JOHANESBURGO - Um encantamento visível de um público que ouviu, interagiu e, ao mesmo tempo, se divertiu com o chefe de Estado do país que sediará a próxima Copa do Mundo. Conquistar a plateia não é uma tarefa fácil, mas para Luiz Inácio Lula da Silva, parece que sim. O presidente do Brasil foi aplaudido de pé após encontro com empresários sul-africanos e brasileiros, que tinha de tudo para ser diplomático, político, com toda aquela pompa e dados sobre a balança comercial. A relação comercial foi abordada, mas de uma forma nada comum nos encontros presidenciais. Estórias e metáforas facilitaram o encantamento generalizado, que atingiu principalmente o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, abraçado por Lula após discurso, no Centro de Convenções de Sandton, em Joanesburgo. No fim do encontro, a pérola máxima veio com uma comparação entre a (grande) quantidade de discursos seus e a (pequena) quantidade de futebol que o Brasil jogou.
Lula e Zuma têm muitas coisas em comum: há carisma entre os dois e um histórico de luta não das minorias, mas das maiorias! Lula levanta a bandeira dos pobres, Zuma, levanta a bandeira dos negros. Filho de operários, o presidente sul-africano também esteve na liderança da briga contra o apartheid, o que o deixou 10 anos na Robben Island, prisão na Cidade do Cabo. Apesar de todas as críticas que atingem o presidente sul-africano, um fato é inquestionável: Zuma é carismático, é do povo, mas ainda um aprendiz da boa retórica (informal). Ele olhava com atenção, parecendo se inspirar no presidente brasileiro.
As observações de Lula foram respondidas com aplausos em muitos momentos durante os dois discursos no Centro de Convenções (o primeiro para empresários e o segundo para lançar a campanha publicitária internacional da Embratur), nos quais estivemos presentes. Uma abordagem questionadora que também exaltou o presidente foi quando ele criticou a postura de empresas aéreas que não investem em rotas para o continente africano. “É uma vergonha que em um país com 190 milhões de habitantes não tenha empresas de aviação comprometidas em fazer voos para a África do Sul e outros países da África”, disse Lula, defendendo o continente e orgulhoso por ter visitado 27 países africanos em oito anos de mandato.
Com a expressão “caro amigo Zuma”, repetida diversas vezes durante a tarde desta sexta-feira, Lula disse que África do Sul e Brasil podem fazer uma grande parceria, aprendendo um com o outro. “Eu estou certo de que nós vamos ver nos próximos 15 anos uma revolução agrícola nas savanas africanas, vegetação muito parecida com o cerrado brasileiro”, opinou o presidente, incitando a vibração do público. O presidente também fez um pedido para que os empresários sul-africanos não temam os empresários brasileiros e que é o momento para ambos crescerem. “Os países ricos precisam entender que não queremos viver de favores”.
Mais à vontade e como um bom contador de estórias, Lula deixou dados de lado e descreveu um dos momentos mais felizes de sua vida, expondo uma gravata colorida para quem estivesse na última cadeira do auditório pudesse enxergar. “Hoje, eu acordei e coloquei essa gravata que eu uso quando vou para o estrangeiro, porque eu estava com ela quando conquistamos as Olimpíadas 2016. Naquele dia, chegou o meu amigo Zapatero, o cara do Japão, o Obama. Eu olhei aquilo e pensei: Isso vai ser difícil. É muita melancia para o meu caminhão... Depois, eles foram embora e ficamos eu e o rei da Espanha. Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida”. Em seguida, o presidente narrou algumas felicidades e outras tragédias. “Eu também sofri muito na vida. Sou torcedor dos Corinthians e já perdi três eleições. Mas no dia em que aquele suíço pegou o envelope e falou o nome do Brasil...” Lula completou o contexto dizendo que o Brasil fará a melhor Copa do Mundo (depois da África do Sul) e a melhor Olimpíada da história.
O presidente destacou a overdose de esportes a partir do próximo ano, quando teremos as Olimpíadas Militares, a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016. “Ah, a Copa das Confederações é aquela que o Brasil ganha só para enganar a gente... Aí, vem a Copa do Mundo e nada. Vocês viram como teremos muitos eventos? Por isso, precisamos que os turistas conheçam o Brasil e que vocês invistam lá. Assim a gente pode naturalizar vocês, colocar uma camisa do Brasil e esperar ganhar”, brincou.
Aproveitando a platéia de empresários e turistas, Lula fez uma superpromoção turística usando como ponto de partida a nossa diversidade étnica. “O Brasil tem uma mistura étnica impressionante. É a mistura do europeu, com o índio e o negro. Disso tudo saiu essa gente bonita feito eu! Mas é claro que toda beleza também é relativa e o importante é saber que para cada sapo tem uma sapa”. O público que parecia estar em uma sessão de stand up comedy continuou atento para ouvir as próximas pérolas. “Quem quiser conhecer a Amazônia vai ver um dos melhores rios do mundo, mas é preciso andar de forma ordeira, senão uma sucuri destreinada pode pegar vocês!”, falou arrancando risos. Na sequência, ele estimulou a visita ao Nordeste para os que quiserem conhecer o povo mais alegre do país. “É um povo que não entende inglês, mas se comunica por mímica. Todo mundo entende a gente. É fantástica a nossa capacidade de mimicar”. Mas agora chega. Estou falando demais e já fiz mais discurso do que o Brasil jogou nesta Copa