores produtores, bem como das uvas chenin blanc do Anjou, ou ainda cabernet franc, e comprar pelo menos, quatro garrafas ao mesmo tempo, seis garrafas melhor ainda.
Depois de publicar a resenha sobre o livro "A batalha do vinho e do amor ou como salvei o mundo da parkerização" de Alice Feiring, me senti na obrigação de entrevistar a jornalista do New York Times e outros periódicos americanos. A conversa segue o ritmo do livro e não deixa rolha sobre rolha. Aproveitei para pedir uma dicas para os leitores treinarem o paladar, que acredito serão úteis.

Alice não mede palavras e vai direto ao ponto ao ser perguntada.(Foto de Andrew French)
RR - Na entrevista que fiz com David Biraud (ver post de janeiro), melhor sommelier da França em 2009 e candidato francês ao mundial de sommellerie, este afirmou que Robert Parker tinha um "paladar americano". Parker é o típico gosto americano? Podemos dizer que existe um paladar americano?
AF - A América é um país grande, não posso dizer que há um 'paladar americano' mais do que eu posso afirmar que os americanos gostam de refrigerante mais do que em outros países. Posso dizer que há um "paladar de massa", um paladar mediano. Acho que Parker tem o tipo de paladar que tem apelo de massa, facilmente identificável, que significa o maior e mais escuro é o melhor, não muito sensível às nuanças.
"O paladar de Parker tem apelo de massa"
RR - Por outro lado Biraut disse que por causa de Parker alguns produtores estavam realizando a colheita mais tardiamente para obter uvas mais maduras em Bordeaux e que isto era positivo. Qual sua opinião?
AF - Eu não vejo isso como positivo. Eu sinto que os vinhos de Bordeaux estão demasiadamente maduros e como resultado perderam sua complexidade. Claro que o fato de haver poucas propriedades produzindo vinhos orgânicos e o fato de que muitos usam tecnologia em excesso para seus vinhos faz com que não tenham qualquer interesse para mim.
RR - Parker tem algo de positivo para você?
AF -Claro, ele deu origem a muitos novos consumidores de vinho. Ele ajudou a criar o embrião de uma cultura do vinho nos Estados Unidos.
Evito os vinhos do Chile
RR - Qual sua opinião sobre vinhos do Chile e Argentina, os principais exportadores para o Brasil?
AF - Fico triste em dizê-lo existem apenas uns dois vinhos que eu encontrei da Argentina que me agradaram. Há dez anos costumavam ser mais. Não há vinhos do Chile que eu beba. Evito-os. Estou certa de que há algumas exceções. Mas eu vejo esses dois grandes países cortejando os vinhos grandes, escuros, de sabores maduros e nenhuma expressão de nuanças.
RR - Somente vinhos naturais (orgânicos e biodinâmicos) podem ser bons?
AF - Isso é um bom ponto para começar. Mas eu acho que os melhores vinhos são a partir de uvas plantadas em solos que são interessantes, complexos, não tem nada acrescentado ou retirado, e feito por alguém com talento! Eu conheci alguns vinhos muito bons que não são a partir de uvas orgânicas ou biodinâmicas, no entanto, eu nunca tive um grande vinho de uvas cultivadas com a agricultura convencional.
RR - Algumas opções de vinhos abaixo de US$20 (menos de 75 reais no Brasil - RR) que você gosta vindo do Loire, Sul da França e Borgonha.
AF - Os de uva gamay e cabernet franc do Loire como o Clos Roche Blanche, em Chinon Domaine Baudry, em Bourgeuil Domaine Guion, quase todos os grandes produtores de Muscadet como Marc Olivier, Bossard e Jo Landrom.
Há alguns bons e baratos de Bordeaux na Côte de Bourg como o Château La Grolet e Côtes de Blaye como o Château Peybonhomme Les Tours. O Domaine de Deux Ânes no Corbières, os vinhos de Eric Texier no Côtes du Rhône, Chermette e Ducroux no Beaujolais. Na Borgonha é mais difícil, mas olhe para as regiões de Maranges ou Côte Chalonnaise (possuem preços mais acessíveis - RR).
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Detalhe da capa do livro de Alice Feiring
RR - Nos dê alguns conselhos para que o iniciante evolua e conheça melhor seu paladar.
AF - Provar é a coisa mais importante. Provar às cegas também ajuda a afiar o paladar. Degustar muito, duas garrafas por dia no mínimo. Chame os amigos para ajudar! É a única maneira de descobrir do que você gosta e saber onde se encontra seu próprio gosto. É o passo mais importante. Além disso, não é preciso muito dinheiro para começar a construir uma adega. Vinhos antigos são um maravilhoso prazer, e a única maneira de fazer com que você tenha alguns é comprar agora para beber mais tarde. Existe uma abundância de vinhos que suportam o envelhecimento e custam menos de US$ 25 (no Brasil menos de 100 reais - RR). Pense em guardar por cinco ou dez anos, ao invés de vinte cinco. Pense em um Cru Beaujolais e nos tintos do Loire. Em vez de Borgonha branco, tente envelhecer alguns Muscadet dos melhores produtores, bem como das uvas chenin blanc do Anjou, ou ainda cabernet franc, e comprar pelo menos, quatro garrafas ao mesmo tempo, seis garrafas melhor ainda.
A batalha contra a parkerização dos vinhos
A jornalista Alice Feiring comprou uma briga e tanto. Não apenas defende os vinhos autênticos, naturais, orgânicos e biodinâmicos, mas se opõe, com todas as suas forças, à padronização do vinho e ao gosto de Robert Parker. Feiring está do lado oposto de Parker e de Wine Spectator. Ela grita não ao vinho super frutado e pesado. Ela grita não ao vinho manipulado com aditivos e técnicas modernas. Ela diz salvem os vinhos autênticos e salvem o terroir.
Alice é uma apaixonada e curiosa jornalista que realiza uma verdadeira cruzada com sua pluma. Lança-se a um combate sem tréguas nas páginas do New York Times, no San Francisco Chronicle, em seu blog e nas conversas junto aos produtores para que não se deixem corromper pela tentação modernosa. O novo front é o livro A batalha do vinho e do amor ou Como salvei o mundo da parkerização (tradução literal, o livro ainda não foi lançado no Brasil, mas merece) é o clímax deste embate. Publicado em 2008 nos EUA e lançado este ano na França a obra vem fazendo barulho e despertando paixões.
Nas suas viagens vínicas por França, Espanha e Itália a jornalista americana visita muitas propriedades, conversa e debate com grandes expoentes da viticultura européia. De um lado nomes como Maria José Lopez de Heredia, Rioja, Nicolas Joly o mestre da agricultura biodinâmica, Bartolo Mascarello, Barollo e de outro referências, de estilos opostos, como Georges Blank, o chefe da adega de Möet et Chandon e Angelo Gaja, expoente do Barollo moderno. Seu tema é sempre a defesa do terroir, da expressão autêntica e natural dos vinhos, prega a explicitação da diferença entre os manipulados e os verdadeiros.
Visita a Universidade da Califórnia Davis, tida como a grande referência acadêmica em enologia nos EUA. Onde se ensina a usar todas as modernas técnicas de vinificação: osmose inversa, acidificação, leveduras industriais transgênicas, micro oxigenação, irrigação gota a gota e, a novidade, extrato de carvalho líquido. Ela coloca o dedo na ferida ao perguntar ao professor Roger Boulton da UC Davis, porque a escola não ensinava a vinificação natural. A resposta vem de forma glacial "- Aqui ensinamos apenas o que é científico, não banalidades. O natural dá resultados variáveis e sabores flutuantes". Mas Boulton é ético e questiona a ética dos produtores americanos que adicionam taninos para correção da estrutura e depois falam de "taninos maduros". Afinal, "estes não vem da uva, mas de uma proveta", assegura.
Em Champagne Feiring trava discussão com Blank sobre o método de condução do vinhedo, onde por causa do clima chuvoso que provoca muitos ataques de oídio e míldio, os tratamentos são intensivos e é impossível conduzir o vinhedo de forma orgânica em grande escala, garante Blank. Feiring contrapõe os argumentos citando Larmandier-Bernier, Selosse e Jacquesson, todos pequenos produtores de Champagne que trabalham em agricultura orgânica. Alice não gosta de beber Veuve Clicquot ou Möet, mas cita alguns grandes produtores de que gosta - Bollinger e Pol Roger.
Nas suas viagens fica feliz por Borgonha resistir mais às investidas modernas que outras denominações. Parker não é uma figura muito querida na Borgonha, ele mesmo brinca com Alice durante um evento na terra da pinot noir "-Engraçado, o homem mais detestado da Borgonha é o convidado de honra". Mas é no Loire onde reina a cabernet franc, uva que nunca foi muito do agrado de Parker, que ela vai encontrar uma grande quantidade de produtores autênticos, que não se deixaram levar pelos encantos da modernidade, da padronização do vinho e dos barris de madeira de forte queima tão adorados por Parker.
O Confronto final

Alice posa para a lente de Andrew French e parte para mais uma batalha em defesa do vinho natural
Este acontece no final do livro na entrevista com o crítico Robert Parker, Bob, onde os dois debatem o que é um vinho tradicional. Bob cativante e persuasivo, diz que tradicional "são os que marcaram a história, cabernet em Bordeaux, pinot noir na Borgonha, nebbiolo no Piemonte e sangiovese na Toscana. O estilo muda perpetuamente". No quesito estilo eles concordaram que sempre muda. Hoje “é gordo, potente, com muita fruta e sem elegância", sentencia Alice. Para a jornalista do NYT Parker dá mais importância às pequenas barricas bem queimadas que ao terroir. Para ela tradicional é como o vinho era feito anteriormente, respeitando as tradições. Alice volta ao ataque e pergunta "você gosta de gamay (uva típica de Beaujolais)? A resposta: "Quando ele é maduro". Ela reflete "- O gamay não tem amadurecido corretamente nos últimos anos? "Ele retruca:" - Você não gosta da potente shiraz do Vale do Barossa na Austrália?"
Realmente os dois estão em campos opostos. A leitura leva a descobertas e a abertura de um diálogo, ou melhor, de uma brecha contra um “gosto americano” que vem se impondo de forma global. O mundo do vinho não é um monolito. Você não precisa achar que o vinho que você gosta de beber é ruim apenas porque não é bem pontuado na Wine Advocate. Existem outros paladares, outros gostos e outros vinhos. Talvez seja o seu caso, confie na sua boca.
Voltaremos ao assunto.
Vinho francês é o melhor e existem baratos
A percepção da qualidade do vinho francês nos EUA segue firme e lidera o pelotão à frente de Califórnia, principal centro produtor da América do Norte e Itália. O consumidor americano o considera o melhor vinho do mundo. Mas este reconhecimento sofre uma concorrência forte tanto de italianos como de californianos. As denominações de origem francesas são pouco conhecidas do americano médio e Champagne é uma marca mais notória que Bordeaux, as mulheres conhecem mais os vinhos os rosados da Provence.
O preço médio do vinho francês exportado para os EUA é de 5,67€ (Fonte: UBI France) a garrafa, no Brasil de 7,12€ (Fonte: UVIBRA). Reflexo da concorrência com os vinhos de Argentina e Chile que pagam menos impostos e abocanham com mais facilidade os vinhos de preço mais competitivos. Isto quer dizer que o vinho francês disputa, principalmente, um mercado de maior qualidade. Não que a França não produza vinhos competitivos, apenas que com a carga tributária bem maior os vinhos europeus chegam às prateleiras necessariamente mais caros. Muitas regiões francesas tem feito esforço de produzir vinhos prazerosos e de bom preço para disputar este segmento. Porém o consumidor brasileiro, que ainda não percebeu este esforço, fica desconfiado.
Vinho francês barato e bom? Vinho francês para o dia a dia? Os céticos vão dizer que não existe. Apesar de toda a carga tributária existe uma boa lista de vinhos franceses entre 19 e 42 reais que podem ser consumidos no dia a dia e fazem bonito à mesa. Quer ver? No Rio vá ao Mundial, ao Zona Sul ou mesmo em lojas e sites de importadoras. A oferta é longa, fiz uma pequena seleção.

O douce Folie, do Languedoc, tem um corte com syrah, merlot, carignan e grenache.
Tintos
Douce Folie Vin de Pays d’Hauterive 2005- Sul da França - R$ 41,70 - Decanter
La Fontaine de Genin - Bordeaux - R$ 35,08 - Bom Vinho
Laurent Miquel Syrah Grenache 2006 - Sul da França - R$ 22,98 - Zona Sul
Les Sarments de la Tuilerie rouge 2005 - Rhône - R$ 40,99 - Mistral
Rosés
Costieres de Nimes Mourgues de Grès Les Galets Rosés 2008 - Sul da França - Nova Fazendinha - R$40
Branco
Muscadet de Sèvre & Maine sur Lies Domaine de la Grange 2008 - Loire- Nova Fazendinha - R$42
Espumante
Grand Cuvée 1531 da Aimery - Sul da França - R$ 33,50 - Zona Sul
O preço médio do vinho francês exportado para os EUA é de 5,67€ (Fonte: UBI France) a garrafa, no Brasil de 7,12€ (Fonte: UVIBRA). Reflexo da concorrência com os vinhos de Argentina e Chile que pagam menos impostos e abocanham com mais facilidade os vinhos de preço mais competitivos. Isto quer dizer que o vinho francês disputa, principalmente, um mercado de maior qualidade. Não que a França não produza vinhos competitivos, apenas que com a carga tributária bem maior os vinhos europeus chegam às prateleiras necessariamente mais caros. Muitas regiões francesas tem feito esforço de produzir vinhos prazerosos e de bom preço para disputar este segmento. Porém o consumidor brasileiro, que ainda não percebeu este esforço, fica desconfiado.
Vinho francês barato e bom? Vinho francês para o dia a dia? Os céticos vão dizer que não existe. Apesar de toda a carga tributária existe uma boa lista de vinhos franceses entre 19 e 42 reais que podem ser consumidos no dia a dia e fazem bonito à mesa. Quer ver? No Rio vá ao Mundial, ao Zona Sul ou mesmo em lojas e sites de importadoras. A oferta é longa, fiz uma pequena seleção.
O douce Folie, do Languedoc, tem um corte com syrah, merlot, carignan e grenache.
Tintos
Douce Folie Vin de Pays d’Hauterive 2005- Sul da França - R$ 41,70 - Decanter
La Fontaine de Genin - Bordeaux - R$ 35,08 - Bom Vinho
Laurent Miquel Syrah Grenache 2006 - Sul da França - R$ 22,98 - Zona Sul
Les Sarments de la Tuilerie rouge 2005 - Rhône - R$ 40,99 - Mistral
Rosés
Costieres de Nimes Mourgues de Grès Les Galets Rosés 2008 - Sul da França - Nova Fazendinha - R$40
Branco
Muscadet de Sèvre & Maine sur Lies Domaine de la Grange 2008 - Loire- Nova Fazendinha - R$42
Espumante
Grand Cuvée 1531 da Aimery - Sul da França - R$ 33,50 - Zona Sul
O vinho fácil e a mulher difícil
Muita gente hoje, não apenas no Brasil, passou a gostar de vinhos modernos. São vinhos fáceis de beber, com bastante fruta na boca, perfumados e muito parecidos. Bem fresquinho agrada a um largo público. Podem ser feitos em qualquer lugar do planeta que serão sempre muito semelhantes. Um grande exemplo de produtor destes vinhos é o Chile, que faz vinhos muito similares, pouco importando o produtor. Trata-se de um país onde cinco grandes grupos respondem pela metade dos vinhos produzidos no país. Este tipo de situação acontece em alguns países do Novo Mundo. Na França as pequenas propriedades dominam.
Os vinhos fáceis possuem, em geral, uma grande dose de tecnologia para oferecer certos aromas e gostos que normalmente seriam encontrados apenas em vinhos de maior qualidade. São artificiais e desnaturados sem deixar de ser agradável. As grandes empresas querem transformar o vinho em refrigerante. Explico. O consumidor leigo, quando compra um determinado vinho, gosta de encontrar o mesmo vinho que o agradou num determinado ano, igualzinho no ano seguinte. Vinho não é refrigerante. Vinho é um ser vivo. Não apenas muda de ano para ano em função da safra como evolui, trabalha, dentro de uma garrafa, para melhor, se for um bom vinho, ou para pior, se for um vinho inferior.
A indústria do vinho e aqui falo de grandes empresas como Concha y Toro, Pernod Ricard e muitas outras procuram vender um produto em que o cliente possa fazer uma escolha fácil e segura. No sentido de que quando comprar aquele vinho ele terá sempre o mesmo líquido dentro da garrafa. Para se obter isto o viticultor vai ter de atuar desde a plantação para controlar o desenvolvimento das videiras. Um exemplo simples é a irrigação gota a gota, mesmo em locais onde não haja necessidade. A videira tem raízes capazes de irem a mais de 20 metros de profundidade em busca de água. O resultado são vinhas de raízes superficiais que não expressam a riqueza do solo. Aproveita-se, neste caso, para adicionar adubos (nutrientes) para estas vinhas junto com a água. Lembre-se que a uvas tem seu berço no Mediterrâneo, região seca, de baixa pluviometria.
Na Austrália onde esta prática é muito utilizada as recentes secas tem provocado enormes problemas. Sem água abundante a irrigação não pode ser feita e as raízes não estão preparadas para "procurar" águas, pois estão na superfície.
Volto a dizer que existe mercado para este vinho e prefiro começar a conhecer vinhos com estes do que com os garrafões que me iniciaram nos prazeres de Baco. Uma uva cabernet pode nos oferecer aromas de frutas vermelhas, mas seu aroma típico é de pimentão verde. As leveduras são responsáveis pela fermentação alcoólica e por diversos aromas. Hoje o vinicultor pode chegar numa loja e comprar leveduras que vão favorecer determinados aromas e mesmo "terroirs", basta escolher.

Três saquinhos de leveduras que oferecem aromas e estilos diferentes para vinhos
Para que o vinho fique macio mais rapidamente existe a micro oxigenação, que simula o envelhecimento em barris. Para ter notas de baunilhas, típicas do carvalho adicionam-se chips, lascas ou pó de carvalho. Opção mais barata e rápida do que deixar o vinho envelhecer num barril de 500€ com capacidade para apenas 225 litros, com vida útil de três anos, ou seja 74€ o hl e um quilo de chips sai por 10€ o kg ou 5€ o hl.
Existem vinhos baratos que não usam estes artifícios e mesmo não sendo sofisticados mostram um pouco da personalidade do viticultor e do local onde foi produzido. Para começar a conhecer vinhos não é nenhum pecado beber estes mais fáceis. Mas para casar é melhor buscar aqueles mais difíceis, que tem algo mais a dizer, que expressam o terroir onde são produzidos e que podemos guardar e beber para sempre pois seus prazeres sempre se renovam. Se não é como um antigo bordão do Jô Soares - "Casa, separa, casa, separa,..."
Solidariedade
O Chile que sofreu uma terrível catástrofe, terremoto fortíssimo, está às vésperas de sua colheita. Situação preocupante. As adegas do Vale Central foram bastante atingidas, aparentemente sem mortos. Espero que façam uma boa colheita e que retomem o ritmo normal rapidamente. Coragem.
Os vinhos fáceis possuem, em geral, uma grande dose de tecnologia para oferecer certos aromas e gostos que normalmente seriam encontrados apenas em vinhos de maior qualidade. São artificiais e desnaturados sem deixar de ser agradável. As grandes empresas querem transformar o vinho em refrigerante. Explico. O consumidor leigo, quando compra um determinado vinho, gosta de encontrar o mesmo vinho que o agradou num determinado ano, igualzinho no ano seguinte. Vinho não é refrigerante. Vinho é um ser vivo. Não apenas muda de ano para ano em função da safra como evolui, trabalha, dentro de uma garrafa, para melhor, se for um bom vinho, ou para pior, se for um vinho inferior.
A indústria do vinho e aqui falo de grandes empresas como Concha y Toro, Pernod Ricard e muitas outras procuram vender um produto em que o cliente possa fazer uma escolha fácil e segura. No sentido de que quando comprar aquele vinho ele terá sempre o mesmo líquido dentro da garrafa. Para se obter isto o viticultor vai ter de atuar desde a plantação para controlar o desenvolvimento das videiras. Um exemplo simples é a irrigação gota a gota, mesmo em locais onde não haja necessidade. A videira tem raízes capazes de irem a mais de 20 metros de profundidade em busca de água. O resultado são vinhas de raízes superficiais que não expressam a riqueza do solo. Aproveita-se, neste caso, para adicionar adubos (nutrientes) para estas vinhas junto com a água. Lembre-se que a uvas tem seu berço no Mediterrâneo, região seca, de baixa pluviometria.
Na Austrália onde esta prática é muito utilizada as recentes secas tem provocado enormes problemas. Sem água abundante a irrigação não pode ser feita e as raízes não estão preparadas para "procurar" águas, pois estão na superfície.
Volto a dizer que existe mercado para este vinho e prefiro começar a conhecer vinhos com estes do que com os garrafões que me iniciaram nos prazeres de Baco. Uma uva cabernet pode nos oferecer aromas de frutas vermelhas, mas seu aroma típico é de pimentão verde. As leveduras são responsáveis pela fermentação alcoólica e por diversos aromas. Hoje o vinicultor pode chegar numa loja e comprar leveduras que vão favorecer determinados aromas e mesmo "terroirs", basta escolher.
Três saquinhos de leveduras que oferecem aromas e estilos diferentes para vinhos
Para que o vinho fique macio mais rapidamente existe a micro oxigenação, que simula o envelhecimento em barris. Para ter notas de baunilhas, típicas do carvalho adicionam-se chips, lascas ou pó de carvalho. Opção mais barata e rápida do que deixar o vinho envelhecer num barril de 500€ com capacidade para apenas 225 litros, com vida útil de três anos, ou seja 74€ o hl e um quilo de chips sai por 10€ o kg ou 5€ o hl.
Existem vinhos baratos que não usam estes artifícios e mesmo não sendo sofisticados mostram um pouco da personalidade do viticultor e do local onde foi produzido. Para começar a conhecer vinhos não é nenhum pecado beber estes mais fáceis. Mas para casar é melhor buscar aqueles mais difíceis, que tem algo mais a dizer, que expressam o terroir onde são produzidos e que podemos guardar e beber para sempre pois seus prazeres sempre se renovam. Se não é como um antigo bordão do Jô Soares - "Casa, separa, casa, separa,..."
Solidariedade
O Chile que sofreu uma terrível catástrofe, terremoto fortíssimo, está às vésperas de sua colheita. Situação preocupante. As adegas do Vale Central foram bastante atingidas, aparentemente sem mortos. Espero que façam uma boa colheita e que retomem o ritmo normal rapidamente. Coragem.
Não confie nos críticos
A degustação nos prega peças. Já degustei vinho que nunca viu madeira (vinificação tradicional e artesanal) e muitos juram que o vinho estagiou em barricas. Vinhos com chips que não dizem no rótulo nem que estagiaram em barricas e nem que contém "chips" (lascas de madeira usada para dar o gosto da madeira), mas que sugerem, por omissão, o envelhecimento em barricas. Isso tem aos montes. Degustar um vinho falsificado, mesmo bom, é como uma degustação às cegas, ou seja, uma caixinha de surpresas onde mesmo os mais experientes devem vestir o manto da humildade. Foi para mim o caso da Wine Spectator com o Red Bicyclette (texto de 27/02).
No Brasil muitos enófilos, por questões culturais da forte influência americana, adoram seguir e se orientar pelos críticos de paladares americanos, notadamente Robert Parker Jr. e Wine Spectator. O primeiro, em que pese sua louvável independência - não aceita anúncio de vinícolas - tem uma boca e um conceito do que seja um belo vinho que normalmente não me atende. Não busco a mesma coisa quando bebo um vinho. Não gosto de vinho manipulado, olha que isto não tem relação com vinho de volume, falo de vinho tão tecnicamente controlado que não expressa nem a uva nem o terroir, apenas o enólogo e as modernas máquinas e aditivos que visam controlar de A a Z a uva e a natureza. Adoro um bom custo benefício que reflita seu terroir, que seja uma carta de visitas do Châteaux, que tenha a cara do vinicultor, que me diga algo mais. Não estou sozinho neste ponto de vista. Por força do ofício procuro acompanhar um bom número de jornalistas do vinho sejam ingleses, americanos, franceses e, claro, os brasileiros.
A jornalista do New York Times, Alice Feiring, me agrada por ter ideais e defendê-lo. Não concordo com todos os seus pontos de vista. Ela está realizando uma cruzada em defesa do vinho autêntico, natural, biodinâmico e orgânico. Não chego a tanto, mas prefiro os autênticos como também Dusser Gerber, crítico francês. Não crucifico os outros. Afinal, os produtores precisam vender e nada mais justo que oferecer também ao mercado aquilo que ele deseja. Bem que na contra etiqueta podia constar: - Contém acidificante, leveduras geneticamente modificadas (para dar um determinado gosto),... Seria honesto tanto para o consumidor quanto para os outros produtores que trabalham sem artifícios.
No entanto, o viticultor não é necessariamente um idealista ou artesão. Ele tem uma empresa e precisa faturar. Sabe como é no final do mês chega a conta de luz, telefone, aluguel, faturas, impostos e a folha de pagamento. Os autênticos andaram perdendo mercado, talvez muito por estas opiniões de Parker e WS. Os vinhos “controlados” são dominantes no Novo Mundo, mas já chegaram à Europa. Não é mais uma exclusividade.

Alice Feiring escreve sobre vinhos no New York Times. (Crédito Annaick Le Mignon)
Estou terminando de devorar, em francês, o livro de Alice Feiring, La bataille du vin et de l'amour ou comment j’ai sauvé le monde de la parkerisation, literalmente A batalha do vinho e do amor ou como eu salvei o mundo da parkerização. Este acaba de chegar às prateleiras francesas. O livro é contundente e apaixonado. Prometo que faço uma resenha muito em breve.
Não gosto de vinhos feitos para concursos ou para obter belas notas. Aqueles que explodem na boca artificialmente e te cansam antes da primeira taça. Prezo muito a elegância e a harmonização, o vinho, do meu ponto de vista, tem que ir à mesa.
Não confie nos críticos mais do que você confia no seu próprio paladar. Use os críticos, jornalistas e guias para adquirir conhecimentos, obter referências, saber das novidades, mas a decisão final deve ser sempre a sua. Você é dono do seu nariz, do seu paladar e do seu bolso.
Santé quer dizer Saúde.
No Brasil muitos enófilos, por questões culturais da forte influência americana, adoram seguir e se orientar pelos críticos de paladares americanos, notadamente Robert Parker Jr. e Wine Spectator. O primeiro, em que pese sua louvável independência - não aceita anúncio de vinícolas - tem uma boca e um conceito do que seja um belo vinho que normalmente não me atende. Não busco a mesma coisa quando bebo um vinho. Não gosto de vinho manipulado, olha que isto não tem relação com vinho de volume, falo de vinho tão tecnicamente controlado que não expressa nem a uva nem o terroir, apenas o enólogo e as modernas máquinas e aditivos que visam controlar de A a Z a uva e a natureza. Adoro um bom custo benefício que reflita seu terroir, que seja uma carta de visitas do Châteaux, que tenha a cara do vinicultor, que me diga algo mais. Não estou sozinho neste ponto de vista. Por força do ofício procuro acompanhar um bom número de jornalistas do vinho sejam ingleses, americanos, franceses e, claro, os brasileiros.
A jornalista do New York Times, Alice Feiring, me agrada por ter ideais e defendê-lo. Não concordo com todos os seus pontos de vista. Ela está realizando uma cruzada em defesa do vinho autêntico, natural, biodinâmico e orgânico. Não chego a tanto, mas prefiro os autênticos como também Dusser Gerber, crítico francês. Não crucifico os outros. Afinal, os produtores precisam vender e nada mais justo que oferecer também ao mercado aquilo que ele deseja. Bem que na contra etiqueta podia constar: - Contém acidificante, leveduras geneticamente modificadas (para dar um determinado gosto),... Seria honesto tanto para o consumidor quanto para os outros produtores que trabalham sem artifícios.
No entanto, o viticultor não é necessariamente um idealista ou artesão. Ele tem uma empresa e precisa faturar. Sabe como é no final do mês chega a conta de luz, telefone, aluguel, faturas, impostos e a folha de pagamento. Os autênticos andaram perdendo mercado, talvez muito por estas opiniões de Parker e WS. Os vinhos “controlados” são dominantes no Novo Mundo, mas já chegaram à Europa. Não é mais uma exclusividade.

Alice Feiring escreve sobre vinhos no New York Times. (Crédito Annaick Le Mignon)
Estou terminando de devorar, em francês, o livro de Alice Feiring, La bataille du vin et de l'amour ou comment j’ai sauvé le monde de la parkerisation, literalmente A batalha do vinho e do amor ou como eu salvei o mundo da parkerização. Este acaba de chegar às prateleiras francesas. O livro é contundente e apaixonado. Prometo que faço uma resenha muito em breve.
Não gosto de vinhos feitos para concursos ou para obter belas notas. Aqueles que explodem na boca artificialmente e te cansam antes da primeira taça. Prezo muito a elegância e a harmonização, o vinho, do meu ponto de vista, tem que ir à mesa.
Não confie nos críticos mais do que você confia no seu próprio paladar. Use os críticos, jornalistas e guias para adquirir conhecimentos, obter referências, saber das novidades, mas a decisão final deve ser sempre a sua. Você é dono do seu nariz, do seu paladar e do seu bolso.
Santé quer dizer Saúde.
Ecos de Vinisud
Os números finais de Vinisud acabam de ser divulgados pelos organizadores: 1631 expositores, 32269 visitantes sendo 8875 estrangeiros. Mais importante do que os números foi ver que os produtores estavam felizes com o salão. Muitos encontros produtivos e novos negócios. O ano de 2010 se mostra um ano bem melhor para o vinho europeu que 2009. Os piores anos vão ficando para trás.

Importadores chineses assistem atentos a apresentação de Dominique Laporte
Uma degustação às cegas organizada por Sud de France e apresentada pelo sommelier Dominique Laporte, melhor da França em 2004, foi muito interessante. Laporte comparava vinhos do Languedoc no mesmo intervalo de preço para exportação, com vinhos de todo o mundo. Austrália, Itália, Chile, Califórnia, Bordeaux, Borgonha e várias outras regiões vinícolas se confrontavam às cegas com vinhos do Languedoc. A degustação era sempre em grupos de três vinhos de regiões diferentes. Depois de apresentar e descrever cada vinho revelava suas origens. Surpresa do público era ver que na maior parte das vezes o melhor do grupo era um vinho do Sul da França.
Mas faltou coragem de mostrar na degustação um Champagne contra um Crémant de Limoux. Laporte preferiu usar uma Cava da Freixenet e um Prosecco de Alvise Lancieri. Acho também que deveria ter sempre colocado vinhos do Languedoc com custo inferior. Para mostrar que além de qualidade possuem bons preços, a iniciativa agradou. Uma das sessões estava repleta de importadores chineses que aprenderam e erraram muito, trocando Nuit Saint Georges por um Colliure do Roussillon.
Mas faltou coragem de mostrar na degustação um Champagne contra um Crémant de Limoux. Laporte preferiu usar uma Cava da Freixenet e um Prosecco de Alvise Lancieri. Acho também que deveria ter sempre colocado vinhos do Languedoc com custo inferior. Para mostrar que além de qualidade possuem bons preços, a iniciativa agradou. Uma das sessões estava repleta de importadores chineses que aprenderam e erraram muito, trocando Nuit Saint Georges por um Colliure do Roussillon.