Arquivo de June 2011

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A dor não pode ser desculpa para o erro

Às vezes, ficar doente pode ser um grande negócio: para muita gente, é uma boa maneira de esquivar-se das responsabilidades, dos riscos e da necessidade premente de agir.

Estou falando de pessoas que elegem a “patologia” como desculpa para as más escolhas que faz e para as estradas tortuosas que toma. E então, quando dá com os burros n’água, desculpa-se dizendo:

-- Mas é a minha doença que me faz agir assim...

E recorrem a uma série de traumas, rejeições, medos infantis sem solução, complexos de inferioridade, sofrimentos, frustrações e tudo o que houver na seara da tristeza, para justificar seus desacertos e fraquezas. No fundo, buscam a “pena” dos demais, muito mais que a solidariedade.

Lamentavelmente, elas acabam acreditando mesmo no que dizem, e podem ser tão convincentes, que nos fazem crer em sua ladainha. E então conquistam aquele “colinho” que, na realidade, só as prejudica ainda mais.

O problema, é que todas as pessoas, no planeta inteiro, têm suas histórias tristes para contar. Todo mundo já sofreu morte de pai ou mãe; todo mundo padeceu de bulling na escola, numa época em que esta palavra nem existia e a gente resolvia tudo sem ações judiciais; todos já foram humilhados, apanharam na infância, tiveram que digerir frustrações, sofreram, padeceram, tiveram medo...

A dor não pode ser desculpa para o erro, caso contrário, a humanidade inteira estaria perdida, e não haveria civilidade nem alegria.

O sofrimento é educativo: quem consegue aprender a ser um ser humano melhor vivendo só de bonança? Raríssimos. A maioria de nós, infelizmente, só se aprimora na dor. O que significa que, ao fazer de mim uma vítima, estou fechando os olhos para os ensinamentos que a vida quer me dar. Estou escolhendo não crescer; optando por continuar na imaturidade que justifica o erro.

Falta dignidade a quem tem pena de si mesmo, porque este caminho, tão fácil, só nos conduz à decadência, e pelas nossas próprias mãos.

Ver-se como doente e, portanto incapaz, é a maneira que uma pessoa tem para justificar sua paralisia, sua preguiça, sua teimosia, suaestupidez. E mais tarde, quando colher o fruto das suas escolhas, poderá culpar Deus e o mundo inteiro pela sua infelicidade, porque também é mais cômodo dizer que “Deus não quis” ou “que a vida foi dura”, ou que “meus pais não me ajudaram”, ou que “não tive oportunidades”.

Sim, é mais fácil escolher a doença. E no fim, morrer mesmo de tristeza.


Pior cego é o que não quer ver, e enxerga nuvens negras em tudo...

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Por onde anda o seu pensamento?

A minha mente é um cavalo selvagem, e montada nela é que vivo neste mundo.

Todo cuidado é pouco quando se trata deste cavalo, porque ele tem vontade própria e, se não for domado, é capaz de me conduzir a qualquer lugar, inclusive aos piores: houve um tempo em que vivi por lugares terríveis, ao lado de más companhias e num inverno glacial e sem fim. Não me dava conta de que sair dali dependia unicamente da minha própria decisão; bastava, apenas, um pouco de força de vontade. E, claro, de decisão.

Certa vez, eu voltava para casa caminhando por uma rua linda e cheia de árvores, quando, de repente, quase que por milagre, me dei conta de que a tarde estava linda: senti o calor daquele dia, vi a luz do sol entre as folhas, as pessoas com suas roupas coloridas, o sorveteiro, os cachorrinhos, o portão da escola, as crianças, os carros passando, o mar lá adiante. Foi um susto, uma surpresa. E então olhei para dentro de mim e cheguei a sentir a umidade daquela rua escura que eu habitava, cheia de gente desesperada e sem a esperança de uma manhã gloriosa. Uma rua perdida na noite, onde eu me sentia (e era, de fato) prisioneira dos meus sentimentos ruins: a autopiedade, o pessimismo, o ressentimento.

Foi naquele momento que me dei conta de que, ainda que a realidade esteja difícil, temos que tomar conta, o tempo inteiro, de por onde vai a nossa mente. Domar o cavalo selvagem e irracional que temos em nós, mas que também é forte, veloz, voluntarioso... feito só de impulso e instinto. Fazer dele um servo, não permitir que ele seja o senhor. Entendi o que quis dizer um mestre budista que conheci certa vez, quando aconselhou:

-- Vigiai!

E passei a vigiar a minha mente, a recusar os pensamentos destrutivos da mágoa, da desesperança, do medo e da angústia. Quando o cavalo entra por estas ruas, eu o conduzo pelos caminhos da alegria, tratando logo de evocar uma lembrança feliz ou uma expectativa boa. E mesmo que ele tenha relutado no começo, rapidamente se deixou domesticar, porque tudo nesta vida é uma questão de treino e de persistência.

Quando dei por mim, já habitava outro mundo, e meu cavalo seguia manso sob o meu comando, levando-me somente a lugares em que eu era feliz por estar. Hoje conheço sua força e sei lidar com ela: entendo bem sobre os seus perigos e armadilhas, afinal, sua essência é a de um animal selvagem. Mas o mais importante de tudo, é que descobri também a minha força, e entendi que nada pode ser mais veemente que a vontade de ser feliz.

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Quando o conforto é uma ilusão

Muitas vezes, educados para "aguentar" a barra, "suportar" as dificuldades, "aturar" situações, "segurar a onda" do que nos incomoda, nós acabamos levando uma vida inteira de infelicidade.

E em nome de quê?

Pare para avaliar, com cuidado, e verá que muito do que anda suportando não vale o preço que tem que pagar. E que, mais do que qualquer coisa, o verdadeiro xis da questão pode ser o comodismo. Como eu já disse em algum post no passado, ser feliz dá um trabalho danado, e não raro a gente tem que dar um salto no escuro, sem paraquedas e rede de proteção...

Já fui do tipo que aguentava a dor de cabeça o dia inteiro porque, simplesmente, achava que tomar remédio era coisa de gente fraca. Já fui do tipo que, por não gostar de discutir, era capaz de aceitar o desrespeito. Pode não parecer, mas por trás de tanto esforço em "deixar pra lá", o que se escondia era o comodismo: demorei para perceber, mas tomar uma atitude é coisa para poucos. Deixar como está, ao contrário, é o caminho mais fácil. Mais cômodo. Mas só aparentemente, porque, na realidade, nos toma muita energia, muita saúde, muita alegria e, por fim, muita vida.

Quantas vezes nos deixamos levar pelo comodismo e não damos um basta em pessoas ou situações insuportáveis? Uma amizade que não anda saudável, mas que tem lá suas vantagens... um desconforto físico que, para ser curado, exige médico, exames, remédios... um namoro cujo prazo de validade já venceu, mas aí teremos que enfrentar a solidão e, depois, começar do zero com outra pessoa... aquela fome noturna que, para ser vencida, exige que você saia da cama... em por falar em fome, aquela dieta que você precisa fazer para voltar a se sentir bem consigo mesmo, mas que necessita dedicação e força de vontade... um casamento falido que, para acabar vai levar junto metade dos bens... um emprego que paga bem, mas onde você já não está feliz...

Diante de tanto trabalho, a gente prefere aguentar e fingir que se dá por satisfeito com o que pode tirar de bom do que nos exaspera. Mas o que é que há de bom em aturar pessoas que a gente não suporta? O que há de bom em estar gordo ou sentir dor ou, ainda, dormir com fome? O que pode haver de bom em ganhar muito dinheiro em troca do seu tempo e de toda a energia perdida em projetos que não nos fazem felizes? O que pode haver de bom na sua vida jogada fora, ainda que seja só um dia?

A gente nunca sabe quanto tempo tem para ser feliz, por isso a hora é agora. Passar a existência "aguentando" é o mesmo que jogar a vida fora. Deixe para exercitar sua capacidade de "suportar" quando (e se) a vida te trouxer algo realmente terrível. Enquanto isso, dê mais valor à sua alegria e liberte-se do que te aprisiona.

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Felicidade é chutar o balde

Há momentos na vida em que a alegria só é possível quando a gente chuta o balde. Já aconteceu com você? Acontece com todo mundo, o que varia é apenas o tempo que levamos para chegar a este momento mágico da transição. Mágico sim, porque, dependendo do balde que a gente chuta, as coisas nunca mais serão como antes.

Soube de um cidadão que, depois de ver “Beleza Americana”, chutou o balde do casamento. Inspirado pela coragem do herói do filme, deu um basta na infelicidade conjugal e foi cantar em outra freguesia. Não sei o fim da história: se ele conseguiu ser feliz com a nova vida ou se, acovardado diante dos desafios do futuro, preferiu fazer o caminho de volta. Mas a questão não é essa.

A questão, agora, é aquele momento em que a gente não dá conta de segurar a peteca. Aquele instante derradeiro em que, como uma panela cheia, nossa cabeça deixa o leite transbordar.

Chamo aqui outro filme, “Um dia de fúria”, que fala exatamente disso através de um cidadão calminho que, um dia, explode. O fim é previsível, porque neste mundo em que vivemos a civilidade exige a auto-vigilância e, muitas vezes, a aceitação de absurdos. Dou risada da metáfora vivida por Michael Douglas, o protagonista, porque ele mostra aquele lado meio doido que todos nós temos dentro de nós, amordaçado... mas que, às vezes, foge e faz mil maluquices por aí.

Não estou defendendo a irresponsabilidade, porque sou doida mas não sou maluca. O que defendo, é o direito que temos à aventura da mudança, porque sem isso a vida não tem nenhuma cor, que dirá alguma graça.

Um emprego que você joga pelos ares; um chato que você risca do seu caderninho; alguma odiosa obrigação que você simplesmente deleta das suas prioridades; uma viagem sonhada que, de repente, você resolve fazer; uma declaração de amor que, inesperadamente, vence a timidez; umas boas verdades que, de um salto, saem pela sua boca; um presente caro que você decide se dar; um dia de folga que você rouba do calendário, só para ser feliz... e até mesmo uma dieta pouco calórica que vira fumaça...

Olhe para dentro de si mesmo e vai levar um susto com a quantidade de baldes, cheinhos, que estão aí, à espera de um pontapé “daqueles”! E mande a culpa para as cucuias!

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Chutei o balde da dieta e mandei brasa no macarrão... mas fui pega em flagrante!

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Casamento: viveiro de frustrações ou ninho de amor?

O Dia de Santo Antônio sempre me faz lembrar da Dilma, minha amiga que sonhava com casamento e, por isso mesmo, roubou um Santo Antônio da cozinha lá de casa, com o meu consentimento, para ver se, finalmente, conseguia arranjar um marido.

Eis que apareceu um namorado, e sempre que havia uma briguinha, a Dilma punha o santo de castigo, com a cabeça virada para baixo, na intenção de apressar as pazes.

Esse negócio de roubar Santo Antônio da cozinha alheia é muito comum lá em Minas, pelo menos era, quando eu vivia por lá. E olha, no fundo, acho que funciona mesmo, porque todas as minhas amigas que afanaram um exemplar do santo se casaram logo. O que não significa que tenham sido felizes com a vida que vieram a ter...

E é aí que está o negócio. Santo Antônio pode até arranjar casamento, mas não garante a felicidade de ninguém. Vejo por aí tanta gente casada, colada, presa, amalgamada... e infeliz! Será tudo uma questão de sorte ou a felicidade conjugal tem lá os seus segredos?

Numa coisa eu acredito: se o casamento pode ser um viveiro de frustrações, pode também ser um verdadeiro ninho de amor.

A primeira condição para que tudo dê certo, creio, é que as pessoas não se casem jovens demais, porque a felicidade amorosa exige um pouco de experiência e de boa-vontade. Sabe aquele velho papo de escolher entre ter razão e ser feliz? É mais ou menos por aí. Saber ceder é uma arte, e querer ser feliz é uma escolha consciente que nem todo mundo faz. Aliás, muita gente não faz.

Que erro terrível pode ser colocar a sua felicidade na mão do outro, como se fosse dele a responsabilidade pelas suas vitórias ou derrotas! Da mesma forma, é um desacerto tremendo fazer dele o depositário das suas alegrias ou tristezas; este é um peso grande demais para as costas de qualquer um. Lembre-se: seu parceiro é uma pessoa, e não um cesto de lixo.

E tem outra: é preciso já ter passado daquela fase de esperar pelo par ideal, pela outra metade da laranja, pela alma-gêmea ou seja lá o que for, porque a felicidade muitas vezes se esconde onde a gente jamais pensaria em procurar. Conheço gente que está deixando a vida passar esperando “a pessoa certa” que nunca chega. No fundo, isso pode ser uma boa desculpa para não enfrentar os desafios da convivência e do coração.

Claro... não estou dizendo que qualquer um pode ser o seu amor. O que digo, é que o seu amor não precisa ser exatamente igual àquele modelo idealizado que você criou e ao qual se apega, nas noites frias de solidão. A figura idealizada é apenas um sonho distante, e só. Gente de carne e osso não cabe no molde da perfeição sonhada. E é só gente de carne de osso que pode mesmo fazer alguém feliz.

E, para aqueles que desistem diante das dificuldades e das diferenças, digo que um pouquinho de persistência e de boa-vontade é capaz de fazer milagres. Claro, nem todos os casamentos podem ser salvos, mas muitíssimos são jogados fora em nome da vaidade e do egoísmo dos parceiros. E neste caso, nada se salva, até as melhores lembranças são transformadas em mortos e feridos.

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Quem sabe apertar os seus melhores botões?

Costumo dizer que o ser humano é uma caixinha de surpresas, e que de dentro dele pode sair qualquer coisa: as maiores maravilhas e os piores horrores.

E pelo menos para quem é mais um na multidão de pessoas comuns, daquelas que estão buscando a evolução, mas ainda padecem das fraquezas mundanas, esta questão tem muito a ver com quem está à volta. Em outras palavras, estou dizendo que muito do que sai de dentro da caixinha, vem pelas mãos de quem a circunda.

Cada pessoa tira de dentro de nós comportamentos e atitudes bem específicos. Há quem te estimule a querer ser melhor, já reparou? Mas há também quem te leve à exaustão, ao nervosismo, à violência.

Não, não estou dizendo que a reponsabilidade pelas suas atitudes está na mão dos outros. O que estou dizendo, é que os outros têm a capacidade de extrair de você as suas potencialidades, sejam elas boas ou ruins. Por isso, todo cuidado é pouco. Ou, melhor ainda, "diga-me com quem andas, e te direi quem és".

Por que será que você se sente bem ao lado de Fulano e, em contrapartida, muito mal ao lado de Beltrano? Porque Fulano sabe, sei lá como, puxar do seu coração aquele fio iluminado da positividade; seja por afinidade, por respeito ou porque ele tem mesmo o talento de estimular os demais para o bem.

Ao passo que Beltrano, ao contrário, se compraz em ferir e em subtrair... será por vaidade? Por desejo de dominação? Ou por simples crueldade mesmo? Não sei, e isso nem importa, mas o fato é que, por vezes, as pessoas também puxam, do seu coração, aquele fio negro que traz à tona o seu lado sombrio... por mais que você se esforce em ser uma pessoa de luz.

Uma outra boa metáfora para isso, é imaginar dezenas de botões em nosso espírito, botões que, quando apertados, revelam diferentes capacidades nossas...

A capacidade de ser alegre ou triste; egoísta ou generoso; sereno ou abalado ; aberto à vida ou fechado em si mesmo; compassivo ou agressivo; saudável ou doentio, a compreensivo ou intolerante, amoroso ou aguerrido ...

E como são puxados esses fios? Como são apertados esses botões?

O gatilho pode ser uma palavra, um tom de voz; um olhar, um gesto. A chave de tudo está na maneira como nos portamos com o outro, porque a convivência nada mais é que uma troca de intenções e energias, bem mais que de sentimentos. Você pode amar desesperadamente uma pessoa e, no entanto, apertar os botões errados simplesmente porque se diverte em vê-la reagir, ou porque tem preguiça para buscar os botõezinhos certos. Ou, em último caso, porque é obtuso o bastante para entender a importância disso tudo.

Ninguém vem com manual, eu sei. Os botões certos e errados, ou o fio de luz e o de sombra, estão todos ali, misturados no nosso peito. Talvez, então, o segredo da felicidade esteja em identificar quem está disposto a mexer com tudo isso sem provocar o caos dentro da gente.


Olha aí alguns dos meus!

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