Arquivo de August 2010

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Não me procure no Orkut...

...nem no Facebook, nem no Twitter... porque eu não estou lá: estou na minha casa ou no meu telefone. Não foi assim que os amigos sempre se encontraram? E, para quem não é amigo a ponto de uma intimidade destas, temos aí blog e e-mail. Tá mais que bom.

As redes de “relacionamento” são o que há de pior em termos de invasão: quem foi que disse que quero notícias de todos os meus amiguinhos de infância ou de adolescência? Que quero ser encontrada por ex-namorados? Por familiares com quem não convivo? Por gente que passou pela minha vida e, como o próprio verbo comprova, já foi? Quem disse que gosto de relembrar historinhas do passado? E muito menos me interessa contar minha vida a uma platéia que nunca conheci...

Benza Deus, minha carência não chega a tanto, e fico satisfeita com os relacionamentos que mantive. Aqueles que deixei que se perdessem... podem continuar perdidos como estão, e não vai ser com uma ficha em site de relacionamentos que vou deixar estragar meu sossego.

Por falar nisso, que nome é este? Rede de relacionamento? Sou do tempo em que “relacionamento” era uma coisa mais concreta que trocar notícias via internet: a gente se relacionava mesmo, se encontrava, conversava, olhava nos olhos, se abraçava, ouvia a voz e a risada do outro... Com o comodismo das redes, os encontros físicos começam a ser adiados, adiados... até que a amizade acaba virando uma fantasia virtual. Um dia, quando você finalmente encontra aquela sua amigona, percebe que a afinidade entre vocês já nem existe mais.

Até as crianças estão entrando na onda de acreditar que a Internet é a melhor maneira para brincar... queimado? Pique-esconde? Mas que coisa ultrapassada! Elas querem é teclar!

Caaaalma! É claro que acho a Internet uma das maiores invenções da história humana... assim como e-mails e blogs. Mas vejam... minha amiga Cristina, por exemplo, quer ser minha amiga também no Quepasa.com... mas ela já não é minha amiga? Quer ser minha amiga de novo? Ou quer ser mais minha amiga? Francamente não vejo em quê o Orkut e seus parentes podem contribuir para que uma amizade se fortaleça. Ou você realmente acredita que era impossível ser amigo antes que alguém inventasse estas redes?

Pode dizer que sou do tempo do Matusalém, que parei no tempo, inclusive... mas vou te contar uma coisa: adoro receber uma cartinha via correio... Telegrama de aniversário, então... Uma visita em casa... E encontrar aquele amigo para um almoço ou um café? Até mesmo um bom papo pelo telefone pode ser uma diversão... melhor que alimentar a neurose coletiva que desperta, em seres humanos anônimos, o deleite de ser acessado, clicado, procurado, chamado, seguido... até por gente totalmente desconhecida, que aparece dizendo que “quer ser seu amigo”!

Quer mesmo, é? Ah, então já que é assim, aproveita e pede um dinheiro emprestado, pra ver se sua popularidade continua alta...


As crianças já quase não brincam assim...

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Melhor ser rainha má do que mosca morta!

-- Ulisses! Ulisses, meu fiel caçador! Trarás o seu coração... aqui!!! Neste cofre!!!

Eu tremia de horror enquanto a Rainha Má encomendava a morte da “sem-graça” da Branca de Neve. É isso mesmo: eu achava a Branca de Neve uma chata! E a rainha má... poderosa e elegantérrima naquele modelo Dior com capa esvoaçante e capuz... com maquiagem e unhas feitas de quem acabou de sair do salão de beleza... um luxo!

Enquanto que a breguinha da enteada usava um modelito Lojas Americanas. Mais chata que ela, só a Simone, personagem da Regina Duarte na novela “Selva de Pedra”. Eu tinha só quatro anos, mas era apaixonada pelo Cristiano, vivido pelo Francisco Cuoco, apesar de não entender como é que ele podia preferir a desenxabida da Simone em vez de ficar com a Fernanda, que era um mulherão__alguém lembra? Era a Dina Sfat!

Acho que o Cris não entendia nada de mulher. Recorro ao linguajar dos mineiros para dizer que a “sem-graceza” da Simone não era páreo para a Fê.

Minha admiração pelas mulheres “malvadas”, começou lá pelos meus três anos __incrível me lembrar!__ quando não entendia patavinas de “Irmãos Coragem”, mas já achava o João (Tarcísio Meira) lindo e a Diana (Gloria Menezes) a mais bonita de todas. O Engraçado é que me lembro da minha confusão mental diante da novela e da Diana, que cada hora aparecia com um humor diferente... anos depois fui saber que a personagem tinha distúrbio de personalidade, e a Diana era justamente a ovelha negra do elenco. É mole?!

Enfim, tudo isso para dizer ao Ernesto, leitor do blog, que sim, estou mesmo mais para rainha má. É que ser boazinha é um tédio, além de um sacrifício... e minha mãe me ensinou que homem nenhum vale isso. Ela também me disse, aliás, que os homens nem gostam de verdade das “boazinhas”:

-- Minha filha, mosca morta não tem valor nenhum.

E que graça tem ser “boazinha”? O prêmio é casar com o príncipe?

E quem foi que disse que todas as mulheres do planeta querem se casar com o “príncipe”? Arrisco dizer que mulher que gosta realmente de homem prefere os caçadores, os lenhadores, os cavaleiros, os piratas e, em alguns casos, até o Lobo Mau... todos eles falíveis e, por isso mesmo, homens de verdade. Já os “príncipes”, pobres deles, idealizados como modelo de perfeição, não conseguem manter a farsa por muito tempo nem para si mesmos, porque perfeito, só Jesus Cristo.

Logo depois do “foram felizes para sempre”, sua majestade certamente há de se revelar um tremendo chato, narcisista e autoritário, que vê sua doce, enjoativa e iludida princesinha como uma serviçal. Até o dia em que ela se cansar e, diante do juiz, mostrar a que veio, na hora da divisão do reino, e gritar aquela célebre ordem:

-- Corte-lhe a cabeça!

Justamente porque já estava difícil enganar o público com esta mentirada toda de “mulher boazinha”, os produtores de cinema trataram de tirar da cartola a princesa Fiona, minha chapa, que além de brabinha, teimosa e independente, ainda vira “ogra” nos dias de tensão pré-menstrual. E o ogrão, adooora!

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A mentira do "podia ser pior"

Às vezes, levar-se a sério pode dar um trabalho danado.

É que é fácil demais compartilhar uma causa, crer numa verdade, eleger um ídolo ou um objetivo, manter amizades e casamentos quando a força que mantém o laço é a conveniência. Disfarçada de fervor ou sentimento, claro, porque em casos como estes, precisamos nos enganar a respeito da natureza das nossas próprias razões...

Quem não se sente um protozoário quando é forçado a ver que, por mais que coloque um turbante dourado com cacho de bananas na cabeça de sua conveniência, ela, ainda que vestida de Carmen Miranda, continua sendo a velha conveniência, sem charme nenhum?

O problema é que, infelizmente, nem sempre o que é “conveniente” é o bastante para fazer uma pessoa feliz. Note bem que “dar-se por satisfeito” não é o mesmo que “sentir-se feliz”, embora muita gente não veja diferença entre uma coisa e outra. Compreensível: a maioria está tão acostumada a viver mal, a receber pouco, a valer quase nada, a sentir-se incompleta e a ser desconsiderada, que uma simples sensação de “satisfação” parece ser o bastante para que a vida continue do jeito que está.

Nas piores horas, quando a crise estoura, bancamos a Poliana __alguém se lembra do livrinho que fez a cabeça de milhares, anos atrás?__e apelamos para o “jogo do contente” e sua verdade absoluta:

-- Tudo podia ser pior. (Então é melhor se resignar).

Podia mesmo? Tem certeza? O que pode ser pior que a resignação motivada pelo comodismo ou pela covardia? A constatação de que a vida passou e você, igual à Carolina, não viu? Só se for isso...

Nunca fui com os "cornos" dessa Poliana. Já abdiquei de bons salários porque não era feliz no emprego. De casamento feliz que chegou ao fim, antes que a amizade também fosse pro brejo. De amizades que não me davam nada na famosa “troca” de afeto. De objetivos que não passavam de miragens, por mais que eu me esforçasse. Foi duro, mas depois valeu a pena não entregar os pontos e viver de comodismo ou sonho.

Pode doer muito abdicar da conveniência das situações, principalmente daquela conveniência que te faz ter ilusões disfarçadas de esperança. Talvez valha mais a pena encarar logo que as coisas não vão tomar o rumo que você espera, porque costuma doer menos cortar a mentira pela raiz. Se tudo o que você pensa ter é justamente a mentira, a promessa, o desejo, a expectativa... na realidade, o que tem a perder? Às vezes é melhor ter um “nada” de verdade do que um mundo inteiro de ilusão.

Eu, pelo menos, sou daquelas que despreza o fake. Experimente colocar um colar de pérolas no pescoço da sua ilusão e me diga se ela, mesmo que seja linda e perfeita como uma estrela de cinema, consegue se passar por Audrey Hepburn.

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Aqueles homens adoráveis e seus carros velhos

Não fui uma adolescente das mais espertas em se tratando de rapazes, mas sempre que me interessava por um, invariavelmente ele não tinha carro. Nas poucas vezes em que aconteceu de ter, era um carrinho velho que eu achava um charme: houve um fusquinha, um Baja __alguém se lembra?__ e até um Maverick cujo tapete estampado de verde havia sido surrupiado do banheiro da “sogra” da vez.

O demais namorados andavam de ônibus e isso para mim nunca foi um problema. Se a festa era muito longe, o jeito era pegar um táxi, caso contrário, íamos mesmo de “buzão”. Minhas amigas debochavam dos “duros” que eu namorava, enquanto que eu gostava mesmo era da segurança que eles tinham em si mesmos: não precisavam de um carro para me impressionar.

Já por volta dos 30 anos, me desinteressei de um homem no momento em que ele me disse, enquanto pilotava seu Land Rover novinho em folha, que não tinha dinheiro para dar de entrada num apartamentinho. Cruzes! Vi todo o meu interesse por ele ser atropelado pelo carrão em plena noite enluarada de verão, de frente para o mar de Ipanema... e o romance que poderia ter nascido morreu ali.

Por outro lado, certa vez fui instantaneamente flechada pela paixão quando um paquera, depois de me oferecer uma carona, deu de ombros __em vez de dar um ataque__ ao perceber que seu carro havia sido roubado.

-- Estava aqui e sumiu – disse, com ar de quem não iria estragar a noite por causa daquilo. Logo depois encontramos o "possante", que estava estacionado em outra vaga, mas a boa impressão já estava na minha cabeça.

Já ouvi aqueles papos de que, para o homem, um carro pode ter muitos significados, inclusive a respeito de sua virilidade. Por isso mesmo, considero realmente interessante aquele que não precisa de um carro para se garantir: ele é mais ele, e ponto final.

Daí fico pensando sobre homens que fiam seu poder de atração nos carrões 4X4: não são todos os que fazem isso, imagino, mas que alguns fazem... ah, fazem sim. Dia desses, um deles me xingou no trânsito depois que, de leve, encostei __de novo: encostei__ em seu para-choque com o nariz do meu Fiatzinho. Ele parou o trânsito, desmontou do carro, olhou bem o para-choque e carinhosamente o alisou, quase como se fosse uma moça... e depois me xingou. Como deve sofrer com aquele carro... quanta preocupação, quanto medo de um prejuízo, de um risquinho, um amassadinho... gastou os tubos na compra e no seguro, e em vez de ser feliz, sofre.

Numa outra vez em que me aventurei a sair para jantar com um proprietário de carrão, percebi que sua grande preocupação era não estragar o dito cujo. Quando tirei as sandálias de salto, para descansar os pés, ele imediatamente perguntou se eu pretendia pisar no banco. Naquele instante minha intuição acendeu sua luz vermelha, e a historinha acabou ali.

Mas hoje em dia, quando vejo os carrões zunindo pelas avenidas da cidade, me pergunto se à namorada aquele motorista dá o mesmo nível de importância. Será que sua vaidade permite que ele seja tão detalhista e cuidadoso assim no amor?


Olha um dos meus namorados aí!

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Um Brasil democrático pra chamar de meu



Meu jogo de mil pecinhas me fez pensar no ano eleitoral, como se o Brasil fosse um quebra-cabeça de milhões de peças: entre elas, estão aí os partidos e suas coligações; os candidatos e as propostas realistas e fantasiosas; os debates tendenciosos ou imparciais; os comícios e as entrevistas; a necessidade de uns e os interesses de outros; os eleitores “livres” e os currais eleitorais...

Eu tinha certeza absoluta de que me faltavam talento, paciência e capacidade de observação para encaixar minhas mil pecinhas. Do mesmo modo que, para a grande maioria dos brasileiros, a política é um idioma estranho e complicado demais. O voto? Chatérrima obrigação, que só tem de bom o "feriado".

Não fosse minha amiga Ana ter dado a partida fazendo a moldura, eu não teria me arriscado ao primeiro passo, aquele que me conduziu à alegria vitoriosa de acomodar a milésima peça e, finalmente, ter entendido que “o mundo foi feito em seis dias” e que nós “esperamos nove meses pra nascer”... quem não se lembra da frustração das “Diretas Já!”? Da alegria na eleição de Tancredo Neves, em 1985, e da sensação de vitória nas eleições direitas para presidente, quatro anos depois? A mesma que se repetiu no impeachment em 92, aliás?

E as pecinhas vão se encaixando, no processo democrático...



Penso em quanto tempo precisamos para efetivar uma democracia justa... para que, no Brasil, a “carreira política” seja de fato uma carreira, e não uma opção ao desemprego de “carreiristas profissionais”, como acontece tantas vezes.

Os políticos não deveriam se capacitar para exercer sua profissão, assim como os engenheiros, os médicos, os advogados? Estudar, prestar exames, fazer estágios? Lembro de uma família inteira, em Minas, anos atrás, que votou num certo candidato porque ele havia dado um carrinho de bebê para uma das moças, que estava grávida. Muitos ainda se elegem assim.

Penso nas aulinhas de "Educação Moral e Cívica" e de “Organização Social e Política Brasileira”, que não me ensinaram absolutamente nada sobre a nossa realidade... até quando o brasileiro vai votar sem consciência, sem amar de verdade o seu Brasil?

Não sei até quando, mas penso nisso com otimismo, porque liberdade e consciência são como pecinhas de um quebra-cabeça: aos poucos nos levam à nossa meta final... perseverança, memória e dedicação tornam possível, ao eleitor, levantar um gigante democrático. E paciência também, porque tudo o que é difícil, é tão precioso quanto raro.



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Pena que não exista Delegacia da Mulher no Irã e no Afeganistão

A notícia de que novas unidades da Delegacia da Mulher serão implantadas no estado do Rio de Janeiro me fez pensar em Zargoona, uma viúva professora de física que vivia em Cabul e teve sua vida destruída pelos Talibãs, que a proibíram de trabalhar. Eu a conheci no livro “Mulheres de Cabul”, da inglesa Harriet Logan.

No instante seguinte, meu pensamento voou ao Irã, onde Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, já foi torturada, segundo diz seu advogado, e agora espera pela sentença que irá condená-la à morte, por, supostamente, ter cometido adultério e assassinado o marido.

O infortúnio de minhas amigas espirituais __já que nunca as conheci, mas com elas me solidarizei__ faz com que eu dê graças aos Céus por ter nascido no Brasil. Logo aqui, onde o machismo ainda impera em muitos lares e o chefe da Nação dá ao mundo uma mostra de como muitos brasileiros enxergam a mulher.

Considerado “humano e emotivo” pelos iranianos, e representante de um povo com fama de brincalhão __mas na verdade chegado ao humor negro e capaz de fazer piadas a respeito de crimes bárbaros__ Lula fez chacota da tortura e do assassinato que aguardam Sakineh, oficializados por um governo que desconhece a palavra "democracia" e pratica o apedrejamento.

E é bom mesmo que novas unidades da Delegacia da Mulher sejam criadas, porque no país democrata em que vivemos, houve aumento de 112% no número de denúncias ao “disque 180” (Central de Atendimento à Mulher) nos primeiros seis meses deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Secretaria de Políticas para as Mulheres, vinculada à nossa Presidência da República.

Foram mais de 343 mil atendimentos neste período, contra pouco menos de 162 mil no ano passado. Os crimes de “ameaça” e “lesão corporal” somam mais ou menos 70% dos registros, e partem da boca ou do braço do próprio companheiro da vítima, que instaura em casa a lei da violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e até mesmo cárcere privado e tráfico.

Enquanto isso, a organização não-governamental Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre) revelou, mês passado, uma pesquisa que afirma que uma mulher é atacada a cada 15 segundos no Brasil. Haja delegacia!

Conheci mulheres que fugiram de maridos tiranos __uma delas sob ameaça de ser morta quando ele resolvesse que havia chegado a hora, e outra que só não morreu porque correu mais rápido que seu algoz, que seguia atrás com uma garrafa quebrada na mão. E já vi também algumas que apanharam durante anos, e um dia deram um basta na Delegacia de Mulheres, com hematomas no corpo e no coração. Cheguei a ir com uma delas ao Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito, e ajudei outra a reconstruir um lar com seus filhos. Percebi que o mais difícil, no entanto, é livrar-se da violência psicológica, aquela que amputa braços e pernas da auto-estima e nos torna incapazes de qualquer atitude de auto-preservação.

Mas para quem vive num país livre, há sempre a esperança da fuga e de um futuro melhor, inclusive através das urnas: penso em Zargoona e em Sakineh, minhas amigas espirituais, e lamento que estas possibilidades não existam para elas.


O desespero de Zargonna, fotografado por Harriet Logan

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Até a Morena Marina envelheceu

-- Envelhecer... envelhecer é uma merda.

Você não imagina o impacto que a frase teve ao bater no meu ouvido, murmurada como um desabafo de minha tia Marina, que em novembro há de completar 85 anos, muitos deles em luta contra o Mal de Parkinson.

Estávamos voltando de uma consulta médica e eu pensava no quanto as pessoas são diferentes: enquanto o taxista que nos levou beirou o carinho com tanta gentileza, ajudando-nos para que ela se acomodasse no banco traseiro e ainda cobrando a menos pela corrida __ ao mesmo tempo que dizia um “bom dia e tudo de bom para a senhora”__ aquele que nos trouxe de volta para casa não escondeu a impaciência enquanto fingiu ajudar acomodá-la e ainda cobrou a mais pelo trajeto, esperando pacientemente refestelado em seu banco enquanto eu lutava para ajudá-la a sair do carro sem que caíssemos na calçada.

Comparada algumas vezes à lendária atriz cubana Silvana Mangano, quando mocinha, minha tia, mais de uma vez, teve que explicar que sim, ela era morena e era Marina, mas não, ela não era namorada do Dorival Caymmi.

Percebemos que a velhice havia chegado quando os funcionários do banco ou da Previdência passaram a se dirigir a mim, mera acompanhante da cliente.

-- Pergunta pra ela – sempre foi a minha resposta a este tremendo desrespeito de gente que acredita que velho é incapaz.

Nessas ocasiões, eu pensava no quanto deve ser difícil, para uma pessoa que sempre foi ágil, independente e esperta, ter que curvar-se à degeneração do corpo e, também, da identidade, no sentido de que a velhice e a doença nos transformam em outra pessoa... uma pessoa que, muitas vezes, jamais conquista a simpatia ou o respeito da própria família, que dirá de um motorista de táxi ou de um funcionário de banco.

Sábia, engraçada e generosa em seus conselhos, minha tia me diz que, quando a gente fica velho, fica também invisível, porque ninguém nos ouve ou enxerga.

-- As pessoas acreditam que nunca chegarão “lá”; não entendem que é pra “lá” que todos vamos – ela sempre me diz.

E se a "garota de Ipanema", a Sophia Loren, o Indiana Jones, o Silvio Santos e até o Batman e o Robin envelheceram... o que será de nós?

Invisíveis, o que fazer com toda aquela juventude da mente e do coração, que brilha e sai pelos olhos? Repare que quando a pessoa é jovem por dentro, o olhar não envelhece, e chega a contrastar com a voz que é um fio ou o andar que cambaleia. O que fazer com o “resto da vida” se, por estar frágil e dependente, você se torna desagradável, muitas vezes digno de “pena” em vez de digno de “amor”?

A nós, que ainda não chegamos àquele ponto da estrada em que estaremos doentes __ainda que jovens__ ou, simplesmente velhos, nos resta viver da melhor maneira possível.

O que, certamente, também significa ter compaixão por quem já chegou lá.


Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu!




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Ele é um dinossauro, um herói e é meu pai!

Quando se aproxima o Dia dos Pais, sempre penso na Taís: tínhamos oito anos na escolinha montessoriana em que, na semana que antecedia a tal data, fazíamos bonecos de papel colorido, que virariam presentes para o papai. Mas era o nome do irmão mais velho que a Taís escrevia no cartão, porque seu pai, Francisco, havia morrido tragicamente, num acidente de automóvel. Ficou eternizado na mente dela como um herói desconhecido.

Meu pai deixou de ser super herói quando eu tinha 17 anos, porque ficou doente e quase morreu no hospital. Lembro que eu andava pelas ruas e olhava todas as outras moças que passavam, desejando ser qualquer uma delas, qualquer uma que tivesse o pai saudável em casa, esperando para o jantar e, até quem sabe, com uma bronca na ponta da língua. Eu queria meu papito em casa nem que fosse para mais uma bronca por ter chegado tarde ou tirado nota baixa em matemática.

Ao ficar doente e magrinho, meu pai, que havia sido campeão de natação pelo Botafogo e era um pai brincalhão, porém severo demais, desceu do pedestal onde sempre havia vivido para dar o ar da graça no mundo das pessoas normais. Foi um choque vê-lo tão frágil. E um motivo a mais para amá-lo, porque foi quando entendi que ele era gente e, por isso mesmo, tinha suas fragilidades; que já tinha tido 17 anos, que já havia até mesmo sido criança, quem diria?!

Depois, já na vida adulta, concluí que amar ou odiar pode ser uma opção, sobretudo para os filhos. Ainda vejo por aí filhos adultos lamentavelmente distantes de seus pais, por considerá-los dinossauros ridículos ou odiosos. Que triste isso. Triste para os dois.

Uma das maiores conquistas da minha vida foi aprender a amar meu dinossauro exatamente como ele é: teimoso, brincalhão, orgulhoso, exigente, sonhador, emotivo, batalhador e, acima de tudo, um sobrevivente. E chegou a ser engraçado o dia em que, no divã do psicanalista, em pleno combate com minhas origens, tive que admitir que os filhos vão além de se parecerem com os pais: são parte deles, o que os torna ainda mais semelhantes.

Hoje me orgulho de desfrutar, com meu pai, de uma igualdade de condições só possível através da amizade. Dou graças por conseguir olhá-lo com generosidade e perdoá-lo por mágoas que ficaram para trás. Dou graças também por ter sido perdoada por erros que cometi por ser jovem ou egoísta demais, e agradeço por ter a chance de lhe mostrar que, mais que sua filha, sou aquela amiga disposta a ouvir e a ajudar, sem que ele precise se sentir agradecido ou diminuído por estar exposto diante de mim, simplesmente por ser tão humano quanto eu.

Não faltam por aí filhos em prontidão para comemorar as datas festivas ao lado do papai, para lhe pedir ajuda financeira, para culpá-lo por seus próprios erros ou cobri-lo de ressentimento, para chorar a culpa ou o teatrinho da tristeza sobre as flores de um caixão: esta é a escolha mais fácil, é a escolha de quem opta por amar pouco ou mal, ou de quem escolhe viver eternamente como “filho”, sem evoluir para “amigo”.

Mas talvez o que os pais precisem, realmente, principalmente quando estão velhos, é de um filho que seja amigo. E este milagre, só o amor é capaz de fazer.


Relíquia: cartão do meu pai para o pai dele!




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É muito fácil ser "valente" sob o anonimato da Internet

Aviso aos navegantes: este blog é um espaço aberto ao debate, mas não à falta de educação, ao racismo, ao preconceito. Ainda que alguns leitores apelem para a palavra "censura", na tentativa de me intimidar, considero-me no direito de não publicar comentários de teor ofensivo a quem quer que seja. É muito fácil esconder-se atrás de um "nick" e bancar o valente para expelir ressentimentos ou ódios no espaço aberto da Internet, mas o Alma Lavada não é terreno fértil para discussões deste tipo.

Se eu tiver que perder leitores devido à linha que adotei para meu blog, que assim seja: creio que por aqui ficarão os que pensam como eu... gente interessada em melhorar, trocar idéias, rir e se emocionar. Gente como a leitora Aline Cleo, que semana passada enviou um comentário muito bom a respeito deste assunto, baseado num artigo do Observatório da Imprensa, de 27 de julho: "A pressa é amiga da imprecisão", por Carlos Brickmann.

Segue o comentário de Aline:

Olá! Olha parte do texto que li num artigo do Observatório da Imprensa: "A pressa é amiga da imprecisão" (Por Carlos Brickmann em 27/7/2010) 'No bom caminho' Liberdade de expressão é fundamental; também é fundamental que a liberdade de expressão seja exercitada com responsabilidade. Já bastam os comentários falsos atribuídos a personagens de alta credibilidade como Marília Gabriela, Paulinho da Viola e Millôr Fernandes. Os valentes anônimos que se multiplicam nos comentários da internet são perfeitamente dispensáveis. Quem quiser insultar, agredir, ofender, que o faça, mas assumindo a responsabilidade.

Há literatos anônimos que defendem Hitler, o Ato Institucional nº 5, a tortura; que atacam etnias e religiões; que defendem a morte de seus adversários ideológicos. Isso só acontece porque estão protegidos por aquilo que chamam de nicks – os nicknames, apelidos atrás dos quais se escondem.

Nos Estados Unidos, a prevenção a esse tipo de abuso já começou: há uma série de sites que, mantendo o espaço aberto a todo tipo de manifestação, exige de seus comentaristas que se identifiquem. O Sun Chronicle, de Massachusetts, checa a identidade pelo número do cartão de crédito. O Buffalo News faz checagens diretas, exigindo que os comentaristas forneçam dados que permitam confirmar sua identidade. "Os comentários anônimos são com frequência racistas e sexistas", diz Margareth Sullivan, do Buffalo News, e podem "derrubar o teor e a reputação do site".

No Brasil, tudo depende do editor. Gustavo Chacra, que tem um primoroso blog sobre política internacional, leitura obrigatória para quem quer estar bem informado, proíbe formalmente o racismo e a falta de urbanidade. "Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes", diz ele.

A frase "todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima" pode parecer redundante, mas não é: vá a qualquer blog sobre futebol e achará discussões acirradas, em textos enormes, entre petistas e tucanos.

Ricardo Kotscho não é tão explícito quanto Chacra, já que não publica sistematicamente a lista do que não permite, mas age da mesma maneira correta: "gente mal-educada, os 'cachorros loucos', ficam de fora. E está certo: se o que se quer, com a liberdade propiciada pela internet, é expor todos os pontos de vista sobre uma determinada questão, o insulto, os preconceitos e a grosseria impedem que se faça luz, afirma".

Como já fui chamada de 'ditadora', 'limitada' e 'reprimida' por discordar dessas agressões e do debate de baixo nível, torço para que venha logo uma regulamentação para que todos saiam de trás de suas máscaras ou 'nicknames' e se responsabilizar por tudo aquilo que dizem. Abs

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Divórcio de famosos não é novela, mas dá ibope

Casamentos chegam ao fim todos os dias, mas no caso das pessoas famosas a exposição é um trauma a mais: haveria um pivô para a separação de Claudia Raia e Edson Celulari? Fulana de Tal faria mesmo parte da história? Seria o casamento fachada há mais de um ano? “Amigos próximos teriam dito que...”.

Não bastassem as dores, as frustrações e os medos que um divórcio irrompe no casal, a morbidez da curiosidade popular veste a fantasia de “interesse dos fãs” para tornar-se um problema a mais a ser administrado. “Ah, este é o preço que se paga pela fama”, dirá o leitor. Eu sei... e sei também que muitos “artistas” até gostam de usar suas tragédias pessoais para aparecer nas capas de revista... cada um joga com as armas que tem... fazer o quê?

O caso é que a separação de casais famosos tornou-se um filão em determinado segmento da imprensa, enquanto que, de outra parte, não são todos os artistas que gostam de se expor. Raia e Celulari são exemplo disso, o que os torna ainda mais rentáveis para a indústria da fofoca.

Não me surpreenderia se, de repente, pipocasse nas bancas a revista “Separação”, nos mesmos moldes daquelas batizadas como “Noivas” ou “Casamentos”, porém no caminho inverso. A nova publicação teria, por exemplo, entrevistas exclusivas com ex-secretárias ou ex-mordomos, repentinamente alçados à condição de “escritores” de livros já no prelo, sobre a vida íntima de seus ex-patrões. Depoimentos de juízes seriam o sonho dourado dos editores. Até arrisco dizer que não seriam poucas as ex-mulheres que posariam de bom-grado para fotos de capa, ostentando o olho roxo... ou ex-maridos que contariam “tudo” sobre o chifre que ganharam de presente.

Infelizmente, nem todas as pessoas passam pelo divórcio como se ele fosse uma minissérie a mais no currículo, mas a cada separação que acontece nos bastidores das novelas, a indústria da informação barata aumenta o caixa: os “detalhes sórdidos” __reais ou fictícios__ valem ouro nesta hora, e pouco importa a solidão, a frustração ou a tristeza de quem está no centro do furacão, porque tal imprensa alega que este é o seu trabalho, enquanto que os fãs se consideram no direito de estar por dentro de cada lágrima vertida por seu “ídolo”.

Aos que sofrem, resta sofrer publicamente, porque não adianta lembrar que este é um assunto íntimo ou pedir respeito e compreensão, afinal de contas não houve sacanagem, agressão física, batalha judicial pelos bens. Muito menos adianta afirmar que o amor acabou, mas a amizade permanece.

Não adianta explicar, porque isso não vende nada nas bancas de jornal.

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